11 de mar. de 2013

scott fitzgerald no brasil

scott fitzgerald (1896-1940) é um sucesso no brasil. raros são os autores com parte tão grande de sua obra completa traduzida entre nós. o favorito é the great gatsby (1925), com nada menos que quatro traduções brasileiras em quase cinquenta anos, 1962 a 2011.*

* atualização: disparou para oito, com nada menos que quatro traduções lançadas em 2013, na esteira do filme com leonardo di caprio.



mas comecemos pelo começo. aparentemente, scott fitzgerald se apresenta ao público brasileiro em 1945, no volume os norte-americanos: antigos e modernos, com o conto "uma curta viagem para casa", editora leitura, em tradução de elizer burlá para o conto "a short trip home" (1927, publicado na coletânea taps at reveille, 1935).

foto aqui





em 1958, sai o conto "na sua idade" ("at your age", 1929) em maravilhas do conto norte americano, sem crédito de tradução, como soía fazer a cultrix em sua coleção de maravilhas, catando aqui e ali traduções de outras editoras e publicando-as sem dó nem piedade (e nem créditos ou fontes).






entre nós, é a civilização brasileira a editora que mais publicou fitzgerald: seus cinco romances, além de dois volumes de contos e textos autobiográficos, bem como alguns contos em seus magazines literários.


não sei dizer qual é o primeiro romance de fitzgerald que chega ao público brasileiro, pois em 1962 a civilização brasileira lança três romances dele de uma só enfiada! se alguém se interessar mais a fundo, não deve ser muito difícil descobrir. mas suponhamos que tenha sido o grande gatsby na tradução de brenno silveira, a mais constantemente reeditada e licenciada entre nós até hoje.

ao lado, a capinha horrorosa da primeira edição - mas no fundo bem mais fiel ao livro do que outras que sugerem muito glamour.






no mesmo ano, também em tradução de brenno silveira, pela civilização brasileira, sai este lado do paraíso (this side of paradise, 1920)










no mesmo ano, também em tradução de brenno silveira, pela civilização brasileira, sai a coletânea 6 contos da era do jazz. trata-se da coletânea montada pela filha de fitzgerald, six tales of the jazz age and other stories (1960).

será relançado em 2009 pela josé olympio com o título de o curioso caso de benjamin button e outras histórias da era do jazz.






em 1963 temos belos e malditos em tradução de waltensir dutra, também pela civilização brasileira.










no ano seguinte, a civilização lança suave é a noite, em tradução de  ligia junqueira.

essa tradução será ridiculamente garfada e adulterada pela editora nova cultural, que desde 1995 lança-a em nome de um espectral "enrico corvisieri". sobre essa criminosa palhaçada, veja aqui.

 
                                       fraude de "enrico corvisieri"



em 1967, temos o último magnata, sempre pela civilização brasileira, em tradução de roberto pontual.










também em 1967, sai "retorno a babilônia" em livro de cabeceira do homem, ano I, volume 2, pela civilização. não sei quem foi o tradutor.









em 1968, sai o o livro de cabeceira da mulher, ano II, volume 7, com "a última das beldades". não sei de quem é a tradução. sempre pela civilização.










em 1969, temos o livro de cabeceira da mulher, ano III, volume 9, com "as costas do camelo". imagino que seja a tradução de brenno silveira, que saíra nos contos da era do jazz.









também em 1969, sai a derrocada e outros contos e textos autobiográficos em tradução de álvaro cabral, pela civilização.










sem data, mas calculo por volta de 1975, sai "a dança", in antologia macabra, em tradução de bárbara heliodora e newton goldman, pela nova fronteira.










em 1979, teremos estranhos embora íntimos e outros contos inéditos, com tradução de clarita de mello motta, também pela nova fronteira.









em 1980, temos pedaços de paraíso - contos inéditos de f. scott e zelda fitzgerald, de zelda e scott, na tradução de  ruy castro, pela livraria cultura editora (e, no mesmo ano, também pelo círculo do livro).

encontrei uma referência a uma edição de 1973 dessa mesma tradução, mas não consegui corroboração.






em 2001, sai "financiando finnegan" em os 100 melhores contos de humor da literatura universal, pela ediouro.








também em 2001, temos contos de scott fitzgerald, com tradução de mario de luna, leda maia e marcelo filardi ferreira, pela casa jorge. que pena que não consegui imagem de capa.



no mesmo ano, sai também pela casa jorge a tradução de marcos santarrita para suave é a noite.


em 2002, temos "a dança" em os 100 melhores contos de crime e mistério da literatura universal, com tradução de alves moreira, pela ediouro.










em 2003, sai uma nova tradução d'este lado do paraíso, por carlos eugênio marcondes de moura, pela cosac naify.








também em 2003, sai uma nova tradução d' o grande gatsby, por roberto muggiati, pela record, reeditada pela bestbolso em 2007.*










em 2004, sai a coletânea 24 contos, em tradução de ruy castro, pela companhia das letras. a relação dos contos pode ser vista aqui.









ainda em 2004, a l&pm lança a tradução de william lagos para o grande gatsby, também relançada em sua coleção pocket em 2011.*










no ano seguinte, a companhia das letras publica querido scott, querida zelda, em tradução de beth vieira.











em 2006, sai o diamante do tamanho do ritz e outros contos. além do "diamante", são "bernice corta o cabelo" e "o palácio de gelo", com tradução de cássia zanon e william lagos, pela l&pm.








em 2006, sai a tradução de carlos eugênio marcondes de moura para o último magnata, também pela l&pm.










em 2007, uma nova tradução d'os belos e malditos, agora de roberto grey, também pela l&pm.










ainda em 2007, pela l&pm, sai crack-up - o colapso, em tradução de rosaura eichenberg.









em 2011, sai grande gatsby, em tradução de vanessa bárbara, pela penguin/ companhia das letras.









* atualização em 15/3/13: agradeço a alfredo monte pela indicação das datas desses lançamentos. ver aqui sua resenha o vale das cinzas.

atualização em 18 e 24/5/2013: neste ano há mais quatro traduções de o grande gatsby, num frenesi que só consigo explicar pelo sucesso do galã leonardo di caprio na nova refilmagem de the great gatsby, lançada no começo de 2013 - aliás, é o que fica evidente nas três capas/sobrecapas praticamente idênticas dessas novas edições!

essas edições de 2013 são pela leya, em tradução de alice klesck; pela tordesilhas, em tradução de cristina cupertino; pela landmark, em tradução de vera silvia camargo guarnieri; pela geração editorial, em tradução anunciada de clara averbuck e edição prometida para maio, mas afinal adiada para o começo de junho e outro tradutor (humberto guedes).



atualização em 26/5/13: matéria n'o globo sobre essa enxurrada de novas traduções, aqui.
atualização em 01/06/13: afinal, humberto guedes e william lagos são a mesma pessoa; ver aqui.

atualização em 02/07/15:

em 2013, temos pileques, drinques e outras bebedeiras, em tradução de donald garschagen, pela editora má companhia.

"o colapso", em quatro novelas e um conto, org. e trad. de tomaz tadeu, na coleção mimo da autêntica.

o último magnata, em tradução de christian schwartz, pela pinguein/companhia

algum conto em leituras de escritor, de ana maria machado, pela S.M., em 1992

algum conto em arte e letra: estória l, 2011



georges selzoff, IV

em georges selzoff, I, aqui, eu tinha comentado: "águas da primavera, de ivan turguenieff, tradução a quatro mãos com brito broca, 1932, com menção a uma segunda edição no mesmo ano. não localizei imagem de capa nem exemplar em nosso acervo, mas encontrei uma edição da melhoramentos nos anos 1950, com 'tradução revista por marina stepanenko'. quem sabe não será a de selzoff/ broca?"

encomendei um exemplar da melhoramentos (da selzoff não se encontra à venda em lugar nenhum) e fiquei muito feliz ao encontrar no verso da página de rosto as devidas especificações: 




sempre achei a melhoramentos seriíssima, e fico contente com mais esta confirmação - ainda mais se a gente lembrar o festival de contrafações que grassava naquelas décadas de 1940 e 1950, com centenas de "traduções revistas por XXX", sem dar as fontes, fosse na pongetti, na w. m. jackson, mesmo na nacional, sobretudo na cultrix em sua coleção de 24 volumes de "maravilhas do conto tal"... e sobretudo a memória da pioneiríssima biblioteca selzoffiana não se perdeu de todo, na reutilização de suas antigas traduções.

9 de mar. de 2013

rubaiyat


o crítico, poeta e tradutor ivo barroso publicou um belo artigo sobre os rubais de omar khayyam. vale a pena ver, aqui. no artigo, além de publicar sua versão de vários rubais a partir de toussaint/tarquínio, relata uma graciosa singeleza de juventude, do alto de seus dezenove anos:
Mas o que o impacto do livro conseguiu mesmo foi derrubar minhas crenças precárias e abrir-me as portas largas do niilismo e das liberdades totais de pensamento. Eu queria escrever coisas iguais e, para tanto, me “orientalizava” assumindo a persona de um poeta árabe. Cheguei a adotar um nome pseudopersa, Hadiadat Maahatama, e comecei a compor poemas a que dei o título de Yezedis, palavra que eu havia encontrado em minhas leituras e sabia referir-se aos adoradores do diabo. Mas meus poemas não passavam de decalques do Rubaiyat e resolvi assumir o pastiche. Achava expressivo o texto de Tarquínio, mas faltava-lhe ritmo, faltava rima; eu queria transformá-lo em pequenos poemas rimados e metrificados. Foi o que fiz, aproveitando palavras e frases inteiras da tradução. (meu rubaiyat, aqui)
foi também por intermédio desse artigo de ivo barroso que vim a saber que a tradução de octavio tarquínio de souza já desde 1928 saíra pela imprensa nacional (eu achava que tinha sido apenas em 1935, pela josé olympio). diga-se ainda que o número de rubais varia bastante nessas edições, dependendo da seleção feita. tenho a impressão de que a coletânea mais extensa é a de eugênio amado, com 200 rubais.

vendo o que temos do rubaiyat entre nós, encontrei o seguinte:
  • 1928, imprensa nacional, tradução de octavio tarquinio de souza, via toussaint, desde 1935 na josé olympio, e a partir de então a mais exaustivamente reeditada
  • 1933, brito & santos editores, tradução de d. martins de oliveira 
  • 1944, jangada (rio de janeiro), tradução de matos pereira
  • 1944, a bolsa do livro, tradução de  jamil almansur haddad, via fitzgerald, na coleção "seleções preciosas", vol. 2; desde 1956 na civilização brasileira, com várias reedições, também pela bup e pela pioneira
  • 1945, sugestões de um poeta persa, tradução e paráfrases de joaquim de araújo filho
  • 1947, pongetti, tradução de emílio de adour da primeira e da quinta edição de fitzgerald
  • 1950, joão calazans (belo horizonte), tradução de cordélia fontainha seta
  • 1959, ofic. de h. reis (santos), tradução de eno theodoro wanke, reeditado no rio em 1987 pela plaquette
  • 1960, ed. conquista, um rubai exemplificativo em tradução de geir de campos in pequeno dicionário de arte poética
  • 1966, tecnoprint (atual ediouro), tradução de manuel bandeira, via toussaint, com várias reedições [vide abaixo, atualização de 28/12/2018]
  • 1979, hemus, tradução pretensa de torrieri guimarães, supostamente via toussaint. porém ver "os rubaiyat de manuel bandeira e de torrieri guimarães", aqui
  • 1986, alguns rubais em tradução de augusto de campos, via fitzgerald, em o anticrítico 
  • 1999, garnier (de belo horizonte), tradução de eugênio amado
  • 2003, madras, "explicado por paramahansa yogananda", a partir de fitzgerald
  • 2004, l&pm, "dois quartetos", tradução de carlos freire, in babel de poemas: uma antologia multilíngue, feita diretamente do persa
  • 2007, eko (blumenau), coleção "clássicos do oriente" - não descobri o tradutor
  • 2012, unesp, tradução de luiz antônio de figueiredo, via fitzgerald
  • 2013, topbooks, tradução de j.b. de mello e souza, edição póstuma
  • 2014, createspace, tradução de gentil saraiva júnior, via fitzgerald, ed. bilíngue
  • 2014, bagaço, tradução de milton lins
  • sem data, não faço muita ideia: algo vago entre anos 40 e 60..., editora minerva, tradução do filólogo orientalista ragy basile, com forma poética dada por christovam de camargo. saiu também pela conquista em 1970 e, a partir de 2003, pela martin claret. até onde sei, é a única coletânea com tradução feita diretamente do persa
  • sem data, provavelmente anos 2000, tradução de josé reis, apostila eca/usp
  • aqui está disponível a tradução de alfredo braga
  • existem também várias outras traduções de rubais avulsos em sites e blogs.
  • atualização: ivo barroso, meu rubaiyat, 2017, pela giordanus















interessante notar que christovam de camargo utilizou a mesma tradução de ragy basile para suas versões poéticas também em francês e espanhol.

o que achei meio feio foi que na losada, por exemplo, que reeditou inúmeras vezes las rubaiatas, consta: Versión directa del original iranio al portugués, francés e español por el escritor brasileño Christovam de Camargo. mesmo em sua versão francesa publicada pela seghers (1961 em diante), não há qualquer menção a ragy, que afinal foi quem fez a tradução do persa que serviu de base para o arranjo poético de christovam.











a tradução de milton lins, espantosamente surreal de ruim, está disponível aqui.

atualização em junho de 2017 - é lançado:



adendo a título de curiosidade: em 1932, saiu uma tradução em espanhol de alfonso saenz pardo, publicada em curitiba (livraria mundial), com prefácio do jornalista paulo tacla:



notas:
agradeço a ivo barroso pela imagem de capa da tradução de cordélia fontainha (1950), pela página de rosto da tradução de jamil almansur (1944) e, em primeiro lugar, pelo incentivo inicial para levantar os khayyam brasileiros.

agradeço a daniel dago a informação sobre os dois rubais traduzidos por carlos freire (2004).

agradeço a mavericco a informação sobre o rubai traduzido por geir campos (1960).

agradeço a willamy fernandes por indicar a tradução de j.b. de mello e souza (2013) e outras informações.

agradeço ao anônimo por indicar a tradução de gentil saraiva júnior (2014).

ocorreu-me uma ideia engraçada agora: como torrieri guimarães, dissesse o que dissesse, na verdade só traduzia do espanhol, imagine se sua tradução do rubaiyat fosse da versão castelhana de christovam de camargo, por sua vez feita em cima da tradução de ragy basile? ia ser muito cômico!

atualização em 08/12/2017: na verdade, a pretensa tradução de torrieri guimarães retoma a tradução de manuel bandeira. veja-se aqui.

atualização em 28/12/2018: na verdade, a tradução de manuel bandeira foi publicada inicialmente em 1964, como volume 33 da biblioteca universal popular (bup), de ênio silveira, ligada à civilização brasileira.

Resultado de imagem para rubaiyat bup


3 de mar. de 2013

entrevista sobre tradução, mrs. dalloway e virginia woolf

o jornal opção de goiânia publicou hoje uma entrevista minha sobre virginia woolf e a tradução de mrs. dalloway, disponível aqui.


Edição 1965 de 3 de março a 9 de março de 2013
Entrevista
Virginia Woolf feminista é “uma invenção da tradição”
Denise Bottmann, uma das mais importantes tradutoras brasileiras, fala sobre a tradução de Virginia Woolf
Mestre em teoria da história e doutora em epistemologia da história, Denise Bottmann é uma das mais destacadas tradutoras brasileiras. Traduz do inglês, francês e italiano, e já realizou trabalhos para as mais importantes editoras do país, entre elas, Com­panhia das Letras, Cosac Naify, Objetiva e Nova Fronteira. Bott­mann é autora do livro “Padrões Explicativos da Historiografia Brasileira” e mantém o blog “Não Gosto de Plágio”, um canal que reúne farta documentação sobre traduções, plágios e contrafações. Na entrevista, Denise Bottmann fala sobre os desafios na tradução de “Mrs. Dalloway”, considerada a obra-prima de Virginia Woolf, que inovou “a arte romanesca de forma a um só tempo delicada e radical ao alternar o foco narrativo de um personagem para outro e ao lançar mão do fluxo de consciência como maneira de acompanhar seus sentimentos, suas sensações e suas reflexões”.  “E vários elementos de conteúdo, eu tinha de conseguir que cintilassem de leve, aqui e ali, discretamente, como pequenos presentinhos escondidos para o leitor, como Woolf faz, sem alardear”, afirma. A tradução de “Mrs. Dalloway”, o romance entrou para o domínio público em 2012 — foi encomendada pela editora L&PM. Bottmann também afirma que a “Virginia Woolf feminista é uma invenção da tradição. E, como uma tradição inventada, certamente tem sido útil para a construção de uma história do feminismo”.









Até 2012, havia apenas uma tradução de “Mrs. Dalloway”, a de Mario Quintana, de 1946. Com o ingresso da obra de Virginia Woolf em domínio público a partir de 2012, qual a importância de aparecerem novas traduções?

Há vários aspectos. O primeiro, e mais genérico, é que toda tradução autoral tem a marca pessoal do tradutor. O segundo, diretamente relacionado a esse primeiro aspecto, é que cada tradução vem muito marcada por sua época: toda tradução é, por definição, mais datada do que a obra original. Assim, é não só natural, mas desejável que periodicamente se renovem as traduções das principais obras do chamado cânone literário ocidental. Em terceiro lugar, e mais especificamente, há uma questão peculiar nessa tradução do Quintana: considero-a muito boa, e até admirável sob diversos ângulos. Há nela, porém, uma leve tendência de arredondar um pouco o texto. A modernidade de Woolf — as invenções estilísticas no plano da escrita e mesmo alguns recursos narrativos utilizados no texto — às vezes parece um pouco atenuada: penso na função muito peculiar da pontuação, na incansável repetição de termos que funcionam como marcadores não só do texto, como também do fluxo mental dos personagens, na estruturação sintática, no uso de uma linguagem muito, muito simples, mas ao mesmo tempo com uma grande elaboração das frases.

Veja um exemplo que acho bonitinho — há lá a certa altura, falando de Septimus, quando se mudou para Londres: “... there were experiences, again experiences, such as change a face in two years from a pink innocent oval to a face lean, contracted, hostile”. Você nota nos dois blocos de adjetivos como o uso das vírgulas é quase icônico, figurativo? Em “pink innocent oval”, os adjetivos correm, fluem como se quisessem mostrar como era liso, sem marcas, o rosto do jovem; então vem “lean, contracted, hostile” (que contraste, como pisa duro!), como se as vírgulas mimetizassem as marcas da experiência. Ninguém há de crer que isso seja por acaso; é de uma grande deliberação, e esse uso da pontuação como uma espécie de encenação visual e emocional desempenha uma função muito interessante em todo o texto, que entendo que deva ser mantida na tradução.

Ela levou três anos para escrever “Mrs. Dalloway”: um polimento constante, um esforço incessante em reproduzir no plano da linguagem o discurso mental e mesmo o tropel emocional que avassala os personagens. Não foi fácil. Então, digamos, a tradução do Quintana — que, repito, acho muito boa — se depara com esse “modernismo” dela e, em alguns momentos, prefere contorná-lo. A tradução resultante causa menos estranheza ao leitor — ainda mais pensando no leitor médio dos anos 1940. Mas isso significa que, para nós, uma obra que fazia parte da grande onda de renovação literária das primeiras décadas do século 20 chegou vazada numa escrita um pouco mais convencional, que não incorporava plenamente alguns de seus aspectos mais inovadores.  Mas também é claro que, 70 anos depois da tradução de Quintana e 90 anos depois do lançamento do original (estou arredondando as décadas), uma tradução mais respeitosa da letra do texto, mais atenta àquilo que era inovador naqueles tempos não vai despertar no leitor contemporâneo — que hoje em dia tem quase um estômago de avestruz — a surpresa que poderia ter despertado no passado.
O que você destacaria como o principal desafio que encontrou para traduzir este livro?

Foi encontrar o tom. A linguagem em si é muito simples. A questão é a seguinte: existem “n” maneiras de dizer qualquer coisa; acontece que aquela coisa está dita daquela e não de outra maneira — e ninguém, em especial o tradutor, pode considerar que seja algo fortuito ou mecânico. Então este é o ponto de partida: as escolhas do autor. E são essas escolhas incessantes ao longo das páginas que você tem de entender: não digo só o que está dado no texto; digo as razões de fundo (literárias, estilísticas) para a escolha de tal e tal montagem, desta e não daquela palavra, daquela imagem, daquela ordem dos termos e frases, o que for. Esse entendimento leva algum tempo, pelo menos para mim: assim como o pessoal da filosofia fala em “tempo lógico” do texto, penso numa espécie de “tempo literário” do texto. Então, digamos, a certa altura você até consegue reconstituir mais ou menos o quadro da coisa, você já discerne os procedimentos e suas correlações internas. Ótimo. Mas ainda não sente, está ainda no nível analítico, abstrato. Você até consegue prever quais as escolhas que vão vir, ou, quando vêm, já parecem bastante naturais, você bate na cabeça e diz, “mas claro!”. E aí você tem de conseguir infundir essa percepção de uma estrutura, que transparece apenas obliquamente na superfície do texto, no que você vai escrever em português, isto é, na sua tradução. É isso o que chamo de “encontrar o tom”. E vários elementos de conteúdo, eu tinha de conseguir que cintilassem de leve, aqui e ali, discretamente, como pequenos presentinhos escondidos para o leitor, como Woolf faz, sem alardear: e de repente pode aflorar à leitura alguma preciosidade, e é quando o leitor tem aquela — para usar um termo batido — epifania. Várias coisas ganham nova perspectiva; coisas que pareciam avulsas ou desconectadas se reúnem; fica uma espécie de prisma multifacetado.
Existem peculiaridades de época, de vocabulário, de costumes muito marcadas no romance? Como você enfrentou essa transposição temporal e cultural?

Aqui também há algumas or­dens de consideração. A primeira, e mais simples, é o baile que levei em alguns termos, em particular na descrição do jardim logo no começo do livro: até chegar na valeriana para “cherry pie” foi uma novela, partindo, devo confessar, da mais literal torta de cerejas! Nisso várias pessoas encantadoras me auxiliaram muito, tanto no nível vocabular quanto ajudando a explorar sutilezas de estilo — pois eu tinha montado um blog de trabalho, “Traduzindo Mrs. Dalloway”, como uma espécie de oficina aberta aos interessados, onde ia discorrendo sobre meus processos mentais, minhas dúvidas, as várias soluções possíveis. Então tive a colaboração fantástica de diversas pessoas, a quem agradeço de coração. A experiência durou pouco, mas houve uma interação valiosa, muito estimulante.

Agora, quanto às peculiaridades do vocabulário inglês no início do século 20, na  verdade, não tem muito isso. Woolf usa um vocabulário simples, que não é muito datado, não cria neologismos (o único é irreticences), não inventa muita moda. Onde ela se esbalda é na exploração idiossincrática da sintaxe — por exemplo, seu uso desenfreado do “for” como início de frase e mesmo de parágrafo, contrariando os manuais de gramática. É muito interessante — e claro que deliberado, não pelo gosto pueril de uma pequena excentricidade, mas, ao que entendo, como de fato uma espécie de rastreamento e reprodução de nossos processos mentais: como quando tentamos nos justificar, explicando o motivo de algo que fizemos ou dissemos, tipo “foi porque...”. O “for” como abertura de frase já aparece e se repete desde as primeiras linhas e vai até a última linha do livro. Acaba funcionando como um marcador da racionalização constante.  Mas isso não é terminologia de época; isso é recurso estilístico.

No texto, o mais complicado para nós, acho eu, são as diferenças culturais, e que são irredutíveis: por exemplo, o momento em que Clarissa, num de seus surtos de perfídia classista, desanca a pobre Evelyn Whitbread, repisando a forma de tratamento “Honoura­ble” (título abaixo de “Lady”, tipo uma nobrezinha de segunda categoria) — é uma ferroada que você fica até com pena da pobre mulher, a qual, aliás, só está ali naquele trecho meio de inocente útil, mais como recurso retórico. O leitor brasileiro vai perceber o grau de esnobismo, a malevolência da alfinetada? Duvido. Mas são dados culturais, e não dá para ficar pondo nota para explicar essas coisas. O leitor atento notará, claro, pois tais ocorrências se dão em passagens muito determinadas, dentro de um contexto bastante claro, mas afora isso... Sem contar a infinidade de referências culturais mais tácitas: a autora/narradora não precisa explicar a seu leitor inglês de 1925 ao que Richard, o marido de Clarissa, se referia ao dizer que “Nenhum homem decente deixaria a esposa visitar a irmã de uma esposa falecida”. Oh, Jesus, o que significa isso, e por que precisamente isso é apresentado como exemplo contundente do convencionalismo de Richard? Para nós, que nunca tivemos uma proibição legal do amasiamento ou do casamento entre um viúvo e sua cunhada, irmã de sua falecida esposa, e não vivemos a candente luta parlamentar contra essa lei, que só foi revogada em 1907 (Woolf já era bem adulta), o trecho fica quase críptico, penso eu. Assim como este, são incontáveis os exemplos de referências cristalinas para o leitor inglês da época e obscuras para o leitor brasileiro do século 21.

Você também traduziu a coletânea de ensaios “Profissões Para Mu­lheres e Outros Escritos”, de Woolf. Como você vê o papel de Virginia Woolf como feminista?

Talvez eu siga meio na contracorrente das interpretações usuais, mas a impressão que tenho é que “Woolf feminista” foi uma criação posterior do feminismo nos anos 1960, meio como uma espécie de símbolo, uma precursora a mais para invocar. Não consigo me persuadir de que ela fosse uma “feminista”. Ela era basicamente uma elitista torturada, e a questão de conseguir se desprender da fixação sobretudo paterna foi o grande drama de sua vida. O que vejo é que ela encontrava nas iniciativas e nas figuras feministas da época uma espécie de aceitação e respaldo para coisas pessoais bastante sofridas, que não conseguia resolver. Seus textos ditos feministas são essencialmente textos de circunstância, artigos, palestras, resenhas curtas; seu feminismo é, digamos, de segundo grau. E a reivindicação de uma independência feminina, a exortação a “matar o Anjo do Lar”, a ter “um quarto todo seu”, me parece mais uma defesa um pouco neurastênica de seu direito de ser infeliz, digamos assim, do que propriamente uma questão programática. Pois o cerne do problema é essa ambiguidade do “Anjo do Lar”, o papel feminino da esposa devotada ao marido e aos filhos, o fantasma que Woolf diz que teve de matar para conseguir se aceitar, para conseguir sentir uma identidade própria — mas ao mesmo tempo esse Anjo do Lar tinha sido a fonte da única felicidade e sensação de segurança que ela conhecera: a mãe, morta prematuramente, perda da qual nunca se recuperou por completo e pela qual culpou o pai pelo resto da vida. Então, em “Profissões Para Mulheres” (1931), um discurso em tom condescendente e de linhas muito esquemáticas, Woolf conta como matou o Anjo do Lar. O drama mesmo da coisa ela já tentara processar em “To the Lighthouse”, de 1927, que não à toa definiu como uma elegia. Nessa obra, onde a mãe se encarna metaforicamente no farol que une, ilumina e dá sentido à vida de todos, Woolf finalmente entendera que a fonte de sua felicidade perdida era, precisamente, um “Anjo do Lar”. Terrível isso. Como fazer? Aceitar que, afinal, teve de matar a figura da mãe, a pessoa a quem mais amou? Culpar o pai, ela sempre tinha culpado. E agora? Reconhecer sua cumplicidade com o pai na morte do ser tão amado por ambos? Poucas obras da dita alta literatura são tão diretamente calcadas na biografia do seu autor... Esses núcleos propriamente existenciais, Woolf reserva para a literatura. E na face mais pública, de circunstância, sinceramente será mesmo esta a solução — matar o Anjo do Lar — que ela advoga? Bom, como quem diz — em seus textos e discursos ditos feministas é nítida a extrema simplificação, talhada para as classes trabalhadoras, como dizia ela, pouco sensíveis às sutilezas de um espírito refinado...                                                                                                                  

Finalizando, uma vinheta que considero maravilhosa é a seguinte: nos anos 1920 e mesmo 30, Woolf sentia arrepios com Freud, imagino que até por uma espécie de resistência e autodefesa, e apenas em 1939, poucos meses antes da morte dele, é que ela vai lhe fazer uma visita de cortesia. O pobre do Freud, velhinho, já quase nem falava mais, por causa das dores do câncer na laringe em estágio muito avançado. Ao final da visita, ele presenteou Woolf com uma flor de narciso. Claro que Freud não era moralista, e “narcisismo” não era xingamento. Me parece um gesto quase galante: em todo caso, um diagnóstico percuciente. Então é isso que quero dizer: ela nem tinha espaço, disponibilidade psíquica para ser feminista; estava envolvida demais consigo mesma, com seus dramas pessoais. Em suma, a meu ver, Woolf feminista é “uma invenção da tradição”, como diz Hobs­bawm. E, como uma tradição inventada, certamente tem sido útil para a construção a posteriori de uma história do feminismo. Mas ela, ela mesma, feminista, não creio.