20 de abr de 2011

coração das trevas II

comentei em coração das trevas a profusão de traduções dessa obra de conrad no brasil, e o recente lançamento da undécima delas pela editora landmark. dei uma olhada nessa edição: infelizmente, vem coalhada de erros de tradução, frases truncadas, falhas de entendimento, problemas de revisão, não restando muitos vestígios da elegância do original. para poupar aos leitores o desconforto e à editora o constrangimento, arrolo apenas alguns breves exemplos:

"Mind," he began again, lifting one arm from the elbow, ... so that ... he had the pose of a Buddha preaching in European clothes and without a lotus-flower
"Imaginem", ele começou novamente, libertando um dos braços a partir do cotovelo. ... assemelhando-se a um Buda que pregava, vestindo roupas europeias e a uma flor-de-lotus (p. 13)

I wouldn't have believed it of myself; but, then—you see—I felt somehow I must get there by hook or by crook. So I worried them. The men said 'My dear fellow,' and did nothing. Then—would you believe it?—I tried the women.
Eu mesmo não acreditava em mim; mas, vejam, que eu tinha que chegar lá a qualquer custo. Mas vocês acreditariam que eu tentei tudo isso através das mulheres? (p. 15)

I hastened to assure him I was not in the least typical. 'If I were,' said I, 'I wouldn't be talking like this with you.'
Apressei-me em assegurar-lhe que eu era uma pessoa muito comum. 'Se eu fosse especial', disse eu, 'não estaria conversando com você nesses termos.' (p.19)

I came upon a boiler wallowing in the grass
Deparei-me com uma caldeira deleitando-se sobre a relva (p. 23)

resumindo, minha opinião: não vale a pena.

edições brasileiras:
 
lpm: albino poli jr. 
cia. letras: sérgio flaksman

      itatiaia: regina r.junqueira
hedra: josé roberto o'shea

global: hamilton trevisan
nova alexandria: juliana l. freitas

nova alexandria: josé vicente bernardo
(adaptação juvenil)

iluminuras: celso paciornik                                                               ediouro: marcos santarrita

brasiliense: marcos santarrita

abril: celso paciornik                                                                biblioteca folha: celso paciornik

martin claret: luciano a. meira                                        landmark: fábio cyrino

a propósito, vale a pena ver o artigo de alfredo monte, "as margens derradeiras: 'aprisionados pelo inacreditável'", aqui.

atualização em 22/04/11: retificado com a inclusão da adaptação juvenil pela nova alexandria (josé vicente bernardo) e a capa correta da tradução de 2001, de juliana l. freitas. agradeço a alfredo monte.

10 comentários:

  1. Olá, Denise.

    Ainda não li "O coração das Trevas" e gostaria de saber: Qual tradução ainda em circulação você me recomendaria?

    Abraços.

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  2. olá, marcos: difícil escolher :-) entre as que conheço, gosto muito das de poli jr., o'shea e flaksman. não li a de paciornik, mas conheço outras traduções dele e é também um tradutor competentíssimo.
    não sou de dizer: "você tem que ler isso", "as cem obras que todos deveriam ler", ou coisas do gênero. mas para coração das trevas permito-me uma exceção: não deixe de ler. é assombroso!

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  3. Olá, Denise.

    Obrigado pela dica. Gosto muito do seu blog e acompanho as notícias de tradução - só que com enfoque maior para a tradução de poesia porque também escrevo. Lerei uma das traduções que recomendou e depois comento aqui novamente.

    Obrigado!

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  4. marcos, em poesia vale lembrar a epígrafe que o eliot usou em the hollow men: "mistah kurtz, he dead", citando conrad. vale também ler hollow men de acompanhamento!

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  5. Oi, Denise, você me poupou o trabalho de conferir mais esse desastre da Landmark. Eu tenho mania de checar as traduções de Heart of Darkness, pois creio que o texto é tão denso e rico que merece o máximo de versões (embora os motivos mercadológicos sejam mais vis: é o domínio público mesmo). Acho que as traduções de Marcos Santarrita, do Poli Jr. e a da Nova Alexandria (tirando a da Landmark) são as que deixam mais a desejar. Gosto especialmente da feita por Regina Regis Junqueira. Mas é importante compará-las. Agora: e a capa da edição "juvenil" tão flagrantemente racista?
    Um ótimo feriado e uma grande Páscoa.

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  6. olá, alfredo: "o texto é tão denso e rico que merece o máximo de versões" - concordo! e se nenhuma tradução é ingênua, por outro lado num clássico tão constantemente traduzido espera-se que as novas traduções consigam incorporar soluções mais densas e expressivas, penso eu...
    na do poli, gosto muito da fluência, acho excepcional. quanto ao santarrita, de fato, fico até triste...
    de que capa juvenil vc está falando?

    aliás, no quesito capas no brasil, que problema! os bons capistas deviam estar todos de férias...

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  7. realmente, quando você se depara com um livro mal traduzido é algo desestimulante. vergonha alheia, e ódio.

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  8. Oi, Denise, acho que vou dar uma rleida na tradução do Poli Jr., talvez eu tenha sido injusto. Quanto à edição juvenil, a Nova Alexandria tem duas traduções de CORAÇÃO DAS TREVAS; uma da Julita L. Freitas (aquela que eu não aprecio), e outra cuja capa você reproduziu, com um tipo acentuadamente negróide,arrastando o barco, e que é uma condensação juvenil do romance, se é que algo assim é possível. Essa capa é um horror porque parece cristalizar a versão do selvagem negro, não há um elemento crítico ali. Ou sou eu que estou politicamente correto demais?

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  9. ah! obrigada, alfredo, eu não sabia! sim, essa capa é pavorosa - além de feia, grotesca, estranha à obra, é descaradamente "racista".
    vou fazer o esclarecimento no post.

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  10. Rodrigo26.6.15

    Apesar de ter uma foto de capa, acho que esse livro nem existe na biblioteca Folha. No lugar dele foi lançado A Linha de Sombra, do mesmo autor. A descrição do livro no site da Folha não se decide se é sobre um ou outro, pois cita ambas as obras: http://biblioteca.folha.com.br/1/06/2002060801.html

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