26 de jan de 2013

entrevista

uma entrevista minha ao ibahia, blog de literatura, aqui. agradeço a leonardo pastor.

O que a levou a tornar-se tradutora?
Traduzo para editoras desde 1984. Meu início na atividade foi meio circunstancial: sou historiadora de formação, dava aulas na Unicamp, a Brasiliense estava precisando de alguém para traduzir um livro de Perry Anderson, indicaram meu nome, fiz o teste solicitado pela editora, deu certo: isso foi em 1984. Passei a traduzir com frequência na área de história, filosofia e ciências humanas, até 1995. Depois de interromper a atividade por dez anos, em 2005 voltei a traduzir, agora tendo a tradução como atividade profissional exclusiva.

Quais os desafios da tradução?
Ah, inúmeros. Faz milênios que se discutem os problemas, possibilidades e limites da tradução. Pois como fazer uma transposição de significantes e significados, como se dizia antigamente, de uma língua para outra, de um lugar para outro, de um tempo para outro, sendo você mesmo um indivíduo historicamente situado diante de um texto historicamente situado de maneira diversa? E esta é a beleza, a grandeza da coisa, pois afinal, a despeito de tudo, traduz-se. Como diz Boris Schnaiderman, é um “ato desmedido”.
Tradutor é também autor? Por quê?
Não entro muito em questões metafísicas sobre a natureza autoral do traduzir. Tradutor é autor porque assim o determina a legislação. (Refiro-me a obras autorais, claro. A legislação também prevê vários tipos de textos que não são de natureza autoral, como decretos, contratos, regulamentos, manuais de procedimentos etc.)
Entendendo que o tradutor também é um autor, quais (ou qual) de suas obras de tradução foram mais desafiadoras?
Toda tradução apresenta algum grau, maior ou menor, de complexidade. Algumas obras que me pareceram especialmente interessantes não só pelo tipo de composição estrutural e/ou argumentativa, mas também pelas peculiaridades de estilo, foram Piero della Francesca de Roberto Longhi, Sobre a república de Hannah Arendt, Walden de Henry D. Thoreau e Ao farol de Virginia Woolf.
Qual o caso de plágio mais absurdo que você já percebeu? E como que os tradutores podem reivindicar um maior reconhecimento?
O mais cômico, realmente absurdo, foi a Ilíada de Homero, na inconfundibilíssima tradução de Manuel Odorico Mendes (1864), que a editora Martin Claret publicou em 2003, atribuindo-a a “Alex Marins”. Nada iguala tal bufonaria.
Quanto a um maior reconhecimento, achei muito interessante um protesto que vi outro dia no Facebook: a leitora havia recebido um e-mail de uma editora, divulgando o lançamento de uma obra sem mencionar o tradutor. Disse ela: “Mas sequer nos é informado o nome do tradutor!! Como leitora, sinto-me tratada pela editora como uma inepta, capaz de ceder a apelos de novidade, sem indagar minimamente sobre a qualidade do que é oferecido”.
Acho que é um pouco por aí: é mais do que hora que todas as editoras entendam que a tradução é elemento determinante para a qualidade de suas publicações – coisa que os leitores já sabem muito bem.
Como o leitor pode diferenciar uma boa de uma má tradução?
Difícil dizer. Existem traduções bem escritas, porém com equívocos de entendimento do texto original, assim como há traduções que mostram um decalque visível das estruturas sintáticas de origem, mas que em termos de aproximação semântica do original são bastante satisfatórias. Já vi leitores dizendo que a tradução tal ou tal era “péssima”, sendo que na verdade era uma excelente tradução – só que antiga, trazendo as marcas de sua época. Então, essa avaliação depende também das expectativas e características culturais dos vários públicos leitores.
O importante a frisar é que há sempre uma multiplicidade enorme de soluções possíveis e aceitáveis.
Quais as qualificações necessárias para se tornar um tradutor?
Gosto pela leitura, domínio do português bem sedimentado, domínio de outra(s) língua(s), uma bagagem razoável de cultura geral, facilidade de raciocínio lógico e analítico, capacidade de concentração, persistência e paciência.
Quais suas expectativas e esperanças em relação à tradução no Brasil?
Que continue a se ampliar o universo de obras traduzidas, de preferência com obras de relevância cultural minimamente duradoura. O Brasil continua a ser um país muito carente em traduções de textos importantes do chamado cânone ocidental, quem dirá de outras latitudes.


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