16 de abr de 2012

o coração da matéria

este caso não é tão significativo quanto a volta do parafuso de henry james que comentei aqui:
por um lado chega a ser mais grotesco; por outro lado, pelo menos não chegou a se firmar tão entranhadamente entre nós.


refiro-me a o coração da matéria, um inacreditável "foot of the letter" cometido por oscar mendes no romance de graham greene, the heart of the matter. essa tradução foi editada e reeditada diversas vezes entre 1941 e 1968, pela brasileira, pela record e pela itatiaia.

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o recifense oscar mendes (1902-1982), promotor e juiz radicado em minas, homem dado às letras com bom trânsito editorial, sobretudo no rio de janeiro, tradutor de razoável renome, é um caso interessante: assinou grande número de traduções, às vezes a quatro mãos, muitíssimas delas de obras fundamentais, como o teatro completo de shakespeare (com cunha medeiros, a partir do espanhol), grande parte da obra completa de edgar allan poe (com milton amado), a obra completa de dostoiévski (com natália nunes, pelo espanhol), oscar wilde, emily brontë, virginia woolf e outros.

o nível das traduções em seu nome oscilava muito e, ao que consta, chegou a utilizar "bagrinhos", isto é, terceiros para fazer traduções a que depois apunha o próprio nome. isso ajudaria a explicar a grande variação na qualidade dos textos.

de qualquer forma, é sempre bom lembrar tais exemplos mais flagrantemente escabrosos: tradução é um ofício que, como atividade séria e sistemática, nem chega a cem anos de existência aqui no brasil. todos esses cometimentos são talvez até compreensíveis dentro do contexto editorial tão irregular e amador que prevalecia entre nós até os anos 1920, com um legado que se prolongou ainda por algumas décadas - razão tanto maior para admirarmos o trabalho de figuras como mário quintana, rachel de queiroz e tantos outros amorosos praticantes do ofício, que assim se mostram ainda mais fundamentais na história da tradução no país.

9 comentários:

  1. O Coração da Matéria, no título. E ninguém achou estranho? Que incrível.

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  2. pois é... e reeditaram por quase trinta anos.

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  3. E o mais grave, Denise, é que o título de Greene é uma herança de Henry James; tirando o conhecimento da língua (e olha que o Oscar Mendes atacou outras traduções, como as de Clarice Lispector), revela-se aqui um desconhecimento das influências literárias. Só em OS EMBAIXADORES, James utiliza umas quinze vezes o the heart of the matter. Marcelo Pen traduz de várias formas: a essência da questão, o cerne do problema, etc...

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  4. Aliás, você que está traduzindo V. Woolf, já deu uma olhada no horror que ele fez com To the Lighthouse? É de chorar.

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  5. que interessante, alfredo, não fazia ideia das ressonâncias jamesianas no greene! é mesmo? que coisa mais legal!

    de fato, as duas traduções do farol no brasil dão uma tristeza indizível.

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  6. Bruce Torres19.4.12

    Esse livro foi recentemente (re)traduzido como "O Cerne da Questão" e lançado pela Editora Globo, certo?

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  7. prezado bruce, bem lembrado! saiu em 2007 na tradução do competentíssimo otacílio nunes.

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  8. Anônimo25.4.12

    Aliás, Greene.. é o meu autor favorito...... (depois de todos os russos, claro)

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  9. Anônimo25.4.12

    " O X da questão"; "o ponto chave"... não sei...

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