28 de mai de 2011

vasari

.

fiquei encantada com a notícia de que as vidas de vasari vão sair em setembro pela wmf, em tradução de ivone benedetti, escritora, dicionarista e doutíssima tradutora de grandes clássicos como baltasar gracián e charles d'orléans. será a edição de 1550 (a primeira; em 1568, vasari publicou uma edição revista e bastante ampliada das vidas). sem dúvida é um trabalho de magnitude ímpar, e mal consigo esperar para me deleitar com ele.

outra excelente noticia é que luiz marques, historiador da arte, ex-curador do masp, docente da unicamp, terá publicada sua tradução da vida de michelangelo buonarroti, também de vasari, numa edição extensamente anotada, pela editora da unicamp.

alguns anos atrás, federico e eu brincamos um pouco com o vasari: detivemo-nos justamente no michelangelo, mas também em da vinci e mais uns dois ou três. segue uma amostra.


Vida de Michelangelo Buonarotti
Florentino
Pintor, escultor e arquiteto

     Enquanto os industriosos e insignes espíritos iluminados pelo famosíssimo Giotto e seus seguidores esforçavam-se em apresentar ao mundo o valor que a benevolência das estrelas e a harmoniosa mescla dos humores haviam dado a seus engenhos e, desejosos de imitar com a excelência da arte a grandeza da natureza, debalde penavam universalmente para se acercar ao máximo daquele sumo saber que muitos chamam de inteligência, o mui benigno Senhor dos céus volveu clemente os olhos para a terra e, vendo a vã infinidade de tantas labutas, os estrênues estudos sem fruto algum e a opinião pretensiosa dos homens, muito mais distante da verdade do que as trevas da luz, para libertar-nos de tantos erros decidiu enviar à terra um espírito que fosse hábil em todas as artes e todos os ofícios, dedicando-se sozinho a mostrar a perfeição da arte do desenho no traço, no contorno, na sombra e na luz para dar relevo às coisas da pintura, a trabalhar com reto discernimento na escultura, e a tornar as residências cômodas e seguras, salubres, alegres, harmoniosas e ricamente adornadas na arquitetura. Quis também dotá-lo da verdadeira filosofia moral, com o ornamento da doce poesia, para que o mundo o elegesse e admirasse como seu excelso espelho na vida, nas obras, na pureza dos costumes e em todas as ações humanas, e para que o denominássemos como ser mais celestial do que terreno. E como viu que no exercício desses ofícios e nestas singularíssimas artes, isto é, a pintura, a escultura e a arquitetura, os engenhos toscanos sempre foram, dentre os outros, sumamente grandes e elevados, por serem eles muito observantes da prática e do estudo de todas as faculdades, mais do que qualquer outro povo da Itália, quis dar-lhe como pátria Florença, digníssima entre as demais cidades, para completar merecidamente sua perfeição em todas as virtudes por meio de um cidadão seu.
     Portanto, em Casentino, sob fatídica e feliz estrela nasceu de nobre e honesta mulher, no ano de 1474, um filho de Lodovico di Lionardo Buonarotti Simoni, descendente, ao que consta, da nobilíssima e antiquíssima família dos condes de Canossa. A Lodovico, que naquele ano era o encarregado do castelo de Chiusi e Caprese, próximo a Sasso della Vernia, onde são Francisco recebeu os estigmas, na diocese de Arezzo, nasceu pois um filho no sexto dia de março, um domingo, por volta das oito horas da noite, ao qual deu o nome de Michelangelo, pois, sem se deter para pensar e por inspiração do alto, entendeu ser ele coisa celeste e divina, além do comum dos mortais, como mais tarde se viu nas figuras de seu nascimento, estando Mercúrio e ingressando Vênus na casa de Júpiter em posição propícia, o que mostrava que de suas realizações, por arte da mão e do engenho, iriam resultar obras maravilhosas e esplêndidas. Encerrado o mandato, Lodovico retornou a Florença, e no vilarejo de Settignano, a três milhas da cidade, onde ele possuía uma herdade de seus antepassados (lugar cheio de pedras e repleto de cantarias de arenito, continuamente exploradas por canteiros e escultores, que em sua maioria nascem naquele local), Lodovico confiou Michelangelo aos cuidados da esposa de um canteiro. Por isso, certa vez conversando com Vasari, Michelangelo disse de brincadeira: “Giorgio, se tenho algo de bom em meu engenho, foi por ter nascido no ar penetrante de sua região de Arezzo, e também porque extraí do leite de minha ama o malho e os cinzéis com que faço as figuras”.
     Com o tempo, o número de filhos de Lodovico aumentou bastante; sendo modesto e com poucas rendas, ele foi encaminhando os filhos para a Arte da Lã e da Seda, e Michelangelo, já crescido, foi enviado à escola de gramática com o mestre Francesco da Urbino; como seu engenho o levava a gostar de desenho, ele aproveitava todo o tempo que tirava às escondidas para desenhar, por isso levando repreensões e às vezes palmadas do pai e de seus superiores, os quais talvez considerassem que dedicar-se a esse dom que lhes era desconhecido seria coisa baixa e indigna de sua antiga família. Naquela época Michelangelo tinha travado amizade com Francesco Granacci, também jovem, que se instalara com Domenico del Ghirlandaio para aprender a arte da pintura; assim, como Granacci gostava muito de Michelangelo e via seu grande talento para o desenho, trazia-lhe diariamente desenhos de Ghirlandaio, o qual tinha a fama, não só em Florença, mas em toda a Itália, de ser um dos melhores mestres existentes. Com isso, a cada dia aumentando a vontade de Michelangelo, e não podendo Lodovico impedir que o rapaz se dedicasse ao desenho, e não havendo remédio, ele resolveu a conselho de amigos, para obter algum fruto e para que o filho aprendesse aquela arte, colocá-lo na oficina de Domenico Ghirlandaio.

aqui o original na edição giuntina (1568)

VITA DI MICHELAGNOLO BUONARRUOTI
FIORENTINO
PITTORE, SCULTORE ET ARCHITETTO
    
     Mentre gl'industriosi et egregii spiriti col lume del famosissimo Giotto e de' seguaci suoi si sforzavano dar saggio al mondo del valore che la benignità delle stelle e la proporzionata mistione degli umori aveva dato agli ingegni loro, e desiderosi di imitare con la eccellenza dell'arte la grandezza della natura, per venire il più che potevano a quella somma cognizione che molti chiamano intelligenza, universalmente, ancora che indarno, si affaticavano, il benignissimo Rettore del cielo volse clemente gli occhi alla terra, e veduta la vana infinità di tante fatiche, gli ardentissimi studii senza alcun frutto e la opinione prosuntuosa degli uomini, assai più lontana dal vero che le tenebre dalla luce, per cavarci di tanti errori si dispose mandare in terra uno spirito, che universalmente in ciascheduna arte et in ogni professione fusse abile, operando per sé solo a mostrare che cosa sia la perfezzione dell'arte del disegno nel lineare, dintornare, ombrare e lumeggiare, per dare rilievo alle cose della pittura, e con retto giudizio operare nella scultura, e rendere le abitazioni commode e sicure, sane, allegre, proporzionate e ricche di varii ornamenti nell'architettura. Volle oltra ciò accompagnarlo della vera filosofia morale, con l'ornamento della dolce poesia, acciò che il mondo lo eleggesse et ammirasse per suo singularissimo specchio nella vita, nell'opere, nella santità dei costumi et in tutte l'azzioni umane, e perché da noi più tosto celeste che terrena cosa si nominasse. E perché vide che nelle azzioni di tali esercizii et in queste arti singularissime, cioè nella pittura, nella scultura e nell'architettura, gli ingegni toscani sempre sono stati fra gli altri sommamente elevati e grandi, per essere eglino molto osservanti alle fatiche et agli studii di tutte le facultà, sopra qualsivoglia gente di Italia, volse dargli Fiorenza, dignissima fra l'altre città, per patria, per colmare al fine la perfezzione in lei meritamente di tutte le virtù per mezzo d'un suo cittadino.
     Nacque dunque un figliuolo sotto fatale e felice stella nel Casentino, di onesta e nobile donna, l'anno 1474 a Lodovico di Lionardo Buonarruoti Simoni, disceso, secondo che si dice, della nobilissima et antichissima famiglia de' conti di Canossa. Al quale Lodovico, essendo podestà quell'anno del castello di Chiusi e Caprese, vicino al Sasso della Vernia, dove San Francesco ricevé le stimate, diocesi aretina, nacque dico un figliuolo il sesto dì di marzo, la domenica, intorno all'otto ore di notte, al quale pose nome Michelagnolo, perché non pensando più oltre, spirato da un che di sopra volse inferire costui essere cosa celeste e divina, oltre all'uso mortale, come si vidde poi nelle figure della natività sua, avendo Mercurio, e Venere in seconda, nella casa di Giove, con aspetto benigno ricevuto, il che mostrava che si doveva vedere ne' fatti di costui, per arte di mano e d'ingegno, opere maravigliose e stupende. Finito l'uffizio della podesteria, Lodovico se ne tornò a Fiorenza, e nella villa di Settignano, vicino alla città tre miglia, dove egli aveva un podere de' suoi passati (il qual luogo è copioso di sassi e per tutto pieno di cave di macigni, che son lavorati di continovo da scarpellini e scultori, che nascono in quel luogo la maggior parte), fu dato da Lodovico Michelagnolo a balia in quella villa alla moglie d'uno scarpellino. Onde Michelagnolo ragionando col Vasari una volta per ischerzo disse: “Giorgio, si' ho nulla di buono nell'ingegno, egli è venuto dal nascere nella sottilità dell'aria del vostro paese d'Arezzo, così come anche tirai dal latte della mia balia gli scarpegli e 'l mazzuolo con che io fo le figure”.
   Crebbe col tempo in figliuoli assai Lodovico, et essendo male agiato e con poche entrate, andò accomodando all'Arte della Lana e Seta i figliuoli, e Michelagnolo, che era già cresciuto, fu posto con maestro Francesco da Urbino alla scuola di gramatica; e perché l'ingegno suo lo tirava al dilettarsi del disegno, tutto il tempo che poteva mettere di nascoso lo consumava nel disegnare, essendo per ciò e dal padre e da' suoi maggiori gridato e tal volta battuto, stimando forse che lo attendere a quella virtù non conosciuta da loro, fussi cosa bassa e non degna della antica casa loro. Aveva in questo tempo preso Michelagnolo amicizia con Francesco Granacci, il quale anche egli giovane si era posto appresso a Domenico del Grillandaio per imparare l'arte della pittura, là dove amando il Granacci Michelagnolo e vedutolo molto atto al disegno, lo serviva giornalmente de' disegni del Grillandaio, il quale era allora reputato non solo in Fiorenza, ma per tutta Italia de' migliori maestri che ci fussero. Per lo che crescendo giornalmente più il desiderio di fare a Michelagnolo, e Lodovico non potento diviare che il giovane al disegno non attendesse, e che non ci era rimedio, si risolvé, per cavarne qualche frutto e perché egli imparasse quella virtù, consigliato da amici, di acconciarlo con Domenico Grillandaio.

aqui a edição Torrentino (1550, 131 vidas); aqui a edição Giunto (1568, 178 vidas).
.

3 comentários:

  1. Olá. Meu nome é Mayara, faço curso de Jornalismo e estou fazendo uma matéria sobre direitos autorais.
    Descobri o blog e gostaria de saber se é possível um contato para uma pequena entrevista, por e-mail mesmo, sobre o tema. O blog defende a lei de direitos autorais?

    Fico no aguardo.
    Obrigada.

    ResponderExcluir
  2. ola, mayara, este blog, que opera sob a licença Creative Commons, defende a revisão e modernização de nossa atual lei de direito autoral. você pode consultar na coluna à direita, no arquivo, "direito autoral", "fnda" e "abdr".
    meu e-mail, constante no link da edição, é dbottmann@uol.com.br

    abraço
    denise

    ResponderExcluir
  3. ops, e também os posts arquivados em "revisão lda", no arquivo da coluna à direita.

    ResponderExcluir

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.