25 de mai de 2014

os tomates e a feira

o falecimento de garcía márquez trouxe em sua esteira vários comentários sobre a tradução de sua obra no brasil (inclusive um dele mesmo, coisa penosa, que comentei outro dia aqui).

o interessante - e enriquecedor, sem dúvida, mas também curioso, ao mesmo tempo - é a percepção que parece emanar difusamente de vários comentários: como se tradução fosse uma espécie de pinga-pinga, algo no varejo, que se pega como um tomate na feira e se examina para ver se tem uma pintinha aqui, uma pintinha ali, que se aperta para ver se está firme ou molengato, e assim por diante.

por ocasião da morte de garcía márquez, nas dezenas de comentários nas redes sociais sobre suas obras no brasil, senti falta de uma noção mais "conteudística", mais viva e dinâmica do que é essa coisa chamada tradução. tradução NÃO é o tomate na feira; se for para manter a metáfora, tradução é A FEIRA.

entre outras coisas, tradução é, como diz saramago, o que torna internacional uma literatura nacional; outra coisa que tradução também é, é agente formador de cultura, cultura daquela língua ou país que acolhe e processa em seu interior elementos de outra cultura.

nesse sentido, e voltando a garcía márquez, se um tradutor seu tropeça num gallinazo e acha que é uma galinha, outro se engasga com uma astromélia da qual nunca ouviu falar e imagina que é uma flor inventada pelo autor, e assim por diante, tudo isso pode nos fazer enrubescer ou gargalhar, pode servir de mote para deboche por parte de alguns mais impacientes, seja o que for, mas não passa de uma baciada (ou de simples punhado) de meros faits-divers.

não quero diminuir de maneira nenhuma a importância de apontar erros, lapsos, falhas de tradução em geral para o aprimoramento constante e a consolidação de uma maior sensibilidade do ofício perante o original - quem me conhece, sabe bem qual é meu ponto de vista a respeito.

mas, numa ocasião dessas, tão propícia a uma espécie de avaliação ou balanço do vulto literário de garcía márquez, muito mais interessante, a meu ver, seria procurar entender de maneira mais ampla e mais concreta sua presença no brasil por intermédio da tradução: não se deter na pintinha do tomate, mas enxergar o movimento da feira.

sobre as traduções de garcía márquez no brasil, veja aqui.

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