fiquei surpresa ao ler no artigo de júnia barreto,
aqui, que
les misérables de victor hugo teria recebido cerca de vinte traduções no Brasil! não pretendo de maneira nenhuma pôr em dúvida a afirmação da pesquisadora, mas, em sendo fundada como certamente o é, sem dúvida há de se tratar de mais um daqueles casos de sumiço completo das traduções mais antigas, inclusive de quaisquer referências rastreáveis sobre elas. vejamos, pois.
I.
os miseráveis é um interessantíssimo caso em que a tradução brasileira saiu antes mesmo do lançamento da obra original. já comentei esse episódio
aqui. no entanto, a tradução serializada a partir de março de 1862 no
jornal do commercio - anônima, mas de provável autoria de justiniano josé da rocha e antônio josé fernandes dos reis - não foi a que saiu publicada no lançamento internacional simultâneo da obra em abril do mesmo ano. no rio de janeiro, uma das oito cidades escolhidas para esse lançamento, a edição saiu pela filial brasileira da livraria civilização/editor eduardo da costa santos, do porto, em tradução lusitana de antónio rodrigues de sousa e silva, em cinco volumes.
assim temos essa coisa curiosa: a tradução brasileira em folhetim sai na frente, até se antecipando ao lançamento do próprio original, mas a tradução lançada em livro no brasil é portuguesa.
(já em portugal, entre as décadas de 1860 e 1880, são lançadas mais duas traduções, além da de antónio rodrigues de sousa e silva: a de francisco ferreira da silva vieira e a de joão de mattos)
portanto, e aproveitando para fazer a indispensável distinção entre edição e tradução: no século XIX até tivemos
edições brasileiras d'
os miseráveis, mas
traduções brasileiras de
les misérables em livro, não, nenhuma, mesmo tendo sido o rio de janeiro uma das praças escolhidas para o lançamento internacional da obra.
II.
é a partir do século XX que vamos ter algumas traduções brasileiras d'
os miseráveis em livro. e aí também começam os problemas. algumas edições trazem traduções anônimas, outras são reedições de traduções portuguesas, outras apresentam alguns elementos um pouco ambíguos.
eis o que obtive em meu levantamento - que não surpreenda muito a disparidade na quantidade de volumes; alguns têm apenas 200 páginas, outros 500 ou mesmo mais de 600; alguns são em formato maior, outros em formato menor; alguns têm ilustrações, outros não, e assim por diante:
- 1925, companhia graphico-editora monteiro lobato, em dois volumes
- 1944, editora moderna, em dois volumes
- 1945, cia brasil editora, em dois volumes
- 1956, editora progresso, em cinco volumes, tradução portuguesa de sousa e silva, aquela de 1862
- 1956, editora das américas (edameris), em sete volumes, tradução de frederico ozanam pessoa de barros
- 1959, edigraf, em três volumes
- 1968, edições de ouro, em dois volumes. a edições de ouro era da tecnoprint, que a partir de 1985 passa a se chamar ediouro. e aqui surge algo curioso:
| Autor: | Hugo, Victor, 1802-1885. |
| Título / Barra de autoria: | Os miseráveis. |
| Imprenta: | Rio de Janeiro, [Tecnoprint, 1968] |
| Descrição física: | 2 v. il. |
| Notas: | Registro Pré-MARC |
| Autor: | Hugo, Victor, 1802-1885. |
| Título original: | Les miserables.Portugues |
| Título / Barra de autoria: | Os miseraveis / Victor Hugo ; introducao, Carlos Heitor Cony ; traducao, Casimiro L. M. Fernandes. - |
| Imprenta: | Rio de Janeiro : Tecnoprint, [1988?] |
| Descrição física: | 714p. : il. ; 21cm. - |
| Série: | (Colecao Universidade de bolso) |
| Notas: | Ediouro.
Traducao de: Les miserables.
BNB 88/01 |
| Autor: | Hugo, Victor, 1802-1885. |
| Título original: | Les miserables.Portugues |
| Título / Barra de autoria: | Os miseraveis / Victor Hugo ; introducao, Carlos Heitor Cony ; traducao, Casimiro L. M. Fernandes. - |
| Imprenta: | Rio de Janeiro : Ediouro, [1993]. |
| Descrição física: | 714p. : il. ; 21cm. - |
| Série: | (Classicos de bolso) |
| Notas: | Traducao de: Les miserables.
BNB 94/01 |
duas das fichas desses três exemplares em nosso acervo na biblioteca nacional apresentam um dado que me surpreendeu um pouco: os créditos de tradução a casimiro ou, melhor dizendo, casemiro l. m. fernandes.
casemiro fernandes era um conhecido tradutor da globo de porto alegre, nos anos 30 e 40. a tecnoprint/ ediouro, por sua vez, tinha o costume de incorporar catálogos inteiros ou obras avulsas de editoras extintas. foi o que aconteceu, por exemplo, com a tradução de casemiro fernandes (com souza jr.) de
o vermelho e o negro de stendhal, que após o fechamento da globo gaúcha passou a ser publicada pela ediouro. ora, ocorre que não localizei absolutamente, em lugar algum e em tempo algum, qualquer edição anterior dessa tradução que a tecnoprint/ ediouro atribui a casemiro fernandes. talvez fosse inédita, talvez fosse a anônima da edigraf, talvez tenha se perdido no sorvedouro dos tempos, talvez, talvez... mas, salvo melhor juízo, não me sinto muito convencida da fidedignidade desses créditos.
continuando:
- 1980, otto pierre, em dois volumes, não consta crédito de tradução. de todo modo, a otto pierre era um braço editorial português que publicava apenas traduções lusitanas
- 1981, círculo do livro, em três volumes, na tradução portuguesa de carlos dos santos, que saíra em 1976 pelo círculo de leitores (lisboa)
- por fim, em 2007 a martin claret publicou os miseráveis em tradução de regina célia de oliveira, em dois volumes. já comentei aqui que júnia barreto, se bem entendi, sugere em seu mesmo artigo que essa tradução de regina célia de oliveira "preserva parte" da tradução de ozanam de barros. a alegação é séria e teria de ser comprovada antes de se poder asseverar qualquer coisa.
III.
assim como é importante não confundir edição e tradução, igualmente importante é não confundir tradução e adaptação. sobre isso, ver
aqui.
no caso d'
os miseráveis, existem várias adaptações infantojuvenis, como as de miécio tati, luiz antonio aguiar, walcyr carrasco, rosana rios, júlio emílio braz, josé angeli, mas são - precisamente - adaptações, muito condensadas, desde trinta e poucas páginas até a faixa de 120/150 páginas.
há uma adaptação mais extensa, pelo clube do livro (1958), em dois volumes, totalizando cerca de 500 páginas, reeditada em 1976 pela hemus em volume único. na hemus apresenta-se como "texto integral", e nas duas editoras credita-se a suposta tradução a josé maria machado, o indefectível "pietro nassetti" do clube do livro. além de se tratar de um texto condensado, não dou um figo seco pela validade de tal atribuição.
IV.
fico um pouco desconcertada com a discrepância entre a informação fornecida pela pesquisadora júnia barreto e os dados que consegui levantar. a menos que se somem as casas que editaram uma mesma tradução ou se incluam adaptações infantojuvenis e paradidáticas, nem de longe consegui me aproximar da vintena de traduções brasileiras de que tive noticia em seu artigo, sob outros aspectos tão meticulosamente documentado. em meu levantamento, ainda que provisório e certamente incompleto, e mesmo concedendo o benefício da dúvida às traduções anônimas e supondo que não sejam meras reedições de outras anteriores, o resultado que obtive foi de, no máximo, sete traduções brasileiras em livro de
les misérables.
assim, deixo mais uma sugestão de pesquisa historiográfica, esta, talvez, para uma dissertação de mestrado: um levantamento efetivo, bem detalhado e documentado das traduções brasileiras d'
os miseráveis, que possa inclusive apurar eventuais "partes preservadas" de uma tradução para outra.
?, ed. brasil
ozanam de barros, edameris, 1956
ozanam de barros, edameris, v. 3, 1967
ozanam de barros, cosac naify, v. 1, 2002
* atualização: quanto à edição da edigraf, recebi a confirmação de que não há qualquer menção ao tradutor em nenhum de seus volumes. idem em relação à edição da moderna. isso parece sugerir aproveitamento de traduções anteriores. para corroborar essa hipótese, seria necessário um cotejo, sem dúvida; mas, a meu ver, isso reforça a hipótese que vem se desenhando para mim, qual seja: se tivermos duas ou três traduções brasileiras dessa obra de victor hugo publicadas em livro, já é muito.
atualização em 31/8/2019:
houve outra edição: saiu pela civilização brasileira, em dois volumes, sem data e sem crédito de tradução. segundo meus palpites, eu a situaria entre meados e final dos anos 1930, e apostaria meus tostões de que é a mesma publicada em 1925 pela companhia graphico-editora monteiro lobato.
agradeço vivamente a lucas laitano valente pela preciosa notícia e pelas imagens da página de rosto dos dois volumes.