O que a levou a tornar-se tradutora?
Traduzo para editoras desde 1984. Meu início na atividade foi
meio circunstancial: sou historiadora de formação, dava aulas na Unicamp, a
Brasiliense estava precisando de alguém para traduzir um livro de Perry
Anderson, indicaram meu nome, fiz o teste solicitado pela editora, deu certo:
isso foi em 1984. Passei a traduzir com frequência na área de história,
filosofia e ciências humanas, até 1995. Depois de interromper a atividade por
dez anos, em 2005 voltei a traduzir, agora tendo a tradução como atividade
profissional exclusiva.
Quais os desafios da tradução?
Ah, inúmeros. Faz milênios que se discutem os problemas,
possibilidades e limites da tradução. Pois como fazer uma transposição de significantes
e significados, como se dizia antigamente, de uma língua para outra, de um
lugar para outro, de um tempo para outro, sendo você mesmo um indivíduo
historicamente situado diante de um texto historicamente situado de maneira
diversa? E esta é a beleza, a grandeza da coisa, pois afinal, a despeito de
tudo, traduz-se. Como diz Boris Schnaiderman, é um “ato desmedido”.
Tradutor é também autor? Por quê?
Não
entro muito em questões metafísicas sobre a natureza autoral do traduzir.
Tradutor é autor porque assim o determina a legislação. (Refiro-me a obras
autorais, claro. A legislação também prevê vários tipos de textos que não são
de natureza autoral, como decretos, contratos, regulamentos, manuais de
procedimentos etc.)
Entendendo que o tradutor também é um
autor, quais (ou qual) de suas obras de tradução foram mais desafiadoras?
Toda
tradução apresenta algum grau, maior ou menor, de complexidade. Algumas obras que
me pareceram especialmente interessantes não só pelo tipo de composição
estrutural e/ou argumentativa, mas também pelas peculiaridades de estilo, foram
Piero della Francesca de Roberto
Longhi, Sobre a república de Hannah
Arendt, Walden de Henry D. Thoreau e Ao farol de Virginia Woolf.
Qual o caso de plágio mais absurdo que
você já percebeu? E como que os tradutores podem reivindicar um maior
reconhecimento?
O mais
cômico, realmente absurdo, foi a Ilíada
de Homero, na inconfundibilíssima tradução de Manuel Odorico Mendes (1864), que
a editora Martin Claret publicou em 2003, atribuindo-a a “Alex Marins”. Nada
iguala tal bufonaria.
Quanto
a um maior reconhecimento, achei muito interessante um protesto que vi outro
dia no Facebook: a leitora havia recebido um e-mail de uma editora, divulgando
o lançamento de uma obra sem mencionar o tradutor. Disse ela: “Mas sequer nos é
informado o nome do tradutor!! Como leitora, sinto-me tratada pela editora como
uma inepta, capaz de ceder a apelos de novidade, sem indagar minimamente sobre
a qualidade do que é oferecido”.
Acho
que é um pouco por aí: é mais do que hora que todas as editoras entendam que a tradução
é elemento determinante para a qualidade de suas publicações – coisa que os
leitores já sabem muito bem.
Como o leitor pode diferenciar uma boa de
uma má tradução?
Difícil
dizer. Existem traduções bem escritas, porém com equívocos de entendimento do
texto original, assim como há traduções que mostram um decalque visível das
estruturas sintáticas de origem, mas que em termos de aproximação semântica do
original são bastante satisfatórias. Já vi leitores dizendo que a tradução tal
ou tal era “péssima”, sendo que na
verdade era uma excelente tradução – só que antiga, trazendo as marcas de sua
época. Então, essa avaliação depende também das expectativas e características
culturais dos vários públicos leitores.
O
importante a frisar é que há sempre uma multiplicidade enorme de soluções
possíveis e aceitáveis.
Quais as qualificações necessárias para se
tornar um tradutor?
Gosto
pela leitura, domínio do português bem sedimentado, domínio de outra(s)
língua(s), uma bagagem razoável de cultura geral, facilidade de raciocínio
lógico e analítico, capacidade de concentração, persistência e paciência.
Quais suas expectativas e esperanças em
relação à tradução no Brasil?
Que continue
a se ampliar o universo de obras traduzidas, de preferência com obras de
relevância cultural minimamente duradoura. O Brasil continua a ser um país
muito carente em traduções de textos importantes do chamado cânone ocidental,
quem dirá de outras latitudes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.