OS RUBAIYAT DE MANUEL BANDEIRA E DE TORRIERI GUIMARÃES
Denise Bottmann
Um
componente da história da tradução – sobretudo literária – no Brasil que nunca
cessa de nos surpreender é o plágio de tradução. Os casos pipocam pelo menos
desde os alvores do século XX (o primeiro caso documentado de que tenho notícia
recua a 1903) e, embora tenham se reduzido muito na última década, volta e meia
descobrem-se casos até então desconhecidos ou surgem novas ocorrências.
Em
termos muito gerais, o plágio de tradução no Brasil consiste em três ou quatro procedimentos
bastante simples: para determinada obra que se pretenda publicar, normalmente
caída em domínio público, recorre-se a alguma tradução já existente, seja portuguesa,
seja brasileira. Em se tratando de tradução brasileira, prefere-se uma antiga,
feita por tradutor já falecido, publicada por alguma editora muitas vezes
extinta. Toma-se essa tradução, elimina-se o nome do verdadeiro tradutor e se a
publica atribuindo sua autoria a outro nome, que pode ser real ou fictício. Pode-se
ter a pura e simples reprodução intocada do texto ou sua modificação com pequenas
alterações aqui e ali – geralmente nas primeiras páginas ou em início de
parágrafos – a fim de tentar disfarçar a cópia. Um exemplo é a célebre tradução
de Les Fleurs du mal, de Charles
Baudelaire, feita por Jamil Almansur Haddad, publicada em 1958 pela extinta
editora Difel, e republicada com algumas toscas adulterações em 2001 pela
editora Martin Claret, com o nome real de Pietro Nassetti.[1]
Raros,
raríssimos são os plágios de traduções lançadas poucos anos antes e ainda ativas
em catálogo. No entanto, existem. E é um caso desses que pretendo abordar.
Aqui
cabe uma brevíssima explicação. Os ruba’i
(quadras ou quartetos) do matemático, astrônomo e poeta persa Omar Khayyam,
do século XI, passaram a ser conhecidos no Ocidente a partir do século XIX,
principalmente com a tradução de Edward Fitzgerald para o inglês, em versos, em
1859, com 75 ruba’i (posteriormente
aumentados para 100). Outra tradução que se tornou muito conhecida foi a de
Franz Toussaint, em francês e em prosa, de 1924, com 170 ruba’i. São essas duas
traduções, a de Fitzgerald e a de Toussaint, que costumam servir de referência para
as inúmeras traduções indiretas dos poemas de Khayyam em diversas línguas.
No
Brasil, a primeira tradução do Rubaiyat
é a de Octavio Tarquinio de Souza, feita a partir do texto de Toussaint, publicada
em 1928 e que ainda se encontra em circulação, com inúmeras reedições.
Como
a tradução de Toussaint está vazada em prosa, tomá-la como texto de
interposição significa normalmente que a tradução indireta também será em
prosa. E aí temos a primeira peculiaridade da tradução de Manuel Bandeira, o
qual, assim como Tarquínio, partiu de Toussaint, porém convertendo sua prosa em
quadras. Nisso poderíamos ver, talvez, uma tentativa de se reaproximar, ao
menos em parte, da forma poética original. Mas deixemos a exegese para outra
hora. O que importa notar é que Torrieri Guimarães – o qual afirma que “A
tradução que fizemos está rigorosamente
baseada [grifo meu] na tradução de Toussaint” – também converte sua prosa em
quadras.
Ademais,
a tradução de Bandeira apresenta outra peculiaridade. Adotando a forma poética da
quadra para a prosa corrida de Toussaint, ele não se limita a uma quadra. Aqui cabe notar que o ruba’i na tradição persa é uma forma
poética rigorosa, um breve poema composto por quatro versos apenas [daí seu nome, como já dissemos], com várias
classificações internas quanto ao tipo de metrificação e com o predomínio da
rima no primeiro, segundo e quarto versos, o terceiro sendo branco, tal como a
usa Khayyam. Bandeira adota a quadra – salvo em três ruba’i montados em quintilha –, mas não se restringe a uma estrofe,
e recorre a metros variados. Seus ruba’i,
se ainda assim pudermos nos referir a poemas com número variável de estrofes,
metrificação diversificada e versos brancos, apresentam de um a quatro
quartetos, além das três quintilhas citadas (137, 142 e 143).
Torrieri
Guimarães, salvo algumas exceções que não chegam a dez por cento dos 170 ruba’i em questão, mantém exatamente o
mesmo número de estrofes usadas por Bandeira para cada poema.[2]
Vejamos
um exemplo, o ruba’i 102:
Manuel Bandeira:
Quando
eu deixar de existir,
Não
existirão mais rosas,
Ciprestes,
lábios vermelhos,
Canções,
vinho perfumado...
Não
haverá mais auroras,
Não
haverá mais crepúsculos,
Não
haverá mais amores,
Nem
penas, nem alegrias.
O
mundo será abolido,
Pois
do nosso pensamento
É
que a sua realidade
Depende
exclusivamente.
Torrieri
Guimarães:
Quando
eu não mais existir
Não
existirão mais rosas,
Ciprestes,
bocas vermelhas,
Nem
vinho tão perfumado...
Não
existirão auroras,
Nem
crepúsculos também,
Não
existirão amores,
Nem
alegrias, nem dores.
O
mundo estará abolido,
Pois
de nosso pensamento
É
que sua realidade
Depende,
dele somente.
Agora,
vejamos Toussaint:
Quand je ne
serai plus, il n'y aura plus de roses, de cyprès, de lèvres rouges et de vin
parfumé. Il n'y aura plus d'aubes et de crépuscules, de joies et de peines.
L'univers n'existera plus, puisque sa réalité dépend de notre pensée.
Isso
do ponto de vista do número de estrofes. Passemos ao teor. Se em “Quand je ne serai plus, il n'y aura plus de
roses, de cyprès, de lèvres rouges et de vin parfumé” podemos ver que
Bandeira, para manter o metro em heptassílabos, acrescentou “canções”, do que
se absteve Torrieri, por outro lado “Não existirão auroras,/ Nem crepúsculos
também,/ Não existirão amores,/ Nem alegrias, nem dores” está visivelmente mais
próximo de “Não haverá mais auroras,/ Não haverá mais crepúsculos,/ Não haverá
mais amores,/ Nem penas, nem alegrias” do que de “Il n'y aura plus d'aubes et de crépuscules, de joies et de peines”.
O mesmo se pode dizer quanto à proximidade maior de “O mundo estará abolido,/
Pois de nosso pensamento/ É que sua realidade/ Depende, dele somente” com “O
mundo será abolido,/ Pois do nosso pensamento/ É que a sua realidade/ Depende
exclusivamente” do que com “L'univers n'existera
plus, puisque sa réalité dépend de notre pensée”.
Outro
exemplo ilustrando essa proximidade é o acréscimo do terceiro verso em
Bandeira, retomado com ligeira alteração em Torrieri, no ruba’i 113:
Bandeira
Pedi
numa taverna a um velho sábio
Que
sobre os mortos algo me ensinasse.
“O
que há de certo é que não voltarão”,
Disse.
“É tudo o que sei. Bebe o teu vinho!”
Torrieri
Pedi
numa taverna a um idoso sábio
Que
algo sobre os defuntos me ensinasse.
“O
certo é que não mais retornarão”,
Disse.
“É tudo o que sei. Bebe teu vinho!”
Eis
Toussaint:
Dans une
taverne, je demandais à un vieux sage de me renseigner sur ceux qui sont
partis. Il m'a répondu: “Ils ne reviendront pas. C'est tout ce que je sais.
Bois du vin!”
Vejamos
agora o ruba’i 61, como exemplo de
omissão de termos ou frases em relação ao texto de Toussaint:
Bandeira
Só
conhecemos da ventura o nome.
Nosso
mais velho amigo é o vinho novo
Afaga
o único bem que não engana:
A
urna cheia do sangue dos vinhedos.
Torrieri
Sabemos
da Ventura só o nome.
Nosso
amigo mais velho é o vinho novo.
Acaricia
o bem que não engana:
A
urna cheia com sangue das vinhas.
Toussaint
Du bonheur, nous
ne connaissons que le nom. Notre plus vieil ami est le vin nouveau. Du regard et
de la main, caresse notre seul bien qui ne soit pas décevant: l'urne pleine du
sang de la vigne.
Ou,
ainda, o ruba’i 114:
Bandeira
Olha!
Escuta! Na brisa uma rosa estremece.
Um
rouxinol canta-lhe um hino apaixonado.
Uma
nuvem parou. Bebe, e esquece que a brisa
Desfolha
a rosa, leva o canto e a fresca nuvem.
Torrieri
Olha!
Escuta! Uma rosa estremece na brisa.
Um
rouxinol lhe canta um hino apaixonado.
Uma
nuvem parou. Bebe, esquece que a brisa
A
rosa despetala e leva o canto e a nuvem.
Toussaint
Regarde! Écoute! Une rose tremble dans la brise. Un rossignol lui chante
un hymne passionné. Un nuage s'est arrêté. Buvons du vin! Oublions que cette
brise effeuillera la rose, emportera le chant du rossignol et ce nuage qui nous
donne une ombre si précieuse.
Note-se
que “Du regard et de la main” está
ausente em ambos os casos do ruba’i
61 e a oração inteira “qui nous donne une
ombre si précieuse” desaparece do ruba’i
114.
Por
tais exemplos, fica evidente que Torrieri se baseou em Bandeira, não em
Toussaint, tanto na variada forma poética adotada na tradução quanto no
conteúdo vocabular dos poemas, com idênticos acréscimos ou omissões em relação
a Toussaint.
Poderíamos
nos estender longamente sobre dezenas e mais dezenas de outros exemplos, mas
creio que os apresentados bastam para mostrar que o procedimento adotado por
Torrieri Guimarães em sua pretensa tradução consistiu basicamente em adotar as
soluções de Manuel Bandeira, procedendo a modificações de superfície, seguindo
um padrão simples e constante, com inversão de palavras e ocasional
substituição de termos por sinônimos (“mortos” por “defuntos”, “desfolha” por
“despetala”, “exclusivamente” por “somente”, “afaga” por “acaricia” e assim por
diante). Sua fidelidade chega ao ponto de apresentar o ruba’i 165 com o 2º. e o 4º. versos recuados, tal como em Bandeira.[3]
Se
cópias maquiadas não são fatos inéditos na história da tradução no Brasil, o
caso do Rubaiyat vem caracterizado
por uma invulgar singeleza: Bandeira lançara sua tradução em 1966, morrera em
1968, seu Rubayat continuava em
viçosa circulação; mal passada uma década, os leitores foram brindados com uma
versão toscamente copidescada dos ruba’i
da lavra tradutória bandeiriana. Se algum consolo há, é o de que a tradução
espúria nunca alcançou grande repercussão e não deixou muita memória. Fique,
porém, registrada a ocorrência.
AGRADECIMENTOS
Devo
a descoberta dessa fraude a Willamy Fernandes, a quem agradeço vivamente a
gentileza em tê-la compartilhado comigo.
ANEXO
Segue-se
a listagem dos únicos catorze ruba’i,
dentre o total de 170, que apresentam discrepância na quantidade de estrofes
usadas por Manuel Bandeira (MB) e por Torrieri Guimarães (TG). Na coluna da esquerda,
encontra-se o número do poema; na coluna central, o número de quadras usado por
Bandeira; na coluna da direita, o número de quadras usado por Torrieri.
Ruba’i MB TG
10 1 2
28 4 3
32 2 1
53 1 2
59 1 2
66 1 2
73 1 2
76 1 2
90 2 1
93 2 1
115 1 2
146 2 1
147 2 1
148 2 1
[1] Veja-se o
artigo Flores roubadas do jardim alheio,
do poeta e tradutor Ivo Barroso, disponível em http://www.jornaldepoesia.jor.br/ibarroso3.html.
[2] Vide o Anexo.
[3] Uma ressalva: alguns dos ruba’i com tradução em nome de Torrieri
Guimarães afastam-se claramente da versão de Manuel Bandeira e mesmo da de
Franz Toussaint, por exemplo o de número 93. Como são poucas ocorrências
esparsas, não chegam a afetar o fato principal exposto neste artigo: sua dita
tradução, ao contrário do que afirma ele, não vem “rigorosamente baseada” na de
Toussaint, e sim na de Bandeira.
Este artigo foi publicado em InComunidade, ano 4, n. 55, abril de 2017, aqui.









