24 de ago. de 2015

as criadas, de jean genet

As criadas, de Jean Genet.

Tradução de Pontes de Paula Lima:

CLAIRE - (De pé, de combinação, voltando as costas para a penteadeira. Seu gesto, o braço estendido, é o tom serão de um trágico exasperado) E essas luvas! Essas luvas eternas! Já te repeti suficientemente que as deixasses na cozinha. É com isso, por certo, que esperas seduzir o leiteiro. Não, não, não mintas, é inútil. Pendure-as por cima da pia. Quando compreenderás que este quarto não pode ser enxovalhado. Tudo, mas tudo o que vem da cozinha é escarro! Sai! E leva os teus escarros! Mas para! (Durante esta tirada, Solange brincava com um par de luvas de borracha, observando suas mãos enluvadas; ora em buquê, ora em leque) Nada de cerimônia, faz teu bichinho. E principalmente não te apresses, temos tempo. Sai! (Solange, de repente, muda de atitude e sai com humildade segurando na ponta dos dedos as luvas de borracha. Claire senta-se à penteadeira. Aspira as flores. Afaga os objetos de toillete, escova o cabelo, ajeita o rosto) Prepara meu vestido. Depressa, o tempo voa. Você não está aí? (Volta-se) Claire! Claire! (Entra Solange)
SOLANGE - Madame me perdoe, eu estava preparando o chá de tília (Ela pronuncia tílea) da senhora.
CLAIRE - Arranje as minhas toaletes. O vestido branco de pailleté. O leque, as
esmeraldas.
SOLANGE - Todas as jóias de Madame?
CLAIRE - Traga. Quero escolher. E, naturalmente, os sapatos de verniz. Aqueles que você vem cobiçando há anos. (Solange tira do armário alguns estojos que abre e dispõe sobre a cama) Para o seu casamento, com certeza. Confessa. Confessa que ele a seduziu! Que você está grávida! Confesse! (Solange se agacha no tapete e, cuspindo neles, lustra os escarpins de verniz) Eu já lhe disse, Claire, para evitar os escarros. Deixe-os dormir dentro de você minha filha, apodrecer aí dentro. Ah! Ah! (Ri nervosamente) Que nele se afogue o caminhante perdido. Ah! Ah! Você é horrenda, minha bela! Curva-se mais e olhe-se nos meus sapatos. (Estende o pé, que Solange examina) Pensa que me é agradável saber o meu pé envolto nos véus da sua saliva? Na bruma de seus pantanais?
SOLANGE - (De joelhos e muito humilde) Desejo que Madame fique linda.
CLAIRE - Ficarei. (Arruma-se ao espelho) Vocês me detestam, não é? Vocês me esmagam com os seus cuidados e a sua humildade, com gladiólogos e rosedá. (Levanta-se em tom mais baixo) Atulhamos à toa. Aqui tem flor demais. É mortal. (Contempla-se ainda) Ficarei linda. Mais do que você jamais conseguirá. Pois não com esse corpo e essa cara que conquistará Mário. Esse jovem leiteiro ridículo nos despreza e se fez em você um bebê...
SOLANGE - Oh! Mas eu nunca... 
CLAIRE - Cale-se idiota! Meu vestido! 
SOLANGE - (Procura no armário, afastando alguns vestidos) O vestido vermelho. Madame vai por o vestido vermelho! 
CLAIRE - Eu disse o vestido branco de pailleté. 
SOLANGE - (Dura) Sinto muito. Madame esta noite usará o vestido de veludo escarlate.

disponível aqui.

Tradução em nome de Roberto Medeiros, editora Deriva:





 acompanhe o caso da editora deriva aqui.


21 de ago. de 2015

ainda sobre o caso da editora deriva



não é que os herdeiros de antónio quadros tenham ficado muito satisfeitos com a garfada da tradução de os justos, de alberto camus, pela editora deriva, que a atribui a um "robson dos santos".

antónio quadros ferro, neto do verdadeiro tradutor, procede à devida retificação da autoria da tradução em comunicado em seu blog, aqui.

19 de ago. de 2015

belas infiéis

saiu mais um número da revista belas infiéis, do programa de pós-graduação em estudos de tradução da unb: encontra-se disponível aqui.



minha contribuição é o artigo "henry james no brasil (1945-2014)", aqui.
outro artigo de história da tradução é "george sand no brasil", de patrícia rodrigues costa, aqui.

suplemento literário

o suplemento literário de minas gerais lança um número especial, "a arte da tradução", com materiais de excepcional qualidade.


contribuí com o texto "tradução é tudo de bom".

o suplemento está disponível aqui.

18 de ago. de 2015

à deriva

no levantamento sobre a obra de camus traduzida no brasil, mencionei os justos, na coleção de teatro da editora deriva, aqui. não consultei o conteúdo da obra, dando apenas as referências bibliográficas.


hoje um leitor avisa:
Olá, Denise.
Comprei a coleção Teatro da Deriva. Como gosto bastante de tradução, aproveitei para cotejar a tradução de Entre Quatro Paredes com a do Guilherme de Almeida, que tenho aqui, da coleção Teatro Vivo. Para minha surpresa, a tradução é a mesma. Pensei ter havido algum erro, já que a tradução da Deriva é atribuída a Roberto de Almeida. Contudo, pesquisando mais, descobri que a tradução de Os Justos, atribuída a Robson dos Santos, é na verdade de Antônio Quadros.  
As Criadas, de Genet, cuja tradução é atribuída a Roberto Medeiros, é a mesma tradução em circulação na internet de Pontes de Paula Lima. 
Quanto a O Casamento do Pequeno Burguês, do Brecht, é a mesma tradução em circulação na internet, texto que infelizmente não menciona o tradutor. Contudo, pelas falsas atribuições das outras três peças e pelo fato de eu não ter encontrado nada em tradução a respeito de César Santos, tudo me leva a crer que é mais outra fraude.
Entrei em contato com a Deriva, mas não obtive qualquer satisfação. Infelizmente, uma editora que tem uma proposta muito boa de trabalho e publicação artesanais acaba por incidir nas mesmas fraudes que lamentavelmente ainda vemos em circulação no pais. 
Fica aqui o meu alerta para essa coleção.
Abraços. 

o pessoal da deriva pode ser muito bonitinho, muito legalzinho e bacaninha, mas isso não se faz. não é por ser autogestionário, anarquista, libertário, o escambau, que se justifica sair por aí pilhando tradução alheia, tomando para si e vendendo aos pobres dos leitores incautos e de boa fé.

parem com isso, meninos.



em tempo: as obras citadas pelo leitor foram removidas do site da editora. mas ainda se encontram à venda, tanto novas em livrarias como a taverna (aqui) quanto usadas em diversos sebos (aqui), bem como expostas na página da editora no facebook (aqui).

espero que caiam logo em si e não obriguem a gente a comprar essa briga.

atualização em 19/8/2015

transcrevo a manifestação da editora, publicada na caixa de comentários, mas aqui reproduzida reconhecendo-lhe o direito de igual espaço e destaque.

Ficamos cientes do problema das traduções somente ontem no final do dia. Como a Deriva não tem fins lucrativos, e todos membros desenvolvem outras atividades, não conseguimos responder prontamente a reclamação do leitor. 
Já retiramos os livros do catálogo e estamos recolhendo as poucas unidades que estão com livreiros independentes. Os projetos de livros chegam a nós de diversas maneiras, e por diferentes mãos, e realmente assumimos o erro de não haver conferido os dados técnicos dos livros referidos.  
Apesar de acreditarmos na proposta do copyleft em contraposição a mercantilização dos direitos autorais, nossa intenção não é “pilhar” horas de trabalho alheio e precarizar a classe dos tradutores. Nosso erro foi fruto de inexperiência e anseio por colocar em circulação livros “esquecidos”, raros ou que sejam muito caros.  
Temos um respeito especial por essas obras e pelas suas traduções. Os Justos de Albert Camus, por exemplo, trata da luta contra o processo de desumanização e sectarização que ocorre em nome de ideais políticos. Um tema que infelizmente é pertinente e (infantilmente talvez) gostamos de imaginar que ajudamos a combater com algumas dezenas de livros feitos quase que artesanalmente em uma garagem no fundo de uma casa. 
Não temos a intenção de sermos bonitinhos, bacaninhas e legalzinhos, apenas imaginamos os livros como algo além de letras reunidas em formas de frases ou contratos e direitos. Os livros vão continuar sendo muito mais que papel e tinta para nós, mas tomaremos mais cuidado com os contratos e direitos. Fica aqui o nosso sincero pedido de desculpas aos tradutores das obras que não foram creditados corretamente e provavelmente tiveram a mesma pretensão que nós ao difundir para o público brasileiro essa belas obras. 

muito bem.

14 de ago. de 2015

goethe traduzido no brasil II: werther

após os primórdios e os faustos, aqui, passemos à sua outra mais célebre obra, die leiden des jungen werthers.
  • sua primeira tradução brasileira sai em 1932, por elias davidovich, acompanhada por estudo de sainte-beuve, pela editora guanabara, em sua "collecção benjamin costallat":



dez anos depois, em 1942, a tradução de davidovich foi parar ilicitamente na pongetti, em sua coleção "as 100 obras-primas da literatura universal", "revista" por marques rebelo, iniciativa espúria que teve algumas reedições posteriores. ver aqui.


  • em meados dos anos 1940, numa edição sem data, sai a tradução de galeão coutinho pela livraria martins editora, em sua "coleção excelsior". foi reeditada pela abril cultural (1971-; em volume duplo com fausto, 1983), círculo do livro (idem,1995), itatiaia (2014):


a tradução de galeão coutinho foi fraudada pela editora martin claret que, com algumas alterações cosméticas, publicou-a em nome de pietro nassetti e o título de os sofrimentos do jovem werther, com várias reedições desde o ano de 2000 até 2014. além disso, essa tradução, tal como ocorrera com o fausto traduzido por silvio meira, sofreu grotesca apropriação pela nova cultural em 2002, publicando-a em sua coleção "obras-primas" em nome de "alberto maximiliano".

  • em 1957, temos mais um werther pela organização simões, mas não consegui localizar o nome do tradutor:


  • em 1965, temos a tradução de ary de mesquita, com o título de os sofrimentos de werther, lançada pela tecnoprint em 1965, em sua coleção "clássicos de bolso". reed. pela nova fronteira, coleção "saraiva de bolso" (2014):


  • em 1988, o clube do livro publica os sofrimentos do jovem werther em tradução de erlon josé paschoal, a primeira a usar, finalmente, o título completo da obra. foi reeditada em 1999 pela estação liberdade:

  • em 1994, sai a tradução de marion fleischer, pela martins fontes, em sua coleção "clássicos: literatura", 3:

  • em 1999, temos a tradução de leonardo césar lack pela nova alexandria, reeditada pelas clássicos abril (2010):

  • em 2001, a l&pm publica os sofrimentos do jovem werther na tradução de marcelo backes:

  • apenas no final de 2014, a editora martin claret se dispõe a substituir sua edição espúria em nome de pietro nassetti, em circulação desde 2000, por uma nova tradução, agora de cláudia cavalcanti:


por fim, a título de curiosidade, fique registrado que a editora hedra publicou em 2007 uma tradução portuguesa anônima de 1821.


goethe traduzido no brasil I: primórdios e os faustos

como de costume, neste levantamento as obras serão citadas pela data de sua primeira edição, com menção a eventual reedição em outras casas publicadoras. aqui não serão consideradas as edições de traduções portuguesas nem adaptações, condensações, quadrinizações etc.

abro exceção àquela que, até o momento, aparenta ser a primeira tradução brasileira publicada entre nós: vem, porém, apresentada como "uma imitação de goethe", como diz seu autor, ou uma tradução em paráfrase, como dizem alguns comentadores. trata-se de fausto e margarida, poema dramático em XII quadros da tragédia de goethe, por múcio teixeira. porto alegre, 1877[8]. teve grande sucesso e várias reedições no prazo de poucos anos.

em 1879, temos um fino voluminho com prometheo, fragmento drammatico, em tradução de joaquim josé teixeira, publicado pela laemmert do rio.

em 1884, sai hermann e dorothea, vazado em prosa, na tradução de carolina von koseritz, pela typographia de gundlach, de porto alegre.

encontro menções a uma tradução do werther que teria sido feita por eduardo laemmert (1808-1880; portanto, provavelmente teria sido anterior às traduções acima citadas), com o título de amorosas paixões do jovem werther. tais menções parecem, todas elas, derivar de uma vaga afirmação de laurence hallewell, explicitamente apresentada como mera hipótese em o livro no brasil, e não encontrei nenhuma notícia concreta da existência efetiva e eventual publicação dessa tradução. para o século XIX, portanto, fiquemos com as três obras acima arroladas, de existência comprovada.

há nessa época muitos poemas e excertos saindo nas revistas e suplementos culturais da imprensa. em formato livro, porém, creio que apenas em 1920 surge nova publicação.
  • vamos ter nosso primeiro fausto em tradução de gustavo barroso, pela livraria garnier, em sua "collecção classica":

foi reeditada pela f. briguiet (que comprou a garnier) em sua "collecção dos autores celebres da litteratura extrangeira" em 1937:


prossigamos com fausto.
  • em 1949, temos pelo instituto progresso editorial fausto: a primeira parte e o quinto ato da segunda parte, em tradução de jenny klabin segall, que será, completada mais tarde, a mais importante tradução de fausto no brasil. imagem de capa por gentileza de andré clemente de farias:

jenny klabin segall completa a tradução da segunda parte; em 1970, temos o lançamento integral dos dois faustos na coleção "teatro clássico" da livraria martins, em dois volumes.

mais tarde, com o encerramento da martins, essa obra vai para o catálogo da itatiaia, em sua coleção "grandes obras da cultura universal" 3, a partir de 1977 com várias reedições até 2002. em 2004, a editora 34 passa a publicar a tradução de klabin em dois volumes, fausto I e fausto II. em 2006, a cosac naify publica "a tabuada da bruxa" em sua coleção infantil.

  • em 1964 [1957], temos fausto, primeira parte, na tradução de antenor nascentes e josé júlio f. de souza, pela letras e artes [imprensa nacional].

  • em 1968, pela agir, temos a tradução do primeiro fausto por silvio augusto de bastos meira. foi reeditada pela ed. três (coleção "bibilioteca universal: alemanha", 1974); abril cultural (coleção "teatro vivo", 1976); círculo do livro (em volume duplo com werther, 1995). 
    em 2002, a tradução de silvio meira é indevidamente apropriada pela editora nova cultural, em sua coleção obras-primas, apresentando-a em nome de "alberto maximiliano", com leves alterações cosméticas no intuito de disfarçar a contrafação. veja aqui.

  • em 1984, temos a tradução de david jardim júnior de fausto I, feita a partir da versão de gérard de nerval, para a coleção universidade, das edições de ouro.

  • em 1985, pelo círculo do livro, temos a tradução de flávio m. quintiliano, fausto: poema dramático, em dois volumes:

  • a versão inicial da peça, escrita pelo jovem goethe entre 1773 e 1775 e conhecida como urfaust, sai em 2001 como fausto zero, na tradução de christine röhrig, pela cosac naify:


  • em 2002, temos fausto I em tradução de raoul albrecht bündgenspela editora garapuvu, de florianópolis:


existem diversas edições brasileiras da tradução portuguesa de antónio feliciano de castilho (p.ex., pela w.m. jackson, 1948), várias adaptações, como a de otávio de oliveira paes (sette letras, 1999), breves excertos como "o aprendiz de feiticeiro" (trad. mônica rodrigues da costa, cosac, 2006), que aqui não constam por, como dissemos, não fazerem parte do escopo desse levantamento.


12 de ago. de 2015

berenice xavier



Berenice Barreto Xavier nasceu em 20 de fevereiro de 1899, em Granja, no Ceará, filha de Elisa Barreto Xavier e do "coronel" Ignácio Xavier, a segunda entre treze filhos. Muda-se para o Rio de Janeiro em 1932, onde já se encontrava seu irmão Lívio Xavier. Além de tradutora, trabalhou na agência de notícias Reuters, no Instituto Nacional do Livro e na Biblioteca Nacional. Lá permanece até 1969, quando retorna ao Ceará, radicando-se em Fortaleza até sua morte, em 12 de julho de 1986. (Embora a foto acima apresente Berenice Xavier como militante trotskista, afirmam fontes de sua família que ela nunca chegou a ingressar formalmente na Liga Comunista Internacionalista, de que seu irmão fora um dos fundadores. Neste caso, talvez o mais adequado seja qualificá-la de simpatizante trotskista.)

Berenice inicia suas atividades de tradutora profissional em 1936, na Athena Editora, de propriedade de Pasquale Petraccone, importante líder antifascista entre as colônias italianas no Brasil e simpático ao movimento trotskista. Como Lívio Xavier já traduzia para a Athena, provavelmente pode ter sido por meio dele que Berenice passou a traduzir para a casa. É ela a responsável pela primeira tradução brasileira de The Taming of the Shrew, de Shakespeare, inaugurando a coleção Bibliotheca Theatral da casa. O título escolhido para a obra é A megera domada, e como tal acabou se consagrando.



Suas traduções seguintes também são para a Athena:
  • À Megera, segue-se em 1937 outra peça de Shakespeare, O mercador de Veneza, como terceiro volume da referida Bibliotheca Theatral.




  • Ainda em 1937, é lançada sua tradução d' As histórias de Públio Cornélio Tácito, em dois volumes, pela coleção Biblioteca Classica.



  • Em 1939 temos sua tradução de Laurence Sterne, Viagem sentimental [na França e na Itália], também pela Biblioteca Classica da Athena, vol. XXIX.


Em 1938, com a intensa perseguição da ditadura estadonovista, Pasquale Petraccone é preso e obrigado a interromper suas atividades editoriais, que retomará posteriormente em São Paulo, transferindo sua editora para lá em 1939. Aqui cessam as colaborações de Berenice com a Athena.

Passam-se alguns anos sem novas traduções. Seu retorno à atividade parece ter-se dado a partir de um trabalho de circunstância para a José Olympio. Digo "de circunstância" porque a José Olympio publicava Pequena história do mundo, de H.G. Wells, em tradução de Gustavo Barroso, desde 1937. Em 1944, a editora lança a terceira edição da obra, mas agora ampliada, com três novos capítulos. A tradução desses capítulos adicionais ficou a cargo de Berenice. A partir dessa data, ela volta a traduzir com bastante frequência e, até o final dos anos 1950, sobretudo para a José Olympio, com várias reedições e licenciamentos para outras editoras. Nesses dois decênios, temos:

  • H. G. Wells, Pequena história do mundo. 3ª. ed. ampliada, tradução de Gustavo Barroso, agora com os três novos capítulos trad. Berenice. José Olympio, 1944

  • Gwen Bristow, Um romance do sul. José Olympio, 1944

  • Katherine Brush, "Night Club", in Os norte-americanos: antigos e modernos. Leitura, 1945. 

  • Charles Dickens, Uma história em duas cidades. Coleção Fogos Cruzados.  José Olympio, 1946. 

  • Kropotkine, Em torno de uma vida - memórias de um revolucionário. Coleção Memórias, Diários, Confissões, v. 19. José Olympio, 1946 (tradução em parceria com Lívio Xavier)

  • Arthur Koestler, Cruzada sem cruz. Instituto Progresso Editorial, 1948

Segundo um alerta feito aqui, essa tradução de Koestler feita por Berenice teria sido indevidamente apropriada pela editora Germinal, em 2000, apresentando-a em nome de "Juliana Borges".  

  • William Faulkner, Luz de agosto. Coleção Nobel. Globo, 1948 

  • Honoré de Balzac, Comédia humana. Globo, 1948-. No empreendimento coordenado por Paulo Rónai, Berenice Xavier traduziu vários dos estudos introdutórios que acompanhavam cada volume. Citem-se: Georg Brandes, "Balzac"; Theodore de Banville, "Honoré de Balzac"; Émile Zola, "Chaudes-Aigues e Balzac"; Henry James, "Balzac"; Marcel Proust, "O caso Lemoine num romance de Balzac"; Anatole France, "Balzac"; Fernand Baldensperger, "Balzac, escritor universal"; Paul Bourget, "Balzac e o primo Pons"
  • Herman Melville, Moby Dick. José Olympio, 1950 
capa da edição de 1956

A propósito, comenta Mário Luiz Frungillo, aqui
Sobre a tradução de Berenice Xavier, uma curiosidade: Na primeira edição, de 1950, faltavam as epígrafes sobre as baleias [...]. A falta foi notada por Augusto Meyer, em artigo sobre o centenário do romance (depois recolhido em Preto & Branco). Nas edições seguintes, a José Olympio reintroduziu as epígrafes, em tradução de Olívia Krähenbühl, e aproveitou também para incluir a "epígrafe que escapou" a Hermann Melville, encontrada por Meyer na Descrição da Ilha de Itaparica, do Frei Manuel de Santa Maria Itaparica. 
  • Frank Yerby, Turbilhão. José Olympio, 1952

  • Theodore Harnberger, Os Estados Unidos através de sua literatura. Os Cadernos de Cultura, vol. 53. MES, Serviço de Documentação, 1953  

  • Frank Yerby, O tesouro do Vale Aprazível. José Olympio, 1956

  • A.J. Cronin, Sob a luz das estrelas. José Olympio, 1957. Aqui é um caso interessante: a JO vinha publicando essa obra em tradução de Rubem Braga desde 1939, e já estava em sua sétima edição. Por alguma razão que ignoro, a editora resolveu contratar nova tradução, agora de Berenice, para sua oitava e subsequentes edições:


Como se vê, até essa data a editora para a qual Berenice traduz com maior frequência é a José Olympio. Em janeiro de 1959, o crítico e também tradutor Otto Schneider comenta em uma breve nota em sua coluna "Vida Literária", da revista mensal Vida Doméstica:
Berenice Xavier está traduzindo Absalão, Absalão, romance de William Faulkner, programado por José Olympio. 
Curiosamente, essa tradução - se é que chegou a ser concluída - nunca veio à luz; na verdade, teremos Absalão, Absalão no Brasil somente em 1981, pela Nova Fronteira, em tradução de Sônia Régis. Não sei o que pode ter ocorrido: algum impedimento por razão de saúde, algum desentendimento com a casa, talvez; o que sei é que Berenice deixou de fazer traduções para a José Olympio.

Nos anos 1960, suas traduções se tornam mais esporádicas, concentrando-se na Civilização Brasileira. Antes de vermos quais são, detenhamo-nos numa ocorrência que não consegui esclarecer, que exponho a seguir.

Berenice traduziu o conto "William Wilson", de Edgar Allan Poe. Encontro algumas referências (e eu mesma a citei alguns anos atrás em meu blogue dedicado a Poe no Brasil) dando essa sua tradução como integrante de uma antologia chamada Contos fantásticos, pela Nova Aguilar, em 1965. No checamento dos dados, porém, não consigo encontrar nenhum volume lançado pela Nova Aguilar com esse título. Ademais, em 1965 a Nova Aguilar já lançara a tradução de Milton Amado e Oscar Mendes de toda a prosa completa, poemas e ensaios de Poe, que a Globo publicara desde 1944. Não sei em que fonte se basearam os que citam um volume de Contos fantásticos pela NA em 1965, mas sinto-me tentada a crer que talvez se trate de um equívoco. De todo modo, o seguro é que "William Wilson" em tradução de Berenice Xavier consta no volume Histórias extraordinárias da Civilização Brasileira, de 1970.

Passemos agora a suas demais traduções:
  • Ernest Hemingway, O sol também se levanta. Biblioteca do Leitor Moderno, v. 73. Civilização Brasileira, 1966

  • Henry James, A herdeira. BUP, 1967 (a BUP pertencia também a Ênio Silveira, proprietário da Civilização)

  • Isaac Babel, A cavalaria vermelha. Civilização Brasileira, 1969

  • Shakespeare, Contos de Shakespeare. Adaptação de Charles e Mary Lamb. Contém: A tempestade; Sonho de uma noite de verão; Conto de inverno; Muito barulho por nada; Como quiseres; Dois fidalgos de Verona; O mercador de Veneza; Cimbelino; O rei Lear; Macbeth; Tudo é bom quando acaba bem; A megera domada, A comédia dos erros; Medida por medida; A Noite dos Reis, ou o que quiseres; Timos de Atenas; Romeu e Julieta; Hamlet, príncipe da Dinamarca; Otelo; Péricles, Príncipe de Tiro. Civilização Brasileira, 1970

Não deixa de haver uma certa justiça poética no fato de que Berenice encerre sua carreira tradutória por onde começou: em que pese serem adaptações, aqui retornam A megera domada e O mercador de Veneza, com que estreara na Athena em 1936 e 1937.


Para concluir, eis duas quadrinhas do poema "Ao sol da praia", de Carlos Drummond de Andrade, que saiu em jornal em 1957, depois apanhado em Versiprosa (1967):
Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa. 
É tradução de Berenice
Xavier, sabes? portanto boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.

Agradeço a Berenice Xavier, sobrinha homônima, que muito gentilmente forneceu os dados biográficos de apresentação.

9 de ago. de 2015

de grão em grão

estou eu às voltas para montar um breve perfil biobibliográfico de berenice xavier, e creio que já consegui levantar todas as suas traduções.

então encontro uma nota do crítico e também tradutor otto schneider, em sua página "vida literária", na revista mensal vida doméstica, de janeiro de 1959, dizendo:
Berenice Xavier está traduzindo "Absalão, Absalão", romance de William Faulkner, programado por José Olympio. 
seu absalão jamais saiu, porém. o que terá acontecido? (aliás, o primeiro absalão, absalão aparecerá no brasil em tradução de sônia régis, pela nova fronteira, apenas em 1981!)

encontrei um poeminha do drummond, de 1957 ("o livrão de mário palmério", depois apanhado no volume versiprosa, de 1967), que diz lá a certa altura:
Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.
É tradução de Berenice
Xavier, sabes? portanto boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.

8 de ago. de 2015

acréscimo

em meu levantamento da bibliografia russa traduzida no brasil entre 1900 e 1950, concentrei-me em obras de literatura. mas creio que valeria a pena ter incluído as memórias de kropótkin, em torno de uma vida - memórias de um revolucionário. saiu em 1946, em tradução dos irmãos berenice e lívio xavier, pela josé olympio. fica o registro.