8 de set de 2011

a propósito

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na esteira da espantosa constatação da existência de nada menos que oito traduções de jane eyre no brasil e nenhuma tradução de seu romance villette e apenas uma tradução de mais de 60 anos atrás de charlotte (e esquecidíssima e esgotadíssima), peço licença à folha de s.paulo de transcrever aqui a íntegra de um artigo de nelson ascher, disponível apenas para assinantes.

embora tenha sido escrito mais de três anos atrás (saiu em 05 de maio de 2008), o artigo continua atualíssimo e talvez seja ainda mais pertinente nessa grave e ridícula crise de superposição e superprodução editorial dos últimos anos.

NELSON ASCHER 

Para racionalizar o mercado de traduções


Não valeria mais a pena dirigir a atenção dos tradutores para obras que seguem inéditas?


NUNCA TEREMOS um mercado editorial de traduções literárias tão opulento e variado quanto o anglo-americano, um mercado que pode se dar ao luxo de, por exemplo, oferecer ao público, em poucos anos, duas traduções completas da "Argonáutica" de Apolônio de Rodes, duas da "Farsália" de Lucano e uma da "Tebaida" de Estácio, todas em verso.

Mas não é por isso que um pouco mais de ordem, disciplina e racionalidade não ajudariam nosso mercado a dar um salto qualitativo. A ausência dessas, que poderia começar a ser corrigida com um banco de dados que arrolasse e avaliasse o que já se traduziu no Brasil, acaba acarretando um desperdício de energia que seria mais útil se aplicada a projetos não redundantes.

O caso exemplar é o da "Comédia Humana" de Balzac, título genérico sob o qual se reúne sua produção ficcional madura, ou seja, várias dezenas de contos, novelas e romances interconectados. Traduzida no Brasil entre os anos 1940/50 e publicada pela Editora Globo em 17 volumes, esta, uma das maiores empreitadas editoriais do país, resultou do esforço coletivo de diversos tradutores trabalhando sob a coordenação de Paulo Rónai, que não apenas reviu meticulosamente o texto em português como acrescentou-lhe uma bela biografia do autor, além de milhares de notas explicativas, selecionando, ademais, ensaios de escritores e críticos consagrados para prefaciar cada tomo.

Reeditado poucas vezes desde então, o conjunto está agora fora do mercado e é difícil lhe achar qualquer um dos volumes até em sebos. Ao que parece, o que impede uma nova publicação é a falta de acordo entre editores e os herdeiros do organizador, algo que, obviamente, faz parte do jogo legítimo do mercado e se resolve mediante negociações.

Acontece que se, no entretempo, os leitores perdem a oportunidade de ler a excelente tradução dessa obra em arquipélago que se encontra no centro do universo romanesco do Ocidente, em breve a situação se consolidará em prejuízo de todos, inclusive dos herdeiros. Pois, atendendo à demanda, outras editoras, em especial a L&PM, têm lançado suas próprias traduções, algumas muito boas, outras nem tanto, dos livros individuais. Assiste-se, portanto, a uma corrida contra o tempo, porque, tão logo o núcleo da "Comédia Humana" esteja disponível em traduções diferentes, ainda que inferiores, a clientela potencial para a edição completa e anotada encolherá sensivelmente.

Há tantas excelentes traduções já esgotadas e sem perspectiva próxima de republicação que seria lícito tomá-las antes como a regra geral do que como exceções infelizes.

Restringindo-nos somente aos clássicos franceses, conviria mencionar "Servidão e Grandeza Militares", de Vigny, traduzido pelo próprio Rónai, a coletânea da ficção de Prosper Mérimée (cuja novela "Carmen" celebrizou-se ao ser convertida na ópera homônima de Bizet) traduzida por Mário Quintana, "Bouvard e Pécuchet", de Flaubert, traduzido por Galeão Coutinho e Augusto Meyer.

A não ser que se conseguissem versões capazes de eclipsar aquelas - algo improvável -, não valeria mais a pena dirigir a atenção dos tradutores contemporâneos para obras que seguem inéditas na língua, como, digamos, os aforismos de Joseph Joubert?

Não que o problema seja novo. Meio século atrás, quando saíram, quase simultaneamente, três traduções de "As Relações Perigosas", de Choderlos de Laclos, duas delas tornaram-se imediatamente irrelevantes, pois a terceira vinha assinada por Carlos Drummond de Andrade. Hoje, contudo, os departamentos universitários de Letras, operando com editores, críticos e consulados, teriam condições de criar na internet sites cujas informações auxiliariam tanto a recolocar em circulação traduções esquecidas como a maximizar o mais escasso dos recursos, a saber, tradutores competentes.

Se, quando se trata de prosa, o bom senso manda primeiro exaurir o repertório de obras inéditas no país para só depois buscar superar traduções dignas com outras mais elaboradas, o que ocorre com a poesia é precisamente o contrário. Não obstante também nessa arte existir um repertório mínimo que configuraria um dos âmagos da "literatura universal" postulada por Goethe, o fato é que o equivalente lírico da tradução notável de um romance clássico não seria tal ou qual entre suas versões, mas, cotejadas e comparadas, todas elas juntas. Tal paradoxo contribui para tornar ainda mais urgente a reedição de pontos altos da tradução poética nacional, como o Baudelaire, o Verlaine e demais poetas franceses recriados por Guilherme de Almeida.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0505200822.htm
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5 comentários:

  1. O que vou contar aqui pode até parecer um conto de Borges, mas foi real. Eu tive com a 1a. edição (se é que houve alguma outra) da coleção completa da Globo da Comédia Humana nas mãos. Livros ainda não cortados, como se dizia, virgens de tão novos, com suas páginas fechadas esperando o cortador de papel para abri-las e serem lidas. Isso aconteceu quando eu tinha uns vinte e poucos anos, havia lido a pouco tempo o A construção do livro, do Emanuel Araújo, em que ele fala extensamente desse trabalho do Paulo Ronai como uma lição de projeto editorial. Os livros ainda existem, creio, consigo visualizá-los e até sentir o cheiro deles. Numa casa de fazenda no interior do Rio Grande do Sul, aonde fui passar um fim de semana. Estão todos juntos em uma estante baixa, de madeira escura, cercados por móveis antigos de uma casa antiga no meio do pampa. Intocados, sequer lidos. Virgens.

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  2. incrível - e lá estavam, no meio do pampa. e lá chegaram: alguém soube, alguém quis, alguém comprou. se leram ou não, fica quase um detalhe... e décadas fechados, então? um ícone?

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  3. devia haver um grande banco de dados com o que foi traduzido no Brasil, assim reduzia alguns desses problemas e facilitaria muito a vida de pesquisadores e leitores críticos...

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  4. olá, elaphar: concordo! supostamente esse banco de dados seria em nossos acervos nacionais (a biblioteca nacional), mas mais da metade dos editores não cumprem a lei de enviar pelo menos 1 exemplar de suas edições para lá... é tristíssimo.

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  5. deveras... a estante virtual é mais útil para uma consulta do que o acervo e registro da BN.

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