30 de jul. de 2012

nota da boitempo editorial

em relação a dois livros publicados pela boitempo que supostamente teriam sido traduzidos por isa tavares, que comentei em vários posts agrupados neste link, a editora divulgou a seguinte nota:
Nota de esclarecimento
Hoje a Boitempo Editorial tomou conhecimento de um post do blog “Não Gosto de Plágio” sobre questões relativas à tradução e edição dos livros Considerações sobre o marxismo ocidental/Nas trilhas do materialismo histórico, de Perry Anderson, e Lacrimae rerum, de Slavoj Zizek.
Sempre zelosa nas relações com seus autores, leitores, amigos e colaboradores – incluindo tradutores –, e pautada pela civilidade e transparência, a Boitempo já está averiguando os problemas apontados nas referidas obras e se responsabiliza por tomar as providências necessárias, caso sejam confirmados.
Enquanto não forem esclarecidos todos os pontos a editora interromperá a distribuição dos títulos mencionados; uma vez que se confirmem as informações, serão compensados todos os profissionais envolvidos.
Boitempo Editorial
que bom, ficamos no aguardo dos esclarecimentos.

atualização: em 01/08, a editora lançou uma segunda nota, reproduzida aqui.

lágrimas, lágrimas


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lacrimaeLacrimae Rerum – ensaios sobre Kieslowski, Hitchcock, Tarkovski e Lynch
Slavoj Žižek

Título original Lacrimae Rerum
Tradução Luís Leitão
Ano de edição 2008
N.º pp. 276
Formato 12,3 x 18 cm
EAN 9789899556522


aqui









Lacrimae Rerum
ensaios sobre cinema moderno
Slavoj Žižek
Trad.: Isa Tavares e Ricardo Gozzi
182 páginas
ISBN: 978-85-7559-134-5
[2009]


aqui




a diferença de quantidade de páginas entre as duas edições provavelmente se explica pelas respectivas dimensões dos dois volumes: 12,3 x 18 na orfeu negro, com 32 linhas/página, para 16 x 23 na boitempo, com 40 linhas/página. há também algumas diferenças de conteúdo: o ensaio sobre kieslowski publicado pela orfeu negro apresenta três extensas seções a mais do que o publicado pela boitempo, ao passo que esta última traz o texto "hollywood hoje: notícias de um front ideológico" à guisa de prefácio e o ensaio "matrix ou os dois lados da perversão", ausentes da edição da orfeu negro.


não sei o que dizer sobre o cotradutor ricardo gozzi. já sobre isa tavares sei dizer que consta como pretensa autora de uma tradução minha (veja aqui). como a editora boitempo não especifica na página de créditos quais textos couberam a cada um deles, tomarei como hipótese que ricardo gozzi tenha sido o legítimo responsável pela tradução dos dois textos ausentes da edição da orfeu negro, e que isa tavares - a julgar pelo precedente dado - seja o nome usado em edições com procedimentos semelhantes aos adotados contra minha tradução, no caso supracitado.

seguem-se alguns trechos dos vários ensaios, a título comparativo. aqui utilizo a edição da boitempo de 2011.*
* não destacarei em vermelho abrasileiramentos simples como "direto" para "directo", "objeto" para "objecto", "gênero" para "género" e similares.

luís leitão (orfeu negro)
De que modo, exactamente, o Decálogo de Kieslowski está relacionado com os Dez Mandamentos? A maioria dos analistas refugia-se na presumida ambiguidade desta relação: não devíamos correlacionar cada episódio com um único Mandamento; as correspondências são mais vagas e, por vezes, uma história refere-se a uma multiplicidade de Mandamentos... Contra esta escapatória fácil, devemos sublinhar a correlação estreita entre os episódios e os Mandamentos: cada história refere-se apenas a um Mandamento, mas com uma "mudança de velocidade". O Decálogo 1 refere-se ao segundo Mandamento, e assim por diante, até, finalmente, ao Decálogo 10, que nos traz de volta ao primeiro Mandamento. Este desfasamento é indicativo do deslocamento a que os Mandamentos são submetidos por Kieslowski. O que este faz está muito próximo do que Hegel realiza na sua Fenomenologia do Espírito: selecciona um Mandamento e "encena-o", consubstancia-o numa situação de vida exemplar, tornando assim visível a sua "verdade" e as suas consequências inesperadas que lhe minam as premissas. Quase se é tentado a afirmar que, no modo hegeliano estrito, este deslocamento de cada mandamento gera o mandamento seguinte. ("A teologia materialista de Krzysztof Kieslowski", p.  50-1)

isa tavares (boitempo)
De que modo exatamente o Decálogo de Kieslowski está relacionado com os Dez Mandamentos? A maioria dos analistas refugia-se na presumida ambiguidade dessa relação: não deveríamos relacionar cada episódio com um único mandamento; as correspondências são mais vagas e, por vezes, uma história refere-se a uma multiplicidade de  mandamentos... Contra essa escapatória fácil, devemos sublinhar a relação estreita entre os episódios e os  mandamentos: cada história diz respeito a apenas um Mandamento, mas com uma "mudança de velocidade". O Decálogo 1 refere-se ao segundo  mandamento e assim por diante, até finalmente o Decálogo 10, que nos traz de volta ao primeiro  mandamento. Essa defasagem é indicativdo deslocamento a que os mandamentos são submetidos por Kieslowski. O que este faz está muito próximo do que Hegel realiza em sua Fenomenologia do Espírito: seleciona um  mandamento e "encena-o", consubstancia-o numa situação de vida exemplar, tornando visível assim sua "verdade" e suas consequências inesperadas, que minam suas premissas. Quase se é tentado a afirmar que, no modo hegeliano estrito, este deslocamento de cada mandamento gera o mandamento seguinte. ("A teologia materialista de Krzysztof Kieslowski", p. 17-8)

luís leitão (orfeu negro)
Em primeiro lugar, ao nível da solução "literal" do mistério, há cinco possibilidades:
     - a explicação natural simples: três raparigas e uma das professoras caíram numa das fendas profundas que existem na intrincada estrutura do rochedo, ou foram mortas pelas aranhas e cobras que lá abundam;
     - a explicação do crime sexual: elas foram raptadas, violadas e mortas no rochedo por algum dos aborígenes sinistros que se escondem por lá, à espera de visitantes incautos, ou por Michael e Albert, os dois jovens que obviamente se sentem atraídos pelas raparigas e que depois salvam uma delas;
     - a explicação da sexualidade patológica: o recalcamento erótico das raparigas conduziu-as a uma explosão histérica de violência autodestrutiva;
     - a explicação natural da religião primitiva: o espírito da montanha raptou estes intrusos, escolhendo os que estavam mais em sintonia com os seus apetites (e que, por essa razão, rejeitou a quarta rapariga, a gorda, que não tinha interesse pelos mistérios da sensualidade);
     - a explicação do sequestro por alienígenas: as raparigas penetraram numa Zona do espaço-tempo diferente. (p. 195)

isa tavares (boitempo)
Em primeiro lugar, no nível da solução "literal" do mistério, há cinco possibilidades:
  • a explicação natural simples: três moças e uma das professoras caíram numa das fendas profundas que existem na intrincada estrutura do rochedo, ou foram mortas pelas aranhas e cobras que lá abundam;
  • a explicação do crime sexual: elas foram raptadas, violentadas e mortas no rochedo por algum dos aborígenes sinistros que se escondem por lá, à espera de visitantes incautos, ou por Michael e Albert, os dois jovens que obviamente se sentem atraídos pelas moças e que depois salvam uma delas;
  • a explicação da sexualidade patológica: o recalcamento erótico das moças conduziu-as a uma explosão histérica de violência autodestrutiva;
  • a explicação natural da religião primitiva: o espírito da montanha raptou os intrusos, escolhendo os que estavam mais em sintonia com [] seus apetites (e que, por essa razão, rejeitou a quarta moça, a gorda, que não tinha interesse pelos mistérios da sensualidade);
  • a explicação do sequestro por alienígenas: as moças penetraram numa Zona do espaço-tempo diferente. (p. 102-3)

luís leitão (orfeu negro)
Para além destas, existem pelo menos duas explicações "metafóricas": a história baseia-se na oposição entre a atmosfera vitoriana rígida e disciplinadora do internato, situado numa casa vetusta, asseada e em ordem, e a vida natural, exuberante e livre que impera na protuberância selvagem do Rochedo. A atmosfera rígida da escola está carregada de um erotismo latente (o desejo lésbico semi-reprimido de alunas por alunas, de alunas por professoras e de professoras por alunas...). Em contraste com esta severidade "vitoriana" proverbial, com os seus desejos recalcados, o Rochedo representa a riqueza irrefreável da vida com toda a sua profusão de formas, por vezes repugnantes (grandes planos de répteis e cobras, associados ao pecado original, a rastejar em volta das raparigas adormecidas, para já não falar na vegetação selvagem e luxuriante e nos bandos de pássaros). Então, nada mais natural do que interpretar a história do desaparecimento como uma variação do velho tema da repressão vitoriana que explode à luz do dia: a professora de matemática, a frígida Miss McCraw, descreve o nascimento do Rochedo como o produto da lava fundente que é "empurrada de baixo... expulsa num estado altamente viscoso", mais uma descrição do despertar lento das hormonas nas recalcadas raparigas púberes do que de um fenómeno natural, uma protuberância vulcânica proveniente das profundezas da Terra. Assim, o Rochedo representa obviamente a paixão irreprimível da vida desde há muito controlada pelos costumes sociais e que finalmente explode... (p. 196)

isa tavares (boitempo)
Para além dessas, existem pelo menos duas explicações "metafóricas": a história baseia-se na oposição entre a atmosfera vitoriana rígida e disciplinadora do internato, situado numa casa vetusta, asseada e organizada, e a vida natural, exuberante e livre que impera na protuberância selvagem do rochedo. A atmosfera rígida da escola está carregada de um erotismo latente (o desejo lésbico semirreprimido de alunas por alunas, de alunas por professoras e de professoras por alunas...). Em contraste com essa severidade "vitoriana" proverbial, com seus desejos recalcados, o rochedo representa a riqueza irrefreável da vida com toda a sua profusão de formas, por vezes repugnantes (grandes planos de répteis[], associados ao pecado original, rastejando em volta das moças adormecidas, para já não falar na vegetação selvagem e luxuriante e nos bandos de pássaros). Então, nada mais natural do que interpretar a história do desaparecimento como uma variação do velho tema da repressão vitoriana que explode à luz do dia: a professora de matemática, a frígida Miss McCraw, descreve o nascimento do rochedo como o produto da lava fundente que é "empurrada de baixo [...] expulsa num estado altamente viscoso": mais uma descrição do despertar lento dos hormônios nas recalcadas garotas púberes do que de um fenômeno natural, uma protuberância vulcânica proveniente das profundezas da Terra. Assim, é óbvio que rochedo representa [] a paixão irreprimível da vida desde há muito controlada pelos costumes sociais e que finalmente explode... (p. 103-4)


em sobre remakes, aqui, fiz uma apresentação bastante didática sobre as inelimináveis e irredutíveis singularidades individuais de um trabalho de tradução, utilizando o excerto abaixo.

luís leitão (orfeu negro)
É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original na página esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura destes livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: regra geral, Durband tenta formular directamete, na locução do quotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em qualquer coisa como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo matar-me ou não?" E a minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente qualquer coisa como Hitchocock Made Easy: embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do realizador, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões acerca do toque único de Hitchcock, e coisas do género, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere aos seus filmes um carácter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 157)


isa tavares (boitempo)
É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, no inglês arcaico original na página da esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura desses livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: em regra [], Durband tenta formular diretamete, na locução do cotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em algo como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo me matar ou não?" Minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente algo como Hitchocock Made Easy. Embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do diretor, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões sobre o toque único de Hitchcock, e coisas do gênero, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere a seus filmes um caráter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 79)

sobre remakes

sem especificar as razões de meu pedido, eu tinha solicitado a alguns colegas tradutores a gentileza de traduzir um trechinho que enviava em anexo. agradeço-lhes a disposição e a boa vontade. segue-se o resultado.


In any large American bookstore, it is possible to purchase some volumes of the unique series Shakespeare Made Easy, edited by John Durband and published by Barron's: a "bilingual" edition of Shakespeare's plays, with the original archaic English on the left page and the translation into common contemporary English on the right page. The obscene satisfaction provided by reading these volumes resides in how what purports to be a mere translation into contemporary English turns out to be much more: as a rule, Durband tries to formulate directly, in everyday locution, (what he considers to be) the thought expressed in Shakespeare's metaphoric idiom - say, "To be or not to be, that is the question" becomes something like: "What's bothering me now is: Shall I kill myself or not?" And my idea is, of course, that the standard remakes of Hitchcock's films are precisely something like Hitchcock Made Easy: although the narrative is the same, the "substance," the flair that accounts for Hitchcock's uniqueness evaporates. Here, however, one should avoid the jargon-laden talk on Hitchcock's unique touch, etc., and approach the difficult task of specifying what gives Hitchcock's films their unique flair. ("Is There a Proper Way to Remake a Hitchcock Film?")
Em qualquer grande livraria norte-americana, é possível comprar alguns volumes da incomparável série Shakespeare Made Easy [Shakespeare Simplificado], editada por John Durband, e publicada pela editora Barron's. Trata-se de uma edição "bilíngue" das peças de Shakespeare, com o texto original em inglês arcaico, na página esquerda, e a tradução em inglês contemporâneo e comum, na página direita. A satisfação obscena oferecida pela leitura destes livros está no fato de que aquilo que aparenta ser uma simples tradução para o inglês contemporâneo resulta em muito mais: via de regra, Durband tenta formular diretamente, em linguagem cotidiana, (o que supõe ser) o pensamento expresso nas metáforas de Shakespeare – por exemplo, "Ser ou não ser: eis a questão" se torna algo como: "O que está me incomodando agora é: me mato ou não?". Sem dúvida, a minha ideia é que os remakes habituais dos filmes de Hitchcock são justamente uma espécie de Hitchcock Simplificado: embora a narrativa seja a mesma, a “substância”, o estilo responsável pelo caráter único de Hitchcock, evapora. No entanto, devemos evitar aquelas palestras cheias de jargões sobre o toque único de Hitchcock, etc., e partir para a difícil tarefa de determinar o que dá a seus filmes seu estilo único. ("Existe um modo certo de refilmar Hitchcock?")

Em qualquer das grandes livrarias americanas pode-se comprar exemplares da série especial Shakespeare Facilitado, editada por John Durband e publicada pela Barron’s: uma edição “bilíngue” das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original na página esquerda e a tradução em inglês corrente contemporâneo, na direita. A satisfação obscena que se tem ao ler esses livros advém de como o que pretende ser uma mera tradução para o inglês contemporâneo acaba sendo muito mais do que isso: de modo geral, Durband procura formular diretamente, no modo de falar comum, (o que considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare ─ digamos, “Ser ou não ser, eis a questão” se torna algo como: “o que me aflige agora é: devo me matar ou não?” E a noção que tenho é, evidentemente, que os remakes comuns dos filmes de Hitchcock são exatamente algo como Hitchcock Facilitado: embora a narrativa seja a mesma, a “substância”, o jeito que confere a Hitckcock sua singularidade some. Aqui, no entanto, devemos evitar o discurso cheio de jargão sobre o toque indistinguível de Hitchcock, etc., e enfrentar a difícil tarefa de especificar o que dá aos filmes de Hitchcok a sua alma própria. ("Existe uma maneira certa de refazer um filme de Hitcocock?") 
Em qualquer grande livraria americana, é possível comprar alguns volumes da série original   Shakespeare Made Easy [Shakespeare Mastigado, numa versão livre, ainda sem tradução em português], editado por John Durband e publicado pela editora Barron: uma edição "bilíngue" das peças de Shakespeare, com o original em inglês arcaico na página esquerda e a tradução em inglês contemporâneo laico na direita. A abjeta satisfação fornecida pela leitura desses volumes reside no fato de que uma pretensa e mera tradução para o inglês contemporâneo acaba por se tornar em algo muito maior : via de regra, Durband tenta exprimir, através de linguagem coloquial, (o que ele considera ser) o pensamento de Shakespeare expresso em linguagem metafórica - por exemplo : "Ser ou não ser, eis a questão" torna-se algo como:  "O que me perturba no momento é: devo me matar ou não?" E minha conclusão lógica é que os remakes dos filmes de Hitchcock são, precisamente, algo como Hitchcock Made Easy: embora a narrativa seja a mesma, a "substância", o estilo que representa a singularidade de Hitchcock se evapora. Não obstante, deve-se evitar, nesse momento, o clichê já gasto sobre o toque único de Hitchcock, etc., e enfrentar a difícil tarefa de especificar o que dá aos de filmes de Hitchcock a sua singularidade. ("Há uma forma correta de se fazer um remake dos filmes de Hitchcock?")
Em qualquer grande livraria norte-americana é possível comprar alguns volumes da peculiar série Shakespeare simplificado, editada por John Durband e publicada pela Barron’s: uma edição “bilíngue” das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original à esquerda e a tradução para o inglês contemporâneo comum na página à direita. A obscena satisfação proporcionada pela leitura desses volumes reside na maneira como aquilo que pretende ser uma mera tradução para o inglês contemporâneo se revela como muito mais que isso: via de regra, Durband tenta formular diretamente, em locuções corriqueiras, (aquilo que ele considera ser) o pensamento expresso na linguagem metafórica de Shakespeare – por exemplo, “Ser ou não ser, eis a questão” se transforma em algo como “O que me preocupa agora: devo matar-me ou não?” E minha opinião é a de que, evidentemente, as refilmagens de Hitchcock são justamente algo como um Hitchcock simplificado: embora a narrativa seja a mesma, a “substância”, o estilo responsável pela singularidade de Hitchcock se evapora. Aqui, no entanto, deve-se evitar o jargão do discurso sobre o toque singular de Hitchcock etc., e abordar a difícil tarefa de especificar aquilo que confere aos filmes de Hitchcock seu estilo único. ("Há uma maneira apropriada de refilmar uma obra de Hitchcock?")
trata-se do parágrafo inicial do artigo de slavoj zizek, "is there a proper way to remake a hitchcock film?", disponível aqui e incluído no volume lacrimae rerum, publicado tanto pela portuguesa orfeu negro (2008) quanto pela brasileira boitempo (2009). creio que este mostruário acima é mais do que suficiente para indicar como parece remota a probabilidade de que os dois textos abaixo sejam de dois tradutores diferentes:


lacrimae
luís leitão (orfeu negro, 2008)
É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original na página esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura destes livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: regra geral, Durband tenta formular directamente, na locução do quotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em qualquer coisa como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo matar-me ou não?" E a minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente qualquer coisa como Hitchcock Made Easy: embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do realizador, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões acerca do toque único de Hitchcock, e coisas do género, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere aos seus filmes um carácter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 157)



isa tavares (boitempo, 2009)
É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, no inglês arcaico original na página da esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura desses livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: em regra, Durband tenta formular diretamente, na locução do cotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em algo como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo me matar ou não?" Minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente algo como Hitchcock Made Easy. Embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do diretor, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões sobre o toque único de Hitchcock, e coisas do gênero, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere a seus filmes um caráter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 79)


sobre isa tavares na boitempo editorial, ver também you kiddin', rite?, aqui.

28 de jul. de 2012

you kiddin', rite? - parte III

andré carone levantou uma questão pertinente sobre a garfada de minha tradução: a boitempo menciona a existência de uma tradução anterior à que ela publicou como sendo de "isa tavares"?


em seu site, na página dedicada ao livro, aqui, há a seguinte menção: "A reedição destes dois importantes ensaios, a [sic] muito esgotados no Brasil, reunidos em um único volume, é parte do esforço da Boitempo de disponibilizar no Brasil a obra completa de grandes nomes do pensamento crítico". 


lembrando: essa tradução fui eu que fiz, em 1984, para a brasiliense. jamais fui consultada, jamais autorizei o uso e muito menos jamais autorizei ter meu nome substituído pelo de isa tavares. o fato de estar esgotada não autoriza ninguém a pegá-la, tascar-lhe outro nome e incorporá-la a seu catálogo - e tudo isso coroado com um discurso de autoengrandecimento que fica parecendo até meio cínico.



(aliás, uma coincidência que nem vem muito ao caso, mas achei divertida: o revisor técnico de minha tradução na brasiliense foi emir sader, o mesmo que assina agora a introdução ao volume da boitempo.)


acompanhe o caso aqui.


imagem: aqui

you kiddin', rite? - parte II

um elemento bizarro naquele acinte que é a cópia de minha tradução de in the tracks of historical materialism, de perry anderson, publicada pela boitempo editorial como se fosse da lavra de isa tavares (veja aqui), é a seguinte menção na página dos créditos: "copyright © 1984 da 1a. edição brasileira brasiliense".



tal menção me pareceu despropositada e liguei para a brasiliense para saber se a editora havia licenciado minha tradução para a boitempo. não, não só não haviam licenciado, como nem sabiam da contrafação e nem detinham mais os direitos de tradução dessa obra de anderson no brasil. e, acrescento eu, mesmo que a brasiliense a tivesse licenciado, não faria o menor sentido - aí sim, seria um completo contrassenso - que a boitempo publicasse uma obra devidamente licenciada utilizando  falsos créditos de tradução.


só posso imaginar uma hipótese absurda: teria a boitempo apostado que, mencionando um copirraitezinho extinto, estaria adquirindo alguma legitimidade para sua edição? 

you kiddin', rite? - parte I



Título: Considerações sobre o marxismo ocidental/ Nas trilhas do materialismo histórico
Título Original: Considerations on western marxism/ In the tracks of historical materialism
Autor(a): Perry Anderson
Prefácio: Emir Sader
Tradutor(a): Isa Tavares
Páginas: 240
Ano de publicação: 2004
ISBN: 85-7559-033-2





in the tracks of historical materialism foi a primeira tradução que fiz na vida para uma editora. saiu em 1984 pela brasiliense, na coleção "primeiros voos", com o título de a crise da crise do marxismo.



lá se veem os erros e vezos de uma marinheira de primeira viagem, fielmente reproduzidos na edição da boitempo, agora eu renomeada como "isa tavares". um catholicity que dei como "catolicismo", uma meia-dúzia de relevant como "relevante", evidence como "evidência", o mais amador uso de "através de" para through, uma enfiada de "mentes" usados com pródiga liberalidade - por exemplo, três numa frase só: "para alguns da minha geração, formados numa época em que a cultura britânica parecia completamente destituída de qualquer impulso marxista endógeno significativo - a retardatária da Europa, como constantemente denunciávamos ... -, essa foi uma metamorfose realmente espantosa", seguida por uma frase horrorosa preservada com todo o carinho por minha döppel: "a relação tradicional entre a inglaterra e a europa continental parece ... ter sido efetivamente invertida". alguns outros traços muito pessoais, que considero corretos e aceitáveis, conservo até hoje.

denise bottmann (brasiliense, 1984)
  • o marxismo, é claro, entra maciça e predominantemente na categoria daqueles sistemas de pensamento preocupados com a natureza e a direção da sociedade como um todo. (p. 12)
  • tal concepção não envolvia nenhum elemento de positividade complacente - como se a verdade, a partir de então, estivesse garantida pelo tempo, o ser pelo devir, e sua doutrina imune a erros graças à simples imersão na transformação. (p. 14)
  • a cultura marxista historicamente centrada que surgiu no mundo anglófono finalmente não permaneceu confinada a suas próprias províncias. (p. 31)
  • esse processo fez surgirem as eufóricas coberturas dos meios de massa norte-americanos e europeus em 1977, a revista time tendo sido apenas uma dentre elas. mas, apesar de a escala e a velocidade do fenômeno terem sido suficientemente dramáticas, o próprio termo sempre foi enganoso. (p. 33)
  • especialmente na frança e na itália, os dois principais territórios pátrios de um materialismo histórico vivo nos anos 50 e 60, o massacre dos ancestrais tem sido impressionante para alguém que, como eu aprendeu muito de seu marxismo com aquelas culturas. (p. 36)
  • o tosco cadastramento do estado atual da teoria marxista ... terminou com um enigma. (p. 37)
  • o ponto relevante é que esta inveterada tensão - às vezes lesão - dentro do materialismo histórico não assumiu nenhuma forma diretamente política (p. 40)
  • os debates que os dividiram, no seu empreendimento inicialmente conjunto, foram de rara qualidade e intensidade (p. 41)
  • sartre, confiou althusser às páginas do semanário do partido comunista italiano, era um falso amigo do materialismo histórico, na verdade mais distante dele do que seu ostensivo crítico lévi-strauss. (p. 43)
  • althusser tentou adaptar tardiamente sua teoria, concedendo espaço ao papel das massas, que, reconhecia agora, "faziam história", mesmo que os "homens e mulheres" não a fizessem. (p. 45)
  • se essa foi, então, a curva aproximada da trajetória do estruturalismo para o pós-estruturalismo, nossa pergunta inicial responde-se a si mesma. (p. 63)
isa tavares (boitempo, 2004)
  • o marxismo, é claro, entra maciça e predominantemente na categoria daqueles sistemas de pensamento preocupados com a natureza e a direção da sociedade como um todo. (p. 146)
  • tal concepção não envolvia nenhum elemento de positividade complacente - como se a verdade, a partir de então, estivesse garantida pelo tempo, o devir*, e sua doutrina imune a erros graças à simples imersão na transformação. (p. 147) - * mas aqui minha döppel comeu bola ao eliminar "o ser [garantido] pelo devir" e deixar apenas "o devir".
  • a cultura marxista historicamente centrada que surgiu no mundo anglófono, finalmente, não permaneceu confinada a suas próprias províncias. (p. 161)
  • esse processo fez surgirem as eufóricas coberturas dos meios de massa norte-americanos e europeus em 1977, a revista time tendo sido apenas uma dentre elas. mas, apesar de a escala e a velocidade do fenômeno terem sido suficientemente dramáticas, o próprio termo sempre foi enganoso. (p. 163)
  • especialmente na frança e na itália, os dois principais territórios de um materialismo histórico vivo nos anos 50 e 60, o massacre dos ancestrais tem sido impressionante para alguém que, como eu aprendeu muito de seu marxismo com aquelas culturas. (p. 166)
  • o tosco cadastramento do estado atual da teoria marxista ... terminou com um enigma. (p. 167)
  • o ponto relevante é que esta inveterada tensão - às vezes lesão - dentro do materialismo histórico não assumiu nenhuma forma diretamente política (p. 169-70)
  • os debates que os dividiram, no seu empreendimento inicialmente conjunto, foram de rara qualidade e intensidade (p. 170)
  • sartre, confiou althusser às páginas do semanário do partido comunista italiano, era um falso amigo do materialismo histórico, na verdade mais distante dele do que seu ostensivo crítico lévi-strauss. (p.  172)
  • althusser tentou adaptar tardiamente sua teoria, concedendo espaço ao papel das massas, que, reconhecia agora, "faziam história", mesmo que os "homens e mulheres" não a fizessem. (p. 173)
  • se essa foi, então, a curva aproximada da trajetória do estruturalismo para o pós-estruturalismo, nossa pergunta inicial responde-se a si mesma. (p. 189)
esses torneios inconfundíveis não cessam de surgir (e de ser copiados) até o final do livro, e creio ser desnecessário acrescentar outros exemplos. passo agora a apresentar trechos mais extensos da cópia bastante evidente:

denise bottmann (brasiliense, 1984)
essa longa e atormentada tradição - conforme argumentei - estava finalmente se esgotando na virada dos anos 70. houve duas razões para isso. a primeira foi o redespertar das revoltas de massa na europa ocidental - na verdade, bem no centro do mundo capitalista avançado -, onde a grande onda de inquietação estudantil em 1968 anunciava a entrada de contingentes maciços da classe trabalhadora em uma nova insurgência política, de um tipo nunca visto desde os dias dos conselhos espartaquistas ou turinenses. a explosão de maio na frança foi a mais espetacular delas, seguida pela onda de militância industrial na itália em 1969, pela decisiva greve dos mineiros na inglaterra, que derrubou o governo conservador em 1974, e em poucos meses depois pela sublevação em portugal, com sua rápida radicalização para uma situação revolucionária do tipo mais clássico. em nenhum desses casos, o ímpeto da rebelião popular derivava dos partidos de esquerda estabelecidos, fossem social-democratas ou comunistas. o que pareciam prefigurar era a possibilidade de um fim no divórcio de meio século entre teoria socialista e prática operária maciça, que havia deixado uma marca tão deformante no próprio marxismo ocidental. ao mesmo tempo, o prolongado desenvolvimento do pós-guerra chegou a uma abrupta interrupção em 1974, questionando pela primeira vez em 25 anos a estabilidade sócio-econômica básica do capitalismo avançado. subjetiva e objetivamente, portanto, as condições pareciam iluminar o caminho para o surgimento de um outro tipo de marxismo. 
minhas conclusões pessoais acerca de sua forma provável - conclusões que eram também recomendações, vividas num espírito de otimismo ponderado - foram quatro. (p. 21-2)

isa tavares (boitempo, 2004)
essa longa e atormentada tradição - conforme afirmei - estava finalmente se esgotando na virada dos anos 70. houve duas razões para isso. a primeira foi o redespertar das revoltas de massa na europa ocidental - na verdade, bem no centro do mundo capitalista avançado -, em que a grande onda de inquietação estudantil em 1968 anunciava a entrada de contingentes maciços da classe trabalhadora em uma nova insurgência política, de um tipo nunca visto desde os dias dos conselhos espartaquistas ou turinenses. a explosão de maio na frança foi a mais espetacular delas, seguida pela onda de militância industrial na itália em 1969, pela decisiva greve dos mineiros na inglaterra, que derrubou o governo conservador em 1974, e, poucos meses depois, pela sublevação em portugal, com sua rápida radicalização para uma situação revolucionária do tipo mais clássico. em nenhum desses casos, o ímpeto da rebelião popular derivava dos partidos de esquerda estabelecidos, fossem socialdemocratas ou comunistas. o que eles pareciam prefigurar era a possibilidade de um fim no divórcio de meio século entre teoria socialista e prática operária de massas que havia deixado uma marca tão deformante no [] marxismo ocidental. ao mesmo tempo, o prolongado crescimento do pós-guerra sofreu uma abrupta parada em 1974, ameaçando pela primeira vez em 25 anos a estabilidade socioeconômica básica do capitalismo avançado. subjetiva e objetivamente, portanto, as condições pareciam iluminar o caminho para o surgimento de um outro tipo de marxismo. 
minhas conclusões [] acerca de sua forma provável - conclusões que eram também recomendações, vividas num espírito de otimismo ponderado - foram quatro. (p. 153-4)

denise bottmann (brasiliense, 1984)
dito tudo isso, continua sendo verdade que a diferença entre a filosofia da linguagem e da história de habermas e a de seus contrapositores estruturalistas e pós-estruturalistas não é mera redundância. falei da curiosa inocência da visão de habermas: mas ela também comporta uma espécie de integridade e dignidade intelectual geralmente estranhas aos exemplares franceses do modelo linguístico. o próprio estilo de habermas - frequentemente (não sempre) enfadonho, incômodo, laborioso - revela seu contraste com as excitantes coloraturas dos mestres parisienses. por trás disso estão, não sugestões wagnerianas fin-de-siècle, mas os ideais austeros e o sério otimismo do iluminismo alemão. a bildung é o real motivo condutor que unifica a série característica de interesses e argumentos de habermas. leva a uma visão essencialmente pedagógica da política, o foro transformado em sala de aula quando as lutas e confrontos se transmutam em processos de aprendizagem. mas, com todas as limitações dessa ótica, dolorosamente óbvias numa perspectiva marxista clássica, ela não exclui realmente a política como tal. ao contrário de seus muitos opostos na frança, habermas tentou uma análise estrutural direta das tendências imanentes do capitalismo contemporâneo e da possibilidade de surgimento, a partir delas, de crises de transformação dos sistema - mantendo o projeto tradicional do materialismo histórico. sua noção de uma crise de "legitimação" moral a minar a integração social - uma crise paradoxalmente gerada pelo próprio sucesso da regulação, dirigida pelo estado, do ciclo de acumulação capitalista - nesse aspecto conforma-se fielmente ao esquema de primazia normativa postulada pela teoria evolucionária da história como um todo. (p. 76-7)

isa tavares (boitempo, 2004)
dito tudo isso, continua sendo verdade que a diferença entre a filosofia da linguagem e da história de habermas e a de seus opositores estruturalistas e pós-estruturalistas não é mera redundância. falei da curiosa inocência da visão de habermasmas ela também comporta uma espécie de integridade e dignidade intelectual geralmente estranhas aos exemplares franceses do modelo linguístico. o próprio estilo de habermas - frequentemente (não sempre) enfadonho, incômodo, laborioso - revela seu contraste com as excitantes coloraturas dos mestres parisienses. por trás disso estão não sugestões wagnerianas fin-de-siècle, mas os ideais austeros e o sério otimismo do iluminismo alemão. a bildung é o real leitmotif que unifica a série característica de interesses e argumentos de habermas. leva a uma visão essencialmente pedagógica da política, o foro transformado em sala de aula quando as lutas e confrontos se transmutam em processos de aprendizagem. mas, com todas as limitações dessa ótica, dolorosamente óbvias numa perspectiva marxista clássica, ela não exclui realmente a política como tal. ao contrário de seus [] opostos na frança, habermas tentou uma análise estrutural direta das tendências imanentes do capitalismo contemporâneo e da possibilidade de surgimento, a partir delas, de crises de transformação dos sistema - mantendo o projeto tradicional do materialismo histórico. sua noção de uma crise de "legitimação" moral corroendo a integração social - uma crise paradoxalmente gerada pelo próprio sucesso da regulação, dirigida pelo estado, do ciclo de acumulação capitalista -, nesse aspecto conforma-se fielmente ao esquema de primazia normativa postulada pela teoria evolucionária da história como um todo. (p. 201)

acompanhe you kiddin', rite? - parte II aqui you kiddin', rite? - parte III aqui

26 de jul. de 2012

o oatcake do morro dos ventos uivantes

tem um trecho no morro dos ventos uivantes em que o narrador descreve o aposento principal da casa e a certa altura diz:
The latter [the roof] had never been under-drawn: its entire anatomy lay bare to an inquiring eye, except where a frame of wood laden with oatcakes and clusters of legs of beef, mutton, and ham, concealed it. 
ou seja, o telhado da casa nunca tinha recebido forro, e por isso sua estrutura ficava à mostra, exceto num lugar onde havia uma armação de madeira cheia de "cakes" de aveia, pernis de boi e carneiro e presuntos.


george walker, "woman making oatcakes" da série costumes of yorkshire, 1814, aqui

encontrei essa ilustração de uma casa rural típica do yorkshire. achei uma graça a mesa improvisada com uma cadeira deitada, umas tábuas e a toalha com os oatcakes por cima, decerto para esfriar, e a armação parecida com a que aparece no livro (embora aqui o teto tenha forro), com os tais oatcakes pendurados para secar. não sei como eu traduziria - "bolo de aveia" é que não seria, pois mais parece uma massa de pizza ou um pão árabe.

acabei descobrindo que existem dois tipos de oatcake: aquele que a gente chama mesmo de biscoito de aveia, que já sai do forno sequinho e crocante ou bem friável, por causa da manteiga; o outro, de massa macia, feito numa chapa ou pedra de assar, que parece um crepe ou uma panqueca meio grossinha - pode ser comido fresco (quente ou frio) ou posto para secar, como na gravura acima e na descrição em wuthering heights.

25 de jul. de 2012

peter handke no brasil


esta é para carlos henrique schroeder.



no cinema, quem não lembra o impressionante falso movimento (que depois acabou ficando movimento em falso), que wim wenders pôs na tela com hanna schygulla e rüdiger vogler, ambos fantásticos, e uma nastassja kinski novinha de tudo? e asas do desejo, a quatro mãos, handke com wenders? e a adaptação de wenders d'o medo do goleiro handkiano?

em teatro, não sei se a hora em que não sabíamos nada uns dos outros, encenada pelo grupo elevador panorâmico, com o texto em tradução de christine röhrig, chegou a sair em texto impresso. em todo caso, o instituto goethe no brasil tinha uma coleção ótima, chamada "caderno de teatro alemão". na coleção saíram duas peças de handke: kaspar, em tradução de irene aron, caderno 6, 1978, e o menor quer ser tutor, em tradução de aída galeão, caderno 44, 1989. há ainda insulto ao público, com tradução de george sperber, de 1966, depositado pelo sbat em nosso acervo nacional. 

a produção de peter handke é espantosa (vide wiki), mas aqui no brasil temos até uma boa amostra de sua literatura.



a mulher canhota & breve carta para um longo adeus, em tradução de lya luft, pela brasiliense (1985)


Clique para ampliar a capa



o medo do goleiro diante do pênalti & bem-aventurada infelicidade, em tradução de zé pedro antunes, pela brasiliense (1988)




REPETIÇÃO,  A



a repetição, em tradução de betty kunz, pela rocco (1988)






a ausência - um conto de fadas, em tradução de lya luft, pela rocco (1989)








história de uma infância, em tradução de nicolino simone neto, pela companhia das letras (1990):






a tarde de um escritor, em tradução de reinaldo guarany, 
pela rocco (1993)





don juan (narrado por ele mesmo), em tradução de simone homem de mello, pela estação liberdade (2003)








a perda da imagem ou através da sierra de gredos, em tradução de simone homem de mello, pela estação liberdade (2009)




alguns poemas avulsos na internet: canção da infância, aqui; sem título, aqui.

22 de jul. de 2012

mais do mesmo

dissertações e teses na área de estudos de tradução parecem meio iguais em todo o mundo:

URNetd-0718112-010238
AuthorIfen Liu
DepartmentDepartment of Applied Foreign Languages
Type of DocumentMaster's Thesis
TitleA Comparative Analysis of Two Chinese Translations of Henry David Thoreau's Walden
Date of Defense2012-07-06
Keyword
  • Equivalent effect
  • Literary translation
  • Transcendentalism
  • Walden
  • Thoreau
  • Newmark
  • Translated literature
  • AbstractThis thesis is a comparative study of two Chinese translations of Henry David Thoreau¡¦s Walden, by Xu Chi and Meng Xiangsen in 1982. The researcher sets out to explore and analyze the methods in which the literary devices, philosophic texts, and back translations of Confucian quotations are dealt with in the chosen translations. The thesis also aims to compare the above with the concepts and guidelines proposed by Peter Newmark in A Textbook of Translation.
    This thesis consists of five chapters, each of which has its own focus and connects with the others to form a research project. Chapter One offers an overview of the whole research project. The researcher briefly describes the background, motivation, purpose, methodology, and significance of this study. Chapter Two introduces the life of Henry David Thoreau and the influence of Orientalism on his Transcendentalist beliefs as realized at Walden Pond. A summary of full-text Walden translations in traditional Chinese and a brief introduction of the translators of the chosen Chinese versions are provided in the end of this chapter. Chapter Three explicates the critical theories and approaches in translation studies, including Eugene Nida¡¦s ¡§equivalent effect¡¨, Katharina Reiss¡¦ text type, Peter Newmark¡¦s semantic and communicative translation approaches, and Itamar Even-Zohar¡¦s Polysystem theory. Chapter Four details the analysis and comparison between the ST (source text) and two translation versions (TT1, TT2). Chapter Five concludes with findings and solutions to some critical issues, problems, and discrepancies.

    joseph roth no brasil

    um autor de que gosto muito é o judeu austríaco joseph roth (1894-1939). interessante que seu livro hiob, de 1930, chegou ao brasil já em 1934, como job, o romance de um pobre professor. a tradução de dom josé paulo da câmara saiu inicialmente pela cultura brasileira; a seguir (c. 1945), pela livraria martins; em 1950, pelo clube do livro, rara ocasião em que este publicou uma tradução legítima.


    Clique para ampliar a capa

    passam-se quase quarenta anos, e então volta-se a publicar roth no brasil, mas quase que em ordem cronológica inversa de sua produção. é tanto mais uma pena porque o jornalista e escritor de esquerda, ao longo dos anos, vem a adotar uma linha quase nostálgica e filomonarquista em relação ao desaparecido império austro-húngaro que conhecera. além disso, a cripta traz como protagonista o sobrinho do herói da marcha, as duas obras que compõem o painel dos eventos que antecedem, cercam e sucedem a queda do império. 


    mas que seja. a retomada de roth entre nós se dá com a cripta dos capuchinhos (die kapuzinergruft, 1938). sai pela difel em 1972, com reedição em 1985, na tradução de luiza ribeiro.












    a impressionante marcha de radetzsky (radetzkymarsch, 1932) sai pela mesma difel em 1984, também em tradução de luiza ribeiro.



    ainda a difel lança em 1985 fuga sem fim (die flucht ohne ende, 1927), em tradução de luiza ribeiro. imagem de capa localizei apenas da edição portuguesa.







    em 2000, sai a lenda do santo beberrão (die legende vom heiligen trinker, publicado postumamente em 1939) pela editora ugrino, em tradução de marcus tulius franco morais.* 


    * agradeço o toque de nilton resende. agradeço a ricardo tamm o envio da imagem de capa. (atualização: e viva! de um exemplar de presente, obrigada!)






    mais algum tempo, e em 2006 a companhia das letras lança berlim, em tradução de josé marcos mariani de macedo. trata-se de uma coletânea de artigos e ensaios escritos entre 1920 e 1933, compilada por michael bienert: joseph roth in berlin. ein lesebuch für spaziergänger.



    em 2008, pela mesma editora, sai uma nova tradução de hiob, agora como jó: romance de um homem simples, em tradução de laura barreto.







    atualização em 13/6/2015:





    em 2014, a estação liberdade lança nova tradução de a lenda do santo beberrão, agora por mário frungillo.







    no mesmo ano, a estação liberdade publica hotel savoy, em tradução de silvia bittencourt.






    ainda em 2014, sai a marcha de radetsky, agora em tradução de luis sérgio krausz, pela mundaréu.









    atualização em 19/11/2018: Informa Rogério Menezes de Moraes: "Viagem na Rússia foi traduzido pela Alice Leal e pela Simone Pereira Gonçalves. Já Judeus Errantes somente pela Simone. Ambos saíram na Biblioteca Antagonista, da editora Âyiné. 2017 e 2016, respectivamente."

    thomas hardy no brasil


    este é para alfredo monte, crítico literário de fino discernimento cujo blog nunca canso de recomendar: monte de leituras, aqui.

    ao fazer este levantamento, cheguei à conclusão de que thomas hardy (1840-1928), a depender dos editores brasileiros, é um autor de trincas: três romances, três contos e três poemas.

    I. os inícios
    até onde consegui levantar, o primeiro hardy chega a nós em 1944, em duas frentes:
    • na ocidente, a pequena e efêmera editora que adonias filho criara naquele mesmo ano (publicando autores como lúcio cardoso, murilo mendes, jorge de lima). de hardy, a ocidente lançou o romance a bem-amada (the well-beloved: a sketch of a temperament, 1897), em tradução de xavier placer. essa tradução ficou bastante esquecida e só voltou a ser reeditada em 2006, pela itatiaia. 
    imagem de capa por gentileza de raquel sallaberry brião

    • naquela maravilhosa coleção da editora leitura, que teve só três volumes, os russosos ingleses e os norte-americanos. hardy apareceu na coletânea dos ingleses, claro, com o conto "os três desconhecidos" ("the three strangers", 1883), em tradução de afonso arinos de melo franco. essa coletânea passou para a ediouro, recebendo inicialmente o título de o livro de ouro dos contos ingleses e, hoje em dia, contos ingleses: os clássicos, disponível para visualização aqui.

    diga-se de passagem que, em 1957, a cultrix vem a publicar "os três desconhecidos" em sua antologia de maravilhas do conto inglês. já comentei inúmeras vezes que os contos publicados na coleção das maravilhas da cultrix eram, em grande parte, respigados aqui e ali, entre obras publicadas em outras editoras, sem licença de uso nem créditos de tradução. não cheguei a conferir este caso, mas não me surpreenderia muito se a tradução do conto de hardy usada pela cultrix fosse a de afonso arinos, de 1944.

    II. prosseguindo com os romances

    judas
    a seguir, vem a obra de hardy mais divulgada entre nós. trata-se de judas, o obscuro (jude the obscure, 1895), que sai em 1948 na "coleção stendhal" da editora a noite - que, aliás, contava com adonias filho na direção editorial. a tradução foi feita por octavio de faria e, passados 64 anos, continua a ser a única até hoje entre nós. 

    a tradução de octavio de faria teve um percurso movimentado, passando por várias editoras: d'a noite ela foi para a itatiaia em 1958, onde teve várias reedições até 2009; em 1971 fez uma escala na abril cultural, sendo licenciada para a coleção "os imortais da literatura universal" como seu vigésimo-sétimo volume; em 1972 serviu de base para uma adaptação infantojuvenil para a "coleção elefante" da ediouro, com reedição em 1987; em 1994 apareceu também na geração editorial, então associada à ediouro.

    por incrível que pareça, não encontrei imagem de capa da edição de 1948. segue uma foto bastante amadora de meu exemplar pessoal: 



    as demais imagens são: aqui a página de rosto

     

    na itatiaia desde 1958, com várias reedições até 2009

     uma capinha menos desarrazoada (1969)

    abril, 1971
    a adaptação infantojuvenil na ediouro,
    com o subtítulo de (um pobre ser humano)



    sai também em 1994 na "coleção redescoberta", da geração editorial, que então fazia parte do grupo ediouro.




    tess
    depois de assumir em seu catálogo judas, o obscuro, a itatiaia prossegue com thomas hardy. em 1961 publica tess of the d'urbervilles (1891) em tradução de neil r. da silva, adotando o curioso título de a indigna. o lançamento não ganha grande destaque, e será preciso esperar vinte anos para uma reedição, em 1981. certamente impulsionada pelo filme tess (1979), de polanski, com natassja kinski no papel-título, a indigna de neil r. da silva passa a se chamar simplesmente tess, com uma capa que dispensa comentários. a terceira edição sai em 1984.



    resumindo, foi na itatiaia que acabou se concentrando a publicação dos três romances de thomas hardy que temos traduzidos no brasil. a cronologia dessas traduções é 1944, 1948 e 1961.

    outra bem-amada
    apenas a bem-amada, depois de quase sessenta anos, ganha nova tradução, a qual sai em 2003 pela códex (posterior cónex). com o subtítulo de esboço de um temperamento, foi feita por luís bueno e patrícia cardoso, também responsáveis pela introdução e notas:

     

    III. retomando os contos

    o hussardo
    depois de "os três desconhecidos" de 1944, teremos "o hussardo melancólico da legião alemã" ("the melancholy hussar of the german legion", originalmente publicado em life's little ironies, 1894, e transferido em 1912 para wessex tales). a tradução foi feita por aurélio buarque de hollanda e paulo rónai, e publicada no volume VI de mar de histórias - antologia do conto mundial, em sua edição revista e ampliada que sai pela nova fronteira em 1982.




    essa tradução é reeditada na coletânea contos ingleses, pela ediouro.





    bárbara
    em 2005, temos "bárbara, da casa de grebe" ("barbara of the house of grebe", 1890), em tradução de alexandre hubner, na antologia contos de horror do século XIX, pela companhia das letras:

     

    carolina geaquinto paganine, em sua tese de doutorado chamada "três contos de thomas hardy: tradução comentada de cadeias de significantes, hipotipose e dialeto" (ufsc, 2011), apresenta sua proposta de tradução de "the withered arm", "barbara of the house of grebe" e "an imaginative woman", com os respectivos títulos de "o braço mirrado", "bárbara da casa de grebe" e "uma mulher imaginativa". disponível aqui.

    IV. os poemas



    temos "a voz" ("the voice", 1912), em tradução de josé lino grünewald,em grandes poetas da língua inglesa do século XIX, que saiu em 1988 pela nova fronteira.



    luís bueno e patrícia cardoso incluíram a tradução do poema "the well-beloved" em sua tradução do romance de mesmo nome, citado acima, publicado em 2003.



    em 2005, leonardo fróes publicou sua tradução "um homem privado sobre homens públicos" ("a private man on public men") em chinês com sono - seguido de clones do inglês, pela rocco.




    aliás, quebrando o feitiço dos trios, informa carolina paganine, no estudo acima citado, que ângela melim traduziu "depois" ("afterwards") como epígrafe de possibilidades, livro de sua autoria que saiu pela ibis libris em 2006.