14 de set de 2011

agenor moura e olívia krähenbühl


há tempos me sinto incomodada com uma crítica do articulista agenor soares de moura à finíssima tradutora e crítica literária olivia krähenbühl. trago o assunto à tona apenas porque a carreira de crítico de agenor moura foi revivida em anos recentes, graças à compilação organizada por nosso grande ivo barroso e publicada em 2003 com o título de À margem das traduções.

a peça de agenor moura consta logo no início de seu primeiro artigo escrito para o diário de notícias do rio de janeiro em 1944, inaugurando uma coluna semanal dedicada à crítica de traduções no brasil, e se encontra reproduzida à p. 21 do citado À margem das traduções. reproduzo aqui o comentário de agenor moura sobre a competência linguística e literária de olivia krähenbühl:
A sra. Olivia Krahenbuhl, em artigo intitulado "Duplo aspecto da tradução",* aparecido num dos nossos suplementos dominicais, refere-se aos Sonetos da portuguesa, de Elizabeth Barrett Browning. Para quem fala de traduções, a referência, como está feita, me parece claudicante. Certamente o desejo da autora do artigo foi mencionar os Sonnets from the portuguese, coletânea de quarenta e quatro sonetos a que a mulher de Robert Browning deu esse título fantasista (ver a Cambridge history of english literature) - pois, embora não se trate de traduções, o título exprime que os sonetos da poetisa foram feitos "como se" inspirados nos da língua portuguesa. Logo, em português, o livro de Elizabeth Browning deveria chamar-se Sonetos tirados do português, ou Sonetos à maneira dos portugueses, ou ainda Sonetos ao molde dos da língua portuguesa. O que não se deve é dizer Sonetos da portuguesa, o que parece indicar que haja uma dama lusitana autora dos poemas.
* o artigo citado pode ser lido aqui.

Magister dixit. Faço um resumo rápido: muitos anos antes de escrever os poemas mais tarde enfeixados como Sonnets from the Portuguese, Elizabeth Barrett havia escrito um poema de amor chamado "Catarina a Camões". Quando ela tem seu longo romance secreto com Robert Browning, urdido numa intensa troca de cartas e juras de amor, ambos por vezes tomam como personae Catarina e Camões, justamente. Já casados, Robert convence Elizabeth a publicar os poemas de amor que ela lhe dedicara, e optam deliberadamente por um título que sugerisse tratar-se de uma tradução de poemas escritos por uma anônima poeta portuguesa. Essa pseudotradução (como se diz), ademais, ressoa também com as figuras históricas que o casal havia escolhido como emblemas do seu romance.*
* Ivo Barroso aponta que o título pretendia indicar que se tratava de uma tradução do português: ver aqui. Há também quem sustente que os "Sonetos da portuguesa" receberam esse nome porque Robert chamava Elizabeth de "minha portuguesinha", devido à sua tez azeitonada.

Faça-se, pois, justiça a Olívia Krähenbühl: certa ela, errado seu crítico. Sonetos da portuguesa é a tradução mais adequada.


Fico muito feliz com o recente lançamento pela editora Rocco da belíssima tradução feita por Leonardo Fróes (e, naturalmente, com o título de Sonetos da portuguesa). A edição bilíngue vem acompanhada de um precioso e iluminador posfácio do tradutor.
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7 comentários:

  1. :-) na verdade, fiquei muito curiosa com o artigo de olivia que despertou a reação de agenor, "duplo aspecto da tradução" - parece interessante!

    lembro que a fábula, de william faulkner, foi um dos primeiros livros a me chamarem a atenção, de tão bonito que era o texto (isso há uns trinta anos) - eu, que nunca tinha reparado em tradução até então, lembro que fui olhar a folha de rosto, vi aquele nome e nunca mais esqueci. aí, com os anos é que fui vendo quantos grandes autores ela traduziu... nosso primeiro tradutor a gente nunca esquece :-)))

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  2. Bei sei que o blogue versa sobre traduções, mas me dêem licença de inserir este linque: http://ericonogueira.blogspot.com/2011/09/encher-e-chutar-o-balde.html, em que se comentam os desmandos, já não digo na tradução, antes na revisão de textos. No caso, a vítima é a Odisseia, de Homero, posta em vernáculo por Carlos Alberto Nunes.

    Abraços.

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  3. grave!! que tal contatar a viúva? o direito moral à integridade da obra é um dos poucos direitos autorais inalienáveis - a editora jamais poderia ter mudado o texto.

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  4. O tradutor morreu viúvo e não deixou flhos. Em verdade, o Sr. Benedito Nunes, sobrinho do tradutor, era único seu parente que ainda levava a peito a reedição das obras do tio - mormente as traduções dos Diálogos, de Platão, publicados pela Editora da UFPA; contudo, infelizmente, o Sr. Benedito morreu este ano.

    Resta-nos a grita e a publicidade do fato.

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  5. Que bom, Denise, ler você falando da beleza que encontrou em "A fábula" na tradução da Olívia Krähenbühl.
    Eu folheei um exemplar, por estes dias, na biblioteca do Centro Cultural São Paulo, e fiquei tentado a comprar o livro num sebo. Agora, está decidido: vou atrás dele =] .

    Quando adolescente, eu gostava da capa do livro, do título, do que se dizia sobre ele. Mas, nunca cheguei a comprá-lo.

    Beijo.

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