14 de jan de 2013

os prêmios da fbn 2012, II

em 21 de dezembro saíram os resultados dos prêmios da fundação biblioteca nacional. e aí, para espanto geral e indignação de vários inscritos, revelou-se que o prêmio de poesia alphonsus de guimaraens fora concedido a bernardo ajzenberg, como detentor dos direitos autorais da antologia poemas 1930-1962, de carlos drummond de andrade, publicada pela cosac naify, em edição crítica preparada por uma equipe da casa de rui barbosa, sob a coordenação de júlio castañon guimarães.

o grande problema é que o regulamento era muito claro: as inscrições deviam ser feitas pessoalmente pelos autores (donde se deduzia que o prêmio se destinava exclusivamente a autores vivos), ou, em casos de inscrição pela casa publicadora, seria necessária uma autorização de próprio punho do autor (donde se inferia mais uma vez que o autor teria de estar vivo). a íntegra do edital está aqui e abaixo transcrevo os artigos correspondentes a tal exigência:

2.3. As obras deverão ser inscritas pelo autor, de  acordo com as categorias premiadas.
2.3.1. As inscrições por intermédio de editoras serão permitidas como forma de assistência ao autor apenas mediante autorização por escrito deste, que deverá ser anexada à ficha de inscrição.  
este era o ponto mais absurdo e flagrante na premiação, que a invalidaria de plano. em todo caso, havia outras irregularidades na obra premiada: 1. o edital determinava que a obra deveria ser inédita; não era. 2. ademais, consistindo o ineditismo no fato de ser uma edição crítica da obra, não caberia concorrer na categoria de poesia.

a perplexidade e os protestos logo se difundiram pelas mídias sociais, como o twitter e o facebook, por vários blogues e na grande imprensa, além de uma petição online contra a premiação e uma intensa divulgação das irregularidades por meio de vários e volumosos mailings. dois autores (marcus fabiano e renato suttana) e duas entidades (coletivo quatati e união brasileira de escritores) entraram com recurso junto à fbn, pedindo a anulação do prêmio.

dois membros do júri tentaram se justificar declarando à folha de s.paulo: 
A poeta Leila Míccolis, integrante do júri que escolheu “Carlos Drummond de Andrade: Poesia 1930-62”, da Cosac Naify, como vencedora do Prêmio Biblioteca Nacional de Literatura, diz que preferia ter premiado um poeta vivo. “Eu tinha outra escolha, mas respeitei a decisão coletiva.” Seu colega de júri Francisco Orban avalia que caberia à organização decidir se o livro estava habilitado ou não —já que, pelo edital, a inscrição só poderia ser feita pelo autor ou pela editora com autorização por escrito do autor. (aqui)
a posição de leila míccolis também gerou perplexidade, pois, num júri de três pessoas, seria difícil conceber que dois votos pudessem constituir uma "decisão coletiva". e a fbn, de seu lado e como de hábito, tentou se fazer de mortinha, declarando que "só analisará o caso se houver recurso de algum concorrente".

tudo isso em meio ao natal e vésperas de ano novo, imagine-se! em 30 de dezembro, o jornal estado de são paulo informou que a fbn havia suspendido a homologação dos prêmios até que os recursos interpostos  fossem julgados (aqui).

por fim, a fbn informou que havia analisado em 03 de janeiro o recurso do poeta marcus fabiano e que traria a público sua decisão em 08 de janeiro. a fbn acabou se manifestando alguns dias depois, conforme noticiou a jornalista raquel cozer em 11 de janeiro na folha de s.paulo, aqui. o prêmio foi anulado, mas aparentemente os jurados ainda não conseguiram ainda chegar a um acordo. agora é aguardar.

  • recurso apresentado por marcus fabiano, aqui
  • recurso apresentado pela ube, aqui
  • ata de julgamento dos recursos, fbn, aqui
  • aqui o edital que a fbn publicou hoje, dia 14 de janeiro, deixando em branco o nome do premiado, até decisão do mesmo júri ou por escolha do departamento de economia do livro.

não há a menor dúvida de a grande responsável pela falha grotesca, inominável, imperdoável, foi a fundação biblioteca nacional - mas que o júri não conhecesse ou preferisse desconhecer o teor do regulamento também me causou bastante surpresa.

estão de parabéns todos os que noticiaram, divulgaram, protestaram e reagiram prontamente contra o malfeito. é da maior importância que a fbn consiga imprimir e conservar lisura, coerência e imparcialidade a todo o conjunto dos prêmios da instituição.

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