12 de jun. de 2013

o primeiro darwin no brasil


tradução de zoran ninitch, livraria editora marisa, 1933
edição comemorativa do centenário da viagem do beagle à américa do sul e às costas do brasil

7 de jun. de 2013

o retrato de dorian gray: quantos!

não que eu seja grande fã de oscar wilde, mas, agora que vi que saiu uma nova tradução d'o retrato de dorian gray, desta vez feita por jorio dauster, um dos melhores tradutores literários atuantes no brasil, fiquei animadinha e fui ver os outros dorian de que dispomos. um monte!

a primeira tradução que temos no brasil é a célebre de joão do rio, que saiu em 1923 pela livraria garnier, reeditada pela imago em 1993 e pela hedra em 2006



em 1933, sai pela editora universal uma tradução anônima:

Autor:Wilde, Oscar, 1854-1900.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:O retrato de Dorian Gray, romance.
Imprenta:Rio, Ed. universal, 1933. 
Descrição física:222 p.
Notas:Registro Pré-MARC
Classificação Dewey:
Edição:
823 


em 1935, temos pela flores & mano, por januário leite, português radicado por algum tempo no brasil. essa tradução foi reeditada pela pongetti em 1943 (1955, 1957, 1959, 1962):

Autor:Wilde, Oscar, 1854-1900.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:O retrato de Dorian Gray.
Imprenta:Rio de Janeiro, Flores & Mano, 1935. 
Descrição física:278 p.
Notas:Registro Pré-MARC
Entradas secundárias:Leite, Januario, trad.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 




em 1946, sai pelo clube do livro, inaugurando a carreira de josé maria machado e suas "traduções especiais" (ainda aparecendo discretamente como "j. machado"), reed. já com o nome por extenso em 1949, 1987 e 1988. sai também pela edigraf, c.1965. as capas, pelo visto, se merecem...




em 1952, sai a tradução de jeanette marillier, pela livraria martins, reed. 1954




em 1953, temos pela saraiva a tradução de ligia junqueira, uma das mais conhecidas e divulgadas entre nós. é reeditada pela saraiva em 1964; em 1965 sai também pela  bup; pela civilização brasileira desde 1969 até a data de hoje






em 1961, a josé aguilar publica a obra completa de oscar wilde, incluindo, naturalmente, o retrato de dorian gray, em tradução de oscar mendes. essa tradução, infelizmente muito sofrível, terá grande circulação, também pela abril cultural, 1971, 1972, 1973, 1980; pelo círculo do livro, 1973, 1975, 1995, 1996






em 1974, temos a adaptação juvenil feita por clarice lispector para a tecnoprint/ediouro






em c.1974, teremos a tradução de marina guaspari também para a tecnoprint, então edições de ouro, com sucessivas reedições até hoje; em 1998, sai pela publifolha






ainda em 1974, sai uma tradução - não descobri a autoria - pela editora três; certamente tratava-se de um licenciamento de alguma edição anterior.


em 1979, sai uma tradução anônima pela otto pierre, provavelmente portuguesa.






em 1985, pela francisco alves sai a tradução de josé eduardo ribeiro moretzsohn, reed. 1986, 1989, 1991, 1995; reed. pela l&pm em 2001, pela abril em 2010







em 2002, pela nova alexandria, temos a tradução de eduardo almeida ornick






ainda em 2002 e 2003, teremos uma fraude da nova cultural, em nome de "enrico corvisieri"; em 2005, temos aquelas coisas espantosas da ed. martin claret, em nome de "pietro nassetti". as duas fraudes não passam de estropiadas apropriações da já medíocre tradução de oscar mendes.






em 2009, sai pela landmark uma tradução de marcella furtado (aqui uma resenha de alfredo monte)








em 2012, sai a tradução de paulo schiller pela penguin/companhia








em 2013, na biblioteca azul da globo livros, temos então a tradução de jorio dauster, a que me referi no início deste post, numa edição anotada realmente estupenda







existem outras edições, que são adaptações ou quadrinizações, que não incluí aqui: de adaptação incluí apenas a de clarice lispector, mais a título de curiosidade.

6 de jun. de 2013

zoran ninitch, VII, bagrinho de medeiros e albuquerque

nosso caro iugoslavo residente no brasil, de quem vimos falando ao longo de vários posts (ver aqui), tem em sua bibliografia de traduções algumas obras de stefan zweig, entre as primeiras no brasil. saíram basicamente pela editora guanabara, do rio de janeiro, em 1934.

porém, ao mais descarado estilo ictiológico que às vezes grassava entre nós, parece ter sido mero "bagrinho" em favor de medeiros e albuquerque, nome mais conhecido e autor da casa, provavelmente mais vantajoso em termos comerciais para a editora:





(aqui na capa da edição de 1942)

sobre outros tradutores usados como bagrinhos, por exemplo millôr fernandes e olavo bilac, veja aqui.

em que pé estamos hoje

transcrevo considerações de ivone benedetti no facebook, com as quais concordo enfaticamente:

http://www.facebook.com/ivone.benedetti.5?fref=ts


Muito bom artigo de Paulo Franchetti. Escrito em 2008. Lamento só ter lido hoje. Concordo com os seus pontos de vista. Só discordo do seguinte: "o herói da resistência da norma: o preparador e revisor de textos – um profissional que é também, de certa forma, um tradutor, operando a delicada conversão e ajuste da língua informal para o indefinido e até agora problemático padrão da língua ou das línguas do livro)". Não é o que tenho visto na maioria dos casos. Infelizmente, percebo o caminho contrário, ou seja, o da "delicada conversão e ajuste" de opções mais formais a opções mais pessoais e informais. Está havendo por parte dos preparadores de textos, já imbuídos da demonização da norma culta, um tenaz esforço de nivelar por baixo, de facilitar o texto para um leitor que eles subliminarmente veem como deficiente mental. A coisa é feita no pior estilo "rede globo" de didatismo rasteiro. As construções sintáticas menos usuais não são entendidas. Eles as substituem por coisas que acabam tendo outro significado. Algumas palavras são "cassadas". Recentemente, num texto meu, "otário" foi substituído por "panaca" (!), qualificativo este que nunca vai sair do meu teclado (antes era pluma) nem era o sentido do texto original; "denodado" foi substituído por "corajoso" (logo depois do verbo desencorajar); "abstruso" foi substituído por "obscuro" (como se fossem perfeitos sinônimos); "espocar" não pode, tem de ser "estourar"; "jaez" não pode: o revisor tascou "característica", como se fosse sinônimo, ou seja, algo "desse jaez" virou algo "dessa característica"; "medrar", que talvez possa ter certo odor duvidoso, está proscrito, substituído por "difundir", que não é o que medrar quer dizer, mas só quer, porque não diz; "mansuetude" não pode: tem de ser "mansidão", nem que seja de Jesus. E não adianta passar horas pesquisando até concluir que o jogo a que o autor se refere é o bilhar (francês), porque o tal preparador decidiu que tudo é sinuca. Lamento, Paulo, mas nem nesse solo há húmus. O esforço é, sim, no sentido do empobrecimento. O grande desserviço prestado nos últimos anos pelos neolinguistas foi o de levar a crer que a língua só serve à comunicação - entenda-se: cotidiana -, esquecendo-se de que ela é (entre outras coisas) um repositório cultural. E os tais preparadores não descobriram ainda que quem se dá o trabalho de ler não está buscando o meio mais fácil de passar o tempo, e sim de entrar no intrincado universo do "pensamento" através do melhor instrumento inventado até agora para traduzi-lo: a língua, de preferência a escrita.

3 de jun. de 2013

tolstói, depois do baile

além d'a morte de ivan ilitch (veja aqui), outro tremendo sucesso de tolstói no brasil, a considerar pela quantidade de traduções publicadas em cinquenta e poucos anos, é o conto "posle bala", "depois do baile".


são seis traduções lançadas entre 1957 e 2011. interessante notar que, a partir de 1962, todas são diretas do russo:
  • a primeira delas sai na coletânea titãs do amor, em tradução de silvia de assis falcão. são paulo: el ateneo do brasil, 1957
  • depois temos no mar de histórias, v. 3, org. e trad. aurélio buarque de hollanda e paulo rónai. rio de janeiro: josé olympio, 1958 [reeditado pelas edições de ouro, c.1974; nova fronteira, 1981; ediouro, 1987]
  • a seguir, a tradução de oscar mendes na obra completa publicada pela josé aguilar em 1960-61
  • aí o conto sai na antologia do conto russo, vol. iv (dedicado a tolstói), em tradução de tatiana belinky. rio de janeiro: lux, 1962, reed. paulinas, 1988 
  • sai em o diabo e outras histórias, a coletânea organizada por paulo bezerra, em tradução de beatriz ricci. são paulo: cosac naify, 2000 
  • por fim, temos a tradução de graziela schneider, na nova antologia do conto russo (1792-1998), organizada por bruno barretto gomide. são paulo: 34, 2011 

agradeço a gutemberg de medeiros pela informação sobre a tradução da lux; a alfredo monte sobre a da cosac; a daniel dago e a bruno costelini sobre a da nova antologia.

zoran ninitch, VI: literatura de carregação

por volta de 1934-36, zoran ninitch parece ter feito a tradução de várias histórias de aventura e relatos de viagem, em livrinhos ao mais autêntico estilo da chamada "literatura de carregação". encontro referências a traduções suas de:
  • capitão marryat, aventuras do piloto ajudante
  • capitão marryat, cain, o pirata
  • fenimore cooper, os pioneiros
  • fenimore cooper, robinson do vulcão
  • gustave aymard, o segredo do cacique
  • gustave aymard, os bandoleiros do sul
  • h. alger jr., um heroe
  • henry landor, entre os indígenas do thibet
  • john normand, aylor, o fakir
  • kingston, entre os pelles vermelhas
  • matthew wuin, na áfrica selvagem
  • mayne reid, anahuac, terra de aventuras
  • mayne reid, nas terras do ouro
  • mayne reid, os trepadores de rochedos
  • mayne reid, em caminho do alaska
  • mayne reid, a caçadora selvagem
  • wilhelm junker, nas cabeceiras do nilo
foram publicadas pela empresa editora brasileira, que imagino ser uma subsidiária da empresa editora americana (da revista eu sei tudo), e talvez até em alguns números da própria eu sei tudo.


difícil encontrar imagens de capa, mas dispomos de vários desses livros em nosso acervo na biblioteca nacional:





interessante que dois deles constam em tradução de um "filemon de alvarenga e souza", cuja única referência que se encontra na internet diz respeito, justamente, a nas terras do ouro.




a serem válidas tais datas de publicação, esses anos corresponderiam ao efêmero período de atividades de sua minúscula editora, a machado & ninitch (1934), e aos dois anos imediatamente subsequentes.

2 de jun. de 2013

zoran ninitch, V, e uma sugestão de pesquisa

zoran ninitch, nosso amigo tradutor iugoslavo de que já falamos algumas vezes (veja aqui), traduziu várias coisas de stefan zweig no começo dos anos 1930.

hoje quero comentar uma "coincidência" envolvendo duas delas: uma noite fantastica, pela editora pallas (c.1932), e ocaso de um coração, pela machado & ninitch (1934).



ninitch tinha um colaborador em sua microeditora machado & ninitch: o tradutor aurélio pinheiro.

por outro lado, a editora pongetti, nos anos 1940, era relativamente useira e vezeira em pegar traduções publicadas por outras editoras, como fez algumas vezes com traduções de elias davidovich publicadas pela guanabara(veja aqui).

assim, quando vejo um volume contendo ocaso de um coração e uma noite fantastica, publicado pela pongetti em 1941, dando como tradutor aurélio pinheiro - aliás, falecido em 1938 -, começo a sentir aquela insuportável coceira que apenas um batalhão de pulgas atrás da orelha consegue provocar.

infelizmente não localizei imagem de capa dessa edição da pongetti (aliás reeditada em 1950), mas encontra-se facilmente em sebos, no google books e em nossa biblioteca nacional.

atualização em 05/08/2015 - localizei uma imagem de capa da referida edição da pongetti:



1 de jun. de 2013

ivan ilitch

vendo o caso do grande gatsby, com sua inflação de novas traduções nos últimos dois anos - nada menos que cinco! -, somando ao todo oito traduções em menos de cinquenta anos (veja aqui), lembrei também o caso de tolstói com a morte de ivan ilitch. não teve nenhum leonardo di caprio no pedaço, mas mesmo assim são dez (quiçá nove) traduções diferentes em menos de sessenta anos (1944-2002)!

sem dúvida é o texto de tolstói mais traduzido entre nós:
  1. a primeira a sair é a de marques rebelo, na antologia os russos: antigos e modernos,  editora leitura, em 1944 
  2. a seguir, em 1948, sai a de gulnara lobato de morais, pela saraiva
  3. a terceira é a de boris schnaiderman, em três novelas russas, pela boa leitura, em 1959 (direta)
  4. em 1960, sai a de milton amado, em obra completa, pela josé aguilar
  5. depois vem pela lux (não sei ainda quem traduziu), na antologia do conto russo, vol. IV, em 1962, tradução direita de ana weinberg e ari de andreade, reed. pela bup em 1963 [vide comentário de mário luiz frungillo]
  6. em 1981, pela alhambra, temos a de joaquim campelo marques e manoel borges (direta)
  7. a de tatiana belinky sai em 1991, pela pauliceia (direta)
  8. uma antiga, de carlos lacerda, sai em 1997 pela lacerda
  9. em 2002, pela l&pm, sai a de vera karam [retificação em 13/7/2015: a tradução de vera karam saiu inicialmente em 1997 pela l&mp - vide caixa de comentários]

a tradução de carlos lacerda é um caso engraçado: parece que foi publicada em algum lugar em 1944 e depois, em 1959, no primeiro número da revista senhor. mas da edição de 1944 não encontrei nenhum rastro. e aí pensei: será que marques rebelo emprestou seu nome a ela na antologia da ed. leitura? taí uma curiosidade que alguma hora vou tentar satisfazer.*










retificação em 04/06/2013: ivo barroso informa que o ivan ilitch na tradução de carlos lacerda saiu não no primeiro e sim no segundo número da revista senhor, em abril de 1959.



ilustrações da capa e do conto por glauco rodrigues, gentilmente enviadas por ivo barroso. nosso insigne poeta, tradutor e crítico literário comenta que a ilustração de capa era uma "alusão ao excelente comentário que o Paulo Francis faz no interior da revista sobre a Lolita de Nabocov que estava para sair no Brasil" (que saiu naquele ano em tradução de brenno silveira, pela civilização brasileira).

* retificação: na verdade, a edição de 1944 da coletânea organizada por rubem braga traz a tradução de carlos lacerda, reeditada na revista senhor e, mais tarde, pela editora lacerda. a tradução de marques rebelo virá a substituí-la nos anos 1960 na coletânea de rubem braga,, quando a tecnoprint/ediouro passa a publicá-la com o nome de o livro de ouro do conto russo.

29 de mai. de 2013

allitra

legal: a revista da associação australiana de tradução literária, disponível aqui.

26 de mai. de 2013

lydia davis tradutora de flaubert

ótimo artigo sobre a obsessão pela palavra que é o traduzir, aqui.

25 de mai. de 2013

khadji-murat, tradução de georges selzoff

ilustração de m. barychnicoff para khadji-murat, edição cultura, 1931

esta é para um caro amigo, que tão bem soube apreciar a beleza da tradução de khadji-murat, de tolstói, feita por georges selzoff (com a colaboração de allyrio meira wanderley). ela foi publicada em 1931 pela edição cultura, na bibliotheca de auctores russos concebida e desenvolvida pelo tradutor-editor selzoff.

transcrevo os dois primeiros parágrafos, onde o narrador conta a dificuldade que teve em arrancar uma bardana tártara, então florida, cujo vigor e resistência lhe fizeram lembrar a história de khadji-murat, que depois passa a narrar.

      Regressava eu a casa pelos campos. Ia em meio o verão. Segada a erva, começava a ceifa do centeio. Há, nessa época do ano, maravilhosa variedade de flores: as dos trevos, vermelhas, brancas, perfumadas, penugentas; alvos malmequeres de fundo amarelo vivo; a colza dourada, rescendendo a mel; longo o caule, como o caule longo da tulipa, altas campânulas roxas e nevadas; e ervilhas desenrolando-se em trepadeiras; escabiosas flavas, rubras, róseas: com uma pubescência levemente corada, com um aroma agradável e sutil, a tanchagem lilá; e as centáureas, de um azul vibrante ao sol quando recém-desabrochadas e de um azul mortiço à tarde quando se vão fanando; depois, fraquinhas, passageiras, as da cuscuta, que cheiram a amêndoa.
      Colhera grande ramalhete, e prosseguia, mas vi num fosso magnífica bardana violácea, em plena floração; uma dessas entre nós chamadas "tártara", que o foiceiro evita com cuidado, e separa do feno, para não picar as mãos, se porventura a cortou. Quis arrancá-la e pô-la no molho. Desci à vala e, expulso felpudo zangão que adormecera, enroscado e indolente, no coração duma flor, eis-me a desarraigar a planta. Foi bem difícil. Não só o caule ferroava por todos os lados, mesmo através do lenço onde enrolara a mão, como resistia tanto, tanto, que lutei quase cinco minutos com ele, dilacerando-o fibra a fibra. Desaferrada enfim, tinha em frangalhos a haste, e já não parecia nem tão fresca nem tão linda. Além disso, bruta e rude, não se dava com as outras, delicadas. Arrependi-me de haver destruído a flor, tão bela no seu canto, e joguei-a fora. "Que energia! Que vitalidade", me disse a mim próprio, recordando os esforços para desprendê-la. "Como se defendia, e como vendeu cara a vida!"

sabe-se que o russo não dispõe de artigo definido ou indefinido; daí, na tradução, tantas ausências - nem por isso, porém, gramaticalmente incorretas em português - do artigo indefinido que nos soa mais habitual: "maravilhosa variedade", "grande ramalhete", "magnífica bardana", "felpudo zangão". 

quanto à ocorrência de várias orações reduzidas ("segada a erva", "expulso felpudo zangão", "desaferrada enfim"), nelas ressoa à distância a morfologia mais sintética do russo, porém sempre bem desenvolvidas num português leve, desenvolto e até quase coloquial ("fraquinhas", "bem difícil", "resistia tanto, tanto", "não se dava").

considero um trabalho admirável.

por isso tanto mais me surpreendeu a tentativa de leitura crítica de paula scarpin, em seu brevíssimo cotejo com a tradução de boris schnaiderman. reproduzo abaixo meus comentários naquela época, que havia feito aqui.


encontro na matéria de paula scarpin, aqui, um seu juízo sobre a tradução de khadji-murat, de liév tolstói, feita diretamente do russo por georges selzoff em parceria (para o arredondamento final do texto em português) com allyrio meira wanderley, em 1931.

diz a jornalista a certa altura:

[...] é possível perceber que em algum momento do processo o texto coloquial e fluente de Tolstói resultou em um português rebuscado e recheado de arcaísmos, com excesso de uso da ordem indireta. Num trecho do preâmbulo, por exemplo, onde Schnaiderman traduz: “Desci para o fundo da ravina e, depois de expulsar um zangão cabeludo, que se cravara no centro da flor e nela adormecera flácida e docemente, comecei a cortar a haste”, Selzoff escolheu: “Desci à vala e, expulso felpudo zangão que adormecera, enroscado e indolente, no coração de uma flor, eis-me a desarraigar a planta.”
em primeiro lugar, não vejo no exemplo tomado a selzoff/wanderley qualquer "excesso de uso da ordem indireta" - na verdade, não vi absolutamente nenhuma ocorrência de ordem indireta; muito pelo contrário, nada mais direto do que "desci", "que adormecera", "eis-me a desarraigar".

em segundo lugar, utilizar o português do século XXI, mais especificamente o português corrente em 2012, como parâmetro para julgar "rebuscado" e "recheado de arcaísmos" o português de mais de oitenta anos antes, parece-me método de um anacronismo inqualificável. talvez uma possível estranheza que pode ter sentido a jornalista se deva à ausência de artigos indefinidos onde seu uso nos pareceria natural, como no caso do zangão.

mas, afora isso, o que haveria de tão arcaico e rebuscado em "vala", "expulso", "felpudo", "enroscado", "indolente" ou "desarraigar"? muito pelo contrário, bem menos coloquial e fluente parece-me o contraexemplo (tomado à tradução de boris schnaiderman) dado pela jornalista: "adormecera flácida e docemente"!


em suma, creio que, no afã de querer por alguma obscura razão desqualificar a pioneiríssima (e bela!) tradução de selzoff, a jornalista errou a mão.

podíamos passar sem essa.