10 de mai de 2011

poe, baudelaire e machado

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Claudio Weber Abramo, em O Corvo, aponta o abeberamento de Machado de Assis em Le Corbeau, de Charles Baudelaire, para sua tradução do poema de Poe, The Raven. A indicação me parece relevante, não para desmerecermos, claro, mas para entendermos melhor alguns soluções machadianas, ainda mais em se tratando de um clássico de nosso patrimônio tradutório de influência tão grande e duradoura.

Essa rota de contorno, prossegue Abramo, viria a se refletir nas traduções de Emílio de Menezes e Benedito Lopes, "tendo ainda se replicado em trechos da versão de Rubens Francisco Lucchetti, decerto oriundos da leitura de Machado de Assis" (p. 15).

Eis alguns dos exemplos dados à p. 77 ss.: bleak December como B. "glacial décembre" e M. "glacial dezembro"; each separate dying ember wrought its ghost upon the floor: em B. "chaque tison brodait à son tour le planchet du reflet de son agonie", M. "cada brasa do lar sobre o chão refletia a sua última agonia"; of the saintly days of yore em B. como "digne des anciens jours" e em M. como "digno de antigos dias"; Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly, inversão mal entendida por B., que dá "Je fus émerveillé que ce disgracieux volatile entendît si facilment la parole", que reaparece em M. como "Vendo que o pássaro entendia a pergunta que eu lhe fazia"; This I sat engaged in guessing, em B. ampliado como "Je me tenais ainsi, rêvant, conjecturant" e em M. como "Assim posto, devaneando, meditando, conjecturando".

O original e as duas traduções se encontram com facilidade na rede: The Raven, Le Corbeau, O Corvo.
.A

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