5 de mai de 2014

drummond sobre tradução

muito interessante a introdução de júlio castañón guimarães a poesia traduzida, volume que enfeixa 64 poemas traduzidos por carlos drummond de andrade, disponível aqui.

org. júlio castañón guimarães e augusto massi 
cosac naify/ 7 letras, 2011



2 comentários:

  1. SONETOS HEREDIANOS

    I

    Era bom traduzir os sonetos de Herédia
    a poder de martelo, altas horas da noite.
    No suplício da forma um sabor de comédia
    testará o animal que na treva se acoite.

    O desfecho (in)feliz envolve-se na média
    de galas esmagadas. Qualquer um que se afoite
    nos meandros do 'mot' há de soltar as rédeas
    ao cavalo interior, carente de pernoite.

    A língua, inda sangrando em cacos de palavras
    que jamais tornarão à virtude primeira,
    pergunta (ou quase que), após servido o chá.

    E o bardo, recalcando aporias escravas,
    silente se recolhe à furna derradeira.
    Ninguém que me responda: Herédia ou Herediá?

    ANDRADE, Carlos Drummond de. In: "Amar se aprende amando"

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  2. SONETOS HEREDIANOS

    II

    A concha de Heredia encanta e contagia
    o brasílio Parnaso. O verbo alexandrino
    reluz em facho de ouro, e a noite se faz dia
    por artes do cantor e seu sabor ladino.

    Ingrato, o nosso idioma, e por isso mais fino
    o triunfo verbal que ao público extasia:
    vulva 'frêle et navrée', num lance cristalino,
    expõe-se, esplendorosa, em sua plena magia.

    Palmas ao tradutor, esforçado xavante,
    guarani culto e sábio ou famoso tupi,
    mestre no deglutir, em quarteto e terceto,

    o sol, o sal, a cor que iguais eu nunca vi,
    embora nosso herói se confesse ofegante,
    depois de haver parido um alheio soneto.

    ANDRADE, Carlos Drummond. In: "Amar se aprende amando"

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