9 de mai de 2011

sons n'o corvo

Quem acompanha meu trabalho em Lendo Walden sabe como sou obsessiva com as questões de sentido, nuances, referências, alusões, jogos de palavras etc. numa prosa de grande densidade literária como é Walden. Já poesia, sempre considerei outro universo, talvez acostumada à tradição mais estetizante ou formalista, que não raro coloca a ênfase sobre a rima, o metro, o ritmo, por vezes sacrificando sentidos mais próximos do original. Em todo caso, mesmo evitando o terreno poético, sou do parecer de que uma obra constitui uma unidade e que o autor é responsável por suas escolhas, as quais, como tradutora, devo respeitar.

Claudio Weber Abramo, em seu ensaio recentemente publicado pela editora Hedra, coloca o problema da tradução poética nos seguintes termos: "Dada a impossibilidade de se manter paralelismo simultâneo entre ritmos/melodias e significados numa tradução, qual dimensão deve ser preferencialmente preservada? Excluindo como irrazoável a declaração de que ambas devem ser obedecidas, o tradutor precisa fazer uma escolha" (p. 22). Sua posição é clara: ele defende a "tradução com compromisso semântico". Naturalmente admite que traduções "métricas", isto é, estruturadas em arcabouço rítmico-melódico, "podem ser excelentes enquanto poesia", ressalvando: "o que não significa necessariamente que sejam boas como traduções" (p. 13). "Boas como traduções"... esta é a grande questão, a questão "filosófica", que Abramo trata na seção "Relativismo e Universalismo" (pp. 20-24) - sem entrar nessa discussão infindável e, no fundo, indecidível, concordo com Abramo que "todo problema relacionado à tradução é um problema prático".

Isso me leva a um exemplo concreto das tarefas que enfrenta um tradutor. Há um verso em The Raven que diz: Swung by seraphim whose foot-falls tinkled on the tufted floor (segundo verso da 14a. estrofe).

Bom, começa que até 1848, em vez de seraphim, o verso trazia angels, mas tudo bem.* A questão é o verbo: tinkled. To tinkle: tilintar, tinir, designando um tipo de sonoridade muito específico, em geral alto ou distinto e penetrante, que embute a ideia de repetição, como pulseiras que se entrechocam, um guizo que bate, uma campainha que toca, moedas que (justamente) tilintam umas contras as outras, ou mesmo um dedilhado ao piano, por exemplo. O que faz o tradutor diante desse tinkled? Preserva-o? Considera-o secundário? Passos tilintando ou ressoando no chão atapetado (e um tapete felpudo, tufted, ainda por cima)... Despropositado?

Nas várias traduções disponíveis no site de Elson Fróes, dez omitem a passagem e, portanto, a sonoridade descrita no verso. Outras mantêm a passagem com um verbo pouco "sonoro": roçando, roçar, roçagando, pousassem, deslizaram, revoa, revoando, bem de leve pisavam, tropeçou ("cujo pé tropeçou", talvez erro de entendimento de foot-falls). Outras preservam a referência sonora ou rítmica, com maior ou menor grau de generalidade: ressoavam, ressoavam, roçassem em cadência, soam musicais, dando passos musicais, ressoavam cadenciais, passasse com passos musicais, tinindo passos frenéticos (?) e tilintaram.

Aqui reproduzo um trecho de uma carta de Poe, de 15 de dezembro de 1848, explicando a um crítico o uso de tinkled:
Your objection to the tinkling of the footfalls is far more pointed, and in the course of composition occurred so forcibly to myself that I hesitated to use the term. I finally used it, because I saw that it had, in its first conception, been suggested to my mind by the sense of the supernatural with which it was, at the moment, filled. No human or physical foot could tinkle on a soft carpet — therefore the tinkling of feet would vividly convey the supernatural impression. This was the idea, and it is good within itself; but if it fails (as I fear it does) to make itself immediately and generally felt according to my intention — then in so much is it badly conveyed, or expressed. [negrito meu, DB]*
Ainda a propósito do tinkle deste verso, Poe teria se inspirado em Isaías 3:16 (CWA, p. 46 e n.). Claro está que, nos passos das filhas de Sião, eram os ornamentos dos tornozelos que tilintavam ao andar delas. No caso dos serafins do verso, seriam seus próprios pés a ressoar sem que o som fosse abafado pelo tapete, o que de fato é um pouco difícil de entender: daí a impressão sobrenatural pretendida por Poe. O detalhe não me parece trivial.

* Em 1848, Poe altera angels para Seraphim; na versão derradeira (1849), modifica para seraphim, em minúscula. Ver histórico das diversas versões de The Raven.
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