30 de abr de 2011

arendt e amis

com a devida vênia, reproduzo aqui o texto publicado na folha de s.paulo, ilustrada, em 30/04/11, disponível aqui para assinantes uol e fsp. trata-se de uma infeliz tentativa de resenha que nem mereceria maiores considerações, à qual só dedico espaço neste blog por solicitação de alguns colegas de twitter que não são assinantes uol ou fsp.

Amis ignora natureza humana, que Arendt tenta mudar

MARTIM VASQUES DA CUNHA
ESPECIAL PARA A FOLHA

"Você não pode mudar a natureza humana", afirmam ao russo Boris Lermontov, personagem de "Os Sapatinhos Vermelhos" (1948), filme da dupla Powell e Pressburger. "É verdade", ele diz. "Mas posso fazer algo melhor: ignorá-la." Alterar ou ignorar o ser humano? Essa é a questão secreta que une "Sobre a Revolução", de Hannah Arendt (1906-1975), e "A Viúva Grávida", de Martin Amis, 61.

O primeiro é um clássico da filosofia política que, após 30 anos da publicação original, se mostra mais interessante pelas imprecisões do que pelos raciocínios que deveria demonstrar. O segundo, lançado em 2010, mostra um escritor no domínio da forma romanesca e sem medo de tocar o dedo na ferida de quem acha que a revolução é um bom negócio.

Arendt medita sobre as revoluções políticas, com ênfase na Americana (1776) e na Francesa (1789), comparando uma com a outra, analisando as diferenças e, muitas vezes, querendo encontrar semelhanças que, no fim, não existiam. Já Amis dramatiza, no verão de 1970 em um castelo italiano, o ápice da "revolução sexual", por meio da história de Keith Nearing, erudito de 20 anos, sua namorada Lily e a amiga de ambos, Scheherazade, por quem Keith nutre uma profunda atração.

O que a não ficção complica, a ficção elucida com uma clareza peculiar; Amis vai além em relação aos teoremas de Arendt justamente porque não ignora a natureza humana. Ela não distingue ao leitor o que deveria ser a liberdade exterior de uma revolução que funda um novo governo e a liberdade interior de quem conquistou certas virtudes em relação aos assuntos obscuros do coração. Nas primeiras 30 páginas, elimina logo qualquer possibilidade de uma revolução ser analisada como um "fenômeno pseudo-religioso". Contudo, usa e abusa de metáforas como "à procura de um absoluto", "o lado sombrio da alma" e "paradigma transcendente".

Seria uma inadequação habitual para alguém que sempre acreditou no liberalismo imanentista e não percebeu que este também era uma pseudo-religião?

Além disso, ao comparar as revoluções Americana e Francesa, Arendt se preocupa em diagnosticar se a primeira perdurou porque criou uma Constituição que mantinha a liberdade política, enquanto a segunda não conseguiu nada disso. Na verdade, os americanos triunfaram na sua revolução porque respeitaram a natureza humana, com sua suspeita do poder e da moral antirreligiosa; já os franceses desejavam alterá-la a qualquer custo - mesmo em nome da liberdade. Martin Amis não cai nessa armadilha em seu romance. Narra um trauma sexual ocorrido no sonho de uma noite de verão que tornou-se um pesadelo niilista.

ESCRAVOS DAS EMOÇÕES

Os jovens do escritor inglês são escravos de suas emoções e sentimentos, vivendo uma mentira romântica disfarçada de sexo, literatura inglesa e conversas sem rumo. Quando a velhice surpreende a todos, o que resta é o passado que cresce igual a um tumor e o "memento mori" como a lição adiada há tempos. Afinal, não é o que todos ignoram quando se fala da natureza humana? O fato de que todos morrerão - e o mundo sempre preferirá o aumento do poder em vez do surgimento da liberdade?

Hannah Arendt e Martin Amis querem ver o que sobrou do ser humano com tantas revoluções sonhadas e vividas. Foi pouca coisa - e não há como ignorar isso.

MARTIM VASQUES DA CUNHA é editor da revista "Dicta&Contradicta" e doutorando pela USP.

SOBRE A REVOLUÇÃO
AUTOR Hanna Arendt
EDITORA Companhia das Letras
TRADUÇÃO Denise Bottmann
QUANTO R$ 65 (416 págs.)
AVALIAÇÃO bom

A VIÚVA GRÁVIDA
AUTOR Martin Amis
EDITORA Companhia das Letras
TRADUÇÃO Rubens Figueiredo
QUANTO R$ 45 (528 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo

7 comentários:

  1. "Amis vai além em relação aos teoremas de Arendt justamente porque não ignora a natureza humana"; a ideia de comparar os dois livros já é meio absurda; trechos como esse tornam completa a insensatez.

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  2. É uma verdadeira deseducação essa pseudo resenha. Muito lamentável.
    O dano que uma resenha como essa pode causar é tremendo. Words, words, words...

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  3. "os americanos triunfaram em sua revolução porque respeitaram a natureza humana (...); já os franceses desejavam alterá-la".
    Absurdo em duas mãos. É até engraçado ele apontar que é doutorando pela USP.

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  4. A baixíssima qualidade da maioria das resenhas da FSP são retrato do descaso do jornal para com a literatura. Esse é mais um exemplo de gente sem preparo que faz uma leitura apressada [quando chega ao fim do livro] e escreve com mais pressa ainda!

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  5. é, é lamentável. e fiquei ainda mais triste porque considero que On Revolution, escrito pós-Hungria 1956, traz quase um redespertar do otimismo de arendt, e seu ardente elogio ao "espírito revolucionário", expresso e PRESERVADO no sistema de conselhos.

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  6. É curioso que a comparação meio que cai do nada, não há sequer uma introdução para situar melhor os dois livros, e o texto é desconexo e rasteiro. Ele transforma Arendt e Amis em vítimas da banalidade do mal que é a banalidade.

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