13 de mai de 2011

o bálsamo de gileade

Outro aspecto que Claudio Weber Abramo aponta em seu ensaio sobre O Corvo é "uma possível gênese bíblica e anacreôntica para a narrativa de Poe" (p. 15). A poeana brasileira tem imensas lacunas, e essa sugestão, desenvolvida no capítulo "Fontes" (pp. 43-56), parece promissora. 

 O capítulo se inicia com a transcrição de Jeremias 8:22, conforme a Bíblia do rei Jaime: Is there no balm in Gilead; is there no physician there? why then is not the health of the daughter of my people recovered? (p. 43) Inspirada pela citação, atraiu-me no poema o verso que remete diretamente a ela - a quinta linha da 15a. estrofe, quando o personagem pergunta ao Corvo: Is there - is there balm in Gilead? O escopo da análise de Abramo é bem mais amplo, mas essa menção explícita ao bálsamo de Gileade - que justamente deve ter servido, imagino eu, de ponto de partida para a hipótese mais abrangente do autor - dá mesmo margem a supor que a presença de Jeremias em The Raven não é episódica nem circunstancial. E, nessa linha de raciocínio, eu arriscaria: tampouco seria à toa que, nesta e na estrofe seguinte, o personagem se dirige ao Corvo chamando-o de Profeta.




Balm of Gilead, balm of Mecca, Mecca balsam; baume de Galaad, baume de Judée, baume de la Mecque; bálsamo de Gilead(e), bálsamo de Galaad, bálsamo da meca, bálsamo da Judeia, os nomes variam. (Baudelaire e mais tarde Mallarmé usaram baume en Judée.)

 Sempre consultando o utilíssimo site de Elson Fróes, para "balm in Gilead" temos:
  • Machado de Assis: um bálsamo no mundo
  • Alfredo R. Rodrigues: o bálsamo ... do esquecimento
  • João Kopke: lenitivo que a [a dor] acalme
  • Emílio de Menezes: algum repouso, algum consolo
  • Fernando Pessoa: um bálsamo longínquo
  • Gondim da Fonseca: bálsamo em Galaad
  • Milton Amado: um bálsamo em Galaad
  • Benedito Lopes: na Judeia um bálsamo
  • José Luiz de Oliveira: um bálsamo pra dor
  • Rubens F. Lucchetti: um bálsamo da Judeia
  • Alexei Bueno: um bálsamo em Galaad
  • João Inácio Padilha: no mundo um bálsamo
  • Sergio Duarte: algum bálsamo
  • Edson Negromonte: o bálsamo de Galaade
  • Odair Creazzo Jr.: tem Galahad bálsamo
  • Aluysio M. Sampaio: bálsamo em Galaad
  • Luís C. Guimarães: um bálsamo em Galaad
  • Helder da Rocha: bálsamo em Gileade
  • Vinícius Alves: o bálsamo em Galaad
  • Diego Raphael: bálsamo em Galaad
  • Eduardo A. Rodrigues: um bálsamo em Galaad
  • Carlos Primati: o bálsamo
  • Isa Mara Lando: um bálsamo ali
  • Margarida Vale de Gato: em Galaad há consolo
  • Alskander Santos: bálsamo
  • Thereza C. R. da Motta: bálsamo na Esperança
  • Raphael Soares: bálsamo em outros mares

5 comentários:

  1. De acordo com minha experiência de leitor de Poe e da Bíblia (mais da segunda), só consigo ver duas possibilidades de ligação entre The Raven e o livro sagrado cristão
    - 1ª Possibilidade: relação aleatória
    - 2ª Possibilidade: relação equivocada

    A passagem em questão está em um contexto diferente do bíblico (um contexto mais popular da expressão) e a simbologia é exatamente a oposta. Isso sem comentar as outras analogias incomuns ou equivocadas como:
    - Prophet!/thing of evil
    - unseen censer/Swung by seraphim
    - Whether Tempter sent/tell me truly

    Mas um equívoco acho importante destacar dos demais que é quanto à má interpretação de Poe em relação ao Édem.

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  2. prezado elaphar: é evidente que temas bíblicos não estão presentes em poe em termos de paráfrases nem em alguma das quase infinitas exegeses das escrituras. se quiser, pode considerá-los refratados fragmentariamente, em negativo e em sentido muito torturado. a propósito,uma informação biográfica: poe era sabidamente um conhecedor bastante razoável da bíblia.
    há quem interprete the raven como uma cerimônia de invocação das forças do mal (desde o verso sobre os estranhos livros de saberes de outrora, que muitos entendem como referência a livros de magia negra). você deve saber que um dos ritos demonistas é a inversão de imagens cristãs, por exemplo. pessoalmente, em minhas parcas leituras de poe não chego a essa linha de interpretação, embora reconheça uma certa plausibilidade em alguns aspectos.

    em todo caso, a presença de elementos bíblicos em poe é uma vasta discussão, que ocupa inúmeros estudos, com milhares de páginas escritas a respeito. no brasil, onde praticamente inexistem estudos poeanos, o que eu diria é que talvez seja um tanto precipitado julgar que as referências bíblicas em sua obra sejam relações aleatórias ou equivocadas.

    abraço
    denise

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  3. denise, dei uma olhada no site do fróes
    e fiquei curioso: de que forma ele o ajuda na questão das traduções?

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  4. olá, eduardo.

    desculpe, não entendi muito bem a pergunta.

    o site de elson fróes me parece muito útil como arquivo de traduções. no caso de obras que dispõem de várias traduções em português, é bastante trabalhoso localizá-las uma a uma. neste sentido, o site dele me parece uma preciosidade para o pesquisador, facilitando muito a consulta, visto que todas ou quase todas as traduções daquela obra específica (no caso, o corvo) estão reunidas no mesmo local.

    posso lhe garantir que isso poupa meses, se não anos, de trabalho de pesquisa.

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  5. oi de novo, eduardo: na resposta anterior comentei o interesse do site de elson fróes para os pesquisadores de história da tradução no brasil, que é mais especificamente minha área de interesse.

    para a atividade de tradução propriamente dita, um site com arquivo das traduções já existentes pode ser útil se e quando o tradutor tem interesse em conhecer soluções adotadas por outros tradutores.

    já para os estudiosos de teoria e prática de tradução, o site pode ser muito útil para poderem analisar os diversos tratamentos dados a uma obra. e por fim, também é útil na área de crítica de tradução literária, como fazem, por exemplo, ivo barroso, claudio w. abramo e outros, área na qual também me aventuro um pouco.

    em suma, o grande valor que vejo no site de fróes é como um ótimo arquivo, prático, de fácil acesso, bem montado, e que me parece bastante completo.

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