22 de abr de 2011

de kipling a conrad


não sei se alguém já comentou isso (muito provavelmente sim): retomando heart of darkness nesses dias, não consigo deixar de ver um antecedente das palavras finais de kurtz, "o horror, o horror", nos olhos vítreos de pavor em outro coração das trevas, desta feita na índia colonial britânica, que kipling descreve em at the end of the passage.

a explicação que o criado indiano dá para a morte de seu sahib é:
Heaven-born, in my poor opinion, this that was my master has descended into the Dark Places, and there has been caught because he was not able to escape with sufficient speed.
acho esse conto belíssimo, sufocantemente sensível e apavorante, uma das melhores coisas de kipling. hummil não aguenta olhar o abismo, tortura-se para não dormir, mas o espectro da dissolução o toma mesmo assim. em heart of darkness, é como se conrad tivesse permitido a kurtz ir aonde hummil não pôde chegar. a despeito dos itinerários muito diversos de hummil e kurtz, a angústia do horror vivido pelos dois personagens me parece muito semelhante.

kipling tentou racionalizar o colonialismo como "o fardo do homem branco"; conrad foi um anti-imperialista convicto. mas
às vezes tenho a impressão de que falavam da mesma coisa.

aliás, a primeira frase do conto, citando entre aspas os direitos fundamentais da constituição americana em contraste patético-fulgurante com os quatro jogando uíste na colônia, me parece um dos inícios mais magistrais que conheço em literatura.

por fim, fala-se muito em coração das trevas e apocalipse now! - como não ver também the end of the passage no ventilador do teto do filme, fazendo tum, tum, tum (whining dolefully at each stroke) ao som de jim morrison, this is the end?

esse conto se encontra em português: "no fim do caminho", in rudyard kipling, o homem que queria ser rei e outras histórias, tradução de cristina carvalho boselli, pela record, sem data (pp. 158-78).

imagem: aqui
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6 comentários:

  1. Oi, Denise, veio em muito boa hora essa lembrança do Kipling, um autor sempre injustiçado com essa coisa do "fardo do homem branco", que o estigmatizou.
    Ah, quanto à edição !juvenil" de O CORAÇÃO DAS TREVAS com a capa "racista", após uma procura na minha biblioteca de babel (mais babélica após a mudança). achei e é uma condensação do texto feita por José Vicente Bernardo, com ilustrações de Rogério Nunes (Nova Alexandria, 2005).
    Abração

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  2. olá, refra :-)) curvo-me em agradecimento.

    obg, alfredo, já acrescentei e corrigi no post anterior, com o devido agradecimento tb :-)

    pode ser uma abominação o que vou dizer, mas a pergunta é: será que às vezes se leva em conta o que também podia significar o PESO do fardo na frase de kipling? ou ficou apenas como um slogan imperialista tout court?

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  3. Até porque, se há algo para o que a qualificação de "justa" não serve, é para a história.

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  4. Muito obrigado pela dica, Denise. Embora tenha o livro de Kipling com esse conto, ainda não tive tempo de lê-lo. Contudo, vou colocá-lo na minha lista de leituras urgentes.

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  5. olá, bruce - esse conto costuma ser incluído entre as "histórias de fantasmas" do kipling, mas creio que vc pode abstrair o rótulo - é tão "fantasmagórico" quanto, sei lá, the turn of the screw. a questão mesmo, a meu ver, são as sombras do abismo, na linha do conrad.

    bom proveito!

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