3 de jul de 2009

animais, irracionais

comentei antes que o dicionário filosófico de voltaire teve uma vida atribulada, e foi publicado na frança em sucessivas edições corrigidas e ampliadas, que variam de 73 a mais de 500 verbetes. mostrei também que a publicação dessa obra pela martin claret, como de hábito plagiando traduções anteriores, é além do mais uma montagem grotesca de diferentes traduções disponíveis em português, provenientes por sua vez de diferentes edições francesas.

uma das mais ridículas fraudes que a editora utilizou nesta obra foi o plágio do mesmo verbete em duas traduções distintas. assim, por exemplo, o artigo bêtes aparece na tradução de líbero rangel de tarso com o título de irracionais. já a tradução portuguesa de bruno da ponte e joão lopes alves usa o título animais. a editora martin claret tem o despudor de copiar ambas as traduções como se fossem dois verbetes independentes de voltaire.

o leitor de boa fé, que naturalmente confia no livro que está lendo, chega à conclusão de que "essa questão de crueldade contra os animais ... foi tão veementemente combatida por VOLTAIRE que nesse Dicionário Filosófico lhe são dedicados dois verbetes: o primeiro 'animais' e, o segundo, 'irracionais'".

com suas tortuosas e sinistras táticas de anular a obra e a figura do tradutor por trás de cópias e simulacros, fantasmas e vendilhões de carne e osso, a editora martin claret acaba por demonstrar cabalmente que cada obra de tradução tem uma identidade própria. diga-se de passagem que essa identidade é protegida pelo código civil e pela legislação dos direitos autorais. e é por isso que as práticas ilícitas maciçamente empregadas pela editora martin claret são "caso de polícia", valendo-lhe a instauração de inquérito policial por determinação do ministério público do estado.

seguindo o mote do duplo verbete no estropiado dicionário filosófico da editora martin claret, apresento sua própria demonstração prática da impossibilidade de existirem duas traduções iguais.

I.
ANIMAIS

Imbecilidade é afirmar que os animais são máquinas destituídas do conhecimento e de sentimentos, agindo sempre de igual modo, e que não aprendem nada, não se aperfeiçoam e daí por diante!
Talvez seja... Nesse caso esse pardalzinho que constrói o ninho em semicírculo quando o prende a uma parede, que o constrói num quarto de círculo quando o faz num ângulo e em círculo num ramo de árvore – faz sempre de maneira igual? O cão de caça amestrado, que ensinaste a obedecer-te durante três meses, porventura não estará sabendo mais ao término desse período do que sabia no início das lições? Dedicando-te a ensinar uma melodia a um canário, será que ele repete-a logo no mesmo instante? Por acaso não levarás um certo tempo até o animalzinho a decorar? Veja [sic] como ele se engana, com freqüência, e só vai se corrigindo com o tempo?
Apenas por eu ser dotado de fala é que julgas que tenho sentimentos, memória, idéias? Ora, nada te direi. No entanto, vês-me entrar em casa com um ar preocupado, aflito, andar a procurar um papel qualquer com nervosismo, abrir a secretária onde me recorda tê-lo guardado, encontrá-lo afinal, lê-lo jubilosamente. Imaginas que passei de um sentimento de aflição para outro de prazer, que sou possuidor de memória e conhecimento.
Agora, pegue [sic] esse teu raciocínio, por comparação, e transfere para aquele cão que se perdeu do dono, que o procura por todos os lados soltando latidos dolorosos, que entra em casa, agitado, inquieto, que sobe e que desce, percorre as casas, umas após outras, até que acaba, finalmente, por encontrar o dono de que tanto gosta no gabinete dele e ali lhe manifesta a sua alegria pela ternura dos latidos, em pródigas carícias.
Esse animal, que excede o homem em sentimentos de amizade, é pego por algumas criaturas bárbaras, que pregam-no numa mesa, dissecam-no vivo ainda, para te mostrar as veias mesentéricas. No corpo deste animal encontras todos os órgãos das sensações que também existem em ti. Acaso ainda atreve-te a argumentar, se fores capaz, que a natureza colocou todos estes instrumentos do sentimento no animal, para que ele não possa sentir? Dispõe de nervos para manter-se impassível? Será que não te ocorre ser por demais impertinente essa contradição da natureza?
Os mestres-escola perguntam todavia o que é e onde está a alma dos animais? Eu estranho tal pergunta. Pois que uma árvore tem a propriedade de receber nas suas fibras a seiva que nelas circula, de desabrochar os botões e criar os seus frutos, e ainda me haveis [sic] de perguntar o que é a alma dessa árvore? A árvore é beneficiária de alguns dons, como o animal é beneficiário de outros, dos do sentimento, da memória, de um certo número de idéias. Todavia, quem criou todos esses dons? Quem lhes concedeu todas essas faculdades? Só pode ser aquele que faz crescer a erva nos campos e gravitar a Terra em torno do Sol.
Aristóteles afirmou: As almas dos animais são formas substanciais. Posterior a Aristóteles, a escola árabe; depois da escola árabe, a escola angélica; e, depois da escola angélica, a Sorbonne, e, depois da Sorbonne, mais ninguém no mundo.
Outros filósofos proclamam: As almas dos animais são materiais. Sem, contudo, obter mais sucesso que os primeiros. Sempre em vão é que se lhes perguntou o que é uma alma material. Viram-se forçados a convir que é matéria passível de sensações. E quem foi que deu tal matéria? Trata-se de uma alma material, quer dizer, trata-se de matéria que dá sensações à matéria – e não saem deste círculo vicioso.
Agora, prestem [sic] atenção a outros animais discutindo a respeito de animais. A alma destes é um ser espiritual que morre com o corpo. Que provas tendes [sic] disto? Que idéia fazeis desse ser espiritual que, por conseguinte, experimenta sentimentos e sensações, memória, e a sua dose de idéias e de combinações de idéias, mas que nunca poderá vir a saber o que é uma criança de seis anos? De que forma imaginais que esse ser, que não tem corpo, pereça com o corpo? Entretanto, de todos, os maiores animais continuam sendo aqueles que afirmaram que a tal alma não é corpo nem espírito. Que sistema engenhoso! Nesse caso apenas podemos encarar como espírito algo de desconhecido que não é corpo. Logo, o sistema destes cavalheiros vem a concluir que a alma dos animais é uma substância que não é corpo nem outra coisa qualquer que seja ainda menos que um corpo.
De onde se originam tantos e tão contraditórios despautérios? Só pode ser do hábito que os homens sempre tiveram de examinar e definir o que é uma coisa, antes de saber se ela existe. É costume denominar-se à lingüeta, que é a válvula dum fole, a alma do fole. Que alma vem a ser esta? Simplesmente um nome que dei a essa válvula, que desce, sobe, deixa entrar o ar e impele-o para um canudo, quando aperto o fole. Pois que ali não há alma nenhuma distinta do instrumento. No entanto, quem faz mover a válvula dos animais? Isso eu já disse: é aquele que faz mover os astros. Deus est anima brutorum. O filósofo que fez tal afirmação tinha razão. Todavia, não devia ter considerado o assunto encerrado.

(martin claret, capítulo 8, pp. 30-32, em nome de pietro nassetti: em verdade, uma adulteração rude e atamancada - incapaz de se decidir entre o "tu", o "você", o "vós" e o "vocês" - da tradução de bruno da ponte e joão alves lopes, ed. presença, portugal, licenciada para ed. abril cultural, coleção "os pensadores", pp. 96-97)


II.
IRRACIONAIS

Que ingenuidade, que pobreza de espírito, dizer que os irracionais são máquinas privadas de conhecimento e sentimento, que procedem sempre da mesma maneira, que nada aprendem, nada aperfeiçoam!
Então aquela ave que faz seu ninho em semicírculo quando o encaixa numa parede, em quarto de círculo quando o engasta num ângulo e em círculo quando o pendura numa árvore, procede aquela ave sempre da mesma menira? Esse cão de caça que disciplinaste não sabe mais agora do que antes de tuas lições? O canário a que ensinas uma ária, repete-a ele no mesmo instante? Não levas um tempo considerável em ensiná-lo? Não vês como ele erra e se corrige?
Será porque falo que julgas que tenho sentimento, memória, idéias? Pois bem, calo-me. Vês-me entrar em casa aflito, procurar um papel com inquietude, abrir a escrivaninha, onde me lembro tê-lo guardado, encontrá-lo, lê-lo com alegria. Percebes que experimentei os sentimentos de aflição e prazer, que tenho memória e conhecimento.
Vê com os mesmos olhos esse cão que perdeu o amo e procura-o por toda parte com ganidos dolorosos, entra em casa agitado, inquieto, desce e sobe e vai de aposento em aposento e enfim encontra no gabinete o ente amado, a quem manifesta sua alegria pela ternura dos ladridos, com saltos e carícias.
Bárbaros agarram esse cão, que tão prodigiosamente vence o homem em amizade, pregam-no em cima de uma mesa e dissecam-no vivo para mostrar-te suas veias mesaraicas. Descobres nele todos os mesmos órgãos de sentimentos de que te gabas. Responde-me, maquinista, teria a natureza entrosado nesse animal todos os órgãos do sentimento sem objetivo algum? Terá nervos para ser insensível? Não inquines à natureza tão impertinente contradição.
Perguntam os mestres da escola o que é então a alma dos irracionais. Não entendo a pergunta. A árvore tem a faculdade de receber em suas fibras a seiva que circula, de desenvolver os botões das folhas e dos frutos: perguntar-me-eis o que é a alma das árvores? Ela recebeu estes dons. O animal foi contemplado com os dons do sentimento, da memória, de certo número de idéias. Quem criou esses dons? Quem lhes outorgou essas faculdades? Aquele que faz crescer a erva dos campos e gravitar a Terra em torno do Sol.
As almas dos brutos são formas substanciais, disse Aristóteles e depois de Aristóteles a escola árabe, depois da escola árabe a escola angélica, depois da escola angélica a Sorbonne e depois da Sorbonne ninguém.
As almas dos brutos são materiais, proclamaram outros filósofos, nem mais nem menos felizes que os primeiros. Em vão perguntou-se-lhes o que é alma material: precisam convir em que é a matéria que sente. Mas quem deu sensibilidade à matéria? Alma material... Quer dizer que é a matéria que dá sensibilidade à matéria. E não saem desse círculo.
Ouvi outra sorte de irracionais racionando [sic] sobre os irracionais: A alma dos brutos é um ser espiritual que morre com o corpo. Que prova tendes disso? Que idéia concebeis desse ser espiritual que em verdade tem sentimento, memória e sua medida de idéias e associações, mas que jamais poderá saber o que sabe uma criança de dez anos? Os maiores irracionais são os que aventarem não ser essa alma nem corpo nem espírito. Aí está um curioso sistema. Não podemos entender por espírito senão algo desconhecido e incorporal: a isso pois reduz-se o sistema desses senhores: a alma dos seres brutos é uma substância nem corporal nem incorporal.
A que atribuir tantos e tão contraditórios erros? Ao vezo que sempre tiveram os homens de querer saber o que seja uma coisa antes de saber se existe. Dizemos a lingüeta, o batoque do fole, a alma do fole. Que é essa alma? Um nome que dei à válvula que, quando toco o fole, baixa e sobe para dar entrada e saída ao ar.
O fole não tem alma de espécie alguma. É simplesmente uma máquina. Quem toca, porém, o fole dos animais? Já o disse: aquele que move os astros. Tinha razão o filósofo que disse: Deus est anima brutorum. Mas devia ter ido mais longe.

(martin claret, capítulo 78, pp. 319-21, em nome de pietro nassetti, mas na verdade uma cópia literal da tradução de líbero rangel de tarso, atena editora, pp. 219-21)

BÊTES
Quelle pitié, quelle pauvreté, d’avoir dit que les bêtes sont des machines privées de connaissance et de sentiment, qui font toujours leurs opérations de la même manière, qui n’apprennent rien, ne perfectionnent rien, etc.!
Quoi; cet oiseau qui fait son nid en demi-cercle quand il l’attache à un mur, qui le bâtit en quart de cercle quand il est dans un angle, et en cercle sur un arbre; cet oiseau fait tout de la même façon? Ce chien de chasse que tu as discipliné pendant trois mois n’en sait-il pas plus au bout de ce temps qu’il n’en savait avant tes leçons? Le serin à qui tu apprends un air le répète-t-il dans l’instant? n’emploies-tu pas un temps considérable à l’enseigner? n’as-tu pas vu qu’il se méprend et qu’il se corrige?
Est-ce parce que je te parle que tu juges que j’ai du sentiment, de la mémoire, des idées? Eh bien! je ne te parle pas; tu me vois entrer chez moi l’air affligé, chercher un papier avec inquiétude, ouvrir le bureau où je me souviens de l’avoir enfermé, le trouver, le lire avec joie. Tu juges que j’ai éprouvé le sentiment de l’affliction et celui du plaisir, que j’ai de la mémoire et de la connaissance.
Porte donc le même jugement sur ce chien qui a perdu son maître, qui l’a cherché dans tous les chemins avec des cris douloureux, qui entre dans la maison, agité, inquiet, qui descend, qui monte, qui va de chambre en chambre, qui trouve enfin dans son cabinet le maître qu’il aime, et qui lui témoigne sa joie par la douceur de ses cris, par ses sauts, par ses caresses.
Des barbares saisissent ce chien, qui l’emporte si prodigieusement sur l’homme en amitié; ils le clouent sur une table, et ils le dissèquent vivant pour te montrer les veines mésaraïques. Tu découvres dans lui tous les mêmes organes de sentiment qui sont dans toi. Réponds-moi, machiniste, la nature a-t-elle arrangé tous les ressorts du sentiment dans cet animal, afin qu’il ne sente pas? a-t-il des nerfs pour être impassible? Ne suppose point cette impertinente contradiction dans la nature.
Mais les maîtres de l’école demandent ce que c’est que l’âme des bêtes. Je n’entends pas cette question. Un arbre a la faculté de recevoir dans ses fibres sa sève qui circule, de déployer les boutons de ses feuilles et de ses fruits; me demanderez-vous ce que c’est que l’âme de cet arbre? Il a reçu ces dons; l’animal a reçu ceux du sentiment, de la mémoire, d’un certain nombre d’idées. Qui a fait tous ces dons? qui a donné toutes ces facultés? celui qui a fait croître l’herbe des champs, et qui fait graviter la terre vers le soleil.
Les âmes des bêtes sont des formes substantielles, a dit Aristote; et après Aristote, l’école arabe; et après l’école arabe, l’école angélique; et après l’école angélique, la Sorbonne; et après la Sorbonne, personne au monde.
Les âmes des bêtes sont matérielles, crient d’autres philosophes. Ceux-là n’ont pas fait plus de fortune que les autres. On leur a en vain demandé ce que c’est qu’une âme matérielle; il faut qu’ils conviennent que c’est de la matière qui a sensation mais qui lui a donné cette sensation? c’est une âme matérielle, c’est-à-dire que c’est de la matière qui donne de la sensation à la matière; ils ne sortent pas de ce cercle.
Écoutez d’autres bêtes raisonnant sur les bêtes; leur âme est un être spirituel qui meurt avec le corps: mais quelle preuve en avez-vous? quelle idée avez-vous de cet être spirituel, qui, à la vérité, a du sentiment, de la mémoire, et sa mesure d’idées et de combinaisons, mais qui ne pourra jamais savoir ce que sait un enfant de six ans? Sur quel fondement imaginez-vous que cet être, qui n’est pas corps, périt avec le corps? Les plus grandes bêtes sont ceux qui ont avancé que cette âme n’est ni corps ni esprit. Voilà un beau système. Nous ne pouvons entendre par esprit que quelque chose d’inconnu qui n’est pas corps ainsi le système de ces messieurs revient à ceci, que l’âme des bêtes est une substance qui n’est ni corps ni quelque chose qui n’est point un corps.
D’où peuvent procéder tant d’erreurs contradictoires? de l’habitude où les hommes ont toujours été d’examiner ce qu’est une chose, avant de savoir si elle existe. On appelle la languette, la soupape d’un soufflet, l’âme du soufflet. Qu’est-ce que cette âme? c’est un nom que j’ai donné à cette soupape qui baisse, laisse entrer l’air, se relève, et le pousse par un tuyau, quand je fais mouvoir le soufflet.
Il n’y a point là une âme distincte de la machine. Mais qui fait mouvoir le soufflet des animaux? Je vous l’ai déjà dit, celui qui fait mouvoir les astres. Le philosophe qui a dit, Deus est anima brutorum, avait raison; mais il devait aller plus loin.


agradeço a joana canêdo o material bibliográfico.

imagens: www.counterintuitivemarketing.com; flickr, litherland, un coup de dès

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