Tradução de Pontes de Paula Lima:
CLAIRE - (De pé, de combinação, voltando as costas para a
penteadeira. Seu gesto, o braço estendido, é o tom serão de um trágico
exasperado) E essas luvas! Essas luvas eternas! Já
te repeti suficientemente que as deixasses na cozinha. É com isso, por certo,
que esperas seduzir o leiteiro. Não, não, não mintas, é inútil. Pendure-as por
cima da pia. Quando compreenderás que este quarto não pode ser enxovalhado.
Tudo, mas tudo o que vem da cozinha é escarro! Sai! E leva os teus escarros!
Mas para! (Durante esta tirada, Solange brincava com um par de luvas de
borracha, observando suas mãos enluvadas; ora em buquê, ora em leque) Nada
de cerimônia, faz teu bichinho. E principalmente não te apresses, temos tempo.
Sai! (Solange, de repente, muda de atitude e sai com humildade
segurando na ponta dos dedos as luvas de borracha. Claire senta-se à
penteadeira. Aspira as flores. Afaga os objetos de toillete, escova o cabelo,
ajeita o rosto) Prepara meu vestido. Depressa, o tempo voa. Você não
está aí? (Volta-se) Claire! Claire! (Entra Solange)
SOLANGE - Madame me perdoe, eu estava preparando o chá de
tília (Ela pronuncia tílea) da senhora.
CLAIRE - Arranje as minhas toaletes. O vestido branco de
pailleté. O leque, as
esmeraldas.
SOLANGE - Todas as jóias de Madame?
CLAIRE - Traga. Quero escolher. E, naturalmente, os sapatos
de verniz. Aqueles que você vem cobiçando há anos. (Solange tira do
armário alguns estojos que abre e dispõe sobre a cama) Para o seu
casamento, com certeza. Confessa. Confessa que ele a seduziu! Que você está
grávida! Confesse! (Solange se agacha no tapete e, cuspindo neles,
lustra os escarpins de verniz) Eu já lhe disse, Claire, para evitar os
escarros. Deixe-os dormir dentro de você minha filha, apodrecer aí dentro. Ah!
Ah! (Ri nervosamente) Que nele se afogue o caminhante perdido.
Ah! Ah! Você é horrenda, minha bela! Curva-se mais e olhe-se nos meus sapatos. (Estende
o pé, que Solange examina) Pensa que me é agradável saber o meu pé
envolto nos véus da sua saliva? Na bruma de seus pantanais?
SOLANGE - (De joelhos e muito humilde) Desejo que Madame fique linda.
CLAIRE - Ficarei. (Arruma-se ao espelho) Vocês
me detestam, não é? Vocês me esmagam com os seus cuidados e a sua humildade,
com gladiólogos e rosedá. (Levanta-se em tom mais baixo) Atulhamos
à toa. Aqui tem flor demais. É mortal. (Contempla-se ainda) Ficarei
linda. Mais do que você jamais conseguirá. Pois não com esse corpo e essa cara
que conquistará Mário. Esse jovem leiteiro ridículo nos despreza e se fez em
você um bebê...
SOLANGE - Oh! Mas eu nunca...
CLAIRE - Cale-se idiota! Meu vestido!
SOLANGE - (Procura no armário, afastando alguns
vestidos) O vestido vermelho. Madame vai por o vestido vermelho!
CLAIRE - Eu disse o vestido branco de
pailleté.
SOLANGE - (Dura) Sinto muito. Madame esta noite usará o
vestido de veludo escarlate.
Tradução em nome de Roberto Medeiros, editora Deriva:
acompanhe o caso da editora deriva aqui.



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