6 de jun. de 2013

zoran ninitch, VII, bagrinho de medeiros e albuquerque

nosso caro iugoslavo residente no brasil, de quem vimos falando ao longo de vários posts (ver aqui), tem em sua bibliografia de traduções algumas obras de stefan zweig, entre as primeiras no brasil. saíram basicamente pela editora guanabara, do rio de janeiro, em 1934.

porém, ao mais descarado estilo ictiológico que às vezes grassava entre nós, parece ter sido mero "bagrinho" em favor de medeiros e albuquerque, nome mais conhecido e autor da casa, provavelmente mais vantajoso em termos comerciais para a editora:





(aqui na capa da edição de 1942)

sobre outros tradutores usados como bagrinhos, por exemplo millôr fernandes e olavo bilac, veja aqui.

em que pé estamos hoje

transcrevo considerações de ivone benedetti no facebook, com as quais concordo enfaticamente:

http://www.facebook.com/ivone.benedetti.5?fref=ts


Muito bom artigo de Paulo Franchetti. Escrito em 2008. Lamento só ter lido hoje. Concordo com os seus pontos de vista. Só discordo do seguinte: "o herói da resistência da norma: o preparador e revisor de textos – um profissional que é também, de certa forma, um tradutor, operando a delicada conversão e ajuste da língua informal para o indefinido e até agora problemático padrão da língua ou das línguas do livro)". Não é o que tenho visto na maioria dos casos. Infelizmente, percebo o caminho contrário, ou seja, o da "delicada conversão e ajuste" de opções mais formais a opções mais pessoais e informais. Está havendo por parte dos preparadores de textos, já imbuídos da demonização da norma culta, um tenaz esforço de nivelar por baixo, de facilitar o texto para um leitor que eles subliminarmente veem como deficiente mental. A coisa é feita no pior estilo "rede globo" de didatismo rasteiro. As construções sintáticas menos usuais não são entendidas. Eles as substituem por coisas que acabam tendo outro significado. Algumas palavras são "cassadas". Recentemente, num texto meu, "otário" foi substituído por "panaca" (!), qualificativo este que nunca vai sair do meu teclado (antes era pluma) nem era o sentido do texto original; "denodado" foi substituído por "corajoso" (logo depois do verbo desencorajar); "abstruso" foi substituído por "obscuro" (como se fossem perfeitos sinônimos); "espocar" não pode, tem de ser "estourar"; "jaez" não pode: o revisor tascou "característica", como se fosse sinônimo, ou seja, algo "desse jaez" virou algo "dessa característica"; "medrar", que talvez possa ter certo odor duvidoso, está proscrito, substituído por "difundir", que não é o que medrar quer dizer, mas só quer, porque não diz; "mansuetude" não pode: tem de ser "mansidão", nem que seja de Jesus. E não adianta passar horas pesquisando até concluir que o jogo a que o autor se refere é o bilhar (francês), porque o tal preparador decidiu que tudo é sinuca. Lamento, Paulo, mas nem nesse solo há húmus. O esforço é, sim, no sentido do empobrecimento. O grande desserviço prestado nos últimos anos pelos neolinguistas foi o de levar a crer que a língua só serve à comunicação - entenda-se: cotidiana -, esquecendo-se de que ela é (entre outras coisas) um repositório cultural. E os tais preparadores não descobriram ainda que quem se dá o trabalho de ler não está buscando o meio mais fácil de passar o tempo, e sim de entrar no intrincado universo do "pensamento" através do melhor instrumento inventado até agora para traduzi-lo: a língua, de preferência a escrita.

3 de jun. de 2013

tolstói, depois do baile

além d'a morte de ivan ilitch (veja aqui), outro tremendo sucesso de tolstói no brasil, a considerar pela quantidade de traduções publicadas em cinquenta e poucos anos, é o conto "posle bala", "depois do baile".


são seis traduções lançadas entre 1957 e 2011. interessante notar que, a partir de 1962, todas são diretas do russo:
  • a primeira delas sai na coletânea titãs do amor, em tradução de silvia de assis falcão. são paulo: el ateneo do brasil, 1957
  • depois temos no mar de histórias, v. 3, org. e trad. aurélio buarque de hollanda e paulo rónai. rio de janeiro: josé olympio, 1958 [reeditado pelas edições de ouro, c.1974; nova fronteira, 1981; ediouro, 1987]
  • a seguir, a tradução de oscar mendes na obra completa publicada pela josé aguilar em 1960-61
  • aí o conto sai na antologia do conto russo, vol. iv (dedicado a tolstói), em tradução de tatiana belinky. rio de janeiro: lux, 1962, reed. paulinas, 1988 
  • sai em o diabo e outras histórias, a coletânea organizada por paulo bezerra, em tradução de beatriz ricci. são paulo: cosac naify, 2000 
  • por fim, temos a tradução de graziela schneider, na nova antologia do conto russo (1792-1998), organizada por bruno barretto gomide. são paulo: 34, 2011 

agradeço a gutemberg de medeiros pela informação sobre a tradução da lux; a alfredo monte sobre a da cosac; a daniel dago e a bruno costelini sobre a da nova antologia.

zoran ninitch, VI: literatura de carregação

por volta de 1934-36, zoran ninitch parece ter feito a tradução de várias histórias de aventura e relatos de viagem, em livrinhos ao mais autêntico estilo da chamada "literatura de carregação". encontro referências a traduções suas de:
  • capitão marryat, aventuras do piloto ajudante
  • capitão marryat, cain, o pirata
  • fenimore cooper, os pioneiros
  • fenimore cooper, robinson do vulcão
  • gustave aymard, o segredo do cacique
  • gustave aymard, os bandoleiros do sul
  • h. alger jr., um heroe
  • henry landor, entre os indígenas do thibet
  • john normand, aylor, o fakir
  • kingston, entre os pelles vermelhas
  • matthew wuin, na áfrica selvagem
  • mayne reid, anahuac, terra de aventuras
  • mayne reid, nas terras do ouro
  • mayne reid, os trepadores de rochedos
  • mayne reid, em caminho do alaska
  • mayne reid, a caçadora selvagem
  • wilhelm junker, nas cabeceiras do nilo
foram publicadas pela empresa editora brasileira, que imagino ser uma subsidiária da empresa editora americana (da revista eu sei tudo), e talvez até em alguns números da própria eu sei tudo.


difícil encontrar imagens de capa, mas dispomos de vários desses livros em nosso acervo na biblioteca nacional:





interessante que dois deles constam em tradução de um "filemon de alvarenga e souza", cuja única referência que se encontra na internet diz respeito, justamente, a nas terras do ouro.




a serem válidas tais datas de publicação, esses anos corresponderiam ao efêmero período de atividades de sua minúscula editora, a machado & ninitch (1934), e aos dois anos imediatamente subsequentes.

2 de jun. de 2013

zoran ninitch, V, e uma sugestão de pesquisa

zoran ninitch, nosso amigo tradutor iugoslavo de que já falamos algumas vezes (veja aqui), traduziu várias coisas de stefan zweig no começo dos anos 1930.

hoje quero comentar uma "coincidência" envolvendo duas delas: uma noite fantastica, pela editora pallas (c.1932), e ocaso de um coração, pela machado & ninitch (1934).



ninitch tinha um colaborador em sua microeditora machado & ninitch: o tradutor aurélio pinheiro.

por outro lado, a editora pongetti, nos anos 1940, era relativamente useira e vezeira em pegar traduções publicadas por outras editoras, como fez algumas vezes com traduções de elias davidovich publicadas pela guanabara(veja aqui).

assim, quando vejo um volume contendo ocaso de um coração e uma noite fantastica, publicado pela pongetti em 1941, dando como tradutor aurélio pinheiro - aliás, falecido em 1938 -, começo a sentir aquela insuportável coceira que apenas um batalhão de pulgas atrás da orelha consegue provocar.

infelizmente não localizei imagem de capa dessa edição da pongetti (aliás reeditada em 1950), mas encontra-se facilmente em sebos, no google books e em nossa biblioteca nacional.

atualização em 05/08/2015 - localizei uma imagem de capa da referida edição da pongetti:



1 de jun. de 2013

ivan ilitch

vendo o caso do grande gatsby, com sua inflação de novas traduções nos últimos dois anos - nada menos que cinco! -, somando ao todo oito traduções em menos de cinquenta anos (veja aqui), lembrei também o caso de tolstói com a morte de ivan ilitch. não teve nenhum leonardo di caprio no pedaço, mas mesmo assim são dez (quiçá nove) traduções diferentes em menos de sessenta anos (1944-2002)!

sem dúvida é o texto de tolstói mais traduzido entre nós:
  1. a primeira a sair é a de marques rebelo, na antologia os russos: antigos e modernos,  editora leitura, em 1944 
  2. a seguir, em 1948, sai a de gulnara lobato de morais, pela saraiva
  3. a terceira é a de boris schnaiderman, em três novelas russas, pela boa leitura, em 1959 (direta)
  4. em 1960, sai a de milton amado, em obra completa, pela josé aguilar
  5. depois vem pela lux (não sei ainda quem traduziu), na antologia do conto russo, vol. IV, em 1962, tradução direita de ana weinberg e ari de andreade, reed. pela bup em 1963 [vide comentário de mário luiz frungillo]
  6. em 1981, pela alhambra, temos a de joaquim campelo marques e manoel borges (direta)
  7. a de tatiana belinky sai em 1991, pela pauliceia (direta)
  8. uma antiga, de carlos lacerda, sai em 1997 pela lacerda
  9. em 2002, pela l&pm, sai a de vera karam [retificação em 13/7/2015: a tradução de vera karam saiu inicialmente em 1997 pela l&mp - vide caixa de comentários]

a tradução de carlos lacerda é um caso engraçado: parece que foi publicada em algum lugar em 1944 e depois, em 1959, no primeiro número da revista senhor. mas da edição de 1944 não encontrei nenhum rastro. e aí pensei: será que marques rebelo emprestou seu nome a ela na antologia da ed. leitura? taí uma curiosidade que alguma hora vou tentar satisfazer.*










retificação em 04/06/2013: ivo barroso informa que o ivan ilitch na tradução de carlos lacerda saiu não no primeiro e sim no segundo número da revista senhor, em abril de 1959.



ilustrações da capa e do conto por glauco rodrigues, gentilmente enviadas por ivo barroso. nosso insigne poeta, tradutor e crítico literário comenta que a ilustração de capa era uma "alusão ao excelente comentário que o Paulo Francis faz no interior da revista sobre a Lolita de Nabocov que estava para sair no Brasil" (que saiu naquele ano em tradução de brenno silveira, pela civilização brasileira).

* retificação: na verdade, a edição de 1944 da coletânea organizada por rubem braga traz a tradução de carlos lacerda, reeditada na revista senhor e, mais tarde, pela editora lacerda. a tradução de marques rebelo virá a substituí-la nos anos 1960 na coletânea de rubem braga,, quando a tecnoprint/ediouro passa a publicá-la com o nome de o livro de ouro do conto russo.

29 de mai. de 2013

allitra

legal: a revista da associação australiana de tradução literária, disponível aqui.

26 de mai. de 2013

lydia davis tradutora de flaubert

ótimo artigo sobre a obsessão pela palavra que é o traduzir, aqui.

25 de mai. de 2013

khadji-murat, tradução de georges selzoff

ilustração de m. barychnicoff para khadji-murat, edição cultura, 1931

esta é para um caro amigo, que tão bem soube apreciar a beleza da tradução de khadji-murat, de tolstói, feita por georges selzoff (com a colaboração de allyrio meira wanderley). ela foi publicada em 1931 pela edição cultura, na bibliotheca de auctores russos concebida e desenvolvida pelo tradutor-editor selzoff.

transcrevo os dois primeiros parágrafos, onde o narrador conta a dificuldade que teve em arrancar uma bardana tártara, então florida, cujo vigor e resistência lhe fizeram lembrar a história de khadji-murat, que depois passa a narrar.

      Regressava eu a casa pelos campos. Ia em meio o verão. Segada a erva, começava a ceifa do centeio. Há, nessa época do ano, maravilhosa variedade de flores: as dos trevos, vermelhas, brancas, perfumadas, penugentas; alvos malmequeres de fundo amarelo vivo; a colza dourada, rescendendo a mel; longo o caule, como o caule longo da tulipa, altas campânulas roxas e nevadas; e ervilhas desenrolando-se em trepadeiras; escabiosas flavas, rubras, róseas: com uma pubescência levemente corada, com um aroma agradável e sutil, a tanchagem lilá; e as centáureas, de um azul vibrante ao sol quando recém-desabrochadas e de um azul mortiço à tarde quando se vão fanando; depois, fraquinhas, passageiras, as da cuscuta, que cheiram a amêndoa.
      Colhera grande ramalhete, e prosseguia, mas vi num fosso magnífica bardana violácea, em plena floração; uma dessas entre nós chamadas "tártara", que o foiceiro evita com cuidado, e separa do feno, para não picar as mãos, se porventura a cortou. Quis arrancá-la e pô-la no molho. Desci à vala e, expulso felpudo zangão que adormecera, enroscado e indolente, no coração duma flor, eis-me a desarraigar a planta. Foi bem difícil. Não só o caule ferroava por todos os lados, mesmo através do lenço onde enrolara a mão, como resistia tanto, tanto, que lutei quase cinco minutos com ele, dilacerando-o fibra a fibra. Desaferrada enfim, tinha em frangalhos a haste, e já não parecia nem tão fresca nem tão linda. Além disso, bruta e rude, não se dava com as outras, delicadas. Arrependi-me de haver destruído a flor, tão bela no seu canto, e joguei-a fora. "Que energia! Que vitalidade", me disse a mim próprio, recordando os esforços para desprendê-la. "Como se defendia, e como vendeu cara a vida!"

sabe-se que o russo não dispõe de artigo definido ou indefinido; daí, na tradução, tantas ausências - nem por isso, porém, gramaticalmente incorretas em português - do artigo indefinido que nos soa mais habitual: "maravilhosa variedade", "grande ramalhete", "magnífica bardana", "felpudo zangão". 

quanto à ocorrência de várias orações reduzidas ("segada a erva", "expulso felpudo zangão", "desaferrada enfim"), nelas ressoa à distância a morfologia mais sintética do russo, porém sempre bem desenvolvidas num português leve, desenvolto e até quase coloquial ("fraquinhas", "bem difícil", "resistia tanto, tanto", "não se dava").

considero um trabalho admirável.

por isso tanto mais me surpreendeu a tentativa de leitura crítica de paula scarpin, em seu brevíssimo cotejo com a tradução de boris schnaiderman. reproduzo abaixo meus comentários naquela época, que havia feito aqui.


encontro na matéria de paula scarpin, aqui, um seu juízo sobre a tradução de khadji-murat, de liév tolstói, feita diretamente do russo por georges selzoff em parceria (para o arredondamento final do texto em português) com allyrio meira wanderley, em 1931.

diz a jornalista a certa altura:

[...] é possível perceber que em algum momento do processo o texto coloquial e fluente de Tolstói resultou em um português rebuscado e recheado de arcaísmos, com excesso de uso da ordem indireta. Num trecho do preâmbulo, por exemplo, onde Schnaiderman traduz: “Desci para o fundo da ravina e, depois de expulsar um zangão cabeludo, que se cravara no centro da flor e nela adormecera flácida e docemente, comecei a cortar a haste”, Selzoff escolheu: “Desci à vala e, expulso felpudo zangão que adormecera, enroscado e indolente, no coração de uma flor, eis-me a desarraigar a planta.”
em primeiro lugar, não vejo no exemplo tomado a selzoff/wanderley qualquer "excesso de uso da ordem indireta" - na verdade, não vi absolutamente nenhuma ocorrência de ordem indireta; muito pelo contrário, nada mais direto do que "desci", "que adormecera", "eis-me a desarraigar".

em segundo lugar, utilizar o português do século XXI, mais especificamente o português corrente em 2012, como parâmetro para julgar "rebuscado" e "recheado de arcaísmos" o português de mais de oitenta anos antes, parece-me método de um anacronismo inqualificável. talvez uma possível estranheza que pode ter sentido a jornalista se deva à ausência de artigos indefinidos onde seu uso nos pareceria natural, como no caso do zangão.

mas, afora isso, o que haveria de tão arcaico e rebuscado em "vala", "expulso", "felpudo", "enroscado", "indolente" ou "desarraigar"? muito pelo contrário, bem menos coloquial e fluente parece-me o contraexemplo (tomado à tradução de boris schnaiderman) dado pela jornalista: "adormecera flácida e docemente"!


em suma, creio que, no afã de querer por alguma obscura razão desqualificar a pioneiríssima (e bela!) tradução de selzoff, a jornalista errou a mão.

podíamos passar sem essa.



perícia judicial confirma


jorge furtado rastreou extensamente e deslindou o mistério em torno de primavera das neves, aqui.

primavera das neves - ou vera pedroso, como mostrou jorge furtado - está entre os diversos tradutores que tiveram seu trabalho publicado de maneira espúria. em seu caso, a obra indevidamente apropriada foi sua tradução d'o morro dos ventos uivantes, de emily brontë, que tinha saído pela bruguera em 1971, reeditada várias vezes pelo círculo do livro (desde 1976) e pela art (1985). em 2007, a editora landmark publicou a tradução de vera pedroso com algumas alterações de pequena monta, atribuindo sua autoria à pessoa que fora contratada para fazer a revisão do texto.


em 2009, apontei a ocorrência do fato neste blog, bem como outra irregularidade da mesma editora em persuasão, de jane austen. por tais apontamentos, a landmark abriu processo não só contra mim, mas também contra raquel sallaberry brião, por ter mencionado o caso de persuasão em seu site jane austen em português, aqui, o google por ser o mantenedor do blogger e o domínio.br por hospedar o site de brião. foi solicitada também a remoção imediata do blog não gosto de plágio, pretensão esta indeferida pelo juiz.

o advogado da editora landmark, dr. alberto j. marchi macedo, na ocasião, informou à imprensa que "a Editora Landmark propôs a ação competente em face da blogueira Denise Bottmann por entender que as denúncias por ela apresentadas encontram-se totalmente desgarradas da realidade fática e das provas que serão produzidas no processo judicial, razão pela qual não existe qualquer cabimento quanto à acusação de plágio", aqui.

em 2011, o juiz determinou que as obras em questão fossem analisadas por um perito judicial. os resultados apontaram a ocorrência de 100% de plágio em persuasão e 88% de plágio em o morro dos ventos uivantes. os laudos periciais foram juntados aos autos em janeiro deste ano e o processo segue em curso, como se pode ver aqui.

fico contente que, gradualmente, se esteja fazendo essa pequena justiça póstuma a primavera das neves / vera pedroso.

foto de primavera das neves extraída daqui.

convite

no dia 5 de junho, estarei no sesc da vila mariana, conversando sobre a profissionalização do tradutor e o mercado editorial brasileiro. o formato da apresentação será de perguntas e respostas.

O OUTRO LADO DO ESPELHO: TRADUÇÃO E PRODUÇÃO EDITORIAL

Diversos Profissionais - Curso
Primeiro Encontro - Denise Bottmann
05/06/2013 19:30 a 05/06/2013 21:30
Segundo Encontro - Rodrigo Salinas
12/06/2013 19:30 a 12/06/2013 21:30
Terceiro Encontro - Heloisa Jahn
13/06/2013 19:30 a 13/06/2013 21:30
Quarto Encontro - Cássio Arantes Leite
19/06/2013 19:30 a 19/06/2013 21:30
Quinto Encontro - Pasi L, Marcos M e Noé S
20/06/2013 19:30 a 20/06/2013 21:30
Sexto Encontro - Alexandre Barbosa de Souza
26/06/2013 19:30 a 26/06/2013 21:30
Sétimo Encontro - Maged El Gebaly
27/06/2013 19:30 a 27/06/2013 21:30
Um panorama da atividade do tradutor no Brasil é apresentado a partir de encontros com profissionais da área. A internacionalização do mercado editorial brasileiro deve aumentar a participação dos títulos traduzidos no país e, consequentemente, a demanda por tradutores.

Em todos os encontros, a mediação é realizada pelo historiador Joaci Pereira Furtado.

5/6 - Saindo das sombras: a profissionalização do tradutor e o mercado editorial brasileiro, com Denise Bottmann

12/6 - Tradutor, coautor? A Tradução e os direitos autorais, com Rodrigo Salinas

13/6 - "Era uma vez...": traduzindo para crianças, com Heloisa Jahn

19/6 - Melhor que o original? Estudos de casos, com Cássio Arantes Leite

20/6 - Novos mundos, novas civilizações: a tradução de idiomas ¿exóticos¿ ¿ o caso do finlandês, do latim e do russo, com Pasi Loman, Marcos Martinho e Noé Silva

26/6 - Fio da navalha: a tradução e o editor, com Alexandre Barbosa de Souza

27/6 - Olhando do avesso: traduzir do português, com Maged El Gebaly


A INSCRIÇÃO É VÁLIDA PARA TODOS OS DIAS DA ATIVIDADE.


Não recomendado para menores de 16 anos.

Necessário apresentar comprovante de categoria no início da atividade.

Cancelamentos podem ser feitos em até 48 horas antes do início da atividade.

As inscrições online encerram-se sempre um dia antes do início da atividade. Enquanto houver vagas será possível inscrever-se pessoalmente nas unidades do Sesc de São Paulo.
inscrições aqui.

19 de mai. de 2013

o triste destino de belas traduções

como algumas considerações são anacrônicas e despropositadas!

encontro na matéria de paula scarpin, aqui, um seu juízo sobre a tradução de khadji-murat, de liév tolstói, feita diretamente do russo por georges selzoff em parceria (para o arredondamento final do texto em português) com allyrio meira wanderley, em 1931.

diz a jornalista a certa altura:
[...] é possível perceber que em algum momento do processo o texto coloquial e fluente de Tolstói resultou em um português rebuscado e recheado de arcaísmos, com excesso de uso da ordem indireta. Num trecho do preâmbulo, por exemplo, onde Schnaiderman traduz: “Desci para o fundo da ravina e, depois de expulsar um zangão cabeludo, que se cravara no centro da flor e nela adormecera flácida e docemente, comecei a cortar a haste”, Selzoff escolheu: “Desci à valla e, expulso felpudo zangão que adormecera, enroscado e indolente, no coração de uma flor, eis-me a desarraigar a planta.”
em primeiro lugar, não vejo no exemplo tomado a selzoff/wanderley qualquer "excesso de uso da ordem indireta" - na verdade, não vi absolutamente nenhuma ocorrência de ordem indireta; muito pelo contrário, nada mais direto do que "desci", "que adormecera", "eis-me a desarraigar".

em segundo lugar, utilizar o português do século XXI, mais especificamente o português corrente em 2012, como parâmetro para julgar "rebuscado" e "recheado de arcaísmos" o português de mais de oitenta anos antes, parece-me método de um anacronismo inqualificável. talvez uma possível estranheza que pode ter sentido a jornalista se deva à ausência de artigos indefinidos onde seu uso nos pareceria natural, como no caso do zangão.

mas, afora isso, o que haveria de tão arcaico e rebuscado em "vala", "expulso", "felpudo", "enroscado", "indolente" ou "desarraigar"? muito pelo contrário, bem menos coloquial e fluente parece-me o contraexemplo (tomado à tradução de boris schnaiderman) dado pela jornalista: "adormecera flácida e docemente"!

em suma, creio que, no afã de querer por alguma obscura razão desqualificar a pioneiríssima (e bela!) tradução de selzoff, a jornalista errou a mão.

podíamos passar sem essa.

veja-se também aqui.

16 de mai. de 2013

excelente notícia


recebi poucos dias atrás um ofício do gabinete da procuradoria da república no estado de são paulo.

finalmente saiu a determinação do ministério público federal sobre as fraudes cometidas pela editora martin claret contra duas obras de tradução de monteiro lobato - a saber, o lobo do mar, de jack london, e o livro da jângal, de rudyard kipling - que foram objeto de inquérito civil público instaurado pelo mpf em 2010, a partir de um pedido de representação que fiz àquela instância em 2009.

a decisão da dra. adriana da silva fernandes, procuradora da república, foi pelo arquivamento do inquérito, devido ao parecer técnico informando que a gestora dos direitos da obra lobatiana, nesse meio tempo, passara a tomar as providências legais contra a usurpação dessas traduções feitas por monteiro lobato. ótimo!

vale notar que o parecer técnico realizado pelo perito do ministério publico concluiu pela efetiva existência de "similitude evidente" entre as traduções de monteiro e as pretensas traduções em nome de pietro nassetti e alex marins, pela referida editora martin claret.

ademais, o que foi de precípua importância, a procuradora da república transcreveu e ressaltou em sua decisão a recomendação do perito técnico do mpf para que seu parecer fosse encaminhado às instâncias competentes:
a fim de que se possam propor novos aprimoramentos e instrumentos jurídicos de fiscalização das obras traduzidas e editadas e dos direitos dos tradutores no âmbito das políticas públicas de aquisição de livros como o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), a Política Nacional do Livro e Leitura (PNL - Lei 10.753/03) ou até mesmo de projetos de Leis importantes como o Projeto de Lei 4534;12, que altera o PNL e tramita no Senado, mas, sobretudo, a Lei de Direitos Autorais, objeto de longo processo de audiências, seminários, reuniões e consulta pública iniciada em 2007 e que estaria, atualmente, em fase de formatação de anteprojeto de lei pelo Ministério da Cultura.
só podemos aplaudir a sensibilidade do perito do mpf e da procuradora da república em encaminharem parecer e decisão a outras esferas, para que possam proceder a uma mais efetiva proteção das obras de tradução.

  • para a determinação de instauração de inquérito civil público, ver aqui
  • para o cotejo de o livro da jângal, ver aqui
  • para o cotejo de o lobo do mar, ver aqui

imagem: m. kajiya, aqui

30 de abr. de 2013

fala um tradutor de joyce

donaldo schüler sobre a tradução de finnegans wake:




29 de abr. de 2013

fala um tradutor de schwob

uma simpática entrevista de kit schluter, tradutor de marcel schwob, aqui.



indicação da entrevista: bernardo freire; indicação da imagem: federico carotti

23 de abr. de 2013

jorge

só para não passar em branco, hoje é o dia do padroeiro do não gosto de plágio:


um bom protetor também pelo dia internacional do livro

10 de abr. de 2013

khadji-murat, o diabo branco

O diabo branco, usado ora como título, ora como subtítulo, é um detalhe  que, por si só, já renderia uma crônica inteira sobre a fortuna de Khadji-Murat no Brasil. A obra de Tolstói fora adaptada para o cinema por Alexandre Volkoff numa produção alemã em 1930, que se celebrizou em sua versão francesa como Le Diable blanc. Ao que parece, o romance causou um pequeno furor editorial no Brasil naquela época: nada menos que cinco edições diferentes em dezoito anos!

Khadji-Murat sai inicialmente no Brasil em 1931, na "Bibliotheca de Auctores Russos" da editora Georges Selzoff & Cia., em tradução direta do russo. Embora não constem os créditos de tradução, foi um trabalho em parceria de Georges Selzoff e Allyrio Meira Wanderley.



Em 1934, temos O diabo branco [Khadji-Murat] pela Civilização Brasileira, em tradução do lusitano António Sérgio. O interessante é que António Sérgio fora o sócio de Álvaro Pinto na editora Annuario do Brasil, na época em que se refugiaram no Brasil - mais tarde, exilara-se em Paris, onde era encarregado da seção luso-brasileira da editora Quillet.* Essa sua tradução foi feita por encomenda direta do editor brasileiro, e apenas mais tarde, já nos anos 1950, é que sairá em Portugal, com o nome de O demónio branco. Suponho que tenha sido por interposição do francês.

* Para uma breve trajetória editorial de António Sérgio, veja aqui.



Numa edição sem data, que calculo por volta de 1945, a Edições e Publicações Brasil lança O diabo branco, numa cópia fiel e integral da tradução de Selzoff e Wanderley, da Bibliotheca de Auctores Russos (1931), sem menção à fonte. Na página de rosto, consta apenas "Obra Póstuma - Edição integral - Revista".

 

Em sua coleção "Grandes Romances Universais", a W. M. Jackson publica em 1947 seu sétimo volume, de nome Três novelas russas. Na página de rosto consta Khadji-Murat e na página de início da novela acrescenta-se entre parênteses (O diabo branco). A tradução é igualmente anônima e tomada à Bibliotheca, sem menção à editora original. No verso da página de rosto, temos: "Tradução revista e adaptada para esta Coleção pelo Departamento Editorial da W. M. Jackson, Inc.".



Em 1949, pela Vecchi, em sua coleção "Os maiores êxitos da tela", temos O diabo branco em tradução de Boris Schnaiderman, assinando como Boris Solomonov.



Vale notar que, quase quarenta anos depois, em 1986, pela Cultrix, sai uma tradução reformulada de Boris Schnaiderman, agora com o título de Khadji-Murát, e em 2010, novamente revista, pela Cosac Naify.




p.s.: na verdade, já em 1963 a cultrix publica essa tradução refundida de schnaiderman no volume novelas russas.










o clube do livro, em suas habituais garfadas, não deixou passar - mais uma das "traduções especiais" de josé maria machado:



8 de abr. de 2013

georges selzoff, VI

admira-me a pertinácia do editor e tradutor georges selzoff em sua coleção "bibliotheca de auctores russos".

dois meses antes de encerrar suas atividades, ele ainda faz estampar na quarta capa de ninho de fidalgos, penúltimo livro publicado pela editora, a relação dos livros que já estariam no prelo - nada menos que catorze, entre eles um cartapácio como oblomov:



a editora publica seu último título em abril de 1932: é o anunciado águas da primavera, em tradução de selzoff e brito broca.

acompanhe o levantamento sobre as publicações da georges selzoff & cia. aqui.

4 de abr. de 2013

o que chamo de "encontrar o tom"



um artigo realmente muito bom de tim parks, aqui. não posso concordar mais:

And I realize that, beyond the duty of semantic accuracy, all I have to do (all!) is to sit down, for a few hundred hours, and perform this Leopardi—in whatever way seems most right, most authentically close to the tone and the feel of it, at the moment of writing (since every complex translation would be somewhat different if we had done it a month before, or a month later, or even an hour); yes, just hear the text and experience it absolutely as intensely as I can, allowing myself to fall into its way of thinking about things, then say it in English [...]  Of course there will be interminable revisions, much polishing up, and an editor will have his or her say. But essentially this is the way it is with translation, whether it be me and Leopardi, or some other translator and the latest Chinese Nobel Laureate, or some Russian translator and De Lillo or Franzen: the book is fed through a hopefully receptive mind, which inevitably leaves its indelible stamp on the translation. Let the academics argue the issues back and forth; what I have to do now is read honestly, and pray for inspiration.

2 de abr. de 2013

j'accuse

no dia de nascimento de émile zola, vale lembrar as traduções brasileiras de sua célebre peça de acusação ao sistema judiciário francês no caso do capitão dreyfus.


accuso!. tradução de elias davidovitch. 
calvino filho, 1933 (aqui na página de rosto da 2a. edição, de 1934)



acuso! - o julgamento do cap. dreyfus. tradução de orlando f. da silva. 
edições e publicações brasil editora, s/d, c. 1935


acuso (o caso dreyfus). atlanta, c. 1948


eu acuso! - o processo do capitão dreyfus.
hedra, 2007. tradução de ricardo lísias. 


j'accuse! (eu acuso!) - verdade em marcha.
l&pm, 2009. tradução de paulo neves.

atualização em 17/07/2016:


empresa editora brasileira, sem créditos, sem data (prov. anos 1930)