13 de set de 2011

jane eyre, o cotejo

hoje, por fim, chegou meu exemplar de jane eyre na tradução de sodré viana. já tinha recebido na semana passada a edição da itatiaia, com tradução em nome de um certo "waldemar rodrigues de oliveira".

veja a introdução ao tema aqui, em "leitora alerta"ou na linha de assuntos "itatiaia", aqui.

transcrevo abaixo alguns parágrafos das "duas" traduções. como a leitora vanessa já tinha transcrito o parágrafo inicial, sigo um pouco adiante.

sodré viana:

Capítulo I
      [...] Isto me alegrava; não gostava de caminhadas longas, principalmente em tardes frias. Temia a volta, os dedos e os artelhos torturados, o coração confrangido pelos carões de Bessie, a governante, e humilhada na consciência da minha inferioridade física diante de Lisa, de John e de Georgiana Reed.
      Agora, na sala de visitas, Elisa, John e Georgiana rodeavam a mamãe deles. E ela, reclinada no sofá, ao pé do fogo, com os seus queridos em torno (no momento não estavam rusgando nem gritando) tinha um olhar fundamente feliz. Quanto a mim, vivia banida do grupo. A senhora Reed declarara "lamentar muito ter de conservar a distância". E que: "enquanto não ouvisse de Bessie, e não pudesse ela mesma constatar que eu me esforçava sinceramente por adquirir um comportamento mais sociável e mais próprio a uma menina, um modo atraente, e jovial - qualquer coisa de mais dúctil, mais franco e mais espontâneo - via-se na obrigação de me excluir dos privilégios devidos somente às criancinhas bem procedidas e alegres".

waldemar rodrigues de oliveira:

Capítulo I
      [...] Isto me alegrava; não gostava de caminhadas longas, principalmente em tardes frias. Temia a volta, os dedos e os artelhos torturados, o coração confrangido pelas censuras de Bessie, a governante, e humilhada na consciência da minha inferioridade física diante de Lisa, de John e de Georgiana Reed.
      Agora, na sala de visitas, Elisa, John e Georgiana rodeavam a mamãe deles. E ela, reclinada no sofá, ao pé do fogo, com os seus queridos em torno (no momento não estavam rusgando nem gritando) tinha um olhar fundamente feliz. Quanto a mim, vivia banida do grupo. A senhora Reed declarara "lamentar muito ter de conservar a distância". E que: "enquanto não ouvisse de Bessie, e não pudesse ela mesma constatar que eu me esforçava sinceramente por adquirir um comportamento mais sociável e mais próprio a uma menina, um modo atraente, e jovial - qualquer coisa de mais dócil, mais franco e mais espontâneo - via-se na obrigação de me excluir dos privilégios devidos somente às criancinhas bem procedidas e alegres".

original:

      I was glad of it: I never liked long walks, especially on chilly afternoons: dreadful to me was the coming home in the raw twilight, with nipped fingers and toes, and a heart saddened by the chidings of Bessie, the nurse, and humbled by the consciousness of my physical inferiority to Eliza, John, and Georgiana Reed.
     The said Eliza, John, and Georgiana were now clustered round their mama in the drawing-room: she lay reclined on a sofa by the fireside, and with her darlings about her (for the time neither quarrelling nor crying) looked perfectly happy.  Me, she had dispensed from joining the group; saying, “She regretted to be under the necessity of keeping me at a distance; but that until she heard from Bessie, and could discover by her own observation, that I was endeavouring in good earnest to acquire a more sociable and childlike disposition, a more attractive and sprightly manner—something lighter, franker, more natural, as it were—she really must exclude me from privileges intended only for contented, happy, little children.”

posso assegurar que todo o restante do livro segue nessa mesma toada da pura cópia, nem mesmo fazendo outras trocas ao estilo de "carão" por "censura" ou de "dúctil" por "dócil".

a tradução de sodré viana está longe de ser um primor de correção, estilo ou fluência, mas é ele o seu autor, e como tal deve ser tratado. agora, quem é esse "waldemar rodrigues de oliveira" - um nome inventado, um ser de carne e osso que se apropriou da tradução de sodré viana ou que emprestou o seu nome à itatiaia para que a editora se apropriasse dela - não sei dizer. o que me parece cristalino e irrefutável é o fato concreto, material, objetivo da apropriação indevida.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.






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2 comentários:

  1. Vanessa13.9.11

    pois é, denise, eu já imaginava... fico triste em ver que minhas suspeitas se confirmaram. agradeço a atenção que vc deu a mim desde o início e o interesse e paciência de ir atrás das edições e investigar a história. muitíssimo obrigada!
    e a cópia é descarada mesmo, né? absurdo dos absurdos! até quando perdurará essa prática infame? não me conformo!
    uma pergunta: vc conseguiu mais alguma informação sobre o sodré viana? será que vai ter jeito de contatar os herdeiros dele, ou algo assim?

    grande abraço,

    Vanessa

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  2. é, vanessa, a cópia é descaradinha, descaradinha. e vi que a itatiaia tem edição de 2008, 2009 e 2011 - quer dizer, pelo jeito parece que está vendendo bem! que infâmia!

    acho que vou montar um pedido de representação e dar entrada no ministério público. toma algum tempo, mas tem de ser feito, acho eu...

    vanessa, foi genial vc ter descoberto essa falcatrua cabeluda, apenas documentei aqui e estou divulgando.

    muito obrigada em se engajar nessa defesa de todos nós, leitores, tradutores, autores.

    abraço
    denise

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