7 de dez. de 2009

cedic

o centro difusor de cultura (cedic) é uma editora de minas gerais, com uma linha variada que abrange livros e dvds pedagógicos, bíblicos, artísticos e outros. no segmento de literatura, a editora mantém uma coleção chamada "projeto ler literatura universal".

acho essas coisas sempre maravilhosas, pois a grande literatura é de uma riqueza inesgotável e o brasil ainda tem carências neandertalianas no acesso a essas grandes obras. assim, uma editora que anuncia tal projeto e avisa que "A coleção contém 40 obras-primas dos melhores escritores do mundo. O leitor terá a oportunidade de conhecer grandes nomes da literatura e suas obras imortalizadas" desperta esperanças na gente.
bom, não que eu seja muito conhecedora das coisas, mas a relação das 40 obras-primas da cedic me espantou bastante. são elas:

Odisséia - Homero
A Megera Domada & As Alegres Comadres de Windsor - William Shakespeare
Dom Quixote - Miguel de Cervantes
Hamlet - William Shakespeare
Macbeth - William Shakeaspeare
Moby Dick - Herman Melville
O Fantasma da Ópera - Geston [sic] Leroux
O Rei Lear - William Shakespeare
Otelo - William Shakespeare
Romeu e Julieta - William Shakespeare
Sonho de Uma Noite de Verão - William Shakespeare
Drácula - Bram Stoker
Dos Delitos e das Penas - César Beccaria
Ilíada - Homero
O Príncipe - Maquiavel
A Dama das Camélias - Alexandre Dumas Filho
O Banquete - Platão
Édipo Rei - Sófocles
A Divina Comédia - Inferno - Dante Alighieri
A Divina Comédia - Purgatório - Dante Alighieri
A Divina Comédia - Paraíso - Dante Alighieri
Mensagem - Fernando Pessoa
Contos e Histórias - Allan Poe
Os Trabalhadores do Mar - Victor Hugo
O Fantasma de Canterville - Oscar Wilde
De Calígula a Domiciano - Suetônio
De Julio Cesar a Tibério - Suetônio
Fábulas - La Fontaine
História Secreta - Procópio
A Tempestade - William Shakespeare
Contos - Guy de Maupassant
Teodora - Henry de Kock
A Comédia dos Erros - William Shakespeare
20.000 Léguas Submarinas - Julio Verne
Uma Aventura de Natal - Charles Dickens
Eneida - Virgílio
Cleópatra - Henry de Kock
As Minas do Rei Salomão - H. Rider Haggard
A Revolução dos Bichos - George Orwell
O Atentado contra Napoleão - Paulo Matos Peixoto



em 40 títulos, 10 shakespeares?

o banquete de platão agora virou literatura? o príncipe de maquiavel também? dos delitos e das penas de beccaria idem? as vidas de suetônio idem? procópio idem?

gaston leroux, um dos melhores escritores do mundo? as minas do rei salomão como uma das grandes obras-primas universais? a revolução dos bichos também?

henry de kock? e com duas obras? e a cerejinha do bolo, paulo matos peixoto?

e certamente há quem tenha comprado e continue a comprar na boa fé a tal coleção com seus quarenta volumes, achando que está se instruindo na alta literatura mundial ao ler bram stoker e gaston leroux... e paulo matos peixoto, se mal pergunte: quem é este "grande nome da literatura" que figura entre os 27 "melhores escritores do mundo" selecionados pela cedic, autor da "obra imortalizada" o atentado contra napoleão?

perplexíssima com a desfaçatez e atônita com a quantidade de "mais dos mesmos" que perambulam incessantemente pelas rideels, martins clarets e novas culturais da vida - odisseia, moby dick, drácula, os benditos dez shakespeares, os platões, beccarias, maquiavéis e suetônios repetindo-se à exaustão, venho a descobrir que a divina comédia, repicada em três voluminhos, é uma inacreditável cópia - mais uma vez! - da tradução de hernâni donato. anônima, sem qualquer crédito, como se dante tivesse gestado e parido sua magnum opus diretamente vasada na última flor do lácio. ademais a edição fere os preceitos mais básicos da lei do livro, sem ficha catalográfica, sem nenhuma indicação de coisa alguma, nem sequer do local, da editora, da data, nada, nada. só é possível saber que é uma edição da cedic porque consta na contracapa.

continuo achando que devia existir uma ANVISA do livro. afinal o intelecto não pode ficar sujeito a tanta contrafação e a tanta ishperteza - o alimento do espírito, por ainda melhor razão, deveria receber cuidados muito maiores.

imagens: cedic

6 de dez. de 2009

ivo barroso - itinerários VI


DE ESPADA EM PUNHO

Como em Dumas, meus três tradutores-mosqueteiros eram quatro: Mílton Amado, Agenor Soares de Moura, Onestaldo de Pennafort e Carlos Porto Carreiro. Os dois primeiros eu havia conseguido homenagear com livros; os dois últimos o seriam com longos artigos. Mas, para chegar a tanto, tive que enfrentar desagradáveis frustrações.
A admiração que sempre tive pelas traduções de Onestaldo de Pennafort, principalmente pelas suas “encarnadas” versões dos poemas de Verlaine, sempre me fizera prometer a mim mesmo escrever algo a seu respeito, já que seu nome parecia desconhecido entre as novas gerações. Ele foi o mais perfeito intérprete do poeta francês em língua portuguesa, a ponto de suas Festas galantes se tornarem um livro de poesias de nossa literatura. Stefan Zweig, que se refugiara no Brasil em 1940, assim se dirige ao tradutor: “Ainda não falo o português, mas leio-o, e ainda mais facilmente numa tradução de poesias que sei de cor. O senhor gostará de saber que possuo o manuscrito original das Fêtes galantes [...] Que alegria ao ler Verlaine na língua de seu tradutor e captar-lhe ainda assim a música!” Além de Verlaine, Onestaldo havia conseguido dar ao Romeu e Julieta, de Shakespeare, a jovialidade, a leveza, a graça da obra original. E, no extremo oposto, toda a coloração sombria da tragédia cruel vivida por um Otelo transtornado de ciúmes. Além disso, havia suas obras originais, de grande versatilidade e de sutil leveza.

Compus um longo ensaio que ficou guardado por uns tempos à espera do veículo adequado para divulgá-lo. Houve época em que fui um dos redatores da revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, e julguei que estaria ali o espaço ideal para estampar o artigo. Mas por várias circunstâncias a matéria não saiu. Só em março de 2007, já de todo afastado da Poesia Sempre, encontrei guarida na Revista do Livro, órgão de divulgação cultural da mesma entidade, dirigida pelo prof. Elmer Barbosa. Estampada no nº 48, Ano 15, de março de 2007, esperei em vão por um exemplar da revista para ter a certeza de que a homenagem se efetivara. Depois de quase um ano, vim a saber que o tal número, dedicado quase inteiramente à literatura italiana, teve toda a sua tiragem distribuída num salão do livro que homenageava o Brasil na... Itália. Aqui, não restou disponível nenhum exemplar da revista. Foi graças à gentileza da Dra. Célia Portella que consegui ter em mãos a revista e constatar que de fato o artigo saíra (e estava sendo lido (?)... na Itália). Para compensar o extravio, estou cogitando de imprimir uma plaquete que, desde já, ofereço a todos os que se interessarem pelo assunto.
Embora, cronologicamente, Porto Carreiro tenha sido a minha predileção mais antiga, meu inesquecível D´Artagnan, até hoje não consegui lhe fazer a devida vênia, tirando-lhe o chapéu no gesto largo de arrastar pelo chão a pluma da Gasconha.

Sua tradução do Cyrano de Bergerac, que eu sabia quase toda de cor, de tanto lê-la, que abriu para mim as portas da conquista amorosa, sempre mereceu meu preito e minha gratidão. Que poderia fazer para divulgar seu nome, proclamar a excelência de sua façanha tradutória? Em 1997, centenário da primeira representação da peça, graças ao meu editor José Mário Pereira, íamos lançar uma cuidada edição bilíngue da peça, escoimada de alguns erros constantes das edições anteriores. Escrevi uma extensa apresentação em que falava não só do autor Edmond Rostand, mas igualmente de seu imortal intérprete Coquelin, de Sarah Bernard e do verdadeiro Cyrano, terminando por comentar os poucos dados biográficos que havia sobre o tradutor, mas ressaltando-lhe a genialidade da transposição. Professor de direito no Recife, Porto Carreiro apaixonou-se pela peça e traduziu-a tão logo foi representada. Dizem que ia de bonde para a Faculdade e não raro saltava a meio caminho para anotar algum verso que lhe ocorrera no trajeto. Desse extraordinário feito tradutório (considero-o a maior tradução de teatro em versos que conheço em língua portuguesa), disse, à época, o ferrenho crítico José Veríssimo, que considerava “em alguns pontos a tradução melhor que o original”. Esse tipo de frase tem sido modernamente criticado: Pode uma tradução ser melhor que o original? Claro que não, mas acredito que, num verso ou noutro, isto possa ocorrer em poesia: o tradutor encontrar uma expressão, um torneio de frase, uma palavra perfeita que faça o verso mais expressivo em sua língua do que o era no original. Para tanto é necessária uma integração, uma “encarnação” absoluta do tradutor na obra que traduz. França Pereira, contemporâneo de Porto Carreiro, assim o evoca: “Lembro-me bem do fulgor de seu olhar febricitante, do riso que lhe brincava nos lábios e do tremor que lhe agitava as mãos, ao falar-me do seu Cyrano, como se ele quisesse reviver ante meus olhos deslumbrados o velho galrão da Gasconha num outro poema dramatizado. O que o desanimava, dizia-me, era a suspeita de se frustrarem seus esforços neste 'meio' onde o galardoariam talvez com esta frase esmagadora: -- Ora! Uma tradução! – E mais nada.” E até hoje há quem, ligado às letras, tenha um conceito inferiorizante sobre tradução. Digo que uma tradução pode ser o “equivalente” da obra original em outra língua. Porto Carreiro criou um Cirano em português, assim como Onestaldo criaria suas Festas galantes. Duas obras geniais francesas vivendo seu momento literário no idioma português.

Mas, encurtando: como queríamos fazer uma edição de luxo, em papel de qualidade, possivelmente com ilustrações, o projeto gorou dentro do tempo previsto. Passou o centenário e a minha homenagem, por insignificante que fosse, não chegou a realizar-se. E – frustração das frustrações – em 2002 encontro na minha banca de jornais uma edição de bolso, capa preta com uma gravura dourada do narizão cirenaico, que ainda não constava de minha coleção e que podia ser adquirida a preço módico. Quem seria o destemido tradutor que, sabendo da existência da façanha de Carreiro, ousava enfrentar as dificuldades do Cirano? Abro a capa e leio o nome do “herói”: Fábio M. Alberti, mas – pasmo! – logo aos primeiros versos ao constatar que eram os mesmos de Porto Carreiro, amados versos que eu sabia de cor e nem precisava ir a casa cotejar. Um plágio desconcertante. O “herói”, no caso, não passava de um deslavado farsante. Precisava denunciá-lo. Escrevi imediatamente um artigo, Cyrano em “tradução clonada”, que saiu no Idéias do JB em 21.09.2002 e foi logo transcrito em outros jornais do Nordeste e no prestigioso blog de Soares Feitosa. A Editora Nova Cultural, para a qual mandei uma cópia do artigo, telefonou-me passado algum tempo dizendo que tinha havido um engano e que o nome de Porto Carreiro seria restaurado nas próximas edições (o que não ocorreu até hoje). Pouco tempo depois, dou com outro roubo descarado, das Flores do Mal, de Charles Baudelaire, cuja antiga tradução de Jamil Almansur Haddad aparecia na edição da Martin Claret com o nome de Pietro Nassetti (?). Meu artigo Flores roubadas do jardim alheio saiu no Rascunho de maio de 2003. Revoltado com tais descaramentos, eu mal sabia que estava simplesmente tocando a crista do iceberg.

Em 2007, voltei à carga junto ao meu editor: vamos lançar o livro no 110º aniversário da estréia da peça! é sempre uma efeméride, e os editores e leitores gostam dessas datas redondas. Acrescentei novos dados ao prefácio, citei as atuais edições francesas, a recente encenação da Comédie Française, os vídeos que surgiram, as traduções italianas e alemãs. Mas, de novo, o dinheiro foi curto e a obra não saiu. Mas como Cirano, no último ato da peça, junto à arvore frondosa, embora ferido por causa das minhas frustrações, empunho a espada das determinações e digo para mim: Eu me bato! Eu me bato! Eu me bato! #

IVO BARROSO

imagem: coquelin como cyrano, google images

5 de dez. de 2009

leitura


jane austen em português é um blog maravilhoso, de raquel sallaberry. nenhum estudioso, apreciador ou casual leitor de austen jamais poderá dispensar a mina de informações, mimos e preciosidades que há por lá.

meses atrás, raquel sallaberry, considerando a dificuldade de se encontrarem várias obras da dama de steventon no brasil, resolveu escrever um post aberto em seu blog, sugerindo a publicação da obra completa de jane austen. o post era dirigido à l&pm, em vista da qualidade e preços acessíveis de suas edições. e o apelo teve êxito.

a editora escolheu orgulho e preconceito para inaugurar sua coleção jane austen. a tradução ficou a cargo de celina portocarrero, e a obra também ganhou uma introdução do poeta, crítico literário e tradutor ivo barroso.

o livro será lançado em janeiro, mas já podemos ler os capítulos iniciais disponibilizados pela lpm e reproduzidos em jane austen em português.

parabéns a raquel por esse fantástico trabalho de sensibilizar as editoras para a necessidade de boas e novas traduções de austen no país; parabéns à l&pm pela receptividade à demanda dos leitores e pelo capricho dedicado a essa publicação.

a iniciativa é tanto mais bem-vinda porque a tradução de lúcio cardoso, pela civilização brasileira, é boa e bonita, mas um tanto datada (de 1940), a best-seller tem uma pretensa tradução em nome de "enrico corvisieri", protagonista de tantos plágios pela ed. nova cultural, a martin claret apresenta em nome de "jean melville" um descarado plágio da edição portuguesa da europa-américa, e a da francisco alves, em tradução de laura alves e aurélio barroso, é inencontrabilésima. 

imagem: pride and prejudice

4 de dez. de 2009

gracias, gracias


flanela paulistana, os ofendidos somos nós
jane austen em português, uma ótima notícia!
livros e afins, juiz rejeita queixa-crime
tradutor profissional, edição extra extra


imagem: coletivo wu ming

Formando professores com plágios e falsificações

Fico arrasada de ver como tantas editoras têm uma atitude de descaso quanto ao que publicam, deixando, por exemplo, de indicar as fontes dos textos traduzidos. Ou pior, indicando a fonte errada (vocês se lembram da história da tradução de Edgar Allan Poe no Brasil, em que se passou a afirmar que as Histórias Extraordinárias eram uma tradução de Tales of the Grotesque and Arabesque?)

Isso pode parecer excesso de erudição, desnecessário ao leitor comum, mas a verdade é que pode induzir ao erro leitores, estudantes e até mesmo professores interessados em entender a obra de maneira um pouco mais completa. Refiro-me aqui, mais especificadamente, a edições do Satíricon, de Petrônio, em que algumas editoras incorporam, ao texto latino estabelecido como original, falsificações reconhecidas, como se se tratasse de um único texto de Petrônio (veja mais sobre essa fraude renascentista aqui).

3 de dez. de 2009

Uma fraude renascentista - Satíricon IV

Como eu havia mencionado no primeiro post da série, o Satíricon, de Petrônio, infelizmente chegou aos tempos modernos em fragmentos. Acredita-se que tenhamos apenas três dos não se sabe quantos livros originais que compuseram a obra, os livros XIV, XV e XVI, e mesmo assim não completos, talvez 15% do total. No entanto, muitos latinistas e acadêmicos, desde a Idade Média, trabalharam para estabelecer o texto latino mais completo possível. A história é interessantíssima.

De acordo com um dos tradutores franceses do Satíricon, Louis de Langle, em 1923,  e um tradutor inglês, W. C. Firebaugh, em 1922, ela se resume mais ou menos assim:

The Holy Mysteries
1 – Um primeiro fragmento, descoberto em 1476, foi impresso em Milão em 1482, sendo o único texto de Petrônio conhecido até 1565.

2 – Uma versão publicada em Viena em 1564 e Anvers em 1565 (o Codex Sambucus), juntamente com um fragmento encontrado num convento de Buda, em 1587 (Codex Pithoeius), formam um texto um pouco mais completo, preenchendo algumas lacunas do texto anterior.

3 – Uma lacuna importante do texto, parte do Banquete de Trimalquião, foi descoberta por Pierre Petit na biblioteca do convento de Trau e publicada pela primeira vez em Pádova, em 1664. Esse manuscrito ainda continha todas as partes já estabelecidas anteriormente, e criava continuidade entre os fragmentos já conhecidos. Contudo, sua autenticidade foi contestada. Dois exames realizados por literatos de Roma e da França concluíram que o manuscrito deveria ter pelo menos 200 anos – mas nunca houve prova decisiva de que a parte do Banquete fosse do mesmo autor que o restante dos livros.

4 – Finalmente, em 1688, Du Pin, um oficial francês teria encontrado durante uma batalha em Belgrado um enorme manuscrito ainda mais completo. Esse foi traduzido por François Nodot, um mercenário francês seu amigo, e editado por Leers de Rotterdan em 1692. Logo, no entanto, sua autenticidade também foi discutida. Mas desta vez a fraude foi definitivamente estabelecida, principalmente em razão da qualidade do latim: o texto era bem ruim. Contudo, era também bastante engenhoso, servia-se de alusões contidas nos fragmentos já conhecidos e ajudava a encadear bem as partes do Satíricon, criando um texto coerente.
Por isso, a grande maioria dos tradutores de Petrônio, até hoje, optam por incorporar em suas versões do Satíricon, os acréscimos fraudados de Nodot. A grande maioria admite a fraude em prefácio, e costuma marcar de alguma maneira, por exemplo entre colchetes, essas partes que não deixam de ser interessantes para o tom do texto como um todo.
5 - Mais tarde diversos fragmentos foram ainda encontrados e logo reconhecidos como inautênticos (uma lista completa pode ser vista aqui), algumas vezes acrescentados a edições da obra, e em geral identificados como tais. W. C. Firebaugh incorpora por exemplo a falsificação de José Marchena, um espanhol que a escreve em francês por volta de 1800, e a de Don Joe Antonio Gonzalez de Salas, publicada em 1629.

Quanto às nossas edições brasileiras (as quatro lidas por mim), a única que não incorpora os acréscimos de Nodot é a da Cosac Naify, pois seu tradutor optou por se basear numa edição latina estabelecida em 1923, que contemplava apenas os manuscritos considerados originais.

As outras duas versões, da Escala e da Civilização Brasileira (não incluo aqui a da Martin Claret, já que não é nada menos do que cópia deslavada da Civilização Brasileira, como mostramos aqui e aqui) incluem os tais acréscimos. Daí a grande diferença observada (ao fim do post) entre o tamanho do capítulo XI nas diversas edições - a da Cosac Naify contava com apenas algumas linhas e as outras tinham quase oito páginas. Essas oito páginas foram compostas por François Nodot – e são bastante divertidas, aliás, dá para entender o interesse em publicá-las.

Fico apenas triste, do ponto de vista editorial e não de tradução, que as edições que incorporam o Nodot deixem de indicá-lo. Sem uma pesquisa como esta, o leitor nunca saberia que está lendo um texto de, pelo menos, dois autores diferentes, Petrônio e Nodot, perpetuando a fraude, no entanto perfeitamente estabelecida há séculos. Por que os editores não indicam suas fontes, principalmente quando se trata de textos clássicos, cuja história é conturbada?

Imagem: gutemberg.org

Joana Canêdo

2 de dez. de 2009

atualizando

sobre a ação criminal de martin claret contra minha pessoa:

No dia 03/11 o Juiz de Direito da comarca de Registro rejeitou a queixa-crime proposta por Martin Claret, em sentença publicada no Diário Oficial do Estado, por considerá-la sem justa causa. Decorrido o prazo para recurso sem manifestação do proponente.

seleção de obras

A Biblioteca Nacional informa às editoras que foi formada uma Comissão de Especialistas para a seleção de livros que poderão ser adquiridos pelo Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, dentro das ações do Programas Livro Aberto, da competência da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), com recursos provindos do Programa Mais Cultura, ambos os Programas do Ministério da Cultura.

 Editoras, Distribuidoras e Livrarias que estiverem interessadas em fornecer catálogos e/ou mesmo publicações para análise, podem entrar em contato diretamente com o SNBP (snbp@bn.br ) e/ou com os especialistas, escolhidos por edital de credenciamento, que estarão responsáveis pela seleção do acervo, cuja listagem subsidiará a licitação para aquisições em 2010.

vi esta notícia no publishnews de hoje. ótimo que haja uma comissão, ótimo que venham recursos do minc para o programa mais cultura, ótimo tudo. mas tomara que os membros da comissão lembrem que há várias coisas podres no reino editorial de pindorama.

a bn é nossa, os programas são nossos, os beneficiados pelos programas somos nós: da sociedade vai e para a sociedade volta - como cidadã, quero coisa boa. por isso, e para colaborar com os programas, enviei uma cartinha ao SNBP e aos integrantes da comissão pedindo atenção redobrada a títulos publicados por editoras que praticam plágios de tradução.

atualização em 04/12/2009: fico feliz que alguns integrantes da comissão da seleção já me responderam, dizendo que estão atentos ao problema.

flávio josefo, flavius josephus V


como disse anteriormente, o conteúdo das seleções da madras não é idêntico ao das seleções da edameris. numa mixórdia descabelada, a madras acrescenta vários excertos, entre eles trechos dos livros VII e VIII que a suposta tradutora ou o organizador anônimo da coletânea da madras tinha garantido que não incluiria na coletânea (ver aqui).
o engraçado é que esses excertos adicionais vêm numerados. e aí surge uma certa esperança de que, afinal, possamos ter uma tradução legítima pelo menos desses trechos, que não constam nas seleções copiadas da edameris. infelizmente, não é o caso. pois essa numeração, em verdade, pertence à edição integral da obra, livro VIII, cap. 2:

trad. pe. vicente pedroso, ecad:

322. 1 Reis 4. Devo falar agora dos que tinham o governo das províncias.
Uri governava a região de Efraim.
Aminadabe, genro de Salomão, governava toda a região marítima, na qual também Dor estava compreendida.
Benaia, filho de Achil, governava todo o Grande Campo e o país que se estende até o Jordão.
Gabar governava todo o país de Gileade e de Gaulam, até o monte Líbano, onde havia sessenta cidades grandes e fortes.
Abinadabe, que desposara outra filha do rei Salomão, chamada Bazima, governava toda a Galiléia até Sidom.
Banachal governava a região marítima que está em torno do Arce.
Safate governava os dois montes de Itabarim e do Carmelo e toda a Baixa Galiléia que se estende até o Jordão.
Suba governava todo o país da tribo de Benjamim.
Tabar governava todo o país que está além do Jordão. Salomão tinha além disso um lugar-tenente-general, que governava todos esses governadores.

323. Não se pode descrever a felicidade que os israelitas, particularmente os da tribo de judá, desfrutaram no reinado de Salomão, porque em tão profunda paz, não perturbada por guerras estrangeiras nem internas, todos pensavam somente em cultivar os seus campos e em aumentar as suas riquezas.
O rei tinha oficiais para receber os tributos que os sírios e os outros bárbaros de entre o Eufrates e o Egito eram obrigados a lhe pagar. Esses oficiais forneciam cada dia, para a sua mesa, entre outras coisas, trinta
medidas de farinha, sessenta de outra farinha, inferior, dez bois gordos, vinte bois de pasto, cem cordeiros gordos e grande quantidade de caça e de peixes.
Possuía um número tão grande de carros que eram necessários quarenta mil cochos para os cavalos que os puxavam, atrelados dois a dois. Mantinha, além disso, doze mil homens de cavalaria, sendo que metade montava guarda em Jerusalém, junto de sua esposa, e metade estava distribuída pelas cidades. O encarregado da despensa ordinária tinha também o cuidado de prover a alimentação dos cavalos, em qualquer lugar onde eles estivessem.

324. Deus encheu esse príncipe de sabedoria e de inteligência tão extraordinárias que nenhum outro em toda a Antigüidade pode a ele ser comparado. Ele sobrepujava até mesmo, em muito, os mais ilustres dos
egípcios, que são tidos como os mais notáveis, como também os mais célebres dentre os hebreus daquela época, cujos nomes creio dever citar aqui: Etã, Hemã, Calcol e Darda, todos os quatro filhos de Maol. Esse grande soberano compôs cinco mil livros de cânticos e de versos, três mil livros de parábolas, a começar do hissopo até o cedro, passando por todos os animais, pássaros, peixes e todos os que caminham sobre a terra.

trad. madras (scan, p. 82):*
* atualizado em 10/12/2009: ver informe. atualizado em 14/12/2009: ver solicitação. atualizado em 15/12/2009: ver comunicado.

apenas por uma questão de método, segue-se o trecho correspondente na obra em inglês que, segundo a imprenta da editora madras, teria supostamente servido de base para a pretensa tradução publicada pela editora madras:

3. Now the captains of his armies, and officers appointed over the whole country, were these: over the lot of Ephraim was Ures; over the toparchy of Bethlehem was Dioclerus; Abinadab, who married Solomon's daughter, had the region of Dora and the sea-coast under him; the Great Plain was under Benaiah, the son of Achilus; he also governed all the country as far as Jordan; Gabaris ruled over Gilead and Gaulanitis, and had under him the sixty great and fenced cities [of Og]; Achinadab managed the affairs of all Galilee as far as Sidon, and had himself also married a daughter of Solomon's, whose name was Basima; Banacates had the seacoast about Arce; as had Shaphat Mount Tabor, and Carmel, and [the Lower] Galilee, as far as the river Jordan; one man was appointed over all this country; Shimei was intrusted with the lot of Benjamin; and Gabares had the country beyond Jordan, over whom there was again one governor appointed. Now the people of the Hebrews, and particularly the tribe of Judah, received a wonderful increase when they betook themselves to husbandry, and the cultivation of their grounds; for as they enjoyed peace, and were not distracted with wars and troubles, and having, besides, an abundant fruition of the most desirable liberty, every one was busy in augmenting the product of their own lands, and making them worth more than they had formerly been.

4. The king had also other rulers, who were over the land of Syria and of the Philistines, which reached from the river Euphrates to Egypt, and these collected his tributes of the nations. Now these contributed to the king's table, and to his supper every day (3) thirty cori of fine flour, and sixty of meal; as also ten fat oxen, and twenty oxen out of the pastures, and a hundred fat lambs; all these were besides what were taken by hunting harts and buffaloes, and birds and fishes, which were brought to the king by foreigners day by day. Solomon had also so great a number of chariots, that the stalls of his horses for those chariots were forty thousand; and besides these he had twelve thousand horsemen, the one half of which waited upon the king in Jerusalem, and the rest were dispersed abroad, and dwelt in the royal villages; but the same officer who provided for the king's expenses supplied also the fodder for the horses, and still carried it to the place where the king abode at that time.

5. Now the sagacity and wisdom which God had bestowed on Solomon was so great, that he exceeded the ancients; insomuch that he was no way inferior to the Egyptians, who are said to have been beyond all men in understanding; nay, indeed, it is evident that their sagacity was very much inferior to that of the king's. He also excelled and distinguished himself in wisdom above those who were most eminent among the Hebrews at that time for shrewdness; those I mean were Ethan, and Heman, and Chalcol, and Darda, the sons of Mahol. He also composed books of odes and songs a thousand and five, of parables and similitudes three thousand; for he spake a parable upon every sort of tree, from the hyssop to the cedar; and in like manner also about beasts, about all sorts of living creatures, whether upon the earth, or in the seas, or in the air [...]


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


1 de dez. de 2009

sobre a revisão da lei de direito autoral

vale a pena ver entrevista de josé luiz herencia, secretário de políticas culturais do minc, ao g-popai. clique aqui.

flávio josefo, flavius josephus IV

consulte aqui a sequência dos posts sobre essa triste ocorrência.

prosseguindo o cotejo da seleta de josefo, veja-se a autobiografia:

I. autobiografia, vicente pedroso, edameris, 1974
II. autobiografia, madras, 2005*
III. the life of flavius josephus, william whiston [suposta fonte que teria sido usada para a pretensa tradução indireta publicada pela madras]

* atualizado em 10/12/2009: sobre a atribuição da tradução, ver informe.
atualizado em 14/12/2009: ver solicitação.

o padrão é o mesmo: a tradução de vicente pedroso sofreu adulterações para disfarçar a cópia, as quais consistem basicamente em trocas de palavras por sinônimos [assinaladas em negrito] e algumas inversões de frase [assinaladas em itálico].

I.
Meu pai não foi somente conhecido em toda a cidade de Jerusalém pela nobreza de sua origem; ele o foi ainda mais pela sua virtude e por seu amor à justiça, que tornaram seu nome célebre. Fui educado desde minha infância no estudo das letras, com um dos meus irmãos de pai e de mãe, que tinha como ele o nome de Matias; Deus deu-me bastante memória e inteligência e eu fiz tão grande progresso que, tendo então só catorze anos, os sacrificadores e os mais importantes de Jerusalém se dignaram perguntar minha opinião sobre o que se referia à interpretação das leis. Quando fiz treze anos desejei aprender as diversas opiniões dos fariseus, e dos saduceus e dos essênios, três seitas que existem entre nós, a fim de, conhecendo-as, eu pudesse adotar a que melhor me parecesse.

II.
Meu pai não foi somente conhecido em toda a cidade de Jerusalém pela nobreza de sua origem, e sim pela sua virtude e por seu amor à justiça, que tornaram seu nome célebre. Fui educado desde minha infância no estudo das letras, com um dos meus irmãos de pai e de mãe, que tinha também o nome de Matias; Deus deu-me muita memória e inteligência e [] fiz tão grande progresso que, aos 14 anos de idade, os sacrificadores e os mais importantes membros de Jerusalém se dignaram a indagar minha opinião acerca do que se referia à interpretação das leis. Quando fiz 13 anos, desejei aprender as diversas opiniões de fariseus, [] saduceus e [] essênios, [] seitas que existem entre nós, a fim de, entendendo-as, eu pudesse adotar aquela que mais me agradasse.

III.
Now, my father Matthias was not only eminent on account of his nobility, but had a higher commendation on account of his righteousness, and was in great reputation in Jerusalem, the greatest city we have. I was myself brought up with my brother, whose name was Matthias, for he was my own brother, by both father and mother; and I made mighty proficiency in the improvements of my learning, and appeared to have both a great memory and understanding. Moreover, when I was a child, and about fourteen years of age, I was commended by all for the love I had to learning; on which account the high priests and principal men of the city came then frequently to me together, in order to know my opinion about the accurate understanding of points of the law. And when I was about sixteen years old, I had a mind to make trim of the several sects that were among us. These sects are three: - The first is that of the Pharisees, the second that Sadducees, and the third that of the Essens, as we have frequently told you; for I thought that by this means I might choose the best, if I were once acquainted with them all [...]

I.
Assim, estudei-as todas e experimentei-as com muitas dificuldades e muita austeridade. Mas essa experiência ainda não me satisfez; eu vim a saber que um certo Bane vivia tão austeramente no deserto que só se vestia da casca das árvores e só se alimentava com o que a mesma terra produz; para se conservar casto, banhava-se várias vezes por dia e de noite na água fria; resolvi imitá-lo. Depois de ter passado três anos com ele, voltei, aos dezenove anos, a Jerusalém. Iniciei-me então nos trabalhos da vida civil e abracei a seita dos fariseus, que se aproxima mais que qualquer outra da dos estoicos, entre os gregos.

II.
Assim, estudei-as [] e as experimentei com muitas dificuldades e [] austeridade. No entanto, essa experiência ainda não me satisfez. Soube que um certo Bane vivia tão austeramente no deserto que só se vestia da casca das árvores e só se alimentava com o que a [] terra produzia; para conservar-se casto, bastava banhar-se várias vezes por dia e à noite na água fria. Resolvi imitá-lo. Após ter passado três anos em sua companhia, voltei a Jerusalém aos dezenove anos. Iniciei-me, então, nos trabalhos da vida civil e entrei na seita dos fariseus, a qual se aproxima mais entre os gregos do que qualquer outra [] dos estoicos.*

* é uma tristeza! quando o pessoal faz esses copidesques disfarçatórios sem entender o texto, resulta nessas coisas ininteligíveis...

III.
[...] so I contented myself with hard fare, and underwent great difficulties, and went through them all. Nor did I content myself with these trials only; but when I was informed that one, whose name was Banus, lived in the desert, and used no other clothing than grew upon trees, and had no other food than what grew of its own accord, and bathed himself in cold water frequently, both by night and by day, in order to preserve his chastity, I imitated him in those things, and continued with him three years. So when I had accomplished my desires, I returned back to the city, being now nineteen years old, and began to conduct myself according to the rules of the sect of the Pharisees, which is of kin to the sect of the Stoics, as the Greeks call them.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



imagem: plagiarius

30 de nov. de 2009

memorabilia



segue-se a lista do nãogostodeplágio com os autores que tiveram suas traduções, notas, introduções surripiadas:

adolfo casais monteiro, antónio ferreira marques, antônio pinto de carvalho, araújo nabuco, artur morão, bandeira duarte, bento prado jr., blásio demétrio, boris schnaiderman, brenno silveira, bruno da ponte, cabral do nascimento, carlos chaves, carlos porto carreiro, casimiro fernandes, e. jacy monteiro, eça de queiroz, eudoro de souza, éverton ralph, fernando de aguiar, fernando carlos de almeida cunha medeiros, floriano de souza fernandes, francisco inácio peixoto, galeão coutinho, godofredo rangel, guilherme de almeida, hebe caletti marenco, helga hoock quadrado, henrique marques ("pandemónio"), hernâni donato, isabel sequeira, ivan emilianovitch schawirin, jacó guinsburg, jaime bruna, jamil almansur haddad, joão lopes alves, joão ângelo oliva neto, joão baptista de mello e souza, joão paulo monteiro, joaquim dá mesquita paul, joaquim machado, jorge camacho, josé duarte, josé tavares bastos, josé augusto drummond, josé laurênio de mello, leila v. b. gouvêa, leonel vallandro, leonidas hegenberg, líbero rangel de andrade, líbero rangel de tarso, ligia junqueira, liliana rombert soeiro, lívio xavier, luís de andrade, luísa derouet, luiz costa lima, manuel dias duarte, manuel odorico mendes, marcílio marques moreira, marcos santarrita, margarida garrido esteves, maria beatriz nizza da silva, maria francisca ferreira de lima, maria helena rocha pereira, maria irene szmrecsányi, mário quintana, milton amado, moacyr werneck de castro, modesto carone, monteiro lobato, natália nunes, octany silveira da mota, octavio mendes cajado, olinda gomes fernandes, oscar mendes, paulo m. oliveira, paulo rónai, péricles eugênio da silva ramos, ricardo iglésias, rodrigo richter, sarmento de beires, sérgio milliet, silvio deutsch, silvio meira, sodré viana, suely bastos, tamás szmrecsányi, vera pedroso, vicente pedroso, wilson lousada, wilson velloso, ymaly salem chammas

imagem: via lasarina

flávio josefo, flavius josephus III


escolhi um trecho sobre a septuaginta, que achei muito bonito.

I. antiguidades judaicas, trad. pe. vicente pedroso, op. cit.
II. prefácio, trad. na madras, op. cit.*
III. works, trad. william whiston, op. cit.

* atualizado em 10/12/2009: sobre a atribuição da tradução, ver informe. atualizado em 14/12/2009: ver solicitação.

I.
Três dias depois, Demétrio os levou por uma estrada longa sete estádios, pela ponte que une a ilha à terra firme, a uma casa situada à beira-mar do lado norte, afastada de todo barulho, para que nada os pudesse perturbar em seu trabalho, que exigia muita atenção e cuidado, e rogou-lhes que, tendo naquele lugar tudo o que podiam desejar, começassem sem mais o grande empreendimento para o qual tinham vindo. Fizeram-no, com toda a dedicação e constância, trabalhando assiduamente para que a tradução fosse exatíssima. Trabalhavam ininterruptamente até nove horas da manhã, quando lhes levavam o alimento. Nisto eram eles muito bem tratados. Doroteu seguia exatamente as ordens recebidas, apresentando-lhes os alimentos que tinham sido preparados para a mesa real. Eles iam todas as manhãs ao palácio saudar o soberano e punham-se a trabalhar depois de ter lavado as mãos nas águas do mar; empregaram apenas setenta e dois dias para traduzir toda a lei.

II.
Três dias depois, Demétrio levou-os por uma estrada sete estádios de distância pela ponte que une a ilha à terra firme, a uma casa situada à beira-mar do lado do norte, afastada de todo barulho, com a finalidade de que nada os pudesse perturbar em seu trabalho, o qual exigia muita atenção e cuidado; rogou-lhes que, havendo naquele lugar tudo o que podiam desejar, começassem [] o grande empreendimento para o qual tinham vindo. Fizeram-no com toda a dedicação [], trabalhando assiduamente para que a tradução fosse fiel. Trabalhavam ininterruptamente até 9 horas da manhã, quando lhes levavam o alimento. Nisso, eles eram muito bem tratados. Doroteu seguia exatamente as ordens dadas, apresentando-lhes os alimentos [] preparados para a mesa real. Todas as manhãs eles iam ao palácio saudar o soberano e, depois de ter lavado as mãos nas águas do mar, punham-se a trabalhar; e assim empregaram apenas 72 dias para traduzir toda a lei.

III.
Accordingly, when three days were over, Demetrius took them, and went over the causeway seven furlongs long: it was a bank in the sea to an island. And when they had gone over the bridge, he proceeded to the northern parts, and showed them where they should meet, which was in a house that was built near the shore, and was a quiet place, and fit for their discoursing together about their work. When he had brought them thither, he entreated them (now they had all things about them which they wanted for the interpretation of their law) that they would suffer nothing to interrupt them in their work. Accordingly, they made an accurate interpretation, with great zeal and great pains, and this they continued to do till the ninth hour of the day; after which time they relaxed, and took care of their body, while their food was provided for them in great plenty: besides, Dorotheus, at the king's command, brought them a great deal of what was provided for the king himself. But in the morning they came to the court and saluted Ptolemy, and then went away to their former place, where, when they had washed their hands, and purified themselves, they betook themselves to the interpretation of the laws. Now when the law was transcribed, and the labor of interpretation was over, which came to its conclusion in seventy-two days [...]

I.
Terminada a obra, Demétrio reuniu todos os judeus e leu-lhes a tradução na presença dos setenta e dois intérpretes. Eles a aprovaram, louvaram muito a Demétrio, por ter imaginado uma coisa tão vantajosa para eles, e rogaram-lhe que também mandasse fazer aquela leitura aos chefes de sua nação. Eliseu, sacrificador, o mais idoso dos intérpretes, e os magistrados constituídos para governo do povo, pediram em seguida que, como aquela obra tinha sido terminada com tão raro êxito, nada mais se viesse a mudar. Essa proposta foi aprovada, mas com a condição de que, antes de o fazer, dando-lhe a força de lei, seria permitido a todos examinar se nada havia a se acrescentar ou a suprimir, a fim de que, tendo sido o assunto muito bem ponderado, nunca mais nele se tivesse que tocar.

II.
Terminada a obra, todos os judeus foram reunidos por Demétrio, que lhes leu a tradução na presença dos 72 intérpretes. Eles a aprovaram, louvaram muito a Demétrio por ter pensado em algo tão vantajoso para eles e rogaram-lhe que também mandasse fazer aquela leitura aos chefes de sua nação. Eliseu, sacrificador e o mais idoso dos intérpretes, e os magistrados constituídos para governo do povo, pediram [] que, uma vez que tal obra havia sido terminada com tão raro êxito, nada mais viesse a ser alterado. Essa proposta foi aprovada, entretanto, com a condição de que, antes de o fazer, dando-lhe [] força de lei, seria permitido a todos examinar se nada havia a ser acrescentado ou suprimido, com o fim de que, tendo sido o assunto muito bem ponderado, nunca mais se necessitasse tocar nele.

III.
[...] Demetrius gathered all the Jews together to the place where the laws were translated, and where the interpreters were, and read them over. The multitude did also approve of those elders that were the interpreters of the law. They withal commended Demetrius for his proposal, as the inventor of what was greatly for their happiness; and they desired that he would give leave to their rulers also to read the law. Moreover, they all, both the priest and the ancientest of the elders, and the principal men of their commonwealth, made it their request, that since the interpretation was happily finished, it might continue in the state it now was, and might not be altered. And when they all commended that determination of theirs, they enjoined, that if any one observed either any thing superfluous, or any thing omitted, that he would take a view of it again, and have it laid before them, and corrected; which was a wise action of theirs, that when the thing was judged to have been well done, it might continue for ever.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagem: septuaginta

29 de nov. de 2009

ivo barroso - itinerários V



A SEGUNDA DETERMINAÇÃO

Sempre li e colecionei Suplementos literários. Tenho até hoje, em volumes encadernados, os números de “Letras & Artes”, dos anos 1946 a 1951. Mais tarde, em 1957, quando comecei a colaborar no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, guardava cuidadosamente os exemplares, que já faziam uma boa pilha quando uma enchente invadiu a garagem do meu prédio na Lagoa e transformou minha literatura em pasta de papel. Mas houve um suplemento, o do Diário de Notícias, que vim a conhecer muito tempo depois de desaparecido, quando pesquisava na Biblioteca Nacional, em busca da coluna de Agenor Soares de Moura, o grande erudito, famoso por suas críticas de traduções.

Agenor – soube-o mais tarde – era um professor de português radicado na província (Barbacena, MG), que, sem nunca ter saído de sua cidadezinha, dominava perfeitamente uns cinco idiomas e escrevia num português de dar inveja aos literatos de então. Implicava com a má qualidade das traduções que via e resolveu escrever uma carta ao jornal criticando algumas delas, assinadas por escritores de renome. O jornal, ciente da qualidade do trabalho, em vez de simplesmente publicar a carta, propôs ao missivista um rodapé semanal em que pudesse exercer a sua tão útil fiscalização. E nasceu a coluna “À Margem das Traduções”, que persistiu milagrosamente por dois anos (1944/46). Digo milagrosamente porque os editores deixaram de mandar ao jornal os livros traduzidos, certamente com receio das críticas de Agenor, e porque, no fim, já lhe faltassem originais para o cotejo, mesmo tendo ele, em muitas ocasiões, adquirido de seu próprio bolso os livros que se dispunha a analisar. Diga-se que eram críticas construtivas, ou, mais que isto, reconstrutivas, pois ele, além de apontar as impropriedades, sugeria a maneira ou as maneiras corretas ou possíveis de resolver as deficiências apontadas. Para mim, tradutor iniciante, eram verdadeiras lições de como não fazer, de como evitar certas armadilhas e escorregões em que muitos profissionais do gênero incidiam.

Achei imperioso editar em livro aquelas crônicas para fazer justiça a um pioneiro das boas traduções no Brasil. Seria minha segunda determinação. Eu me correspondia com seu sobrinho e xará, Agenor Soares dos Santos, grande lexicógrafo e conhecedor da língua inglesa, autor do imprescindível Guia Prático da Tradução Inglesa (Campus-Elsevier). Por seu intermédio, soube que a viúva de Agenor, Da. Carmen Duarte Siqueira Soares, já bastante idosa, ainda morava em Barbacena; em Juiz de Fora residia o filho, Afonso de Siqueira Soares, que possivelmente teria a coleção dos artigos do pai. Afonso, de fato, guardava com carinho, colados num livrão, os recortes de jornal em que os artigos foram publicados. Ambos louvaram minha disposição de arranjar um editor para o livro, mas a princípio sem grandes esperanças, pois no passado já o prof. Paulo Rónai fizera uma tentativa infrutífera, mencionada por ele num artigo laudatório quando Agenor faleceu em março de 1957.

Mas, antes de arranjar um editor, era preciso organizar os originais. O sobrinho-neto, Andytias Soares de Moura, brilhante tradutor de Rosalía de Castro e de Juan Gelman, incumbiu-se de mandar digitar os originais. Era meio caminho, mas faltava ainda outro meio a percorrer. Muitos dos recortes haviam absorvido marcas de cola e estavam quase ilegíveis. Havia uma quantidade enorme de gralhas devidas ao fato de que as cartas manuscritas (e depois datilografadas) de Agenor eram treslidas pelos tipógrafos. As citações em língua estrangeira apareciam quase sempre deturpadas. As revisões se impunham, numerosas, e nelas tive a ajuda imprescindível do Agenor-sobrinho.

A sorte favoreceu em parte. Eu acabara de fazer para a editora Siciliano a tradução do teatro completo de Eliot dentro do exíguo tempo programado, o que me proporcionou certa possibilidade de diálogo com os editores. Sugeri a publicação dos artigos de Agenor, argumentando ser o conjunto uma obra de grande utilidade não só para os tradutores como para os leitores em geral. E a obra foi logo programada. Com isto as esperanças da família renasceram. Da. Carmen, que estava com problemas de saúde, recuperou-se com a notícia que vinha esperando havia tantos anos. Mas o inesperado aconteceu. Houve um remanejo editorial na Siciliano e as pessoas com as quais eu lidava foram substituídas. A nova editora-chefe me comunicou que o livro saíra de pauta. Não tive coragem de revelar esse novo fracasso à família. Para a Siciliano, escrevi, telefonei, e-mailei, faxei uma dezena de argumentos editoriais, mas para mim, intimamente, o maior deles era que não podíamos decepcionar Da. Carmen, ela que fora a fiel esposa-secretária do marido-professor, que datilografava seus artigos, que os lia com admiração e os colecionava com orgulho. Da. Carmen, com quem eu já mantinha contatos telefônicos, vez por outra perguntava pela data de saída e percebi que ela estava vivendo em função do livro. Não podia jamais saber do impasse. Finalmente, para o bem dos leitores e principalmente dos tradutores brasileiros, o livro saiu em 2003 (pela Arx) e – atenção para os nossos comerciais! - continua à venda em todo o território nacional.

Quando recebeu o primeiro exemplar que pedi à Editora enviasse diretamente a ela, Da. Carmen me telefonou dizendo: “Realizei meu sonho!” (E eu bem que poderia dizer: o “nosso”, Da. Carmen.)

Ivo Barroso

imagem: lasarina

28 de nov. de 2009

bom programa



Dostoiévski Ontem e Hoje, de 01 a 04 de dezembro, em sp. vai ter, por exemplo, boris schnaiderman e paulo bezerra falando sobre "dostoiévski, nosso contemporâneo", e aurora bernardini numa mesa sobre "dostoiévski e a vanguarda russa na arte do século XXI".

leitura


mais uma daquelas divertidas listas dos mais+mais: os cem contos da revista bravo.

imagem: o bravo leitor

27 de nov. de 2009

flávio josefo, flavius josephus II



inicio agora a série de cotejos dos quatro textos utilizados nas seleções de flávio josefo, trad. pe. vicente pedroso, edameris, 1974, e nas seleções de flavius josephus, com problemas na atribuição de tradução, madras, 2005.*

* atualizado em 10/12/2009: sobre a atribuição, ver informe. atualizado em 14/12/2009: ver solicitação.

segue abaixo o começo do prefácio de flávio josefo às suas antiguidades judaicas.

I.
Aqueles que determinam escrever história a isso nem sempre são levados pela mesma razão: muitas vezes as têm bem diversas. Uns o fazem pelo desejo de mostrar a própria eloquência e conquistar fama. Outros fazem-no para homenagear àqueles cujos feitos narram, e não há esforços que não façam para lhes ser agradáveis. Outros, ainda, o fazem porque, tendo tomado parte nos acontecimentos que descrevem, querem que todos disso saibam. E outros, por fim, o fazem porque não podem tolerar que coisas dignas de serem conhecidas fiquem sepultadas, no silêncio. Estas duas últimas razões levaram-me a escrever. Pois, de um lado, como tomei parte na guerra contra os romanos e fui testemunha dos feitos que lá se realizaram, conheço vários episódios dela, senti-me obrigado e quase forçado a escrever-lhe a história, para dar a conhecer a má-fé daqueles que, tendo-a escrito antes de mim, obscureceram a verdade. (vicente pedroso)

II.
Aqueles que se propõem a escrever história, a isso nem sempre são levados pelo mesmo motivo: muitas vezes as têm bem diversas. Alguns o fazem pelo desejo de mostrar a própria eloquência e conquistar fama. Outros, [] para homenagear aqueles cujos feitos narram, e não há esforços que não façam a fim de serem agradáveis. Outros, ainda, fazem-no porque, tendo tomado parte nos acontecimentos que descrevem, querem que todos saibam disso. E há os que, por fim, fazem-no por não poderem tolerar que coisas dignas de serem conhecidas fiquem sepultadas no silêncio. Essas duas últimas razões levaram-me a escrever. Pois, de um lado, como tomei parte na guerra contra os romanos e fui testemunha dos feitos que lá se realizaram, conheço vários episódios dela, e senti-me obrigado e quase forçado a escrever [] a história para se fazer conhecer a má-fé daqueles que, tendo-a escrito antes de mim, obscureceram a verdade. (madras)

como disse anteriormente, a imprenta da edição da madras especifica: "Publicado originalmente em inglês sob o título The Works of Flavius Josephus". não existe nenhuma seleta em inglês chamada the works of flavius josephus. o único corpo de textos que tem esse nome, até onde sei, corresponde à obra de flávio josefo traduzida por william whiston em 1737 e que se mantém até hoje como a tradução consagrada em língua inglesa. encontra-se disponível aqui.

em todo caso, por uma questão de método, se a editora madras afirma que a suposta tradução foi feita a partir de the works of flavius josephus (na tradução, deduzo eu, de william whiston), creio que cabe reproduzir aqui o trecho correspondente.

THOSE who undertake to write histories, do not, I perceive, take that trouble on one and the same account, but for many reasons, and those such as are very different one from another. For some of them apply themselves to this part of learning to show their skill in composition, and that they may therein acquire a reputation for speaking finely: others of them there are, who write histories in order to gratify those that happen to be concerned in them, and on that account have spared no pains, but rather gone beyond their own abilities in the performance: but others there are, who, of necessity and by force, are driven to write history, because they are concerned in the facts, and so cannot excuse themselves from committing them to writing, for the advantage of posterity; nay, there are not a few who are induced to draw their historical facts out of darkness into light, and to produce them for the benefit of the public, on account of the great importance of the facts themselves with which they have been concerned. Now of these several reasons for writing history, I must profess the two last were my own reasons also; for since I was myself interested in that war which we Jews had with the Romans, and knew myself its particular actions, and what conclusion it had, I was
forced to give the history of it, because I saw that others perverted the truth of those actions in their writings.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



imagem: flávio josefo; whiston

26 de nov. de 2009

flávio josefo, flavius josephus I

em flávio josefo, seleções e em flávio josefo, história dos hebreus apresentei dados preliminares para o cotejo entre a edição da edameris (1974), na tradução erudita de vicente pedroso, e a edição da madras (2005), com uma pretensa nova tradução.*
* atualização em 10/12/2009: sobre a atribuição, ver informe. atualização em 14/12/2009: ver solicitação.

julgo de uma imoralidade única que se pratiquem tais coisas.* octogenário, pe. vicente pedroso escrevia em sua "advertência" à obra:

"Nada mais me resta a acrescentar; como estes dois volumes compreendem toda a antiga história sagrada, desejo que não sejam lidos apenas por divertimento e por curiosidade, mas que se procure aproveitar, pelas considerações úteis de que fornecem tanta matéria. Foi esse o motivo que me levou a empreender esta tradução; do contrário, ela ter-me-ia, aos oitenta anos, feito empregar em vão muito tempo e dar-me muito trabalho numa idade na qual só devemos pensar em nos preparar para a morte. # O tradutor"

a edição da madras, além de pouco idônea, é indizivelmente ruim e confusa, e tenho até dificuldade em expor os insensatos emaranhados do livro. mas tentarei.

em antiguidades judaicas, josefo escreveu um curto prefácio, de cerca de duas páginas. na seleta da edameris, ele foi reproduzido e, em seguida, os editores explicaram num bloco em itálico:

"por motivos óbvios, deixamos de considerar os dez primeiros livros das 'antiguidades judaicas', que se sobrepõem ao relato bíblico da antiga história judaica. o período que se inicia com as conquistas de alexandre, o grande, e termina com o reinado de nero, aparece na segunda metade das 'antiguidades', de onde extraímos o texto destas seleções".

ótimo, mais claro impossível. assim, a organização da seleta prossegue a partir do livro XI (o final dele) até o livro XVIII, encerrando com o chamado "testemunho de cristo" e a apresentação de joão batista. são 76 páginas, com prefácio e trechos de vários capítulos dos livros XI ao XVIII, e pronto.

na edição da madras, toda essa seleta se chama simplesmente "prefácio", com 63 páginas. ou melhor, o que a madras chama de "prefácio" é, na verdade, uma cópia completa das antiguidades judaicas da seleta da edameris. mas a surpresa é que, após o excerto sobre joão batista que encerra a seleta da edameris e o "prefácio" da madras, esta resolve acrescentar outros trechos, e é nessas horas que sinto a força da expressão "pior a emenda do que o soneto".

pois, como disse acima, a edameris desconsiderou os dez primeiros livros e seguiu do final do livro XI das antiguidades - precisando melhor, partiu do oitavo e último capítulo do livro XI -, até o livro XVIII. embora a suposta tradutora ou o anônimo organizador da seleta da madras também alerte que "deixei de considerar os dez primeiros livros das 'antiguidades judaicas'" etc., mesmo assim ela/ele decide incluir após o livro XVIII (isto é, após o final de seu "prefácio") capítulos integrais e parciais dos livros VII, VIII e XI.

nessa sarabanda maluca, em que davi ordena a salomão que construa o templo após a derrota de herodes, surge outra novidade madrasiana. os excertos, até então, vinham vindo, estranhos, sem nome, sem identificação, como se fossem ainda o bendito prefácio de josefo, mas vinham vindo. de repente, nesse carrossel desgovernado agora surgem capítulos inteiros com parágrafos numerados, começando pelo 304 e indo ininterruptamente até o 351, dando um salto inexplicado para o 419 e então seguindo até o 445. são 60 páginas de capítulos integrais, sem excerto, sem seleção, sem pausa, alguns salteados e com o pulo do quarto para o sétimo capítulo do livro oitavo. por fim, com neemias, terminam as inominadas antiguidades judaicas das seleções de flavius josephus da editora madras.

* obs.: posso adiantar que essa edição da madras não passa de um evidente plágio da tradução do pe. vicente pedroso. como essa montagem feita pela madras se pretende muito ishperta, preferi antes dar o quadro geral ao longo destes três últimos posts, e em seguida apresentar os comparativos contra o pano de fundo mais completo. 

imagens: flavio josefo, carrossel

25 de nov. de 2009

flávio josefo, história dos hebreus

no post anterior comentei a existência de duas coletâneas de textos de flávio josefo de seleta praticamente idêntica. a primeira é a da edameris, 1974, e a segunda da madras, 2004. esta última traz alguns excertos a mais em relação à primeira. mas, antes de comentá-las, cabem algumas informações.

flávio josefo  legou os seguintes textos à posteridade: resposta a ápio (ou contra ápio), guerras judaicas, antiguidades judaicas, autobiografia (ou a vida de flávio josefo escrita por ele mesmo) e ainda o martírio dos macabeus.

pe. vicente pedroso traduziu a obra completa de flávio josefo. para fins de publicação, o tradutor acrescentou ao final da obra o relato de fílon. esse corpo de textos recebeu o título geral de história dos hebreus e foi publicado pela edameris em 1956, numa edição ilustrada de dois tomos em nove volumes. foi esta edição de 1956 que serviu de base para a seleta que a edameris organizou e publicou em 1974.












a edameris encerrou suas atividades no final dos anos 70, começo dos anos 80.

sua alentada história dos hebreus voltou a ser publicada em 1990, pela casa publicadora das assembleias de deus (CPAD), numa edição condensada em três volumes, e em 2000 num volume só.

a partir de 2001, a CPAD volta a publicar a obra completa de flávio josefo em sua íntegra, com o monumental trabalho de tradução devidamente creditado a vicente pedroso. há algumas alterações, substituindo, por exemplo, "sacrificador" e "grão-sacrificador" por "sacerdote" e "sumo sacerdote", e outras modificações de pequena monta, naturais num trabalho de revisão. a imprenta destaca que as citações bíblicas foram revistas de acordo com a versão almeida de 1995. as guerras judaicas e as antiguidades judaicas trazem seus parágrafos numerados, e os demais textos (autobiografia, resposta a ápio, martírio dos macabeus e relato de fílon) seguem apenas as divisões em livros e capítulos. 

esta edição integral da CPAD está disponível para download em vários sites evangélicos e laicos, por exemplo aqui.




imagens: estantevirtual e google

24 de nov. de 2009

flávio josefo, seleções


em 1974, a extinta editora das américas, também conhecida como edameris, publicou um volume chamado seleções de flávio josefo.

é uma seleta composta a partir da celebrada tradução brasileira feita pelo pe. vicente pedroso, publicada pela mesma edameris em 1956. como comentei num post anterior, flávio josefo escreveu sua obra em aramaico e no grego koiné da época helenística. a tradução de pe. vicente pedroso, de alto grau de erudição, segue as edições gregas e latinas.

devido à imensidão da história dos hebreus, nome genérico que a edameris deu à publicação das obras de josefo em português, essas criteriosas seleções de 1974 são extremamente úteis. elas trazem a íntegra da autobiografia de josefo e de sua resposta a ápio, e excertos das antiguidades judaicas e das guerras judaicas.

em seleções de flavius josephus, não sei por que a editora madras ou o responsável pela organização ou tradução da obra* optou pela mesmíssima seleta, acrescida de alguns excertos a mais das antiguidades judaicas. parece-me o tipo de iniciativa editorial infeliz, que apenas duplica o que já temos, mesmo que apenas em sebos e bibliotecas, e limita o horizonte dos leitores. afinal o conjunto da obra de josefo (que na edição brasileira da edameris resultou em quase três mil e quinhentas páginas), daria azo a outras seletas também significativas.

* atualização em 10/12/2009: sobre a atribuição da tradução desta obra, ver informe. atualização em 14/12/2009: ver solicitação.

este é o primeiro - e sério - reparo que eu faria a esta edição da madras. o segundo é a barbaridade informada nos dados da imprenta do livro: "Publicado originalmente em inglês sob o título The Works of Flavius Josephus".

o terceiro reparo, menor, é a violência diacrítica praticada algumas vezes em "Flávius". ou bem se deixa Flavius, ou bem se usa Flávio.

quarto reparo: não há qualquer menção sobre o trabalho de seleção dos textos. quem é o organizador dessa coletânea da madras?

quinto reparo: a nota do editor, com grande destaque na folha seguinte à do frontispício da obra, parece de uma pobreza calamitosa.

"Nota do Editor: [...] Os textos de Seleções de Flavius Josephus não seguem uma sequência cronológica e tentamos reproduzi-los de maneira fiel, atentando-nos [sic - na verdade, o atentado é contra o leitor], principalmente, ao contexto histórico dos fatos relevantes da época."

o que significa isso, ó céus? e por que não se explica qual foi, afinal, a ordem adotada, e as razões que a justificam? o restante da frase não resiste à mais superficial leitura.

impressiona também que a nota do editor se limite a apresentar josefo como alguém que "acompanhou a ascensão do império romano e participou ativamente das guerras judaicas ocorridas em meados do século I"! será irrelevante lembrar que flávio josefo foi o comandante supremo do exército da galiléia, nomeado no ano 66? e que este é o maior, o mais importante registro histórico de primeira mão sobre os tempos de calígula, nero e vespasiano, e a principal e mais extensa fonte primária de que dispomos até hoje sobre os primórdios do cristianismo, ademais considerada de grande isenção?

o reparo final, por ora, diz respeito ao índice e à distribuição dos excertos e textos ao longo do volume da madras. o leitor que está tendo seu primeiro contato com josefo não tem a menor ideia se está lendo as antiguidades judaicas, ou as guerras judaicas ou o quê. só foi informado que os textos estão fora de ordem cronológica... mesmo os dois livros, como se diz, que compõem a resposta a ápio são tratados como se fossem obras independentes, ou meros capítulos na sequência da destruição de jerusalém. um primarismo imperdoável.

ah, em tempo! na capa consta "seleções de flavius josephus - histórias dos hebreus". muito que bem que a edameris tenha criado o título geral de história dos hebreus para enfeixar as obras de josefo. e essas histórias dos hebreus da madras, vêm a quê?
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