19 de ago de 2012

matéria do jornal opção sobre a editora boitempo

reproduzo abaixo a matéria publicada hoje pelo jornal opção de goiânia, disponível aqui.

Euler de França Belém
Editora Boitempo plagia e culpa a direita
No Brasil é assim: mesmo quando não tem culpa, a direita leva a fama. É o periquito da circunstância. A denúncia de que a Boitempo E­ditorial “plagiou” obras de outras editoras foi apresentada cuidadosamente, sem nenhum comentário político-ideológico, por uma das mais qualificadas tradutoras brasileiras, Denise Bottmann. A editora do indispensável blog Não Gosto de Plágio em nenhum momento fez análises políticas sobre a (falta de) qualidade ou sobre a ideologia dos livros publicados no Brasil pela casa gerida por Ivana Jinkings. Direita e esquerda não foram citadas. Depois, a “Folha de S. Paulo” fez uma re­portagem sobre o assunto, evidenciando os “plágios”, ou “coincidências”. O jornal paulistano também não fez qualquer restrição ideológica às publicações da Boitempo — muitas de elevado padrão intelectual e com traduções competentes.

Portanto, a direita não deve ser responsabilizada pela descoberta e repercussão dos plágios na internet e em jornais impressos. Mesmo assim, a Boitempo, para “esconder” o “plágio” — o que não é mais possível e, se o caso for para a Justiça, vai ficar pior para a editora e para a suposta “tradutora” Isa Tavares —, convocou intelectuais brasileiros e estrangeiros para defendê-la de um suposto e insidioso ataque em bloco da direita patropi (tão invisível quanto o Curupira). Os intelectuais, sobretudo os de outros países, como Slavoj Žižek, certamente nem sabem direito o que está acontecendo e, mais tarde, certamente admitirão, como fez Roberto Romano, há vários anos, o equívoco. Eles não têm como avaliar o mérito da discussão. Primeiro, porque não leem em português. Segundo, porque a Boi­tempo não lhes deve ter passado in­formações adequadas para um julgamento justo. Por exemplo: a editora não deve ter enviado o seguinte esclarecimento divulgado para a imprensa brasileira: “Constatamos coincidências significativas entre as traduções dos livros ‘Considerações sobre o Marxismo Ocidental/Nas Trilhas do Materialismo Histórico’, de Perry Anderson, ‘A Teoria da Alienação em Marx’, de István Mészáros, e de capítulos de ‘La­crimae Rerum: Ensaios Sobre Ci­nema Moderno’, de Slavoj Žižek, publicados pela Boitempo, e traduções de outras editoras”. Alguns dos defensores da Boitempo, como Mészaros e Žižek, possivelmente não sabem que são “vítimas” da editora. Certamente não sabem que a Boitempo está recolhendo os exemplares cujas traduções são apontadas como “plágios”.

Faça-se justiça: a Boitempo, excelente casa editorial, tem publicado livros importantes, como os de Mészáros e “O Romance His­tórico”, do filósofo György Lu­kács, com tradução precisa de Rubens Enderle. O livro de Lukács é um clássico importante. Pu­blicado há mais de 70 anos, e, mes­mo contendo as idiossincrasias às vezes mais políticas do que literárias do autor, permanece uma obra viva. Uma boa editora não precisa ser necessariamente eclética, aberta a ideologias diferentes. O fato de uma casa ser de esquerda não diminui seu valor.

Na década de 1980, o crítico José Guilherme Merquior denunciou, num artigo publicado na “Folha de S. Paulo”, que a filósofa Marilena Chauí havia copiado um trecho de um livro do filósofo francês Claude Lefort. O plágio era evidente, mas Chauí, no lugar de admitir a crítica, partiu para o ataque, sugerindo que Merquior era um homem da ditadura, por ser diplomata — quando deveria tratá-lo como homem de Estado, como ela própria, uma funcionária pública da Universidade de São Paulo. Hábil, a filósofa conseguiu que Lefort, o prejudicado, inventasse uma “filiação de pensamento”, que, no Brasil, se tornou sinônimo de plágio. Depois, arregimentou intelectuais de “esquerda”, entre eles o filósofo Roberto Romano. Maria Sylvia de Carvalho Franco e Romano bombardearam Merquior, acusando-o de ideólogo da ditadura. Romano arrependeu-se, tempos depois, mas não sei se pediu desculpas ao próprio Merquior, que morreu cedo, aos 49 anos, quando era o mais importante intelectual liberal do país, em diálogo constante com a esquerda me­nos ortodoxa, como o filósofo Le­andro Konder.

Como a discussão virou coisa de criança, resta dizer a Ivana Jinkings que está certa: a direita é mesmo o “Ruivo Herring” (espero que seja a grafia correta) do Brasil. Com o apoio do Scooby-Doo. 

sobre o caso boitempo, veja-se aqui

15 de ago de 2012

lúcio cardoso tradutor

ontem foi o centenário de nascimento de lúcio cardoso. considero crônica da casa assassinada um dos grandes romances que temos no brasil, e de envergadura que transpõe fronteiras.

além de escritor, poeta, artista plástico, teatrólogo, lúcio cardoso também se dedicou à tradução profissional nos anos 1940, sobretudo entre 1940 e 1944, principalmente para a editora josé olympio. foi por suas mãos que chegou a primeira jane austen no brasil, em 1940, e várias outras obras como, por exemplo, os poemas de emily brontë.

eis a listagem de suas traduções, por ordem alfabética de autor:



AUSTEN, Jane. Orgulho e Preconceito. Coleção Fogos Cruzados, 1. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940.



BARING, Maurice. A Princesa Branca. Coleção Fogos Cruzados, 63. Rio de Janeiro: José Olympio, 1946.




















BÍBLIA. O Livro de Job. Coleção Rubaiyat, 11. Rio de Janeiro: José Olympio, 1943 (ilustrações de Alix de Fautereau).



BRONTË, Emily. O Vento da Noite. Coleção Rubaiyat, 14. Rio de Janeiro, José Olympio, 1944 (ilustrações de Santa Rosa).



DEFOE, Daniel. As Confissões de Moll Flanders. Coleção Fogos Cruzados, 17. Rio de Janeiro: José Olympio, 1943.




DEFOE, Daniel. Os segredos de Lady Roxana. Coleção 100 Obras-Primas da Literatura Universal, 52. Rio de Janeiro: Pongetti, 1945. (Aqui capa da Ediouro, c. 1980)



GOETHE, Johann W. Memórias. 2 vol. Rio de Janeiro: José Olympio, 1948.



KÃLIDÃSA. A Ronda das Estações. Coleção Rubaiyat, 13. Rio de Janeiro: José Olympio, 1944.


LEROUX, Gaston. O fantasma da ópera. Coleção Mistério, 2. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1944.




















O'FLAHERTY, Liam. O assassino. Coleção Mistério, 3. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1945.




SINCLAIR, Upton. O Fim do Mundo. Coleção Fogos Cruzados, 5. Rio de Janeiro: José Olympio, 1941.



STOKER, Bram [Brahm, sic]. Drácula: O Homem da Noite. Coleção Mistério, 1. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1943. (trata-se de uma edição condensada pelo próprio autor)



TOLSTOI, Leon. Ana Karenina. Rio de Janeiro: José Olympio, 1943. (Aqui imagem da edição limitada, com 200 exemplares)



VANCE, Ethel. Fuga. Coleção Fogos Cruzados, 2. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940.


VV.AA. Três novelas russas. Contém: Dostoiévski, F., "A mulher do outro - aventura extraordinária"; Garin, N., "A primavera da vida"; Tolstói, L., "Ivan, o imbecil". Rio de Janeiro: A Noite, 1947.



ZAMIATIN, Eugênio. "A caverna", in Os russos: antigos e modernos. Coleção Contos do Mundo. Rio de Janeiro: Leitura, 1944.


Consta em algumas fontes a adaptação de Lúcio Cardoso para The tell-tale heart, de Edgar Allan Poe, mas ignoro se a tradução foi sua: POE, Edgar A. O coração delator. Adaptação teatral, Teatro de Câmera. Rio de Janeiro: 1947.


imagem de capa de jane austen em biblioteca jane austen; as demais, google images


atualização em 07/05/02016:

O pesquisador Ésio Macedo Ribeiro, em seu livro O riso escuro ou o pavão oculto, (São Paulo: Nankin/EDUSP, 2006) arrola outras traduções de Lúcio Cardoso, inéditas:

  • As aventuras de João. Novela, Frederick Van Eeden
  • Como ele mentiu ao marido dela. Teatro, Bernard Shaw
  • A gaivota. Teatro, Anton Tchekhov
  • Jack, o Estripador. Teatro, não identificado
  • Rondó da noiva. Poesia, Federico García Lorca



14 de ago de 2012

martin claret e o programa do livro popular

muito boas as ponderações de felipe lindoso, um dos nomes mais sérios, bem informados, sóbrios e combativos na luta pela democratização do livro no brasil:

A imprensa assinalou que a Martin Claret foi uma das editoras que mais vendeu exemplares no programa, apesar do levantamento feito pela Denise Bottman mostrando que várias de suas traduções eram, na verdade, plágio de outras anteriormente publicadas.

Na ocasião eu me manifestei a favor da retirada desses títulos do programa, pela incorreção das informações proporcionadas pela editora. A Biblioteca Nacional – através de seus procuradores – se manifestou contra isso. Os procuradores afirmavam que só se poderia “tirar do mercado” livros a partir de uma decisão judicial transitada em julgado.

Ora, não se tratava de tirar livros “do mercado”, mas simplesmente do Programa. Tal como o FNDE eventualmente atua quando os livros não estão dentro do padrão desejado.

Além do mais, a editora declarou, na época, que iria retirar os livros “com problemas” do cadastro. Não o fez.

Assim, livros problemáticos permaneceram no programa.

A Martin Claret anunciou recentemente, segundo a jornalista Raquel Cozer, da Folha de S. Paulo, que estava relançando dezoito títulos com novas traduções. Melhor para ela, mas o estrago já foi feito.

Felizmente, segundo informações do desempenho do programa, os títulos que puxaram as vendas da Martin Claret foram, principalmente, de literatura brasileira e portuguesa. Mas, evidentemente, foram vendidos também exemplares dos títulos plagiados.

Esse é um dos pontos que, pessoalmente, considero que deve ser melhorado no programa.
a íntegra de seu artigo, publicado na publishnews de hoje, está aqui.

sobre o tumulto e a devastação que a martin claret cria no cenário do programa de abastecimento das bibliotecas públicas brasileiras, ver aqui.

que coisa...

reproduzo uma mensagem anônima enviada nesta madrugada ao blog. creio que dispensa comentários.


Anônimo
01:21 (8 horas atrás)
para dbottmann
Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "nota da boitempo editorial":
Interessante a persona off-Denise que você mesma assume vez ou outra, não é? Sei bem que tem por hábito se passar por "anônima" só para salientar um ponto de vista politicamente incorreto, que logo será rebatido, ou afagado, pelo modo on-Denise, nos ajustes da cordialidade. Mas o importante é lançar a merda no ventilador e, se possível, resguardar o nome, não é? Estamos de olho, mascarada.


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Postado por Anônimo no blog não gosto de plágio em 14.8.12

13 de ago de 2012

nota da boitempo editorial

hoje a boitempo editorial emitiu uma terceira nota, dando por encerrado seu processo de auditoria interna sobre problemas referentes à tradução de algumas obras de seu catálogo, levantados aqui neste blog. segue o comunicado que a editora me enviou por e-mail.
Nota pública de esclarecimento 
A Boitempo iniciou no  último mês uma auditoria interna que visou eliminar qualquer vestígio de irregularidade em nosso catálogo e tranquilizar nossos leitores e profissionais eventualmente lesados. Essa investigação interna, que consistiu na comparação de algumas traduções por nós publicadas com os respectivos originais e edições brasileiras anteriores, foi também frutífera para repensarmos nossos procedimentos editoriais, de maneira a deixá-los mais seguros e rigorosos. Hoje, após darmos por encerrado esse processo, vimos esclarecer que: 
1.       Constatamos coincidências significativas entre as traduções dos livros Considerações sobre o marxismo ocidental/Nas trilhas do materialismo histórico, de Perry Anderson, A teoria da alienação em Marx, de István Mészáros, e de capítulos de Lacrimae rerum: ensaios sobre cinema moderno, de Slavoj Žižek, publicados pela Boitempo, e traduções de outras editoras. Vale ressaltar que encontramos também partes e estruturas gramaticais bastante diferentes nas referidas publicações. O resultado da nossa conferência será publicado em breve no Blog da Boitempo. 
2.      Em respeito aos profissionais envolvidos e às pessoas que se relacionam com a editora – autores, colaboradores, leitores, jornalistas, livreiros –, tomamos a decisão de regularizar a situação desses títulos, mesmo que a conferência não tenha sido concluída (o cotejo página a página de cada livro levaria semanas). Já estamos em contato com a editora portuguesa que publicou Lacrimae rerum, encomendamos nova tradução de A teoria da alienação em Marx e contatamos os tradutores das referidas edições anteriores de Considerações sobre o marxismo ocidental/Nas trilhas do materialismo histórico. Reiteramos que interrompemos a distribuição dos títulos em que foram constatados problemas e aceitaremos sua devolução, conforme instruções dadas em nota anterior.   
3.      Quanto aos dois outros livros cuja autoria da tradução foi a mesma das obras citadas acima, ressaltamos que não se identificou nenhuma irregularidade em A educação para além do capital, de István Mészáros, cujo primeiro esboço de tradução – feito para a revista Margem Esquerda e não publicado à época – foi enviado pelo autor para o site portuguêsresistir.info, com autorização da Boitempo (que detém o copyright mundial desse e de outros textos do filósofo húngaro). As diferenças entre ambas as versões poderão igualmente ser conferidas em breve no Blog da Boitempo. Uma quinta tradução, do livro Histórias de Natal, não foi conferida pelo fato de a obra em questão – que teve uma única tiragem de mil exemplares – estar esgotada há mais de dez anos. 
4.      A tradução de A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de Friedrich Engels, foi feita a partir do original em alemão Die Lage der arbeitenden Klasse in England (Leipzig, Otto Wigand, 1845) e cotejada com edições italiana, francesa, inglesa e mexicana. Em comum com o volume publicado em 1986 pela editora Global há apenas o autor do prefácio daquela edição, que em nossa obra foi responsável também pela supervisão editorial e notas; a independência entre ambas as traduções foi reconhecida pelos próprios tradutores da versão de 1986. 
5.       No livro Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917, de Slavoj Žižek, por engano da editora foi mencionado apenas o processo de tradução do espanhol dos textos de Lenin, quando deveria ter sido discriminado o que foi traduzido e o que foi revisado a partir da tradução portuguesa publicada pelas edições Avante!, de quem temos autorização expressa para uso dos textos. Os créditos serão corrigidos na próxima edição. 
 Ao assumir total responsabilidade pelas obras colocadas em dúvida e esclarecer nossa posição diante das acusações feitas, reafirmamos o compromisso da editora com seus leitores. Ao longo de sua trajetória de dezessete anos, a Boitempo construiu um catálogo forte e coerente composto de cerca de 350 títulos, os quais contemplam alguns dos intelectuais mais importantes do Brasil e do mundo. Constatamos problemas na tradução de três de nossos livros, mas seguimos confiantes de que esse incidente será superado com honestidade e clareza. 
Apesar dos esforços direcionados à auditoria interna, durante esse período não deixamos de fazer o que mais esperam de nós: lançamos livros, divulgamos textos exclusivos de nossos autores no blog, publicamos vídeos de eventos passados e organizamos novos, entre eles o III Curso Livre Marx-Engels – que atingiu o limite máximo de inscritos em poucos minutos, será gravado e posteriormente publicado em nosso canal no YouTube. Agradecemos as mensagens de apoio recebidas por parte de autores, leitores, colaboradores, colegas editores, além de vários intelectuais, do Brasil e do exterior, as quais reconhecem a seriedade de nosso trabalho e a confiança em nosso futuro.
fico contente que meus apontamentos tenham trazido consequências frutíferas para a editora e saúdo sua disposição em enfrentar os problemas com clareza e boa vontade.

12 de ago de 2012

pesadelo de uma noite de natal






na sequência do post uma duradoura árvore natalina, aqui, passo agora ao conto de máximo gorki, sonho de uma noite de natal, publicado em 1947 pela livraria martins editora, em tradução de luiz macedo, e em 1995 pela boitempo editorial, com tradução atribuída a isa tavares.



apresento sucintamente o trecho inicial e o trecho final do texto, com as duas edições em paralelo. todo o miolo do conto guarda o mesmo padrão de identidade.

luiz macedo (martins, 1947)
Eu havia terminado um conto sombrio como os breves e tristes dias de inverno, que então pesava sobre meu país. Deixei cair a pena e comecei a passear pela casa.
Era noite. Lá fora prenunciava-se uma tormenta. A neve caía em flocos espessos. A rua estava deserta e, encostando-me à vidraça, eu via apenas uma lanterna pendurada a uma porta, do outro lado da rua, e agitada pelo vento. Aquele espetáculo era tão profundamente desolador que, afastando-me da janela, apaguei a lâmpada e fui deitar-me.
Então, na escuridão que invadia todo o meu quarto, os sons da noite se fizeram mais nítidos. O relógio contava os segundos, mas por vezes o zumbir da neve, lá fora, afogava seu rumor. Em vão. O tic-tac apressado, incansável, voltava a dominar os murmúrios do inverno: e aquele tic-tac seco, monótono e teimoso, em sua marcha para a eternidade, impunha-se a meu cérebro, ressoava dentro dele.
Não podendo dormir, pensava nas páginas que acabara de escrever. Era uma narração muito simples: a história de dois velhos tímidos e meigos, dois abandonados pelo destino. Ele - cego; ela, sua esposa, humilde e fiel.
Uma madrugada, na véspera de Natal, saíram de seu sórdido abrigo e foram mendigar pela casaria da vizinhança, para ver se obtinham com que comprar um pouco de alegria e conforto para o dia, entre todos, santo.
Movidos por essa esperança, percorreram os arredores, crentes de que poderiam voltar, à hora da Missa do Galo, com os bolsos cheios de dádivas feitas em nome do Senhor. Mas foram tão escassas as esmolas que nem sequer compensaram a caminhada, e era já muito tarde quando o triste casal compreendeu que tinha de voltar a seu casebre sem fogo para se aquecer e apenas com o indispensável para não passar fome. (p. 253-4)

isa tavares (boitempo, 1995)
Eu havia terminado um conto sombrio como os breves e tristes dias de inverno, que então pesava sobre meu país. Deixei cair a pena e comecei a passear pela casa.
Era noite. Lá fora prenunciava-se uma tormenta. A neve caía em flocos espessos. A rua estava deserta e, encostando-me à vidraça, via apenas uma lanterna pendurada a uma porta, do outro lado da rua, e agitada pelo vento. Aquele espetáculo era tão profundamente desolador que, afastando-me da janela, apaguei a lâmpada e fui dormir.
Então, na escuridão que invadia todo o meu quarto, os sons da noite se fizeram mais nítidos. O relógio contava os segundos, mas por vezes o zumbir da neve, lá fora, afogava seu rumor. Em vão. O tic-tac apressado, incansável, voltava a dominar os murmúrios do inverno: e aquele tic-tac seco, monótono e teimoso, em sua marcha para a eternidade, entrava em meu cérebro, ressoava dentro dele.
Não conseguia dormir, pensava nas páginas que acabara de escrever. Era uma narração muito simples: a história de dois velhos tímidos e meigos, dois abandonados pelo destino.
Ele - cego; ela, sua esposa, humilde e fiel.
Uma madrugada, na véspera de Natal, saíram de seu sórdido abrigo e foram mendigar pelas casas da vizinhança, para ver se obtinham alguma coisa para comprar um pouco de alegria e conforto para o dia, entre todos, santo.
Movidos por essa esperança, percorreram os arredores, crentes de que poderiam voltar à hora da Missa do Galo, com os bolsos cheios de dádivas feitas em nome do Senhor. Mas foram tão escassas as esmolas que nem sequer compensaram a caminhada, e era já muito tarde quando o triste casal compreendeu que tinha de voltar a seu casebre sem fogo para se aquecer e apenas com o indispensável para não passar fome. (p. 21-2)

luiz macedo (martins, 1947)
- É mentira! - bradou a velha. - Mentira ingênua e ridícula. Então pretendes, com dores e misérias, despertar bons sentimentos nos corações acostumados a desgraças reais? Idiota! Pensas enternecer com tuas pobres fantasias os homens, que não se comovem ante a realidade miserável de todos os dias?
O resto do sonho foi uma confusão, que não consigo recompor. Mas, pela manhã, quando despertei, meu primeiro movimento foi correr à mesa onde deixara as tiras de papel escritas na véspera.
Rasguei-as sem tornar a lê-las; atirei os pedaços pela janela e eles esvoaçaram no ar claro como mariposas. (p. 256)

isa tavares (boitempo, 1995)
- É mentira! - bradou a velha. - Mentira ingênua e ridícula. Então pretende[], com dores e misérias, despertar bons sentimentos nos corações acostumados a desgraças reais? Idiota! Pensa[] enternecer com suas pobres fantasias os homens, que não se comovem ante a realidade miserável de todos os dias?
O resto do sonho foi uma confusão, que não consigo recompor. Mas, pela manhã, quando despertei, meu primeiro movimento foi correr à mesa onde deixara as tiras de papel escritas na véspera.
Rasguei-as sem tornar a lê-las; atirei os pedaços pela janela e eles esvoaçaram, no ar claro, como mariposas. (p. 29-30)

considerando a boa vontade da boitempo editorial em apurar possíveis irregularidades de outras obras com tradução atribuída a isa tavares, quero crer que a editora já esteja procedendo ou venha a proceder também à apuração das coincidências acima apontadas, em relação ao conto de máximo gorki.
    sobre outras traduções atribuídas a isa tavares, veja-se aqui. sobre o compromisso da boitempo editorial em apurar as irregularidades, veja-se aqui.

    11 de ago de 2012

    por que NÃO me ufano de meu país

    que pouca vergonha!

    a jornalista raquel cozer deu hoje em sua coluna painel das letras na folha de s.paulo:

    SUSPEITA DE PLÁGIO É A 3a. EM VENDAS PARA BIBLIOTECAS PÚBLICAS

    A Martin Claret, que inscreveu traduções suspeitas de plágio para compras por bibliotecas públicas, foi a terceira editora com mais títulos pedidos pelas instituições dentro do programa de aquisição acervos lançado neste ano pela Fundação Biblioteca Nacional. As primeiras, conforme balanço recente da FBN, são a Ciranda Cultural e a Todolivro. No começo do ano, a tradutora Denise Bottmann listou dezenas de casos suspeitos em denúncia ao Ministério Público Federal. Vários desses títulos estão na lista de encomendas feitas à Claret, que no total vendeu 93 mil cópias e teria faturado cerca de R$ 550 mil. Segundo Galeno Amorim, presidente da FBN, o caso está sendo investigado pelo MPF e a editora pode ser processada caso fraudes sejam comprovadas. Os livros já estão sendo distribuídos às bibliotecas.
    *
    Novas traduções A Martin Claret há meses refaz traduções --18 títulos saem agora na Bienal do Livro. Embora em janeiro tenha prometido descadastrar obras com traduções em andamento, isso não ocorreu. Elisângela Alves, ex-Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio, acaba de assumir a edição da casa e coordena o novo trabalho.
    Novas aquisições O balanço da FBN sobre o programa de aquisição de livros a até R$ 10 foi feito por ocasião do anúncio da segunda fase. Aprimorado, o novo edital corrige falhas. Entre as mudanças, agora as bibliotecas listam títulos e só depois a FBN aciona as editoras. Antes, as editoras cadastravam obras e então as bibliotecas escolhiam.

    http://www1.folha.uol.com.br/colunas/raquelcozer/1135261-suspeita-de-plagio-e-3-em-vendas-para-bibliotecas-publicas.shtml

    ver também a postagem de raquel cozer em seu blog a biblioteca de raquel, em 10/08/12, aqui.

    acompanhe aqui este caso terrível, com as dezenas de livros espúrios cadastrados no programa do livro de baixo preço e as providências solicitadas à fundação biblioteca nacional e ao ministério público federal.

    o problema da comercialização de obras espúrias

    mantenho na coluna direita deste blog o seguinte lembrete:


    A RESPONSABILIDADE DAS LIVRARIAS

    lei 9610/98, art. 104:"quem vender, expuser à venda, ocultar, adquirir, distribuir, tiver em depósito ou utilizar obra ou fonograma reproduzidos com fraude, com a finalidade de vender, obter ganho, vantagem, proveito, lucro direto ou indireto, para si ou para outrem, será solidariamente responsável com o contrafator" 


    algumas livrarias têm consciência suficiente para julgar por si mesmas de sua responsabilidade. já outras se escudam em argumentos especiosos para manter obras espúrias à venda em seus sites e lojas. sobre o problema das livrarias, veja-se aqui.

    10 de ago de 2012

    coisas legais

    saiu o novo número de scientia traductionis, da ufsc:

    Imagem para capa da revista

    disponível aqui.

    9 de ago de 2012

    uma duradoura árvore natalina


















    I.
    em 1947, a livraria martins editora lançou a antologia livro de natal - as mais lindas histórias de natal dos maiores escritores do mundo, com reedições até 1970. a coletânea ficou a cargo de araújo nabuco, também responsável pelas notas biográficas dos autores. alguns contos trazem o nome do tradutor; outros não. lá temos, entre muitos outros, "sonho de uma noite de natal" de máximo gorki, em tradução de luiz macedo, e "a árvore de cristo" de th. dostoiewski, sem crédito de tradução.



    em 1957, a cultrix lança maravilhas do conto russo, que também traz o mesmo conto de dostoiewski (adoravam o w naquela época), agora fedor e não mais th. (de theodor[e]), com o título de "a árvore de natal de cristo". a seleção ficou a cargo de um implausível "serge ivanovitch", com introdução e notas de edgard cavalheiro e "traduções revistas por t. booker washington". já comentei inúmeras vezes aqui no blog a doideira que era essa coleção das maravilhas da cultrix, com suas constantes "traduções revistas" pelo quase ubíquo "t. booker washington": a prática da editora, na verdade, consistia essencialmente em caçar aqui e ali contos já publicados em outras editoras, brasileiras e portuguesas, e republicá-los sem dar fontes nem créditos. 


    bem, seja como for, as traduções da martins e da cultrix são totalmente independentes. por exemplo, na descrição inicial tem-se:
    • um "velho colchão de capim, duro e seco como um pão de pobre, onde, com um saco por travesseiro, repousava sua mãe doente" na cultrix e um "leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino omo um crepe, onde está deitada a sua mãe" na martins;
    • para esta, o menino "está sentado a um canto, em cima de uma mala"; na cultrix, ele está "sentado no canto de uma sala" (o que parece meio absurdo, pois trata-se de um pequeno tugúrio num porão - que sala seria esta?);
    • para o anônimo da martins, o menino usa "uma espécie de roupão sujo"; para o anônimo da cultrix, são "farrapos que o cobriam".
    ou, do meio para o fim:
    • na cultrix, os bonecos que ele vê na vitrine "eram tão engraçados, tão engraçados que transformaram em riso o seu pranto";* já na martins, o menino "ri quase que tem vontade de chorar; mas... que ridículo chorar por causa de uns bonecos!";
    • para o anônimo da martins, entre os meninos do final, havia alguns "mortos nas isbás sem ar dos tchaukhnas"; segundo o anônimo da cultrix, "morreram nos asilos das províncias";
    • e no final, para a martins, "quanto à árvore de natal, meu deus! não sou eu romancista para inventar coisas como estas?"; para a cultrix, "quanto à árvore de natal de cristo, não poderei afirmar que exista. mas, já que sou romancista, posso bem imaginar que sim".
    II.
    em 1995, entre seus primeiros lançamentos, a boitempo editorial publica um pequeno volume chamado histórias de natal, com apenas dois contos: um de máximo gorki, "sonho de uma noite de natal", e o mesmo de fedor dostoiewski, "a árvore de natal de cristo", que atualmente consta no site da editora como esgotado.*


    * atualização em 19/9/2012: agora sumariamente removido do site, mas ainda constante nos catálogos da editora.

    a tradução, segundo o que consta no volume impresso, teria sido feita por isa tavares a partir do espanhol. no entanto, têm-se semelhanças ou, melhor, identidades difíceis de explicar, mesmo sendo uma tradução supostamente feita do espanhol (aliás, engana-se redondamente quem pensa que o espanhol não passa de una adaptación del portugués o viceversa). vejamos alguns exemplos:

    anônimo (martins, 1947)
    Está envolto numa espécie de roupão sujo e treme. ... Mas tem muita fome. Várias vezes já, desde a manhã, ele se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada a sua mãe. Por que razão estará ela ali? (p. 315)

    isa tavares (boitempo, 1995)
    Veste uma espécie de roupão sujo, e treme. ... Mas tem muita fome. Várias vezes, desde a manhã, ele se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada sua mãe. Por que razão estará ela ali? (p. 9)

    anônimo (martins, 1947)
    Percebe, por um outro vidro uma outra sala; e ainda árvore e bolos de toda espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e, quando alguém chega, dão-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.
    Oh, que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, meteu um kopek na mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como ele teve medo, o menino!
    A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, de modo a segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? não sabia. Gostaria bem de chorar, porém, tem medo de mais. E corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza; sente-se tão só, tão espantado! e, de repente, meu Deus! que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, que admira. Numa vitrina, por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente como se fossem vivas! E o velhinho sentado que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violino pequenino e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de fato! Apenas não se ouve, por causa do vidro. (p. 317)

    isa tavares (boitempo, 1995)
    Percebe, por um outro vidro, uma outra sala; e ainda uma árvore e bolos de toda a espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e quando alguém chega uma delas dá-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.
    Oh, que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, colocou uma moeda na sua mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como ele teve medo, o menino.
    A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, para segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? Não sabia. Gostaria de chorar, porém, tem medo e corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza; sente-se tão só, tão abandonado, quando, de repente, meu Deus, que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, numa vitrina. Por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente
    como se fossem vivas. E o velhinho, sentado, que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violinos pequeninos e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de verdade. Apenas não se ouve, por causa do vidro. (p. 13-4)

    anônimo (martins, 1947)
    E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos; quando compreende que são bonecos, põe-se a rir. Nunca ele viu bonecos semelhantes e nem imaginara que os houvessem assim. Ri quase que tem vontade de chorar; mas... que ridículo chorar por causa de uns bonecos! (p. 317)

    isa tavares (boitempo, 1995)
    E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos. Quando compreende que são bonecos, começa a rir. Nunca viu bonecos semelhantes e nem imaginara que existissem assim. Eram tão engraçados, tão engraçados, que transformam em riso o seu pranto. (p. 14-5; *ver acima)

    anônimo (martins, 1947)
    Ele cai. Ao mesmo tempo, todo o mundo grita; ele fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.
    "Aqui ninguém me vai encontrar; está bem escuro."
    Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, ele mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar... Mas de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e ele se sente quente como se estivesse perto do fogão e todo o seu corpo estremece. Ah! ele vai adormecer.
    "Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez" - pensa ele e sorri à ideia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!..." (p. 318)

    isa tavares (boitempo, 1995)
    Ele cai. Ao mesmo tempo, todo [] mundo grita; ele fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.
    "Aqui ninguém vai me encontrar; está bem escuro."
    Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, [] mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar... Mas, de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e ele se sente quente como se estivesse perto do fogo e todo o seu corpo estremece. Ah! ele vai adormecer.
    "Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez", pensa ele e sorri com a ideia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!..." (p. 16)

    III.
    no conto de dostoiewski, às p. 9-19 do volume da boitempo, não me parece implausível supor que, em vista de tantos elementos coincidentes, trate-se de uma reprodução levemente adulterada da tradução publicada em 1947 pela livraria martins. notam-se três ou quatro diferenças expressivas em relação à tradução publicada pela martins, as quais, porém, correspondem exatamente às soluções adotadas na tradução anônima da cultrix de 1957.*

    * a menos, claro, que a referida isa tavares tivesse publicado anonimamente sua dita tradução do espanhol pela martins em 1947 e apenas quase cinquenta anos depois, em 1995, decidisse assumir sua autoria, depois de substituir algumas soluções antigas suas por outras adotadas na tradução que saiu pela cultrix em 1957 - mas essa hipótese, embora não de todo impossível, parece-me um pouco menos plausível. 

    considerando a boa vontade da boitempo editorial em apurar possíveis irregularidades de outras obras com tradução atribuída a isa tavares, quero crer que a editora já esteja procedendo ou venha a proceder também à apuração das coincidências acima apontadas, em relação ao conto de dostoiewski.
    sobre outras traduções atribuídas a isa tavares, veja-se aqui. sobre o compromisso da boitempo editorial em apurar as irregularidades, veja-se aqui.

    8 de ago de 2012

    a título ilustrativo sobre as irredutíveis diferenças entre tradções de diferentes tradutores, vejam-se as traduções do mesmo conto feitas pelo anônimo da cultrix e por ruth guimarães:


    anônimo (martins, 1947)
    Está envolto numa espécie de roupão sujo e treme. ... Mas tem muita fome. Várias vezes já, desde a manhã, ele se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada a sua mãe. Por que razão estará ela ali? (p. 315)

    isa tavares (boitempo, 1995)
    Veste uma espécie de roupão sujo, e treme. ... Mas tem muita fome. Várias vezes, desde a manhã, ele se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada sua mãe. Por que razão estará ela ali? (p. 9)

    anônimo (martins, 1947)
    Percebe, por um outro vidro uma outra sala; e ainda árvore e bolos de toda espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e, quando alguém chega, dão-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.

    Oh, que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, meteu um kopek na mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como ele teve medo, o menino!
    A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, de modo a segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? não sabia. Gostaria bem de chorar, porém, tem medo de mais. E corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza; sente-se tão só, tão espantado! e, de repente, meu Deus! que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, que admira. Numa vitrina, por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente como se fossem vivas! E o velhinho sentado que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violino pequenino e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de fato! Apenas não se ouve, por causa do vidro. (p. 317)


    isa tavares (boitempo, 1995)
    O menino olha, admirado, e sorri; não sente mais dor, nem nos dedos nem nos pés; os dedos de sua mão ficam inteiramente roxos. Ele já não pode dobrá-Ias e nem se mover. .. e, de repente, os dedos começam a doer; ele chora e se afasta. Percebe, por um outro vidro, uma outra sala; e ainda uma árvore e bolos de toda a espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e quando alguém chega uma delas dá-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.
    Oh, que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, colocou uma moeda na sua mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como ele teve medo, o menino.

    A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, para segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? Não sabia. Gostaria de chorar, porém, tem medo e corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza; sente-se tão só, tão abandonado, quando, de repente, meu Deus, que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, numa vitrina. Por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente
    como se fossem vivas. E o velhinho, sentado, que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violinos pequeninos e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de verdade. Apenas não se ouve, por causa do vidro. (p. 13-4)


    anônimo (martins, 1947)

    E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos; quando compreende que são bonecos, põe-se a rir. Nunca ele viu bonecos semelhantes e nem imaginara que os houvessem assim. Ri quase que tem vontade de chorar; mas... que ridículo chorar por causa de uns bonecos! (p. 317)

    isa tavares (boitempo, 1995)
    E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos. Quando compreende que são bonecos, começa a rir. Nunca viu bonecos semelhantes e nem imaginara que existissem assim. Eram tão engraçados, tão engraçados, que transformam em riso o seu pranto. (p. 14-5; *ver acima)

    anônimo (martins, 1947)

    Ele cai. Ao mesmo tempo, todo o mundo grita; ele fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.
    "Aqui ninguém me vai encontrar; está bem escuro."
    Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, ele mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar... Mas de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e ele se sente quente como se estivesse perto do fogão e todo o seu corpo estremece. Ah! ele vai adormecer.
    "Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez" - pensa ele e sorri à ideia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!..." (p. 318)

    isa tavares (boitempo, 1995)
    Ele cai. Ao mesmo tempo, todo [] mundo grita; ele fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.

    "Aqui ninguém vai me encontrar; está bem escuro."
    Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, [] mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar... Mas, de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e ele se sente quente como se estivesse perto do fogo e todo o seu corpo estremece. Ah! ele vai adormecer.
    "Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez", pensa ele e sorri com a ideia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!..." (p. 16)


    5 de ago de 2012

    a difusão da alienação

    como comentei aqui, um dos grandes problemas em obras espúrias, sobretudo quando são livros de estudo, de pesquisa, debate e reflexão, dentro e fora do ambiente universitário, é que acabam adquirindo uma difusão, uma propagação quase exponencial. consultadas e citadas em artigos, ensaios, dissertações, teses; indicadas em bibliografias e programas de cursos; presentes em bibliotecas de instituições de ensino públicas e privadas; muitas vezes oferecidas ou adquiridas em licitações e pregões públicos para escolas e bibliotecas, tais obras ganham uma credibilidade que não lhes cabe e uma permanência ao longo das décadas que dificilmente se extirpa com a mera retirada dos exemplares disponíveis no circuito de distribuição. já comentei inúmeras vezes este problema, e na tag nas escolas vê-se claramente a dimensão que ele adquire.

    apontei recentemente o caso de a teoria da alienação em marx, pela boitempo editorial em que isa tavares aparece como suposta tradutora dessa obra de mészáros. veja aqui.


    em vista da boa vontade da editora em apurar o que pode ter acontecido (veja aqui), reforço minha solicitação para que se dedique o máximo empenho ao problema. uma pequeníssima amostra extraída de uma rápida consulta à internet ilustra o que quero dizer:


    todos os docentes e discentes, todos os autores, estudiosos e pesquisadores devem poder confiar em suas fontes. do contrário, é a própria integridade intelectual que se vê atingida, como bem disse alfredo bosi.

    3 de ago de 2012

    tietagem explícita - arte e letra: estórias



    o jornal literário rascunho me perguntou que recomendação de leitura eu faria. dei a seguinte aqui, e reproduzo abaixo:
    Tenho uma paixão toda especial por contos. São de leitura/releitura inesgotável. E que gosto dá pegar um número qualquer da revista Arte e letra: estórias. Começa que as capas são sempre lindas; o papel, uma delícia ao tato e à vista; as ilustrações internas, de um primor que a gente não se cansa de admirar. E aí, já tendo lido e relido algumas vezes os números que tenho em casa, pego-me numa tarde de chuva folheando mais uma vez algum deles. E fico: “Veja só” (por isso é bom também ser meio esquecida), “não me lembrava deste Bulgákov. E esse Vila-Matas aqui? Ora, ora, o Valêncio! Olha o Xerxenesky! E a Carola! Hmm, do D. F. Wallace não sou muito fã, mas esse é legalzinho. Opa, o Coetzee, adoro o Coetzee: como era mesmo a estória? Ah, esse Buzzati aqui é demais”. Afora aqueles de quem nunca tinha ouvido falar: “E. W. Hornung? Serge Pey? Interessante”. Isso sem falar dos tradutores: quanta gente ótima! Meu dia fica encantado, e juro a mim mesma que amanhã sem falta vou encomendar os outros números. 

    2 de ago de 2012

    o trabalho alienado

    I.
    em 1981, foi publicado no brasil o livro de istván mészáros, marx's theory of alienation, na tradução de waltensir dutra, marx: a teoria da alienação, pela zahar editores.



    em 2006, a boitempo editorial publica a teoria da alienação em marx, com tradução em nome de isa tavares, com reimpressões em 2007 e 2009 e uma nova edição com atualização ortográfica em 2011.



    IIa.
    ao examinar os dois volumes, não há como não perceber a absoluta identidade entre a tradução de waltensir dutra e a suposta tradução de isa tavares para os versos de schiller: 


    ou aqui, onde a única diferença da tradução em nome de isa tavares consiste nos itálicos de alguns versos:

    waltensir dutra (zahar)
    Que o grito da ralé passe por cima de ti
    E o grunhir dos porcos extravagantes!
    De nenhum homem livre tens medo,
    Nem do escravo que conquistou a liberdade. 

    E há um Deus, cuja vontade compele
    A mente indecisa do homem:
    A lembrança dos céus supera
    Toda possibilidade de conhecimento.
    Embora o mundo viva em eternas vicissitudes
    Há sempre repouso para a alma tranquila. (p. 268)



    isa tavares (boitempo)
    Que o grito da ralé passe por cima de ti
    E o grunhir dos porcos extravagantes!
    De nenhum homem livre tens medo,
    Nem do escravo que conquistou a liberdade. 

    E há um Deus, cuja vontade compele
    A mente indecisa do homem:
    A lembrança dos céus supera
    Toda possibilidade de conhecimento.
    Embora o mundo viva em eternas vicissitudes
    Há sempre repouso para a alma tranquila. 
    (p. 271)

    o mesmo fiel decalque pode ser visto na citação de fausto de goethe. 


    essa pura cópia se repete nas notas, que não sofreram praticamente nenhuma alteração. segue-se uma nota bastante extensa para ilustrar o fato apontado:





    IIb.
    no texto propriamente dito, é difícil não notar como são esporádicas e perfunctórias as diferenças entre as duas traduções. elas se concentram majoritariamente no mais singelo nível lexical, fazendo lembrar aquilo que saulo von randow jr. chamava jocosamente de "tradução por sinonímia", isto é, a substituição de vocábulos de uma tradução prévia para "melhorar" e disfarçar a cópia, apresentando o texto assim alterado como outra tradução, pretensamente nova.  

    apesar da linguagem razoavelmente simples de mészáros, notam-se, de um lado, alterações vocabulares bastante triviais de um para outro texto ("rigorosa igualdade" por "estrita igualdade"; "conseguir o domínio" por "alcançar o domínio"; "fundamentos firmes" por "fundamentos sólidos" etc.); de outro lado, observam-se similaridades nas estruturas sintáticas e alguns vezos bastante particulares de linguagem ("[marx] não tinha mais de parar no ponto de postular", "deu um grande passo à frente", "suposições muito exageradas são feitas", e assim por diante).veem-se também frases inteiras idênticas, como "as razões pelas quais essa determinação política passa a existir podem, é claro, ser muito variadas, desde um desafio exterior que ameaça[ce] a vida da comunidade, até uma localização geográfica que estimule uma acumulação mais rápida da riqueza; mas seu estudo não cabe[,] aqui" ou "o artista tornou-se livre para escolher, sob todos os aspectos, o assunto-tema [sic] de suas obras, mas ao preço de dúvidas constantes sobre sua relevância". seguem algumas imagens exemplificativas:


     

    III.
    perante tantas identidades e semelhanças difíceis de explicar pela mera coincidência, entrei em contato com a editora boitempo. eu tinha também algumas dúvidas sobre outras edições da casa, e ficaram de apurar as informações que pedi (algumas já divulguei aqui, aqui e aqui). explicaram-me que, de fato, a casa tem como praxe utilizar, "sempre que possível", traduções pré-existentes. ora, não vejo como a "revisão" de um texto poderia em qualquer hipótese autorizar ou justificar a omissão do nome do verdadeiro tradutor e sua substituição pelo do "revisor" da obra traduzida* - pelo contrário, até onde sei, tal procedimento fere frontalmente nossa legislação, isso sem falar no desdouro que acarreta indiretamente para toda a categoria dos lídimos e honestos revisores.

    IV.
    a meu ver, o principal aspecto que se destaca na obra de tradução marx: a teoria da alienação é que ela constitui um claro exemplo de obra abandonada. até onde sei, ela teve apenas uma edição, a já referida de 1981. seu autor, waltensir dutra, faleceu em 1994, quando, aliás, ocupava a presidência do sintra (sindicato dos tradutores). a zahar editores se reestruturou em 1985, passando a ser jorge zahar editora. entrei em contato com a jorge zahar, que me informou que boa parte do catálogo da antiga zahar foi transferida para a koogan guanabara - mas marx: a teoria da alienação não parece constar no catálogo ativo desta última. ou seja, tudo indica que se trata de obra de tradução esgotada e abandonada, de autor falecido, cujos sucessores (se os há) não estão exercendo a guarda de seus direitos.

    assim, largada no fundo do baú, à solta no limbo editorial, a tradução de waltensir dutra, pelo que consigo entender, foi retomada pela boitempo, submetida a uma revisão cosmética e publicada como de autoria de isa tavares, passando a engrossar o catálogo da editora. com tal artifício, a editora recriou para si todo um novo leque de pretensos direitos autorais sobre ela: um novo ciclo inteiro de proteção agora pertencente à suposta tradutora isa tavares e a seus herdeiros durante setenta anos após sua morte, e um novo copyright agora pertencente à boitempo. o fato de ter a editora me assegurado, naquela época em que a consultei a respeito desta obra, que "Muitas vezes isso não significou inclusive qualquer diminuição nos valores pagos, tendo sido os tradutores [?] remunerados integralmente ao reverem antigas traduções que foram por nós republicadas" não me parece anular a grande questão que se revela nesse tipo de procedimento: além de ilícito, a meu ver demonstra um acintoso desrespeito à tradução legítima e ao trabalho legítimo dos legítimos tradutores. 

    V. 
    a editora anunciou aqui suas providências quanto a outras duas edições bastante problemáticas, conforme apontei aqui, e declarou que "está revisando outros trabalhos da mesma tradutora", isa tavares. espero que entre eles esteja incluído o caso acima apresentado.