19 de out de 2011

huck finn, de novo

dando uma olhada nos novos cadastros de publicações da martin claret em nossa fundação biblioteca nacional, vejo que um dos mais recentes é uma reedição de as aventuras de huckleberry finn, de mark twain, em pretensa tradução de outro inefável colaborador da casa, quase tão prolífico quanto pietro nassetti: "alex marins".



a respeito dessa bizarra "tradução", veja aqui e aqui.

12 comentários:

  1. Fabrizio Lyra21.10.11

    Boa Noite, Denise. Em primeiro lugar, quero dizer que estou descobrindo o seu blog hoje e, para mim, está sendo um imenso prazer ler tudo o que está aqui. Sou um ávido leitor que já compra e devora literatura há mais de 20 anos e devo ter por volta de cinco mil livros em casa. A única lingua estrangeira que conheço é o inglês que está longe de ser fluente. Mas, quando era bem mais jovem, me sentia paranóico com essa questão de tradução. Muito perfeccionista em tudo, não aceitava perder nada na versão para minha lingua. Hoje sei que não pode ser bem assim. No entanto, apesar de estar muito distante de ser um estudioso da tradução, sou um consumidor de cultura que busca a melhor qualidade possível em um produto. Sei que estou dizendo algo que parece óbvio, mas falo para mostrar que mesmo não sendo um teórico da tradução procuro acompanhar o máximo que posso dentro desse processo. E já faço isso há muitos anos. Sempre procuro saber o currículo de um tradutor antes de comprar um livro. Antigamente isso não era muito fácil mas, hoje, com a internet facilita muito. No entanto, esse é um problema que está longe de ser resolvido. E já vai aqui uma sugestão para as editoras: a obrigação de colocar, mesmo que de forma resumida, a trajetória de seus tradutores. Algumas fazem isso, mas a maioria, infelizmente, não têm esse procedimento. Dito isso, gostaria de saber se é possível eu tirar dúvidas com você por e-mail sobre tradutores que não conheço antes de comprar um livro e sanar as dúvidas sobre a qualidade de algumas traduções que tenho aqui. Se não for possível a comunicação por e-mail, postarei minhas dúvidas aqui, se você permitir. Existem várias elementos dos quais já sou muito conhecedor, mas ainda são diversas as dúvidas, pois tenho um material imenso e muitas colocações sobre textos e tradutores que acumulei ao longo dos anos.

    Abraços, muito obrigado e parabéns pelo excelente trabalho!

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  2. olá, fabrizio, muito obrigada pela generosa apreciação: fico muito contente que o blog possa ser útil.

    estou a seu dispor, claro, no que estiver ao meu alcance.

    abraço
    denise

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  3. Fabrizio Lyra22.10.11

    Bem, como sou ator, começarei com certas dúvidas que tenho em relação a teatro. Em primeiro lugar, não sei se existe matéria aqui nesse blog (como o descobri muito recentemente, ainda faltam muitos posts para ler) sobre a história das traduções de Shakespeare no Brasil. Antigamente eu era muito saudosista em relação às traduções. O saudosismo, como sabemos, é um traço do ser humano: de venerar o passado em detrimento do presente. Então eu dava mais valor aos tradutores do passado. Então, em relação a Shakespeare, eu comecei lendo as traduções de Carlos Alberto Nunes da Ediouro na década de 80. Comprei toda a coleção e li quase todas as obras. Achava incrível aquela tradução tão poética e bela de Nunes. Muitos termos de um português arcaico tão em desuso me traziam todo um mistério e charme do passado. Mas, apesar de continuar gostando dessas traduções, com o passar do tempo e, especialmente depois que me tornei ator de teatro, as considerei muito cansativas, datadas e completamente fora de condições para serem ditas por atores da atualidade. O mesmo vale para quase todas, senão todas, as traduções feitas até a década de 60, pelo menos. Então recentemente comecei a recomprar todo o Shakespeare através das traduções de Beatriz Viégas-Faria e Millôr Fernandes na L&PM. E li comparações sobre todas as traduções shakespearianas em sites da internet. Li entrevistas e descobri a biografia da professora Beatriz e a tenho considerado brilhante e, hoje, ela está em minha mais alta consideração como tradutora. Creio que a minha escolha foi acertada. Gostaria de saber a sua opinião, se você concorda com minha atual opção de leitura de Shakespeare, se poderia me sugerir outros tradutores do Bardo e também sobre o procedimento, segundo o site http://www.letras.puc-rio.br/shakespeare/pdfs/traducoes_publicadas_por_peca.pdf ,de se utilizar a estratégia tradutória da prosa coloquial como Millor ou em prosa como Beatriz e não em prosa e versos decassílabos heróicos como Carlos Alberto Nunes ou Prosa e versos decassílabos como Barbara Heliodora. Abraço e obrigado.

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  4. prezado fabrizio: gosto muito do trabalho de pesquisa da profa. márcia de amaral peixoto martins na puc-rio, sobre a fortuna histórica de shakespeare no brasil e já o indiquei algumas vezes neste blog.
    sim, as traduções de carlos alberto nunes são notoriamente "inencenáveis" - belíssimo trabalho poético, sem dúvida, mas não para o palco, pelo visto. não conheço bem shakespeare nem tenho muita familiaridade com a arte teatral, mas até onde sei de fato as traduções de beatriz e de millôr têm esse grande mérito, entre muitos outros, de fazer belas traduções mais "encenáveis". o pouco que li de bárbara heliodora também me parece muito bonito, conseguindo essa proeza de uma tradução em versos que se preste ao palco. como minha preocupação central neste blog são as apropriações indébitas de traduções, vc não encontrará nada muito específico seja sobre teatro, seja sobre shakespeare (que, como disse, não são áreas que domino). mas o post http://naogostodeplagio.blogspot.com/2009/05/otelo-comparado.html traz dados que me parecem interessantes, extraídos da tese de márcia paredes, sob orientação de márcia peixoto.
    abraço
    denise

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  5. Fabrizio Lyra23.10.11

    Obrigado, Denise. Outra dúvida que tenho é sobre a tradução de livros policiais do passado. Sou fã da antiga literatura de mistério, a da chamada época de ouro que vai até os anos 40. Antigamente havia muitas coleções de mistério no Brasil que publicavam os maiores autores e existe um livro do grande especialista no assunto Paulo de Medeiros e Albuquerque que relaciona todas elas até a década de 80 quando ele faleceu. Infelizmente quase nenhum desses autores é publicado atualmente a exceção de Agatha Christie, Conan Doyle e Rex Stout. Dashiell Hammett e Raymond Chandler são de outra escola, a do Hard Boiled, então não levarei em consideração os nomes deles. Gostaria muito e já pedi às editoras que esses autores do passado que fizeram a alegria de milhares e seriam descobertos com prazer pelos jovens de hoje fossem reeditados. Acredito que as traduções seriam muito melhores. Pedi por e-mail e rezo para que a L&PM os publique. Nomes como Edgar Wallace, Ellery Queen, John Dickson Carr (amaria que publicassem todos os livros dele, pois ele foi um dos maiores!), Margery Allingham, Ngaio Marsh e muitos outros. Tenho dúvida quanto a qualidade de muitas traduções, mas não tendo como ler em inglês e ávido pelas obras desses autores me vejo obrigado a comprar nos sebos sempre que os vejo, mesmo em traduções duvidosas, pois não existem outras. Minhas maiores dúvidas são quanto às traduções de Edgar Wallace pela tecnoprint nos anos 70. todas tem tradução de Ayres Carlos de Souza e são fartamente vendidas em sebos. Não consegui descobrir nada sobre esse tradutor na internet. Apenas que ele trabalhou nessa editora nos anos 70. Comparando com as traduções da Francisco Alves na Coleção Horas em Suspense nos anos 80 (que creio serem mais confiáveis) existem diferenças nos textos, omissões de trechos. Compare-se por exemplo as traduções de "A Serpente de Plumas". No princípio, o texto da Tecnoprint tem omissões. Outra coleção que parece estranha é a Coleção Vampiro. Ela apresenta um catálogo de autores que maravilha qualquer fã do romance policial. Mas tenho edições dela, dos anos 50, em que ela aparece ora como publicação da editora coluna, ora da Edigraf, sempre com traduções de Jacob Penteado e José Maria Machado, os mesmos que assinam todas as traduções do clube do livro (e já vi um post sobre as traduções de José Maria Machado do clube do livro aqui). Porém nos anos 70 e 80, a coleção vampiro volta como sendo portuguesa e com tradutores que desconheço completamente. Também é fartamente vendida em sebos, pois, repito, os fãs não tem como encontrar os grandes mestres da época de ouro em outro lugar. Paulo de Medeiros e Albuquerque nem cita essas coleções em seus livros e suspeita que as traduções da Edigraf e coluna são mal feitas e, talvez, faltando trechos. Outra grande coleção é a da Ellery Queen Mistery Magazine da Editora Globo, com maravilhosos autores, mas que nem cita o nome dos tradutores. Paulo de Medeiros e Albuquerque cita como marco nas coleções de mistério a famosa Coleção Amarela da Editora Globo que circulou dos anos 30 aos 50. Porém, apesar de contar com tradutores famosos como Érico Veríssimo e Marina Guaspary, não sei da qualidade das traduções. Sei que apresentam muitos erros de pontuação (vírgulas em toda parte e colocação de travessões que nos fazem não saber qual personagem está falando). Continua...

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    1. Boa tarde. Só para lhe informar Ayres Carlos de Souza, além de tradutor e pessoa discreta, falava e traduzia em 8 idiomas. Além de livros como o citado, traduzia também técnicos. Dava aula no EMFA e no IMPA. Só porque não achaste nada na internet, não quer dizer que as traduções não são confiáveis. Meu nome é Sérgio Bopp de Souza. Por gentileza respeitem a memória de meu pai. Ah! Sou neto de Raul Bopp, creio que ouviu falar dele. Escritor, diplomata e membro da ABL. Abraço

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    2. Boa tarde. Só para lhe informar Ayres Carlos de Souza, além de tradutor e pessoa discreta, falava e traduzia em 8 idiomas. Além de livros como o citado, traduzia também técnicos. Dava aula no EMFA e no IMPA. Só porque não achaste nada na internet, não quer dizer que as traduções não são confiáveis. Meu nome é Sérgio Bopp de Souza. Por gentileza respeitem a memória de meu pai. Ah! Sou neto de Raul Bopp, creio que ouviu falar dele. Escritor, diplomata e membro da ABL. Abraço

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    3. Boa tarde. Só para lhe informar Ayres Carlos de Souza, além de tradutor e pessoa discreta, falava e traduzia em 8 idiomas. Além de livros como o citado, traduzia também técnicos. Dava aula no EMFA e no IMPA. Só porque não achaste nada na internet, não quer dizer que as traduções não são confiáveis. Meu nome é Sérgio Bopp de Souza. Por gentileza respeitem a memória de meu pai. Ah! Sou neto de Raul Bopp, creio que ouviu falar dele. Escritor, diplomata e membro da ABL. Abraço

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    4. ótimo sérgio bopp, excelente mesmo. agradeço a gentileza e as informações. de fato, é muito importante que elas circulem e sejam divulgadas, até para que as pessoas possam encontrar algo na internet, hoje em dia um instrumento muito usado para localizar pelo menos algumas referências ao nosso passado.

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  6. Fabrizio Lyra23.10.11

    ontinuação do comentário anterior... Ouvi dizer também que como Érico Veríssimo detestava Edgar Wallace (no que discordo inteiramente dele), ele modificava o texto, tentando melhorá-lo, em vez de simplesmente traduzir. E várias traduções de Wallace de Érico Veríssimo foram republicadas pela Cultrix nos anos 70 e também são muito vendidas em sebos. Uma vez também li duas versões de O Rei da Noite de Edgar Wallace, uma pela Francisco Alves e outra pela também famosa coleção ParaTodos da Companhia Editora Nacional e os textos são muito diferentes. Desculpe a prolixidade, mas ainda existem muitos casos que poderia citar e creio que é um tópico importante para esse blog, pois além de traduções ruins, podem haver muitas fraudes e plágios também. E isso também pesa no bolso dos fãs que compram esses livros em sebos. Como disse, espero que editoras sérias como a L&PM, que está dando um show de profissionalismo, preencham essa lacuna e reeditem esses autores. Abraço.

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  7. nossa, fabrizio, de fato é um mundo todo! não sei se talvez seja o caso, mas a coleção vampiro em portugal é publicada pela livros do brasil, não?
    a livros do brasil costuma (ou costumava) licenciar e publicar traduções brasileiras em portugal.
    mas se, como vc diz, são tradutores totalmente diferentes, aí não sei dizer. já vi edições da livro do brasil com o nome do tradutor brasileiro e do adaptador português, ambos como responsáveis pela tradução. mas já vi também (por exemplo, thomas mann, a montanha mágica, na tradução de herbert caro) com "tradução revista por fulana", significando a adaptação do texto dele ao português lusitano.

    jacob penteado, até onde sei, era muito sério: além de tradutor, era essencialmente organizador de coleções e coletâneas.

    há um livro interessante, de sônia maria de amorim, "em busca de um tempo perdido", que já indiquei algumas vezes aqui no blog, que traz a relação (não sei se completa) dos livros da coleção amarela da globo, com seus respectivos tradutores - de fato, respeitáveis!

    nos anos 80, a globo (já na nova gestão) até relançou a coleção amarela: tenho uns boileau-narcejac e sax rohmer de 1987 lançados por ela, mas não cheguei a acompanhar a coleção, e não sei se teve continuidade.

    mas vc tem razão: infelizmente, nessa linha de literatura policial e sobretudo em magazines, às vezes o descuido editorial era grande mesmo... é torcer para que a globo, a lpm ou outra editora séria retome essa linha mais clássica.

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  8. Fabrizio Lyra23.10.11

    Obrigado mais uma vez, Denise. Sim, os livros portugueses que tenho da coleção Vampiro são da Edição "Livros do Brasil" Lisboa. Peguei três exemplares aqui de um autor clássico muito popular e bastante publicado por eles: Erle Stanley Gardner. Autor excelente, muitas vezes subestimado como Edgar Wallace, talvez pela prolixidade, mas de muito sucesso, haja vista a longa série de televisão americana "Perry Mason". Os exemplares que tenho a minha frente nesse momento são: "O caso do cheque fatídico", tradução de Mascarenhas Barreto; "O caso do soro da verdade", tradução de Eduardo Saló e O "caso da virgem vagabunda", tradução de L.D.Almeida Campos. Todos são exemplares da coleção vampiro, edições da "Livros do Brasil", Lisboa e em nenhum deles vêm nome de tradutor brasileiro, apenas o do tradutor português.
    Quero também fazer um comentário em relação ao que falei de ter ouvido dizer que Érico Veríssimo detestava Edgar Wallace e melhorava o texto dele, modificando a tradução. Em momento algum, estou acusando o nosso grande escritor e tradutor de ter feito isso. Infelizmente não tenho a fonte dessa informação. Há muitos anos li em pé em livrarias em duas ocasiões diferentes sobre esse fato. Na primeira, li de um autor que conheceu Érico e que afirma que na época em que ele trabalhava na editora Globo na década de 30, ficava cansado de traduzir textos de Edgar Wallace que ele achava muito ruim e, em certa momento, resolveu melhorar o texto. Sei que uma afirmação dessas deve ter a fonte citada mas confesso que não me lembro o nome do autor e nem do livro em que li isso. Apenas tenho isso de memória e faço questão de afirmar isso aqui para que em nada a memória do grande Érico seja difamada. Em outro texto do próprio Érico Veríssimo, que também não me lembro qual é, ele coloca Edgar Wallace como um dos piores exemplos de literatura, mas nunca vi qualquer afirmação dele e nem prova de que ele tivesse alterado os textos do autor inglês. Repito: sei que afirmações como essa devem ter a fonte citada mas, no calor de expor uma situação séria como a da história das traduções dos livros de mistério no Brasil, essas lembranças me vieram a mente e, talvez precipitadamente, acabei citando-as. Mas antes que qualquer pessoa me acuse de irresponsavelmente difamar a memória do grande homem que foi Érico, esclareço tudo aqui como fiz no que disse acima. Discordo da opinião dele sobre Edgar Wallace, mas afirmo e reafirmo ter sido uma honra para o grande escritor inglês ter sido traduzido pelo grande mestre brasileiro e uma honra e imensa satisfação para os fãs do escritor londrino como eu lerem livros de Edgar Wallace traduzidos por Érico que é um de nossos patrimônios culturais.

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