8 de mai de 2011

ivo barroso, o corvo e suas traduções

num contraste que pode ser interessante, retomo aqui um grande marco nos estudos comparados d'o corvo no brasil: o corvo e suas traduções, de ivo barroso. a obra foi publicada originalmente em 1998, pela nova aguilar, com segunda edição ampliada em 2000. está esgotada há alguns anos, e recebi a ótima notícia de que em breve será relançada pela leya.

ivo barroso, poeta, crítico literário e tradutor, defende uma posição muito diferente da adotada por claudio weber abramo em o corvo: gênese, referências e traduções do poema de edgar allan poe (hedra, 2011). mas numa avaliação ambos parecem concordar: a qualidade lítero-tradutória d'o corvo de milton amado. abramo apresenta a tradução de milton amado às pp. 120-24 de seu livro, considerando-a "uma tentativa valorosa" que constitui "um verdadeiro tour de force" - o que, em sua pena econômica em elogios, não me parece pouca coisa.

em 2009, eu tinha publicado um artigo de ivo barroso sobre essa tradução. reproduzo-o aqui.


A PRIMEIRA DETERMINAÇÃO


Havia alguns tradutores injustiçados, que eu simplesmente venerava. Faria o que estivesse a meu alcance para promovê-los, para divulgar suas qualidades ímpares. O primeiro deles seria Mílton Amado, autor de uma tradução inigualável do poema O Corvo, de Edgar Allan Poe. A primeira vez que a li, sem ainda conhecer o original, senti que estava diante de uma organização poética perfeita: ritmo, linguagem, dramaticidade.

O posterior cotejo com o original veio corroborar minha sensação primitiva: toda a angústia, grandeza, euforia, exaltação que Poe me transmitia em inglês retinia, ecoava, revivia nos versos de Milton. E quem era ele? Um desconhecido e tímido jornalista mineiro que sempre vivera esmagado pela estreiteza intelectual da província; pobre, marginalizado, sem que ninguém lhe reconhecesse o talento. Seu nome sequer constava nas obras de Poe como o tradutor dos versos. O que aparecia em letras grandes era o de Oscar Mendes, tradutor dos contos (aliás de parte dos), da prosa do genial Edgar Allan. O crédito a Milton, quando havia, era em corpo mínimo, escondido, escamoteado. Consegui a informação de que a viúva e seu filho Eugênio (também tradutor) moravam em Belo Horizonte. Procurei-os lá e soube que Milton pegava com Oscar Mendes traduções para fazer e em geral quem levava as honras era este último. Apesar de suas inúmeras traduções, as assinadas apenas com seu nome, Milton Amado, eram o Dom Quixote e as Fábulas de La Fontaine (Milton fez em vida o 1º volume e Eugênio terminou o 2º). Falei-lhes de minha intenção de escrever um pequeno ensaio provando com argumentos críticos que a tradução de O Corvo, feita por Milton, era superior às conhecidas de Machado de Assis e de Fernando Pessoa. Os direitos autorais da 1ª edição reverteriam para a família.

Os direitos autorais da tradução de Milton (as traduções eram vendidas aos editores) pertenciam à Nova Aguilar e foi a ela que propus a publicação de meu ensaio, que saiu em 1ª edição em 1998, com um entusiástico prefácio de Carlos Heitor Cony. Ele não conhecia a tradução de Milton e ficou encantado quando a viu. Escreveu uma crônica na Folha, que despertou a atenção de seus inúmeros leitores. Eu fazia um cotejo da tradução de Milton com a dos outros autores que então conhecia: Machado, Pessoa, Emílio de Meneses, Gondim da Fonseca, Benedito Lopes e Alexei Bueno. Acrescentei as duas famosas francesas, de Baudelaire e de Mallarmé. O livro vendeu bem, a família ficou contente, a editora pensou logo numa 2ª edição. Já a esta altura (2000) haviam chegado muitas informações e colaborações. Foram acrescentadas as de Jorge Wanderley e a de Didier Lamaison (em francês) e mencionadas mais as seguintes: a de Alfredo Ferreira Rodrigues (várias, a mais antiga de 1914), a de João Inácio Padilha, a de Aluísio Mendonça Sampaio, a de Sérgio Duarte, a de Luís Carlos Guimarães, a de Vinícius Alves e a (ótima) de Diego Raphael. Intimei meu amigo Didier Lamaison a dotar sua língua de uma tradução em versos do grande poema; tanto Baudelaire quanto Mallarmé o haviam feito em prosa, o que, na minha opinião, invalidava a possibilidade de transmitir o ritmo, a beleza das rimas tríplices, a grandiloquência declamatória do poema. Não se podia esquecer que Poe, em seus últimos anos, vivia de declamar em público a sua criação magistral. Didier aceitou o repto e reproduziu, em francês, a façanha que Milton Amado conseguira em português. Se, com minhas traduções de escritores gauleses, tenho prestado, ainda que indiretamente, algum serviço cultural à França, ter sido o instigador dessa genial tradução foi para mim o trabalho que seria mais digno de encômio.#

Ivo Barroso

atualização em 27/2/2012: finalmente sai a aguardada reedição do livro. agradeço o toque de tiago pavan, da livraria 30 por cento, aqui.

5 comentários:

  1. Olá, Denise.

    Certamente a tradução de Amado é a que mais se aproxima da dicção do poema original. As traduções de Pessoa e Machado apresentam lances inventivos, mas deixam a desejar no que diz respeito ao original e o "Transcorvo" de Augusto de Campos é ótimo, mas é outro poema.

    Abraços.

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  2. Como tradução, a de Amado é de fato magnífica. Eu particularmente adoro O Corvo de Machado, mas considero-o um poema totalmente diferente.

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  3. Há ainda duas outras traduções onde Barroso e Claudio possuem o mesmo posicionamento: Benedito Lopes e Emílio de Menezes. Os dois não veem com bons olhos as traduções em sonetos (principalmente a de Benedito Lopes).

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  4. Denise, saiu este mês a reedição d'O corvo e suas traduções: http://30porcento.com.br/detalhes.php?proc=9788580442571

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  5. Paulo Sinclair17.6.12

    A traduçaõ de Milton é incomparável, Machado e Pessoa concordariam que suas traduções ficam como um irmão menor desta do Milton, e o que nas deles carregam algum algum brilho é pelo genio criativo dos dois.
    Fica impossivel ler uma outra sem cair no sorriso de gratidão pela magistral tradução de Milton Amado, e como numa pintura, se se olha para ela e ela não de diz nada é porque seus olhos não alcançam sua alma, e essa traduçao é exatamnente isso, ou há uma conexão imediata com suas minucias de joalheria ou há que se dar mais tempo para um despertar.

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