8 de mai de 2018

"como bom fascista"



Resultado de imagem para fausto garnier
Resultado de imagem para fausto garnier



em minhas pesquisas sobre goethe no brasil, encontro a propósito do fausto:
Em 'Edição e Destino do Texto Fáustico', último ensaio do livro, Jerusa Pires Ferreira levanta dados importantes sobre a adaptação brasileira do Fausto de Goethe por um certo Anatole Muriel, para uma edição popular de clássicos da editora João do Rio, de 1928. (Lamentavelmente, Muriel teve como base uma discutível tradução brasileira feita, em 1920, pelo ideólogo de direita Gustavo Barroso. Discutível e mutilada pois, como bom fascista, Barroso deu-se ao luxo de censurar Goethe: suprimiu o episódio da Noite dos Walpurgis por considerá-lo atentatório à moral da família brasileira).

não sei bem como expor minha perplexidade, mas vamos lá:
  • chamar alguém de fascista em 1920 seria uma boa ilustração do que considero um descabelado anacronismo. 
  • essa tradução de gustavo barroso foi feita - a partir da tradução francesa de gérard de nerval - não em 1920, mas entre 1912 e 1913, quando ele trabalhava na livraria garnier; o livro não saiu conforme o programado em virtude da eclosão da primeira guerra, e só foi publicado em 1920, após um mínimo de normalização pós-guerra. ora, não tenho notícias de que em 1912-13, aos 24 anos de idade, gustavo barroso já fosse o ardoroso fascista que veio a se tornar mais tarde. 
  • não sei quais as fontes em que o crítico se baseou para apontar os motivos de gustavo barroso para a referida mutilação. mas sei que foi ele, o dito fascista avant la lettre, quem, anos depois, já inflado de ardente vigor filonazista, publicou (e também provavelmente traduziu) "o amante de lady chatterley", de d.h.lawrence, aliás em sua versão inexpurgada - obra que, convenhamos, na época deixava qualquer boda de ouro de obéron e titânia no chinelo, em termos de "atentado à moral da família", e não só brasileira, diga-se de passagem, haja vista a censura e as décadas de proibição da obra. 
  • e, por fim, se de fato mutilou (não sei, não conferi; baseio-me apenas na afirmação do citado crítico), não teria sido o primeiro: não só nerval comentava em sua tradução seu desconcerto com a noite de walpurgis, como também antónio feliciano de castilho dizia na nota à sua tradução que deixara de fora esse intermezzo, só se decidindo a incluí-lo posteriormente. nem por isso creio que alguém diria: "como bom fascista, Castilho" etc.

em suma, o parecer do articulista me pareceu um tanto raso e perfunctório.

p.s.: pequeno adendo: "Noite DOS Walpurgis"? não se trata, afinal, da santa walpurgis?
p.p.s: o nome do articulista nem vem ao caso. o problema é outro: é o desconhecimento, a falta de pesquisa, a ligeireza em juízos não suficientemente arrazoados e assim por diante.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.