4 de fev. de 2010

deu no blog do galeno:

IMAGENS DE LEITURA 
Plagiato, plagiat... Plágio

Autor: Koblitz
03/02/2010

Para ilustrar a matéria de Marcelo Villela Gusmão, publicada na revista Caros Amigos, edição de janeiro, e reproduzida no Blog do Galeno e na revista Brasil Que Lê, o artista Koblitz criou uma geringonça que copia traduções, da mesma forma que vem acontecendo, segundo denunciam tradutores como a historiadora e ex-docente da Unicamp Denise Bottmann. Semelhanças na literatura podem até existir, mas versões idênticas de obras traduzidas é mesmo inconcebível. Vale a pena conferir a matéria, na seção Destaques, habilmente rematada pelo talento do ilustrador.

quem quiser ler, baixar ou imprimir o artigo "pesquisadora denuncia publicação de cópias de traduções", de marcelo gusmão, está disponível na seção destaques da revista brasil que lê.

3 de fev. de 2010

histórias extraordinárias, poe XXVIII

sei de catorze antologias de contos de edgar allan poe publicadas no brasil com o título de histórias extraordinárias. as editoras devem ter lá suas razões para repisar tanto no mesmo nome para coisas diferentes, mas isso confunde muito a gente. então, segue a lista das coletâneas com seus respectivos conteúdos, a quem interessar.

1. histórias extraordinárias (cultrix, 1958; companhia das letras, 2008), seleção e tradução de josé paulo paes, com dezoito contos: coração revelador; o retrato ovalado; o sistema do dr. alcatrão e do professor pena; o gato preto; o diabo no campanário; berenice; sombra - uma parábola; william wilson; o caixão quadrangular; a máscara da morte rubra; a queda da casa de usher; a carta roubada; ligéia; pequena palestra com uma múmia; o barril de amontillado; o poço e o pêndulo; o escaravelho de ouro; o homem da multidão.

2. histórias extraordinárias (civilização brasileira, 1970), seleção e tradução de brenno silveira, com treze contos:
a queda da casa de usher; o barril de amontilhado; o gato preto; berenice; manuscrito encontrado numa garrafa; william wilson; os crimes da rua morgue; o mistério de marie rogêt; a carta roubada; metzengerstein; nunca aposte sua cabeça com o diabo; o poço e o pêndulo; a aventura sem paralelo de um tal hans pfaall.

3. histórias extraordinárias (ordibra/inl, 1972), suposta tradução de joão teixeira de paula, com dezesseis contos:
o poço e o pêndulo; o escaravelho de ouro; o homem na multidão; berenice; hop frog; william wilson; silêncio; sombra; a carta roubada; o gato preto; o poder da palavra; pequena discussão com uma múmia; o demônio da perversidade; o sistema do doutor breu e do professor pena; rei peste; duplo assassínio na rua morgue. traz também o corvo, a gênese de um poema, método de composição, e a tradução d'o corvo por machado de assis.

4. histórias extraordinárias (cedibra, 1972), tradução de pedro ramires, com oito contos:
o encontro marcado; ligeia; o poço e o pêndulo; manuscrito encontrado numa garrafa; descida ao interior do amelström; o mistério de marie rogêt; a carta furtada; sombra - uma parábola.

5. histórias extraordinárias (círculo do livro, 1973), tradução de brenno silveira e outros, com dezessete contos:
a queda da casa de usher; berenice; os crimes da rua morgue; o escaravelho de ouro; o gato negro; o barril de amontillado; manuscrito encontrado numa garrafa; william wilson; o mistério de marie rogêt; a carta roubada; metzengerstein; o poço e o pêndulo; nunca aposte sua cabeça com o diabo; uma descida no maelström; o duque de l'omelette; o jogador de xadrez de maelzel; a aventura sem paralelo de um tal hans pfaall.

6. histórias extraordinárias de allan poe (ediouro, seleta c. 1975, com este título desde c. 1985); 6a. histórias extraordinárias (ediouro, c. 2000), seleção e tradução de clarice lispector, com dezoito contos:
o gato preto; a máscara da morte rubra; o caso do valdemar; manuscrito encontrado numa garrafa; enterro prematuro; os crimes da rua morgue; a queda da casa de usher; os dentes de berenice; nunca aposte sua cabeça com o diabo; o duque de l'omelette; william wilson; o retrato oval; o coração denunciador; o diabo no campanário; o barril de amontillado; metzengerstein; ligeia; deus (revelação magnética).

7. histórias extraordinárias (edibolso, s/d; 3a. ed. 1975), tradução de brenno silveira e outros, com onze contos:
a máscara da peste vermelha; o enterro prematuro; a caixa quadrangular; o homem na multidão; william wilson; o poço e o pêndulo; a queda da casa de usher; o barril de amontillado; o gato preto; o coração revelador; berenice.

8. histórias extraordinárias (abril cultural, 1978, círculo do livro, 1982, nova cultural, 2002), tradução de brenno silveira e outros, com dezesseis contos:
a queda da casa de usher; o barril de amontilhado; o gato preto; berenice; manuscrito encontrado numa garrafa; william wilson; os crimes da rua morgue; o mistério de marie rogêt; a carta roubada; metzengerstein; nunca aposte sua cabeça com o diabo; o poço e o pêndulo; a aventura sem paralelo de um tal hans pfaall; o escaravelho de ouro; uma descida no maelstrom; o jogador de xadrez de maelzel.

9. histórias extraordinárias (otto pierre, 1979), tradução anônima, com oito contos:
os crimes da rua morgue, o mistério de marie roget, o escaravelho de ouro, o sistema do dr. alcatrão e do prof. pena, a verdade sobre o caso do sr. valdemar, descida ao maelstrom, a carta roubada e metzengerstein.

10. histórias extraordinárias (globo, 1987), seleção de carmen vera cirne lima, tradução de oscar mendes e milton amado [não disponho dos títulos dos contos desta seleta].
 
11. histórias extraordinárias, clube do livro (1988), pretensa tradução de josé maria machado, com dez contos:
o escaravelho de ouro; o homem na multidão; hop frog; william wilson; silêncio (uma fábula); sombra (uma parábola); berenice; pequena discussão com uma múmia; a carta roubada; o sistema do dr. breu e do professor pena.

12. histórias extraordinárias (américa do sul, 1988), edição brasileira da tradução portuguesa de luísa feijó e teixeira de aguilar, com seis contos:
os crimes da rua morgue; o escaravelho de ouro; o gato negro; o barril de amontillado; manuscrito encontrado numa garrafa; eleonora.

13. histórias extraordinárias (martin claret, 1999), pretensa tradução de pietro nassetti, com sete contos:
o gato preto; manuscrito encontrado em uma garrafa; os crimes da rua morgue; a carta roubada; o poço e o pêndulo; o escaravelho de ouro; a queda da casa de usher.

14. histórias extraordinárias (larousse, 2005), tradução de cláudia ortiz, com sete contos:
a carta roubada; a queda da casa de usher; o gato preto; o barril de amontillado; a máscara da morte vermelha; hop-frog; o escaravelho de ouro.

obs.: a data entre parênteses é a da primeira edição de cada coletânea; em vários casos, há inúmeras reimpressões e reedições pela mesma editora nos anos seguintes.

atualização em 22/3: ver mais uma edição com o mesmo título de histórias extraordinárias, pela cedic, aqui.

imagem: quantos!

extraordinary tales? - poe XXVII

mais coisas que me espantam. não bastava a editora abril cultural ter inventado em 1978 que histórias extraordinárias de edgar allan poe eram tradução do original tales of the grotesque and arabesque (o qual pelo menos existe), agora consta que, na verdade, elas seriam tradução de um fantasmagórico original chamado extraordinary tales.

Autor: Poe, Edgar Allan, 1809-1849.
Título original: Extraordinary tales.
Título / Barra de autoria: Histórias extraordinárias, Edgar Allan Poe.
Seleção, apresentação e tradução José Paulo Paes. 
Imprenta: São Paulo : Companhia de Bolso, 2008.
Descrição física: 269p.; 18cm.
Notas: Tradução de: Extraordinary tales.
ISBN: 9788535912326 (broch.)

comentei o fato com a editora. tomara que tomem alguma providência nas próximas edições.

2 de fev. de 2010

valeu!

agradeço novamente a ana magal pela matéria, que está tendo grande receptividade:
Um blog que luta contra o plágio literário

não bastava plágio de tradução?

josé aurélio medeiros da luz deixou um comentário em (anti)referências bibliográficas:

"Só para dar mais um pequeno dado sobre o modo de operar de certas editoras, cito a capa do livro 'Ondas', juvenília poética de Euclides da Cunha, editado pela Martin Claret. Consta que a ilustração seja do ilustrado(r) sr. Marcellin Talbot (listado acima); infelizmente trata-se de 'A Grande Onda' de Katsushita Hokusai, que aliás consta na galeria de imagens do Windows, da Microsoft."

eis as imagens:

ondas, ilustração atribuída a marcellin talbot

a grande onda, katsushita hokusai

fontes: google images

1 de fev. de 2010

salinger

conversa na globonews com jorio dauster e silviano santiago: http://tinyurl.com/yelkafx

mais uma coletânea extraordinária, poe XXVI


mais uma coletânea de contos de edgar allan poe com o concorridíssimo título de histórias extraordinárias. é o volume 6 da coleção "super terror" da cedibra, lançado em 1972, com tradução de pedro ramires.


a coletânea traz oito contos, a saber: o encontro marcado, ligeia, o poço e o pêndulo, manuscrito encontrado numa garrafa, descida ao interior do maelström, o mistério de marie rogêt, a carta furtada e sombra - uma parábola. acompanha uma nota sobre o autor.

com esta, são 14 (catorze!) as diferentes coletâneas de diferentes contos de edgar allan poe publicadas no brasil com o mesmo título de histórias extraordinárias.

veja também:

31 de jan. de 2010

jorio dauster - o cosmopolita galopavão


Afinal de contas, me perguntei outro dia, por que o popular Meleagris gallopavo, aquela ave de carúncula avermelhada originária da América do Norte, tem o nome de um país latino-americano em português e de um país do Oriente Próximo em inglês? Aposto que você também já foi assaltado por tal indagação, mas muito provavelmente nada fez para respondê-la, não é mesmo?

Pois saiba (como acabo de aprender no Houaiss) que o nosso peru vem do fato de que, no Portugal do século XVI, todos achavam que a apetitosa ave provinha da terra dos incas, a qual, por sua fama, passara mesmo a significar toda a América espanhola. Já o prato de resistência dos almoços de Thanksgiving nos Estados Unidos tem o nome de turkey porque a ave em causa foi confundida (certamente por linguistas ingleses que jamais a haviam visto) com a galinha-d’angola, a qual, por sua vez, imaginavam ser originária da Turquia. O que só faz acrescentar mais um complicador geográfico a este verdadeiro samba do crioulo doido, pois a referida representante da família dos numidídeos também é conhecida em português como galinha-da-guiné e, compreensivelmente, atende hoje em inglês pela alcunha de guinea fowl. Mas a coisa se complica ao vermos que o peru gaulês, o dindon, deve seu nome à fêmea da espécie, a dinde, assim chamada carinhosamente para designar a poule d’Inde. E, como já percorremos alguns continentes, vou ficando por aqui, feliz por não ter um dicionário de javanês em minhas estantes.

JORIO DAUSTER

30 de jan. de 2010

leitura


"a tradução literária no brasil" de josé paulo paes, in armazém literário, em organização de vilma arêas.

no google books há uma boa prévia do artigo, praticamente na íntegra.

29 de jan. de 2010

matéria de marcelo gusmão na caros amigos

leia aqui a matéria de marcelo villela gusmão, na revista caros amigos, de janeiro de 2010. clique nas imagens para ampliar.


agradeço a gentil licença do autor e da revista para a reprodução do artigo

atualização em 04/02/10: agora disponível para download na revista brasil que lê.

veja também "Plágio: Pesquisadora Denuncia Publicação de Cópias de Traduções", aqui

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o gato nassettiano na academia, poe XXV

algumas coisas me espantam.

a mais recente foi a leitura de uma análise descritiva das traduções brasileiras do conto the black cat de edgar allan poe,

estudo publicado em julho de 2009 por um docente de uma importante universidade federal, integrante de um também importante núcleo de pós-graduação em estudos de tradução. o artigo é em sua maior parte ocupado por dados biográficos de poe, pinceladas a respeito da fortuna histórica de sua obra, elementos paraliterários das edições sob análise e a exposição dos marcos teóricos adotados pelo articulista. num breve item final antes da conclusão, o docente apresenta uma sucinta comparação de quatro frases do conto o gato preto em duas traduções diferentes.

e aqui surge minha perplexidade: uma das traduções é legítima, da autoria de william lagos (pela lpm), e a outra é espúria, em nome de pietro nassetti (pela martin claret). faz anos que a farsa claretiana tem sido repetidamente desmascarada em inúmeros jornais, revistas e veículos de comunicação digitais, e não consigo entender como suas pseudotraduções podem ser tratadas em pé de igualdade com traduções legítimas, ainda mais em ambiente acadêmico.

os trechos apresentados no referido estudo são curtos, e reproduzo-os aqui:

I. william lagos:
- Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever [...] Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar a minha alma.
- Todos aqueles que estabeleceram uma relação de afeto com um cão inteligente e fiel dificilmente precisarão que eu me dê ao trabalho de explicar a natureza da intensidade da gratificação que deriva de tal relacionamento [...] Encho-me de rubor e meu corpo todo estremece enquanto registro esta abominável atrocidade.

II. pietro nassetti:
- Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, contudo, bastante doméstica que vou contar [...] Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar meu espírito.
- Aos que já experimentaram afeto por um cão fiel e esperto, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso [...] Coro, estremeço, abraso-me de vergonha, ao falar aqui dessa atrocidade.

além de estranhar a escolha da edição martin claret para fins de análise especializada, admira-me também que um estudioso das traduções brasileiras de the black cat não reconheça de plano, no segundo lote de amostras, a tradução de brenno silveira:

- Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar [...] Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar meu espírito.
- Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso [...] Coro, estremeço, abraso-me de vergonha, ao falar aqui dessa atrocidade.

esse triste episódio no campo dos estudos tradutórios no país, a meu ver, apenas confirma um fato para o qual o mestre alfredo bosi alertou desde o primeiro momento: os plágios de tradução põem em risco "a integridade mesma da vida intelectual no Brasil".

imagem: astound

28 de jan. de 2010

boa matéria para reflexão


O Manifesto pelo Domínio Público

para assiná-lo, clique aqui: publicdomainmanifesto.org

O domínio público, tal como o entendemos, é o manancial de informações que está livre das barreiras de acesso ou reutilização geralmente associadas à proteção de direitos autorais, seja porque ele é livre de qualquer proteção de direitos autorais, ou porque os detentores de direitos decidiram remover essas barreiras.

O domínio público é a base da nossa autocompreensão, expressa pelo nosso conhecimento e cultura comuns. É a matéria-prima da qual são derivados os novos conhecimentos e criadas as novas obras culturais. O domínio público atua como um mecanismo de proteção para garantir que essa matéria-prima esteja disponível ao custo de sua reprodução – próximo de zero – e que todos os membros da sociedade possam construir com base neste conteúdo.

Promover a existência de um domínio público saudável e vibrante é essencial para o desenvolvimento social e o bem-estar econômico das nossas sociedades. O domínio público desempenha um papel capital nas áreas de educação, ciência, patrimônio cultural e de informação do setor público. Domínio público acessível é um dos pré-requisitos para assegurar que os princípios do artigo 27 da Declaração Universal dos Direitos Humanos ("Todo mundo tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e de seus benefícios.") possam ser apreciados por todos ao redor do mundo.

A sociedade da informação digital em rede trouxe a questão do domínio público para o primeiro plano das discussões sobre direitos autorais. A fim de preservar e fortalecer o domínio público, precisamos de uma atualização consistente na compreensão da natureza e do papel deste recurso essencial. Este Manifesto pelo Domínio Público define o que entendemos como domínio público no século 21, e define os princípios e as orientações necessárias para a concretização de um domínio público que responda às demandas do nosso tempo.

O domínio público é aqui considerado em sua relação com a lei de copyright, com exclusão de outros direitos de propriedade intelectual (como patentes e marcas), e onde a lei de copyright deve ser entendida em seu sentido mais amplo para incluir os direitos econômicos e morais de autor e direitos conexos (incluindo direitos vizinhos [neighboring rights] e direitos de banco de dados).

Portanto, ‘copyright’ (direito de cópia) é utilizado no restante deste documento como um termo abrangente para estes direitos. Além disso, o termo “trabalhos” inclui todos os materiais protegidos por direitos de autor assim definidos, portanto incluindo bases de dados, apresentações e gravações. Da mesma forma, o termo ‘autores’ abrange fotógrafos, produtores, empresas de radiodifusão, pintores e artistas.

O Domínio Público no Século 21

O domínio público, como formulado neste Manifesto, é definido como o substrato cultural livre para ser usado sem restrições, onde a proteção de direitos autorais está ausente. Além das obras que estão formalmente em domínio público, existe um crescente lote de obras valiosas que indivíduos compartilham voluntariamente, viabilizando a formação de um commons construído de forma privada, mas que funciona em muitos aspectos como o domínio público. Além disso, os indivíduos podem também fazer uso de muitas obras protegidas através de exceções e limitações ao direito de autor, uso justo (fair use) e troca justa. Todos estes mecanismos que permitem um maior acesso à nossa cultura e ao patrimônio cultural são extremamente importantes, e devem ser ativamente sustentados e aperfeiçoados para que a sociedade possa colher os benefícios do conhecimento e cultura comuns.

Princípios Gerais

Em um período de mudanças tecnológicas e sociais extremamente rápidas, o Domínio Público cumpre um papel essencial no fomento à participação cultural e à inovação digital e, portanto, precisa ser apoiado ativamente. A manutenção ativa do Domínio Público precisa levar em conta uma série de princípios gerais. Os princípios listados a seguir são essenciais para fomentar uma compreensão consistente sobre o papel do domínio público na cultura digital, e para garantir que o domínio público continue a funcionar no ambiente tecnológico da sociedade da informação em rede. No que diz respeito à estrutura de Domínio Público os princípios são os seguintes:

1. O domínio público é a regra, proteção de direitos autorais é a exceção. Na medida em que a proteção de direitos autorais é concedida apenas a ‘formas originais de expressão’, a grande maioria dos dados, informações e ideias produzidas no mundo em dado momento pertence ao Domínio Público. Além das informações que não são elegíveis para a proteção, o domínio público é ampliado a cada ano por obras cujo prazo de proteção expira. A aplicação combinada dos ‘requisitos de proteção’, e de uma duração limitada para a proteção de direitos autorais, contribui para o enriquecimento do Domínio Público, garantindo maior acesso à nossa cultura e conhecimento compartilhados.

2. A proteção de copyright deve durar apenas o tempo necessário para alcançar um equilíbrio razoável entre (1) a proteção para recompensar o autor por seu trabalho intelectual, e (2) a salvaguarda do interesse público na divulgação da cultura e conhecimento. Não existe nenhum argumento válido, seja histórico, econômico, social ou outro, seja da perspectiva do autor, seja do público em geral, que justifique o apoio a um prazo excessivamente longo de proteção de direitos autorais. Embora o autor tenha direito de colher os frutos do seu trabalho intelectual, o público em geral não deve ser privado por um período excessivamente longo dos benefícios de utilizar livremente as obras.

3. O que está em domínio público deve permanecer no Domínio Público. Controle exclusivo sobre as obras de domínio público não deve ser restabelecido através de reivindicação de direitos exclusivos de reprodução técnica das obras, ou pelo uso de medidas de proteção técnica (TPM) para limitar o acesso a reproduções dessas obras.

4. O utilizador legítimo de uma cópia digital de uma obra em domínio público deve ser livre para (re)utilizar, copiar e modificar esse trabalho. O estado de domínio público de uma obra não significa necessariamente que ela deve ser acessível ao público. Os proprietários das obras físicas que estão em domínio público são livres para restringir o acesso a essas obras. Contudo, uma vez que acesso a uma obra tenha sido concedida, então não deveria haver restrições legais sobre a reutilização, a modificação ou a reprodução destas obras.

5. Contratos ou medidas técnicas de protecção para restringir o acesso e reutilização de obras em domínio público não devem ser aplicados. O estado de domínio público de uma obra garante o direito de reutilizar, modificar e reproduzir. Isso inclui também as prerrogativas decorrentes de exceções e limitações, e dos regimes de uso justo e negociação justa, assegurando que estas prerrogativas não podem ser limitadas por via contratual ou tecnológica.

Além destes, os seguintes princípios estão no centro do espaço comum de voluntariado e das prerrogativas do usuário acima descritos:

1. A renúncia voluntária dos direitos de autor e compartilhamento de obras protegidas são exercícios legítimos de exclusividade de direitos autorais. Muitos dos autores que têm direito à proteção de suas obras não querem exercer esses direitos em toda a sua extensão, ou desejam abrir mão desses direitos completamente. Tais ações, desde que sejam voluntárias, são um exercício legítimo da exclusividade de direitos de autor e não podem ser impedidas por lei ou por outros mecanismos, incluindo os direitos morais.

2. As exceções e limitações ao direito de autor, e os regimes de uso justo e negociação justa, devem ser bem aplicados na legislação de forma a garantir a eficácia do equilíbrio fundamental entre os direitos de autor e o interesse público. Estes mecanismos criam prerrogativas ao usuário que constituem o espaço de respiração dentro do sistema de direitos autorais. Dado o ritmo acelerado das mudanças na tecnologia e na sociedade, é importante que eles permaneçam capazes de assegurar o funcionamento de instituições sociais essenciais e a participação social de pessoas com necessidades especiais. Tais mecanismos devem portanto ser interpretados como de natureza evolutiva, devendo ser constantemente adaptados para dar conta do interesse público.

Para além destes princípios gerais, uma série de questões relevantes para o domínio público devem ser tratadas imediatamente. As seguintes recomendações são no sentido de defender o domínio público e garantir que ele possa continuar a funcionar de forma significativa. Embora estas recomendações sejam aplicáveis em todo o espectro dos direitos autorais, elas são de especial importância para a educação, o patrimônio cultural e investigação científica.

Recomendações gerais

1. O prazo de proteção de direitos autorais deve ser reduzido. A duração excessiva de proteção de direitos autorais combinada com uma ausência de formalidades para registro é altamente prejudicial para a acessibilidade do nosso conhecimento e cultura comuns. Além disso, aumenta a ocorrência de obras órfãs e obras que não ficam nem sob o controle de seus autores, nem da parte do domínio público, e em ambos os casos não podem ser usados. Assim, para novas obras a duração da proteção de direitos autorais deve ser reduzida para um prazo mais razoável.

2. Qualquer mudança no escopo de proteção dos direitos autorais (incluindo qualquer nova definição de matéria suscetível de ser protegida ou ampliação de direitos exclusivos) precisa levar em conta os efeitos sobre o domínio público. Qualquer alteração do âmbito de proteção de direitos autorais não deve ser aplicada retroativamente a obras que já foram objeto de proteção. O direito autoral é uma exceção de tempo limitado ao estado de domínio público da nossa cultura e conhecimento compartilhadas. No século 20 o seu âmbito foi alargado de forma significativa, de forma a acomodar os interesses de uma pequena classe de titulares de direitos, às expensas do público em geral. Como resultado, a maior parte da nossa cultura e conhecimento compartilhados está trancada atrás de direitos autorais e de restrições técnicas. Temos de garantir, no mínimo, que esta situação não se agrave, e que seja afirmativamente melhorada no futuro.

3. Quando o material for considerado de domínio público estrutural no seu país de origem, o material deve ser reconhecido como parte da estrutura de Domínio Público em todos os outros países do mundo. Quando o material em um país não é elegível para proteção de direitos autorais, porque se enquadra no âmbito de um exclusão específica, ou porque ele não atende o critério de originalidade, ou porque a duração da sua proteção tenha caducado, não deve ser possível para qualquer pessoa (incluindo o autor) invocar proteção de direitos autorais sobre o mesmo material em outro país, de modo a retirar o material da estrutura de Domínio Público.

4. Qualquer tentativa falsa ou enganosa de apropriação indevida de material de domínio público deve ser legalmente punida. A fim de preservar a integridade do domínio público e proteger os utilizadores de material de domínio público contra representações imprecisas e enganosas, toda tentativa falsa ou enganosa para reivindicar exclusividade sobre material de domínio público deve ser declarada ilegal.

5. Nenhum direito de propriedade intelectual deve ser usado para reconstituir a exclusividade sobre material de domínio público. O domínio público é essencial para o equilíbrio interno do sistema de direitos autorais. Este equilíbrio interno não deve ser manipulado por tentativas de reconstituir ou obter o controlo exclusivo através de regulamentos que são externos ao direito de autor.

6. Deve haver um caminho prático e eficaz de disponibilizar “obras órfãs” e trabalhos publicados que não estão mais disponíveis comercialmente (como fora-de-obras impressas) para reutilização pela sociedade. A extensão do alcance e a duração dos direitos de autor, e a restrição às formalidades para as obras estrangeiras, criaram um corpo enorme de obras órfãs que nem estão sob o controle dos seus autores, nem fazem parte do Domínio Público. Dado que essas obras sob a lei atual não beneficiam os autores ou a sociedade, precisam ser disponibilizadas para o reuso produtivo da sociedade como um todo.

7. Instituições de patrimônio cultural devem tomar para si um papel especial no registro eficiente e na conservação das obras em domínio público. A preservação do nosso conhecimento e cultura comuns durante séculos foi confiada a organizações de patrimônio cultural. Como parte deste papel elas precisam garantir que as obras no domínio público estejam disponíveis para toda a sociedade, rotulando-as, preservando-as e tornando-as disponíveis gratuitamente.

8. Não deve haver obstáculos jurídicos que impeçam o compartilhamento voluntário de obras ou a dedicação de obras ao domínio público. Ambos são legítimos exercícios de direitos exclusivos concedidos pelo autor e ambos são fundamentais para garantir o acesso a bens culturais e conhecimentos essenciais, e para respeitar os desejos dos autores.

9. O uso pessoal e não-comercial de obras protegidas deve em geral ser possível, e modos alternativos de remuneração para o autor devem ser explorados. Embora seja essencial para o autodesenvolvimento de cada indivíduo que ele seja capaz de fazer uso pessoal e não-comercial das obras, é também essencial que a posição do autor seja tomada em consideração ao estabelecer novas limitações e exceções nos direitos de autor, ou ao rever as antigas.

Organizações que apoiam o Manifesto pelo Domínio Público:

Association for Fair Audiovisual Copyright in Europe – AFACE – Italy
Center for the Study of the Public Domain – USA
Center for Technology and Society at Fundacao Getulio Vargas – Brazil
Creative Commons – USA
Digitale Allmend – Switzerland
Knowledge Ecology International – USA
Knowledgeland – Netherlands
iCommons Ltd – UK
Intellectual Property Institute – Slovenia
Interdisciplinary Center for Computational and Mathematical Modelling, University of Warsaw – Poland
Luxcommons asbl – Luxembourg
Multimedia Institute – Croatia
NEXA Center for Internet & Society at Politecnico di Torino – Italy
Open Knowledge Foundation – UK
Waag Society – Netherlands





Tradução Livre: José Murilo

27 de jan. de 2010

orgulho e preconceito da lpm

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et voilà!


a boa notícia é que, em meio a:
- a antiga tradução de lúcio cardoso, circulando desde 1940
- o plágio da tradução de lúcio cardoso na best-seller desde 1997
- outro plágio da tradução de lúcio cardoso na martin claret desde 2001

finalmente sai uma nova tradução de alto nível, feita por celina portocarrero, pela editora lpm, com introdução do poeta e tradutor ivo barroso e uma belíssima capa, em edição de bolso, com 400 páginas, a preço acessível.
 
nós leitores agradecemos à iniciativa de raquel sallaberry, do jane austen em português: cansada de tantos plágios e tantas dificuldades em encontrar os livros esgotados de jane no brasil, publicou um post aberto à editora, sugerindo boas edições a bons preços da obra completa de jane austen. et voilà!
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o insidioso orgulho plagiado

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mais um caso de involuntária legitimação acadêmica do mais pernicioso delito intelectual, a saber, o plágio - aqui, com a referência a "enrico corvisieri" como pretenso autor da tradução de orgulho e preconceito, na verdade furtada a lúcio cardoso. clique na imagem para ampliar.


Genilda Azeredo,
Jane Austen, adaptação e ironia : uma introdução
(agradeço a ivo barroso pelo aviso e pela imagem)

quando cessará a infiltração das fraudes tradutórias entre os materiais de estudo na academia? e a memória cultural, como preservá-la?

26 de jan. de 2010

galeão coutinho plagiado

como vimos, galeão coutinho, a crer nos dados fornecidos pela editora itatiaia, teria tido sua tradução de zadig, de voltaire, despudoradamente copiada de fio a pavio por mario quintana. veja "mario quintana, plagiador?".

comentei que isso me parece uma sandice, e que a editora itatiaia, em minha opinião, está mostrando certa irresponsabilidade perante a situação em que tem colocado mario quintana desde 2004.

por outro lado, galeão coutinho foi plagiado, sim. sua tradução de werther de goethe, publicada pela livraria martins nos anos 40, foi copiada recentemente por duas editoras:

- pela editora martin claret, que atribuiu a pretensa tradução publicada em 2001 em sua coleção A Obra-Prima de Cada Autor ao assíduo pietro nassetti. veja "carlota tropical".

- pela editora nova cultural com patrocínio da suzano celulose, em 2002, que atribuiu a pretensa tradução publicada em sua coleção Obras-Primas a um fantasmagórico "alberto maximiliano". veja "goethe, werther".

torço vivamente para que a guardiã dos direitos e da memória de galeão coutinho tome as necessárias providências para proteger seu nome e sua obra. e que, diante do caso da itatiaia, ajude a deslindar a bizarria: se eventualmente dispuser de algum manuscrito ou qualquer indício sobre algum zadig traduzido por galeão coutinho, por favor traga a público.

imagem: traça

25 de jan. de 2010

discussões na campus party


amanhã, dia 26, começa a campus party 2010, com excelentes programações. veja, por exemplo, o campus fórum e a agenda blog.

a jornalista ana magal, d'o jornal rj, vai apresentar a debate, durante o evento, duas matérias sobre a internet, blogs, plágios e ações judiciais. agradeço a cobertura dada ao nãogostodeplágio.

eis aqui as matérias:

- a internet facilitou o plágio?
- blogueiros x lei: quem está correto?

imagem: disponível no google images

24 de jan. de 2010

jorio dauster - um achado

O SALINGER QUE (QUASE) NINGUÉM LEU

Entre 1940 e 1965, J. . Salinger publicou um total de 36 contos e um romance. Daqueles, treze foram reunidos em três volumes bem conhecidos: Nove Estórias; Franny e Zooey; e Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour, uma apresentação. Os vinte e dois restantes há muito permanecem enterrados, e em larga medida ignorados (exceto por alguns poucos fãs), nas revistas em que apareceram. Esses vinte e dois contos estão reproduzidos nestes dois volumes. Alguns imaturos, outros excelentes, são talvez a chave mestra para entender o tema religioso de Salinger em sua permanente evolução, desde os primeiros conflitos sociais dos adolescentes de classe média, passando pelas frustrações do intelectual nos tempos de guerra, até chegar à figura místico-literária do próprio Seymour, o ápice da caminhada de Salinger em busca de seu eu mais profundo.

livraria

Por incrível que pareça, essas poucas - e instrutivas - linhas constituem o prefácio de uma edição pirata de tudo aquilo que Salinger se recusara a publicar sob a forma de livro antes de mergulhar na reclusão e no mais absoluto silêncio autoral. Entre as vinte e duas peças, lá está a última vinda a público há exatos trinta e sete anos, Hapworth 16, 1924, e que talvez ainda possa ser lançada entre capas duras para gáudio das hostes salingerianas em todo o mundo.

Quando saiu O apanhador no campo de centeio, em 1951, Salinger já publicara 27 contos em diversas revistas, tais como Collier´s, The Saturday Evening Post, Cosmopolitan, Story, Mademoiselle, Cosmopolitan e The New Yorker. Seis deles foram integrar o volume das Nove estórias, publicada em 1953, mas a partir daí começaram a rarear as aparições de Salinger em pessoa e também em letra de forma: Franny e Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira só apareceram em 1955, Zooey em 1957, Seymour, uma apresentação em 1959, até o derradeiro Hapworth 16, 1924 em junho de 1965.

Enquanto isso, crescia de forma estupenda a fama do autor, já então objeto de verdadeiro culto, transformado em guru de todos os adolescentes que se identificavam com Holden Caufield na sua rejeição das falsidades da vida adulta. Quando ficou claro que os contos não incluídos na coletânea jamais veriam a luz do dia com o beneplácito do autor, estabeleceu-se uma verdadeira caçada às revistas que os haviam abrigado originalmente. Para os jovens fãs incapazes de disputar os cobiçados exemplares com colecionadores mais abonados, o instrumento de eleição era a gilete e o campo de ação as bibliotecas públicas e universitárias: nestas últimas, diz-se que não resta incólume um único dos números visados.

E foi então, se não me engano no início dos 70, que recebi de um colega diplomata lotado no exterior um artigo do Herald Tribune sobre Salinger. Sabedor de que eu co-traduzira o Apanhador no campo de centeio e Nove estórias (o primeiro com Álvaro Alencar e Antônio Rocha, o segundo apenas com Álvaro), mandava-me a matéria por imaginar que eu gostaria de conhecer a luta do autor para coibir uma edição fantasma que, certamente se valendo dos esforços daqueles bravos cirurgiões de revistas, continha os vinte e dois contos que ele condenara ao esquecimento. Segundo a matéria jornalística, não havia muito o que a polícia pudesse fazer: os vendedores piratas ofereciam os exemplares de livraria em livraria, cobrando em espécie e desaparecendo a seguir; os livreiros, por sua vez, escondiam os volumes em algum canto bem seguro da loja e, auferindo um belo lucro, só os ofereciam a clientes de confiança. Para mim, labutando no Planalto Central, ficava a certeza de que não teria nem mesmo a chance de cometer o pecadilho de comprar a obra pirata.

Eis-me, alguns anos depois, caminhando pelas ruas de Paris, para onde havia sido levado por uma reunião de cunho econômico. Nem me recordo por que, naquele dia, me afastara tanto do tradicional roteiro hotel-local da conferência-embaixada-hotel que costumava palmilhar. Por força do hábito, dou uma breve paradinha diante da vitrina de modesta livraria, passo os olhos a galope pelos títulos franceses e... Estranha dupla de volumes: capas brancas com o desenho de uma mulher e uma menina, vestidas nos trinques e empoleiradas na beira de uma cama com dossel e volumosos travesseiros, conversando com um soldado sentado diante delas numa poltrona; na parte superior, em letras vermelhas sobre fundo rosa no melhor estilo belle époque, o nome do autor; mais abaixo, March 1940 (mês em que foi publicado o primeiro conto, Young Folks); na parte inferior, os títulos dos contos (17 no primeiro volume, 5 no segundo) e, num retângulo rosa-pálido, as palavras que me deixaram atônito: Featuring The Complete Uncollected Short Stories!

Confesso que entrei disparado na livraria, perseguido pela idéia insana de que lá dentro já estaria alguém finalizando a compra daquele pequeno tesouro. Evidentemente, a loja estava às moscas, a senhora que me atendeu sem dúvida jamais ouvira falar em J. D. Salinger, e pelo jeito ficou muito feliz quando me declarei disposto a levar não só a dupla da vitrina mas também as duas outras que dormitavam numa prateleira mal iluminada (e com as quais presenteei meus co-tradutores).

Na época, sem pensar muito sobre o assunto, achei que aqueles volumes eram parte da operação iniciada no outro lado do Atlântico, quem sabe as sobras que tiveram de buscar outros mercados fugindo à repressão policial. Agora, porém, ao escrever estas notas, olhei com mais cuidado as publicações, que obviamente não trazem nenhuma indicação bibliográfica, e convenci-me de que não parecem ser um produto norte-americano. Contribuem para isso o rebuscado da capa e alguns erros de impressão no prefácio (“skelton key”, “tracable” e “adolesents”), denunciando uma provável origem gaulesa. Mas a melhor pista, que consistia em saber se o artigo do Herald Tribune falava ou não de dois volumes, havia se perdido nas brumas do passado.

Fica o mistério policial, passível de ser resolvido por algum fã mais bem informado do que eu. Mas restará para sempre o mistério maior, a tessitura inconsútil que transformou um devotado tradutor de Salinger em cúmplice confesso (embora impenitente) de um doce atentado à propriedade intelectual do ermitão de New Hampshire.

JORIO DAUSTER

23 de jan. de 2010

leitura


sugestão de final de semana: um delicioso artigo de heitor megale sobre duas traduções do lancelote de chrétien de troyes.

imagem: o cavaleiro da carroça (ou "da charrete").

tradução lítero-humanística na rede


outro dia fiz um levantamento de sites, blogs e publicações com conteúdo disponível online que se dedicassem basicamente a temas sobre a tradução literária e humanística no brasil.

22 de jan. de 2010

campus party 2010

imperdível a programação da campus party. começa agora dia 26.

galeão quintana e mario coutinho


itatiaia (galeão) e globo (quintana)
clique nas imagens para ampliar









para o histórico da questão,

20 de jan. de 2010

mario quintana, plagiador?

o jornalista, romancista, contista e tradutor salisbury galeão coutinho (pseudônimo: joão sem terra) nasceu em curral d'el rey (belo horizonte) em 1897 e morreu tragicamente num acidente de avião em 1951.

nos anos 30 galeão coutinho criou uma efêmera editora, chamada cultura brasileira. com mário de andrade, sergio milliet e mais uma turminha de primeira, foi um dos fundadores da sociedade brasileira dos escritores (1942), futura UBE, e seu quarto presidente. autor de memórias de simão o caolho, vovô morungaba, a vida apertada de eunápio cachimbo, confidências de dona marcolina, semeador de pecados.

entre suas traduções incluem-se o paraíso norte-americano de egon erwin kisch, a vida maravilhosa de sarah bernhardt de louis verneuil, os sofrimentos do jovem werther de goethe, são julião hospitaleiro, herodíades, um coração simples, bouvard e pécuchet e dicionário das ideias feitas (estes dois últimos com augusto meyer) de flaubert, cândido ou o otimismo e os ouvidos do conde de chesterfield de voltaire. estes dois contos de voltaire foram publicados pela livraria martins, como volume 21 da coleção excelsior, em 1944.

não conheço nenhuma referência em sebos, bibliotecas e centros de estudo do país a qualquer tradução de zadig feita por galeão coutinho - a não ser uma publicação recente, de 2004, pela editora itatiaia, como sétimo volume de uma coleção também chamada "excelsior", a partir da indicação dada por mayra guedes.

o poeta e tradutor mario quintana praticamente dispensa apresentações. traduziu muitas dezenas de obras, dizem que mais de uma centena, entre elas uma coletânea de contos e novelas de voltaire. o volume foi publicado pela editora globo em 1951, e tem sido constantemente reeditado, até a data de hoje. a coletânea, pelo menos em minha edição da abril cultural de 1972, aliás começa com zadig.

a tradução de zadig publicada pela editora itatiaia, atribuindo-a a galeão coutinho, é absolutamente idêntica à tradução de mario quintana. parece-me uma sandice imaginar que quintana tenha plagiado galeão coutinho. e o inverso não só seria igual sandice, mas constituiria uma impossibilidade física, visto que galeão, como disse acima, morreu em 1951, quando a tradução de mario quintana mal tinha - se é que tinha - chegado à praça. resta, pois, a hipótese de que a editora itatiaia tenha decidido, sabe-se lá por qual insondável razão, transferir a titularidade da tradução de um para outro.

de um lado, espero que as guardiãs dos direitos de mario quintana e de galeão coutinho, respectivamente a sra. elena quintana e a sra. regina galante, deem ao problema a atenção que ele indubitavelmente merece.

por outro lado, espero que a editora itatiaia saia de seu obstinado silêncio, dê satisfações quanto a essa esdrúxula atribuição e perceba que, enquanto não apresenta qualquer referência concreta mostrando que a tradução circulante de zadig é efetivamente de autoria de galeão coutinho, ela está jogando na lama a reputação de mario quintana e lançando suspeitas sobre sua idoneidade.

por outro lado ainda, fica um vigoroso alerta a leitores, estudantes e pesquisadores: antes de julgarem que quintana foi mero copista de coutinho, avaliem bem as fontes impressas que dariam azo a essa estrambótica conclusão.

19 de jan. de 2010

zadig e seu duplo

em outubro do ano passado, mayra guedes deixou um comentário no post não gosto de plágio, comentando que vira uma tradução de zadig de voltaire em nome de galeão coutinho, idêntica à feita por mario quintana.

a notícia me pareceu estarrecedora.

na época pesquisei um pouco em bibliotecas e acervos, consultei várias pessoas que ficaram tão atônitas e chocadas quanto eu, fui atrás da editora responsável pela edição do zadig em que consta o nome de galeão coutinho. foi meio difícil ser atendida. mas, depois de insistir por alguns dias, conversei com a responsável pela editora, a qual, como sói ser em muitos desses casos, não sabia, não tinha ideia, iria verificar etc. em dezembro liguei de novo, a secretária prometeu retorno. ok, cá estou esperando.

quando eu acordar, posto aqui as "evidências" (aliás, um dos anglicismos falsos amigos em traduções do inglês para o português mais horrorosos que conheço).

imagem: zzz

18 de jan. de 2010

obra de tradução desprotegida?

na mesa-redonda "o direito autoral do tradutor literário", no dia 19/1, às 19,30, na casa das rosas, em são paulo, o tema que vou levantar - a despeito dos pouquíssimos subsídios disponíveis, pois o minc ainda não trouxe a público a versão final de seu anteprojeto para a reformulação da lei de direitos autorais 9610/98 - será a proposta já apresentada pelo ministério no que tange a obras de tradução sob encomenda.

lembrete

lembrando ao pessoal que mora em são paulo e adjacências:

amanhã, dia 19, às 19,30, mesa-redonda na casa das rosas sobre "o direito autoral do tradutor literário", com lenita esteves, luciane de carvalho, alzira allegro, jiro takahashi e esta que vos fala, com mediação de marcelo tápia.

veja aqui a programação.

17 de jan. de 2010

jorio dauster - o apanhador


DE QUE VALE UM TÍTULO?

“... fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”

Ninguém que tenha lido a obra-prima de J. D. Salinger poderá se esquecer da cena em que Holden, tarde da noite, resolve visitar a irmã, entrando sorrateiramente no apartamento para que seus pais não o vejam. Por sorte, eles haviam saído e Holden tem uma longa conversa com Phoebe, que não demora a descobrir que ele havia sido expulso da escola, reprovado em todas as matérias com exceção de inglês. Com a sensatez imbatível das meninas de dez anos de idade, a irmã o acusa de não gostar de nada e, tendo Holden a duras penas conseguido dizer que gostava do Allie (um irmão já morto) e de estar ali conversando com ela, Phoebe exige que ele diga o que gostaria de ser quando crescesse.

A resposta reproduzida acima, além de típica do estilo coloquial empregado com tanto êxito por Salinger para caracterizar o rapazote de dezesseis anos, sintetiza os dois traços centrais do personagem: sua recusa em aceitar o jogo dos adultos, representada pela escolha estapafúrdia do que faria ao crescer, e o amor ao próximo, aqui simbolizado pela preocupação em evitar que as crianças caiam no abismo (mas também presente mesmo no último parágrafo do livro, quando Holden diz sentir saudades até das pessoas que lhe fizeram mal). Nesse sentido, nada mais justo que Salinger retirasse de tal passagem o título de seu livro.

Muito justo, sem dúvida, mas se ponha na pele de Álvaro Alencar, Antônio Rocha e eu, já lá vão quarenta anos, tentando passar para o português The Catcher in the Rye. Apanhador, palavra horrorosa que, segundo os dicionários, se aplicaria a quem colhe os grãos de café ou extrai o látex da seringueira, embora no linguajar corriqueiro só seja usada para designar um gandula. Centeio, quando muito, lembrava um tipo de pão àquela época pouco consumido por estas bandas; mas quem jamais teria visto um campo da tal gramínea? Não, intitular um livro Apanhador no campo de centeio seria como dar algum nome esdrúxulo a uma bela criança, seria condená-lo à mais absoluta rejeição.

É verdade que o título também não fazia muito sentido mesmo no idioma do autor. Para todos os efeitos práticos, a palavra catcher em inglês se refere àquele jogador de beisebol cujo rosto está sempre coberto por uma máscara e que, agachado atrás do batedor, fica pegando as bolas atiradas pelo lançador (ocupando assim, aparentemente, a posição mais besta de qualquer esporte se ao “apanhador” não coubesse também a responsabilidade crucial de indicar onde a bola deve ser lançada com base nas características do batedor). A segunda parte do título só é explicada na própria conversa de Holden com Phoebe, quando ele lhe pergunta se conhece a cantiga “Se alguém agarra alguém atravessando um campo de centeio”. Phoebe o corrige, dizendo que o certo é “Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio”, e ainda acrescenta que é baseada num poema de Robert Burns. De fato, trata-se de uma conhecida cantiga de crianças, mas, até mesmo devido ao “erro” de Holden ao trocar os verbos, jamais encontrei uma única pessoa nascida nos Estados Unidos que tenha feito de estalo a ponte mental entre a musiquinha e o título.

Voltando ao nosso drama linguístico, fizemos longas listas de títulos alternativos até encontrarmos A sentinela do abismo, em que respeitávamos tanto o contexto quanto o conceito. Eureca! Que nada, a alegria durou pouco. Da agente literária de Salinger veio a ordem ríspida: ou se vertia o título literalmente ou era suspensa a venda dos direitos de tradução. Ordens do autor. Em vão tentei explicar por carta que a expressão era virtualmente ininteligível no vernáculo. Aproveitando uma ida a Nova York, obtive a graça de uma entrevista com a agente, pois já então era de todo impossível comunicar-se com o próprio eremita de New Hampshire. Nenhuma chance de revisão da sentença, porém ao menos fiquei sabendo que Salinger entrara em órbita ao tomar conhecimento de certas versões dadas ao título que lhe devera ter custado imensas dores de parto.

Com base em três delas que vim a conhecer mais tarde, passei a dar toda a razão ao autor. Senão vejamos.

Em espanhol, saíram-se com El cazador oculto, obviamente por conta da menção a um campo e ao fato de que o Holden adulto nele estaria escondido para não comprometer a espontaneidade das crianças ao brincarem. Mas que extraordinário exemplo de insensibilidade do tradutor ao não perceber o quanto a idéia de caçada e de morte era antagônica à mensagem que o título buscava transmitir!

O francês nos brindou com L’attrape-coeurs, que corresponderia em português a um abominável Pega-corações. No entanto, quando a língua de Racine já tem consagradas as expressões attrape-mouches (pega-moscas) e attrape-nigaud (prima-irmã de nossa “pegadinha”), dá para questionar a qualidade da versão gaulesa independentemente de sua dose excessiva de açúcar.

E, por fim, a mais notável, inclusive por demonstrar a desistência do tradutor português – recurso ao menos rechaçado pelos coleguinhas de Espanha e França – de extrair o título da rica contextura em que o original o situara. Pois bem, o ilustre sr. João Palma-Ferreira tascou Uma agulha no palheiro (na melhor tradição do conterrâneo que batizou o Psycho hitchcockiano de “O filho que era a mãe”)! Todavia, desconfiando de que não havia mesmo nenhuma relação entre o fundilho das calças e o orifício por elas protegido, ofereceu à posteridade uma Advertência cujo sabor só pode ser apreciado mediante sua reprodução integral: “O título português do romance de J.D.Salinger Uma Agulha no Palheiro foi especialmente escolhido tendo em atenção a singularidade expressiva desta frase comum portuguesa (sic) e não corresponde à nem pretende ser a tradução do título original norte-americano: The Catcher in the Rye, para o qual foi sempre difícil encontrar uma forma suficientemente alusiva e gramaticalmente correcta em todas as que ocorreram ao tradutor. Supõe-se, pois, que, sem fugir ao que o escritor pretendeu (sic), o título da edição portuguesa marcará incisivamente o espírito deste livro admirável.” *

* Há outras coisas imperdíveis nessa tradução lusa. Quando o Edgar Marsalla quase manda pelos ares o teto da capela onde os alunos eram obrigados a ouvir o discurso do agente funerário e grande benfeitor do colégio, seu “peido infernal” (terrific fart) se metamorfoseia num “tremendo arroto”. Quando Holden se enfurece com os palavrões que vê escritos nas paredes da escola da irmã e do museu, os muitos “Foda-se” se transformam em pálidos “Vai à merda”. Graves problemas de sinonímia ou de anatomia?

Seja como for, ao fim e ao cabo a edição brasileira estampou a tradução literal, ainda que amenizada por breve nota onde se lia: “Os três jovens diplomatas brasileiros que fizeram a presente tradução escolheram o título A Sentinela do Abismo. O Autor preferiu, entretanto, o título O Apanhador no Campo de Centeio.” O que, pelo jeito, não atrapalhou em nada, se é que não serviu para tornar ainda mais indelével a marca do livro na memória do leitor. As vendas continuam firmes, ano após ano, mesmo depois que o tresloucado assassino de John Lennon foi apanhado com um exemplar da obra. Que aqui no Brasil passou a ser carinhosamente chamada de Apanhador.

E você, já leu o Apanhador?

JORIO DAUSTER

16 de jan. de 2010

leitura

o blog da cultura traz um artigo de kelly de souza sobre polêmica: a revisão da lei de direito autoral.



uma boa súmula, com vários links importantes.

imagem: st george in his scriptorium, google images

15 de jan. de 2010

matéria sobre os plágios de tradução

a revista caros amigos de janeiro publica matéria de marcelo villela gusmão sobre os plágios de tradução, com direito a chamada na capa e tudo.

mais um gato, gato XXIV

no ano passado, montei uma pequena pesquisa sobre edgar allan poe no brasil.

no levantamento específico das traduções de the black cat no país, tinha-me passado desapercebida a tradução de william lagos, publicada em 2002 pela lpm no volume os assassinatos da rua morgue e outras histórias. minhas desculpas por uma omissão tão crassa. agora consta devidamente creditada nos posts o gato brasileiro e as andanças do gato.

com isso, eleva-se a 23 o número de traduções brasileiras do referido conto que consegui localizar até o momento.

pedido de representação no ministério público


é direito de todo consumidor ter acesso às informações corretas que, por lei, devem obrigatoriamente constar em cada unidade de produto comercializado. o leitor, como consumidor do produto livro, tem o direito de saber quem é o autor da tradução da obra que pretende adquirir.

a editora tem o dever de incluir em suas edições a informação sobre a autoria da obra traduzida, conforme estipula a lei 9610/98.

conforme apresentado aqui e aqui, a editora fundamento educacional aparentemente se julga desobrigada de atender à lei e ao leitor. após vários contatos improfícuos com a empresa, e em vista dessa continuada lesão dos direitos de seus leitores, na semana passada entrei com pedido de representação no ministério público do paraná, solicitando as providências cabíveis.

imagem: nicepinheiro