16 de abr de 2012

o parafuso jamesiano



Expressão idiomática é uma das ciladas constantes à espreita do tradutor. Quem brincava muito bem com isso era Millôr Fernandes, no viceversa, em The Cow Went to the Swamp.

A volta do parafuso para the turn of the screw não é tão radical quanto a vaca milloriana que foi para o brejo, mas é um pouco mais abstruso do que o "frio como um pepino" de Péricles Eugênio da Silva Ramos em Moby Dick.

Mas afinal o que está dizendo Henry James, que é o que importa? Além do título, ele usa a expressão apenas duas vezes ao longo da novela: logo no começo, e depois quase ao final.

No começo, alguém comenta que histórias de terror sempre têm um efeito mais intenso, geram maior tensão, quando envolvem alguma criança. E pergunta: e se fossem duas crianças?
"I quite agree—in regard to Griffin's ghost, or whatever it was—that its appearing first to the little boy, at so tender an age, adds a particular touch. But it's not the first occurrence of its charming kind that I know to have involved a child. If the child gives the effect another turn of the screw, what do you say to TWO children—?"
Brenno sabe o que é to turn the screw, claro - tanto é que desdobra a expressão para que se torne inteligível ao leitor: "... Se uma única criança aumenta a emoção da história e dá outra volta ao parafuso, que diriam os senhores de duas crianças?" Olívia Krähenbühl também sabe, claro, e tenta uma alternativa que lembra nosso "arrochar": "... Se uma única criança imprime à vossa emoção mais um passe de tarraxa... - que direis de duas?"

Na segunda ocorrência, no capítulo 22, o sentido da expressão é um pouco diferente:
I could only get on at all by taking "nature" into my confidence and my account, by treating my monstrous ordeal as a push in a direction unusual, of course, and unpleasant, but demanding, after all, for a fair front, only another turn of the screw of ordinary human virtue. 
Brenno dá: "mas que exigia apenas ... uma outra volta do parafuso da virtude humana comum". Olívia se sai com brio na literalidade que escolheu: "e que exigia ... apenas um passe de tarraxa suplementar à humana virtude de todos os dias". Ao fim e ao cabo, o parafuso de Olívia ficou restrito apenas ao título - a essas alturas, mais coerente seria O passe da tarraxa.

Só tenho essas duas traduções em casa, e não sei como os demais tradutores trataram esses dois trechos.* Teria curiosidade especial pelas possíveis sugestões de Marcelo Pen, tão atento ao equívoco foot of the letter da coisa.

*Na adaptação de Ana Carolina Rodriguez para a Rideel, disponível online, temos "seus corações se sentirão apertados como se recebessem não apenas uma, mas duas voltas de parafuso" (a segunda menção à "volta do parafuso", no final da novela, foi omitida).

imagem: turning a screw


atualização - gentilíssimo, fred spada fornece em comentário as soluções e esclarecimentos de marcelo pen:
Seguem as traduções do Marcelo Pen (em "Contos de Horror do século XIX", Cia das Letras, 2005) e seu comentário na apresentação do conto:
"Se uma criança concorre ao efeito com outro aperto do torniquete, o que diriam de duas...?" (p. 133)
"(...) mas que apenas exigia enfim, sejamos francos, que se apertasse o torniquete da virtude humana usual." (p 227)
E a apresentação:
"Observação: o título 'A volta do parafuso' é um caso clássico, talvez mundial, de tradução equivocada. A rigor, não diz nada em português. Tighten the screw, give the screw another turn e expressões correlatas significam, em geral, aumentar a pressão sobre alguém que já se encontra em posição aflitiva. A expressão lembra o thumbscrew, os 'anjinhos' - antigos anéis de tortura com que se apertavam os dedos das vítimas. Curiosamente, existe em português uma expressão equivalente (inclusive com a reminiscência à tortura) - apertar o torniquete -, que, conforme atesta Antenor Nascentes [Tesouro da fraseologia brasileira], quer dizer 'pôr em situação difícil quem já não está em boa situação'. Não propomos mudar o título do clássico de James, hoje consagrado, mas ajustamos a expressão vernácula nas ocorrências em que o autor usou, posto que com ênfases diversas, a angustiante locução inglesa." (p. 132)

mais uma gentilíssima contribuição na caixa de comentários, agora de elaphar, transcrevendo as soluções de marcos maffei em sua tradução que saiu pela hedra:
"Se uma criança dá ao efeito uma outra volta do parafuso, o que me diriam de duas crianças?" (p.33)
"mas exigindo, afinal, para um confronto justo, apenas uma outra volta do parafuso da virtude humana comum" (p.155)

outra gentilíssima contribuição na caixa de comentários, esta de ricardo duarte, com as soluções de paulo henriques britto e com link para um post do blog da companhia das letras, comentando tangencialmente o título:
Mais uma tradução - a do Paulo Henriques Britto pela Penguin Companhia:
"Se uma criança dá ao fenômeno outra volta do parafuso, o que me diriam de duas crianças...?" (p. 8)
"mas algo que exigia, afinal, para manter uma fachada serena, apenas outra volta do parafuso da virtude humana comum." (p. 145). 

aqui tem uma linha do tempo com as traduções de james no brasil.

15 comentários:

  1. Olá, Denise!
    Seguem as traduções do Marcelo Pen (em "Contos de Horror do século XIX", Cia das Letras, 2005) e seu comentário na apresentação do conto:

    "Se uma criança concorre ao efeito com outro aperto do torniquete, o que diriam de duas...?" (p. 133)

    "(...) mas que apenas exigia enfim, sejamos francos, que se apertasse o torniquete da virtude humana usual." (p 227)

    E a apresentação:
    "Observação: o título 'A volta do parafuso' é um caso clássico, talvez mundial, de tradução equivocada. A rigor, não diz nada em português. Tighten the screw, give the screw another turn e expressões correlatas significam, em geral, aumentar a pressão sobre alguém que já se encontra em posição aflitiva. A expressão lembra o thumbscrew, os 'anjinhos' - antigos anéis de tortura com que se apertavam os dedos das vítimas. Curiosamente, existe em português uma expressão equivalente (inclusive com a reminiscência à tortura) -apertar o torniquete-, que, conforme atesta Antenor Nascentes [Tesouro da fraseologia brasileira], quer dizer 'pôr em situação difícil quem já não está em boa situação'. Não propomos mudar o título do clássico de James, hoje consagrado, mas ajustamos a expressão vernácula nas ocorrências em que o autor usou, posto que com ênfases diversas, a angustiante locução inglesa." (p. 132)

    Abraços!

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  2. olá, fred: fantástico, muito, muito obrigada! acrescentarei ao post.

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  3. por outro lado, como o tal "fair front" também dá um baile! brenno: "luta leal"; olívia, "fronte serena"; marcelo, "sejamos francos"...
    pessoalmente, creio que olívia capta melhor o sentido dessa passagem: perante um curso excepcional das coisas, que tomava um rumo desagradável, a única coisa a fazer para manter a compostura, a serenidade naquele momento era simplesmente exigir um pouco mais de seu código de conduta habitual.

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  4. Que ótimo você levantar essa questão novamente, Denise, pena que seja tarde demais para propor outro título, menos rebarbativo e estranho, para o texto de James, que dê conta dessa idéia de uma "apertada" numa situação crítica ou alarmante. O que eu acho engraçado é o enfeite de algumas traduções: Outra volta do parafuso, o que torna mais estranho o estranho.
    De todo modo, adorei que isso viesse à baila novamente pois ainda é uma das coisas mal resolvidas no universo das traduções brasileiras. Pode-se variar as trevas de Conrad (coração das trevas, coração da treva, o coração das trevas, no coração das trevas etc), mas a ideia básica é preservada. Já A volta do parafuso não quer dizer nada.
    Abração.

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  5. haha, alfredo, bem lembrada a outra volta do parafuso - o que me recorda também uma mocinha em algum blog ou mídia social comentando(com bastante humor) que passou um bom tempo achando que a volta do parafuso era o livro inicial, e que a outra volta do parafuso era uma continuação. não deixa de fazer sentido :-)

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  6. Denise, acho interessante comparar também com a versão de Marcos Maffei, devido ser uma das mais recentes e de razoavel tiragem, a tradução geralmente é quase literal:

    "Se uma criança dá ao efeito uma outra volta do parafuso, o que me diriam de duas crianças?" (p.33)

    "mas exigindo, afinal, para um confronto justo, apenas uma outra volta do parafuso da virtude humana comum" (p.155)

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  7. Mais uma tradução - a do Paulo Henriques Britto pela Penguin Companhia:

    "Se uma criança dá ao fenômeno outra volta do parafuso, o que me diriam de duas crianças...?" (p. 8)

    "mas algo que exigia, afinal, para manter uma fachada serena, apenas outra volta do parafuso da virtude humana comum." (p. 145).

    A explicação da escolha do título no blog da Companhia das Letras:

    http://www.blogdacompanhia.com.br/2011/06/a-outra-volta-da-volta-do-parafuso/

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  8. que maravilha, ricardo, muitíssimo obrigada! estou acrescentando :-)

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  9. eu estava pensando nesse título, semana passada.
    e me vem à cabeça apenas a imagem mesmo de uma volta a mais, aquela que rompe, que vai além da suportabilidade da matéria.
    porque não me parece que apenas se arroxa, que apenas se aperta mais, mas que seria a volta de depois do limite.
    porque há o limite para o parafuso, e se há essa outra volta, não apenas se aperta, mas há uma ruptura. a madeira, por exemplo, racha, cria-se um caroço nela, porque não cabem no mesmo espaço o novo tanto do parafuso e a madeira que já estava ali. um dos dois tem que sair.
    assim,
    se entra a imaginação ou a fantasia de quem conta a história, o real tem de abrir mão de estar ali, tem de dar lugar á outra coisa.
    e não apenas sai do lugar, mas sai avariado.

    pra mim,
    a expressão é ótima e trata da avaria na matéria quando há a intervenção da outra coisa.
    no caso, a avaria do real quando há a intervenção do dizer sobre ele.

    o dizer por uma criança, essa outra volta, me lembrou o conto "o jardim selvagem", da lygia fagundes telles. nessa narrativa, já há essa outra volta.
    dizer por uma criança provoca a avaria; por duas, a coisa torna-se um paroxismo, ao ponto de instalar-se o fantasmgórico, mesmo.

    ou não. faz muito tempo que li o livro.
    mas, a imagem do título me pareceu ser isso, na semana passada. e me pareceu muito condizente, mesmo na tradução que adotamos aqui no brasil.

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  10. olá, nilton: claro, concordo - se a gente racionalizar, analisar e desmembrar, sempre vai descobrir os fundamentos de qualquer metáfora e de qualquer idiotismo, mesmo o mais corrente. isso é uma das coisas mais maravilhosas na língua, para mim. mas daí até transpor uma expressão usual no inglês ao pé da letra em português parece-me que vai uma longa distância...

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  11. entendo.

    a discussão está girando em torno da tradução. é que eu, ao desconsiderar esse aspecto, não sinto o problema. é isso.

    a imagem funciona, e o problema de ter sido uma tradução ao pé da letra se esvai.

    mas, entendo a discussão =]. e gosto muito de ver discurtir-se isso.

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  12. Anônimo17.4.12

    Concordo com o Nilton, a imagem funciona. E o título é consagrado.
    Daqui a pouco vão querer mudar o nome do Canal da Mancha em nome de uma exatidão expressão por expressão. Tradução é muito mais que isso.

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  13. Anônimo25.4.12

    Ora, James está usando uma expressão idiomática, mas está resgatando a imagem que lhe deu origem. Essa escolha de manter a imagem original é apenas mais uma das várias opções do tradutor. A ideia de que se trata de um erro é condescendente, ingênua e leviana.

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  14. hahaha, ok, então, prezados anônimos!

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  15. Anônimo14.11.12

    Guilherme da Silva Braga, "face formosa", aí me parece que ele quis manter a aliteração.

    Guilherme também afirma que o verbo turn foi traduzido sempre como "voltar" e indica o estudo A Volta do Parafuso: uma leitura semiótica do conto de Henry James, de Sigrid Renaux, para analisar a relevância desta palavra no livro. Não sei se tem mesmo, só estou transcrevendo.



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