15 de nov. de 2009

ivo barroso - itinerários III

ESCORREGÕES

A tradução tem muito de malabarismo, ou melhor, de caminhar na corda bamba. Você se arrisca a escorregar e cair a cada passo e, mesmo que tenha conseguido chegar quase ao extremo da corda (ou do texto), o escorregão é sempre um desastre, a queda uma escoriação no seu ego. Talvez seja por isso que os tradutores temem, em especial, os falsos amigos - essas palavras que nos parecem familiares, iguaizinhas às nossas, mas que, na verdade, constituem uma tremenda casca de banana no caminho do escorregão.

Só para citar algumas muito manjadas: você vê a palavra “oso” em espanhol e – zás! – escreve “osso” em português, quando na verdade devia escrever “urso” (não se trata de um exemplo aleatório: encontrei esta na tradução de um poema feita por notório conhecedor da literatura hispano-americana); aparece em inglês “casualty”, pedindo para você traduzir por “casualidade”, mas – ledo engano! – a palavra ali tem o sentido de “vítima”, “baixa”, “morte” etc. Recentemente vi numa tradução do francês que as pessoas estavam sentadas de “tailleur”, e estranhei, pois não havia mulheres em cena; mas logo atinei com o sentido: o original devia ser “assis en tailleur”, uma expressão idiomática que significa “sentados de pernas cruzadas” (à maneira oriental – a cena se passava no Japão). Poderia continuar citando os faux amis (como as chamam em francês), ou deceptive cognates (em inglês) que abundam igualmente no italiano, língua em que você pode pensar que “un uomo sbigottito” seja um cara sem bigode, ao passo que ele está apenas assustado. O leitor interessado pode encontrar uma boa lista dessas palavras traiçoeiras no livrinho A Arte de Traduzir, de Brenno Silveira, o beabá do tradutor iniciante, que li com profunda veneração quando comecei a decifrar hieróglifos e buscava alguma base teórica em que pudesse me apoiar. Com ele aprendi o grande princípio do apostolado da tradução: a fidelidade ao texto. Mas meu propósito é outro. O que estou tentando dizer é que irremediavelmente o tradutor está sujeito a um escorregão dessa natureza e será miraculoso malabarista aquele que nunca resvalar. O grande Agenor Soares de Moura, em seu livro À Margem das Traduções, mostrou que mesmo escritores consagrados estão sujeitos a uma bobeira num momento do traduzir. Mas isto não ocorre só entre nós. Wyatt Mason, scholar norte-americano, especialista em Rimbaud, de quem traduziu a obra completa, deslizou feio num trecho das cartas do poeta de Charleville. A frase em francês era a seguinte: “Entrer à Geldessey à 10 ½. Les porteurs se mettent au courant, et il n´y a plus à souffrir qu´à la descente de Ballaoua”. Para bom entendimento, é necessário esclarecer que se trata de uma anotação feita pelo poeta, com a perna gangrenada, ao ser transportado para um distante hospital numa liteira por dezesseis carregadores que não conheciam bem o caminho. A tradução seria aproximadamente: “Chegada a Geldessey às 10 ½. Os carregadores vão se inteirar das dificuldades: não são maiores que as da descida de Ballaua”. Hyatt deu o passo em falso e traduziu: “Enter Gueldessey at 10:30. Bearers begin to run, and no suffering until the descent from Ballaoua”. Leu “se mettent au courant” (põem-se ao corrente) por “se mettent à courir” (põem-se a correr). Pobre Rimbaud, inválido e ainda vendo os seus carregadores abandonando o cargo (ou a carga)...

Eis a minha escorregadela histórica. Tive a satisfação de trabalhar com um grande, excepcional tradutor, Dr. Elias Davidovitch (que me confessou também haver alguma vez escorregado e me citava Quandoque bonus dormitat Homerus). Ele dirigia uma enciclopédia judaica e me dava verbetes para traduzir do inglês. Num deles havia um rabino tão pobre que tinha de pedir emprestado o relógio aos seus vizinhos para ir à sinagoga. Imaginei que fosse um despertador, acordando o rabino de madrugada para sua função religiosa. Dr. Elias se divertiu bastante com a minha tradução e aconselhou-me a colocá-la num quadro. “Assim você nunca mais se esquecerá!” Na verdade, o que os vizinhos emprestavam ao rabino era um casaco para abrigá-lo do frio, pois sendo muito pobre nem agasalho tinha. Eu lera “clock” em vez de “cloak”.


Arrisco-me a soar um tanto professoral, ou pior ainda, paternal. Mas estas palavras vão para aqueles tradutores primitivos, que estão à cata de seus primeiros trabalhos, mas que acham – como eu na época – que já dominam o métier. O tradutor precisa não de um casaco emprestado como o do rabino, mas exatamente de um relógio, de um mecanismo de advertência. Ler sempre com atenção, não deixar passar nunca uma palavra cujo sentido não conheça ou que não tenha checado, desconfiar de situações esdrúxulas, de frases incompreensíveis, de palavras sem sentido. Assim seu erro eventual pode se transformar nesse aparelho imprescindível ao tradutor: o desconfiômetro.#

Ivo Barroso

14 de nov. de 2009

leitura



pandaemonium germanicum, publicação a cargo do pessoal de alemão das letras da usp, é uma revista maravilhosa disponível online desde 2007.

na seção específica sobre tradução, há, por exemplo, um ótimo artigo de tinka reichmann sobre algumas goetheanas palavras aladas.




imagem: ilustração da capa

o material para a revisão da lda

o conjunto das propostas do minc para a revisão da lda está disponível para download.

quanto ao tema das obras órfãs, esgotadas e abandonadas, as linhas gerais são:

"Das licenças não voluntárias

Criação de uma licença não exclusiva e não voluntária a ser requerida ao órgão responsável pela política autoral para traduzir, reproduzir, distribuir, editar e expor obras literárias, artísticas ou científicas.
A licença deve atender aos interesses da ciência, da cultura, da educação ou do acesso à informação, nos seguintes casos:
- Quando a obra não estiver acessível em quantidade suficiente para satisfazer as necessidades do público (obra esgotada);
- Quando os titulares recusarem ou quando forem criados obstáculos não razoáveis à exploração da obra;
- Quando for obra órfã.

As licenças não voluntárias serão decididas mediante procedimento regular que atenda os imperativos do devido processo legal, observados termos e condições que assegurem adequadamente os interesses morais e patrimoniais dos autores, ponderando-se o interesse público em questão.
As licenças só poderão ser requeridas por pessoa com legítimo interesse e que tenha capacidade técnica e econômica para realizar a exploração eficiente da obra, que deverá destinar-se ao mercado nacional.
As licenças estarão obrigatoriamente sujeitas ao pagamento de remuneração justa ao titular, fixada pelo poder público.
Antes da concessão das licenças, excluindo o caso das obras órfãs, deve ser comprovado pelo requerente que a licença voluntária foi por ele solicitada junto ao titular e lhe foi denegada a outorga ou foram criados obstáculos não razoáveis para a concessão da licença.
O licenciado deverá obedecer ao prazo de início da exploração da obra.
Quando não cumpridas as condições e o objeto da licença, a mesma poderá ser revogada.
O licenciado ficará obrigado a zelar pela obra e agir em sua defesa, judicial e extrajudicialmente.
A licença não será objeto de sublicenciamento.
Fica vedada a concessão da licença nos casos em que houver conflito com o exercício dos direitos morais do autor."

o material completo está aqui. ver também o blog do congresso.

13 de nov. de 2009

blog da cosac



comenta o trabalho antiplágio.
o nãogosto agradece as referências.

imagem: head

kafka em espanhol

recapitulando: a história da difusão de kafka no brasil se depara há décadas com um ponto pouco claro. torrieri guimarães, nos idos dos anos 60, e por incumbência da extinta livraria exposição do livro (posterior hemus), verteu para o português uma grande parte da obra de kafka, por tradução indireta. nunca ficou muito claro qual teria sido a língua de interposição.

a partir de uma pista sugerida por celso donizete cruz, em relação a a metamorfose, apresentei como hipótese plausível que a língua utilizada na origem teria sido o espanhol, e que ademais não se trataria de alguma obscura edição, e sim da famosa tradução atribuída a jorge luís borges.

como assinalei em kafka borgiano, acontece que, no final das contas, nem foi borges quem a fez. o pesquisador fernando sorrentino, que em 1974 obtivera essa revelação de borges, afirma que naquela época estava interessado apenas em confirmar sua intuição de que borges não havia feito aquela tradução, e não em desvendar seu verdadeiro autor. apenas em 1997 sorrentino veio a pesquisar a origem da tradução que borges não havia feito. afinal tratava-se de uma tradução espanhola anônima, publicada em duas partes no periódico trimestral dirigido por ortega y gasset, a famosa revista de occidente, no segundo e no terceiro números de 1925 - idêntica, sem tirar nem pôr, à que passou a ser publicada pela losada argentina, atribuindo-a a jorge luis borges, desde 1938 até a data de hoje.*

* interessante notar que a alianza editorial, da espanha, publica essa mesma tradução anônima até hoje, sem jamais tê-la atribuído a jorge luis borges.

para concluir o tema do kafka supostamente borgiano, cabe lembrar que, além d'a metamorfose, tampouco um artista da fome e um artista do trapézio em espanhol foram traduzidos por borges. sorrentino estabeleceu definitivamente as origens dessas traduções:

1) “La metamorfosis”, de Franz Kafka (1ª parte), Revista de Occidente, tomo viii, abril-maio-junho de 1925, nº xxiv, pp. 273-306.

2) “La metamorfosis”, de Franz Kafka (2ª parte), Revista de Occidente, tomo ix, julho-agosto-setembro de 1925, nº xxv, pp. 33-79.

3) “Un artista del hambre”, de Franz Kafka, Revista de Occidente, tomo xvi, abril-maio-junho de 1927, nº xlvii, pp. 204-219.

4) “Un artista del trapecio”, de Franz Kafka, Revista de Occidente, tomo xxxviii, outubro-novembro-dezembro de 1932, nº cxiii, pp. 209-213.


já a identidade do verdadeiro tradutor para o espanhol continua indeterminada. uma das hipóteses, aventada pelo filho de ortega y gasset e seu sucessor na direção da revista de occidente, é que a tradução poderia ter sido feita por margarita nelken. o certo é que, "Con estas precisiones, tan fáciles de verificar, ya no será razonable seguir diciendo que Borges tradujo al español Die Verwandlung, Ein Hungerkünstler y Erstes Leid, afirmación errónea que se repite, con inmerecido éxito, desde 1938 hasta el día de hoy" (idem, ibidem).

imagem: presentimento

12 de nov. de 2009

kafka borgiano

em 1938, a editorial losada de buenos aires publicou uma coletânea de kafka, chamada la metamorfosis, com prefácio e tradução de jorge luis borges.

durante quase quarenta anos, tomou-se a tradução da novela como se de borges realmente fora.

mas, em 1974, fernando sorrentino publica Siete conversaciones con Jorge Luis Borges, onde consta o seguinte diálogo:

"F.S.: Me pareció notar en su versión de La metamorfosis, de Kafka, que usted difiere de su estilo habitual…
J.L.B.: Bueno: ello se debe al hecho de que yo no soy el autor de la traducción de ese texto. Y una prueba de ello - además de mi palabra - es que yo conozco algo de alemán, sé que la obra se titula Die Verwandlung y no Die Metamorphose, y sé que hubiera debido traducirse como La transformación. Pero, como el traductor francés* prefirió - acaso saludando desde lejos a Ovidio - La métamorphose, aquí servilmente hicimos lo mismo. Esa traducción ha de ser - me parece por algunos giros - de algún traductor español. Lo que yo sí traduje fueron los otros cuentos de Kafka que están en el mismo volumen publicado por la editorial Losada. Pero, para simplificar - quizá por razones meramente tipográficas -, se prefirió atribuirme a mí la traducción de todo el volumen, y se usó una traducción acaso anónima que andaba por ahí."
* referindo-se a vialatte, cuja tradução fora publicada pela gallimard em 1928.

em el kafkiano caso de la verwandlung que borges jamás tradujo, sorrentino comenta por que estranhara a atribuição e fizera a pergunta a borges:

"En primer lugar, la simple lectura me indicaba dos cosas: 1) la traducción no pertenecía a Borges, y 2) tampoco pertenecía a ningún traductor argentino: había una importante cantidad de rasgos que la ubicaban como perteneciente a un traductor español, y de gustos quizás un poco anticuados. Por ejemplo:

a) Uso de pronombres enclíticos: encontróse; hallábase; sentíase; infundióle; díjose.
b) Uso de léxico o de giros no argentinos: aparecía como de ordinario; una estampa ha poco recortada; Mas era esto algo de todo punto irrealizable; Y entonces, sí que me redondeo; Eran las seis y media, y las manecillas seguían avanzando; concentró toda su energía y, sin pararse en barras, se arrastró hacia adelante.
c) Uso del pronombre le como objeto directo (leísmo): un dolor […] comenzó a aquejarle en el costado; Estos madrugones le entontecen a uno por completo; Celebro verle a usted, señor principal; motivo suficiente para despedirle sin demora; harto mejor que molestarle con llantos y discursos era dejarle en paz.

[...]Cuando, unos pocos años más tarde, tuve la inolvidable experiencia de realizar el libro de entrevistas Siete conversaciones con Jorge Luis Borges, no quise, desde luego, desaprovechar la oportunidad de interrogarlo sobre este punto."

ainda em 1983, borges declara um tanto ambiguamente: “Yo traduje el libro de cuentos cuyo primer título es La transformación, y nunca supe por qué a todos se les dio por ponerle La metamorfosis. Es un disparate. Yo no sé a quién se le ocurrió traducir así esa palabra del más sencillo alemán”; "El editor insistió en dejarla así porque ya se había hecho famosa y se la vinculaba a Kafka" (Jorge Luis Borges, entrevista a El País de Madri, publicada em 30 de julho de 1983). ver, a propósito, los disparates de kafka, de ezequiel martínez.

a revelação de borges a sorrentino, porém, levou mais de vinte anos para começar a se firmar solidamente. apenas com as posteriores reedições de siete conversaciones e acesos debates entre pesquisadores é que a situação começou a se alterar e o público começou a digerir o fato de que jorge luis borges não traduziu la metamorfosis de kafka.

de onde viera ou quem teria sido o autor de tal tradução, será tema de outro post.


diga-se de passagem que a losada continua a publicá-la até hoje em nome de jorge luis borges.


11 de nov. de 2009

III Congresso - revisão da lda

o III congresso de direito de autor e interesse público, para a revisão da lei de direitos autorais, foi realizado nos dias 09 e 10 de novembro. nesta ocasião, o ministério da cultura apresentou suas propostas de forma parcelada, distribuídas aos congressistas sob a forma de sugestões a ser aplicadas aos segmentos correspondentes dentro dos vários tópicos da lei 9610/98. foi distribuída a todos os participantes uma brochura contendo um resumo com as linhas gerais das alterações propostas pelo minc, que foram abordadas em doze painéis. não houve a apresentação de nenhum documento geral com o conjunto das propostas.

em relação a obras esgotadas, órfãs e abandonadas, a proposta do ministério foi apresentada no painel VII, "obras sob encomenda - licenças não-voluntárias".

o resumo distribuído pelo ministério traz a respeito deste tema:

"Sugerimos a criação de um capítulo exclusivo para as licenças não-voluntárias que deverão ser requeridas ao órgão responsável pela política autoral. A concessão de tais licenças, que dependerá da verificação de uma série de circunstâncias e do cumprimento de determinadas etapas, poderá servir como solução para trazer ao mercado obras que estão esgotadas, que caem no esquecimento pelo desinteresse conjunto de herdeiros e titulares derivados ou ainda para o caso das obras órfãs. Sempre haverá o estabelecimento de compensação pela concessão da licença."

os congressistas que debateram este painel foram a dra. lilian de melo silveira, o dr. denis borges barbosa e o dr. wilson jabur.

o ministério da cultura propôs o prazo de 5 (cinco) anos fora de circulação para a possibilidade de concessão de tais licenças. não houve o detalhamento da proposta.

a proposta de licenciamento de obras de tradução esgotadas foi distribuída a todos os participantes e congressistas. entendo que ela se subsume à proposta mais geral do governo para "licenças não-voluntárias". esta requer maior detalhamento e aprofundamento, e necessariamente deverá ser objeto de discussões ulteriores.

a partir das contribuições das mesas, o ministério agora procederá à elaboração de um anteprojeto para a revisão da LDA. a seguir, este anteprojeto será apresentado à sociedade e entrará em fase de consulta pública durante 45 dias. após a consulta pública, será elaborado o projeto de lei que então será submetido ao congresso.

dentro de poucos dias, a comissão organizadora do congresso disponibilizará as propostas do ministério e as contribuições dos painelistas em http://www.direitoautoral.ufsc.br/ e http://www.congressodedireitodeautor.blogspot.com/

kafka no brasil III - inglês, francês, espanhol...

outra preciosidade no estudo de celso donizete cruz sobre as várias edições d'a metamorfose de kafka no brasil é a trajetória da tradução de torrieri guimarães.

a metamorfose torrieriana tem uma história movimentada, que começa em 1965 na livraria exposição do livro, a qual poucos anos depois se tornaria a hemus, onde prossegue a referida obra, em inúmeras edições. essa tradução de torrieri sai também pelo clube do livro, pela publifolha e em duas coleções da ediouro, a "clássicos de ouro" e a "biblioteca de babel", para finalmente desembocar na martin claret, aqui porém atribuída ora à sua "equipe de tradutores", ora a "pietro nassetti".

torrieri guimarães nunca pretendeu tê-la traduzido do alemão. tenho nítida lembrança, mas não a cópia, de um depoimento seu, muitos e muitos anos atrás, dizendo que havia feito a tradução a partir do inglês. vejo confirmada essa lembrança em rápidas alusões de josé pedro antunes e euler de frança belém.

mas, numa entrevista dada em 2003 ao pesquisador eduardo manoel de brito, torrieri afirma que utilizou uma versão francesa. toda a história é meio engraçada: eli behar, dono da livraria exposição do livro [futura hemus], teria conhecido pessoalmente max brod em israel, e teria negociado diretamente com ele os direitos de tradução da obra de kafka no brasil. brod os teria cedido a título de cortesia a behar, e assim teria se iniciado o intenso contato de torrieri guimarães com os textos de kafka,"visto ser ele [torrieri] quem estava à frente do projeto formal de traduzir toda a obra de Kafka para o português do Brasil pela editora Livraria Exposição do Livro" (pp. 125-6). eli behar então teria fornecido os exemplares em francês a torrieri - o qual, porém, não lembra pormenores a respeito deles -, para fazer sua tradução (p. 160).

bem, a impressão que eu tenho, à primeira vista, é que sua fonte não foi o inglês nem o francês... o que me parece é que torrieri guimarães teria usado para sua tradução uma versão publicada na argentina, a qual por sua vez é toda uma novela à parte, que deixarei para um próximo post. concentremo-nos por ora na misteriosa origem das traduções de kafka feitas por torrieri guimarães. vejamos, pois:

Quando, certa manhã, Gregório Samsa despertou, depois de um sono intranquilo, achou-se em sua cama convertido em um monstruoso inseto. Achava-se deitado sobre a dura carapaça de suas costas, e, ao erguer um pouco a cabeça, viu a figura convexa de seu ventre escuro, sulcado por pronunciadas ondulações, cuja proeminência a colcha mal podia aguentar, que estava visivelmente a ponto de escorrer até o solo. Inúmeras patas, lamentavelmente esquálidas em comparação com a grossura comum de suas pernas, ofereciam a seus olhos o espetáculo de uma agitação sem consistência. - torrieri guimarães

celso cruz tinha chamado a atenção para a oração "ofereciam a seus olhos o espetáculo de uma agitação sem consistência", totalmente ausente do original e de todas as traduções consultadas, e que "permanece inexplicável, derivada talvez de um arroubo de criatividade do tradutor" (p. 201). mas veio-lhe a cair em mãos uma versão peruana, sem data, sem créditos, que lhe pareceu muito similar à de torrieri guimarães, inclusive com a mesma bizarra passagem.*

* o pesquisador teve a cautela de alertar que "a notável semelhança, contudo, não quer dizer que a tradução peruana seja a verdadeira fonte da tradução de torrieri. Pode até ter se dado o contrário, a primeira ter sido feita com base na segunda" (id.).

Ao despertar Gregorio Samsa una mañana, tras un sueño intranquilo, encontróse en su cama convertido en un monstruoso insecto. Hallábase echado sobre el duro carapazón de su espalda y, al alzar un poco la cabeza, vio la figura convexa de su vientre oscuro, surcado por curvadas callosidades, cuya prominencia apenas si podía aguantar la colcha, que estaba visiblemente a punto de escurrirse hacia el suelo. Innumerables patas, lamentablemente escuálidas en comparación con el grosor ordinario de sus piernas, ofrecían a sus ojos el espectáculo de una agitación sin consistencia.

ora, esta é a tradução que a editorial losada vem publicando ininterruptamente desde 1938, em nome de jorge luis borges!

achei tão divertida a história que encomendei um exemplar da losada para um cotejo completo. em todo caso, eu não acharia inteiramente descabido aventar a hipótese provisória de que torrieri guimarães teria utilizado pura e simplesmente a edição portenha da losada, com a tradução atribuída a borges.*

* é com esta edição de 1938 que a losada inaugura sua famosa coleção "la pajarita de papel".

a novela que mencionei acima é que borges, por sua vez, nega ter feito essa tradução. será tema de um próximo post.



à esquerda, a edição de la metamorfosis de 1943. não encontrei imagem de capa da edição de 1938, mas achei o logo da pajarita de papel tão bonitinho que pus à direita um outro volume da coleção, também de 1938.








10 de nov. de 2009

O que está sendo falado no congresso

Já está disponível no blog do III Congresso de Direito de Autor e Interesse Público o material dos painéis apresentados ontem, dia 9/11.

E o livreto com a programação e os eixos temáticos está aqui.

Joana Canêdo

ABRATES


Há muito tempo algumas editoras vêm praticando uma apropriação indébita dos direitos autorais de tradutores - não apenas da remuneração, mas sim do direito moral até, que por lei é inalienável. A partir da tradução de um livro esgotado publicam uma "tradução" nova de Fulano de Tal, totalmente isenta de direitos autorais...

A professora e tradutora Denise Bottmann conduz há alguns anos uma luta incessante contra essa prática, e tem conseguido se fazer ouvir pelas autoridades do Ministério da Cultura. Nos dias 9 e 10 de novembro ela estará em um evento do MinC em São Paulo, defendendo suas propostas.

A ABRATES dá pleno apoio às iniciativas de Denise Bottmann. Para conhecer melhor, ou para adesão, visite http://naogostodeplagio.blogspot.com/

9 de nov. de 2009

release do minc

III Congresso sobre Direito de Autor e Interesse Público debate propostas para atualização da legislação


O III Congresso sobre Direito de Autor e Interesse Público constitui-se em mais uma etapa nas discussões sobre a revisão da Lei de Direito Autoral (Lei 9.610/98) e dará continuidade à sequência de eventos que teve a finalidade de contribuir para o aperfeiçoamento da situação dos Direitos Autorais no Brasil. Esse processo foi deflagrado em 2005, a partir de uma demanda da I Conferência Nacional de Cultura, que nas suas resoluções finais propôs a promoção de debates públicos sobre o Direito Autoral e uma postura mais ativa do Estado na formulação de políticas públicas para o setor. Em dezembro de 2007, o Ministério da Cultura (MinC) lançou o Fórum Nacional de Direitos Autorais, com o objetivo de discutir com a sociedade a legislação existente e o papel do Estado nessa área e subsidiar a formulação da política autoral.

Os debates ocorreram em eventos realizados pelo MinC, entre eles um seminário internacional e quatro nacionais, ou por instituições parceiras. Além disso, o MinC promoveu reuniões setoriais com diversos grupos de interesses (autores de cinema, setor livreiro, representantes da área musical etc.) para discutir o tema. A partir desses debates, foram reunidos todos os pontos que se destacaram, tendo se evidenciado a necessidade de implementação de políticas setoriais que corrijam os desequilíbrios presentes no campo da cultura, no que tange os direitos autorais.

O Ministério da Cultura conta, desde julho deste ano, com uma Diretoria de Direitos Intelectuais que vem ampliando a capacidade do Estado para atuar no campo autoral por meio de programas e políticas setoriais. No entanto, uma atuação efetiva do Estado no processo de regulação, só será possível por meio de alterações no atual marco legal. A opção tomada foi a de fazer uma revisão na Lei 9610/98, sem realizar modificações estruturais em seu corpo.

Durante o evento será apresentado pelo MinC um documento contendo o diagnóstico das propostas discutidas durante o Fórum Nacional de Direito Autoral que irá subsidiar o debate. As propostas surgidas nesse III Congresso sobre Direito de Autor e Interesse Público complementarão a construção de um anteprojeto de Lei que será apresentado à sociedade, que então terá uma nova oportunidade de se manifestar por meio de consulta pública.

O evento, que terá transmissão pela internet, é uma realização do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por intermédio de seu Curso de Pós-Graduação em Direito (CPGD), e tem o apoio do Ministério da Cultura – MinC - e da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo.

A programação e outras informações estão no link http://www.direitoautoral.ufsc.br/

A transmissão pela internet poderá ser acessada pelo endereço www.cultura.gov.br/direito_autoral

8 de nov. de 2009

ivo barroso - itinerários II



Para voltar ao mencionado caderno do escoteiro, datado de 1947, dali copio a primeira versão do Soneto XXIX, de William Shakespeare, tentada em alexandrinos:

Quando, longe da vista humana e da fortuna,
Choro, triste e sozinho, ao ver-me desterrado,
E o surdo céu meu pranto inútil importuna,
Eu olho para mim a maldizer meu fado,

Querendo ser alguém mais rico de esperança,
Parecer com esse alguém, ter amigos serenos,
Desejando-lhe a sorte, os intentos que alcança,
E, do que mais aspiro, estar contente, ao menos;

Ainda, nesse pensar, quase me desprezando,
Recordo-me de vós, retorna-me a alegria
E ponho-me feliz, como a calhandra, entoando

Hinos ao claro céu, cá da terra sombria;
Pois só de em vós pensar, tão rico me fazeis
Que o meu destino, então, não dou pelo de reis.

Vali-me de uma ou outra solução dessa antiga ousadia para reelaborar o soneto em decassílabos:

Se, órfão do olhar humano e da fortuna,
Choro na solidão meu pobre estado
E o céu meu pranto inútil importuna,
Eu entro em mim a maldizer meu fado;

Sonho-me alguém mais rico de esperança,
Quero feições e amigos mais amenos,
Deste o pendor, a meta que outro alcança,
Do que mais amo contentado o menos.

Mas, se nesse pensar, que me magoa,
De ti me lembro acaso – o meu destino,
Qual cotovia na alvorada entoa

Da negra terra aos longes céus um hino.
E na riqueza desse amor que evoco,
Já minha sorte com a dos reis não troco.

Nos anos '50 já devia ter uns quatro ou cinco prontos, com os quais obtive uma espécie de passe livre nas páginas do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, sob a égide de Mário Faustino e Reynaldo Jardim. Entre esses quatro, recordo-me que estava o LXXI ("Não lamentes por mim quando eu morrer"), que me granjeou a simpatia de Manuel Bandeira.

A fase de trabalhos sistemáticos, no sentido de traduzir um considerável número de sonetos, só ocorreu na Holanda, nos anos 1968/70, onde me deparei, pela primeira vez, com a coleção completa dos 154, numa edição bilíngüe (inglês/neerlandês), traduzidos por W. van Elden, que a minha timidez não me impediu no entanto de conhecer. Foi com a tradução de seu prefácio que passei a ter consciência das dificuldades a que se expunha, em qualquer língua, quem intentasse traduzir os sonetos shakespearianos querendo manter-lhes o ritmo, os jogos de palavras, as polissemias e duplos sentidos, o vocabulário ora erudito ora popular, a riqueza de ambientes, cores, tons, sem falar nas metáforas peculiares e nos recursos formais que funcionam como elementos gestálticos. Diz van Elden: “Shakespeare conseguiu extrair da forma soneto tudo o que ela poderia dar. Por meio de infinitas variações métricas e do uso de todos os recursos poéticos, como aliteração, rimas internas, antíteses, repetições e trocadilhos, logrou um resultado quase inatingível. E tudo isso com tal facilidade e naturalidade que os recursos técnicos podem até passar despercebidos a quem não procurá-los expressamente”. O clima neerlandês terá certamente contribuído para a obsessão de “trabalhar” a tradução dos sonetos até conseguir preservar a maior parte possível de seus elementos, a manutenção da ordem das proposições, os recursos estilísticos, sem abrir mão de seu trânsito poético pelo território da língua portuguesa. Outro caderno, já dessa época, na verdade um bloco de notas (100 vel prima houtvrij schrijfpapier met lijnen), atesta a quantidade absurda de tentativas de transposição de um único verso, como o inicial do soneto I (From the fairest creatures we desire increase) com suas duas aliterações sucessivas (em fr e em cre) até chegar ao equivalente "Dos seres ímpares ansiamos prole" (se/si e pa/pro), pois ora se obtinha a aliteração mas havia a discrepância da rima, ora aquela não se encaixava na métrica, sem falar na recusa permanente aos circunlóquios ou transposições.

Da Holanda trouxe 24 sonetos que, revistos, foram editados pela Nova Fronteira num livro de luxo destinado a bibliófilos, em 1973. Numa segunda estadia na Europa, dessa vez com passagem pela Inglaterra, a obsessão continuou, acrescida então de bom número de instrumentos críticos, com o intento de se elevar o número de peças traduzidas para 30 com vistas a uma edição comercial que veio à luz em 1991. A essa altura, já havia o convívio com edições integrais de renome, como a Oxford (ed. W. J. Craig) e a Pelican (ed. Douglas Bush) e a frequentação de autores fundamentais como Stephan Booth, W. G. Ingram e Theodore Redpath, John Dover Wilson, Kenneth Muir, Robert Giroux e A. L. Rowse, com suas notas e comentários elucidativos, além de estabelecimentos de texto. O precioso livrinho Shakespeare´s Wordplay, de M. M. Manhood, mostrava as intenções ocultas e as sutilezas verbais que certamente escapariam sem a sua ajuda. E da joia rara, aquela cujas notas representavam uma espécie de bíblia-guia dos Sonetos – procurada em todos os grandes alfarrabistas de livros raros por onde andei – A New Variorum Edition – e que só fui conseguir em cópia xerográfica na Biblioteca Real de Estocolmo nos fins dos anos '80. Houve também a obsessão de examinar o maior número possível de traduções, principalmente as francesas, a partir da de François Victor Hugo, que já conhecia desde o Brasil. Mas a França me reservou uma grande decepção na pessoa de Henri Meschonnic, incensado professor da Sorbonne, com seu livro Poétique du traduire (Verdier, 1999), em que arrola e critica impiedosamente oito traduções francesas do soneto XXVII ("Weare with toil, I haste me to my bed"), num período que vai de 1887 a 1992. Depois de detonar todos os seus antecessores, Meschonnic apresenta a sua versão, que, longe de ser perfeita, nada tem de poética, além de passar voando por sobre o magnífico jogo de palavras do 4° verso, em que Shakespeare brinca com as nuances de work como verbo e como substantivo (To work my mind, when body´s work expired). Nem sempre o conhecimento teórico assegura a realização poética...

Ivo Barroso


7 de nov. de 2009

leitura papal

essa achei um luxo só!


stuart schwartz, cada um na sua lei - tolerância religiosa e salvação no mundo atlântico ibérico, trad. denise bottmann. 2009, cia. das letras / edusc.

leitura




a zunái, além de ensaios, artigos, poemas maravilhosos, tem uma seção chamada torre de babel, dedicada à tradução. veja aqui o índice completo.

6 de nov. de 2009

por que 20 anos

o prazo de 20 anos, que muitos têm julgado longo demais, proposto para o licenciamento de obras de tradução para reprodução em formato livro e pelo circuito tradicional de publicação e distribuição, leva em conta os seguintes aspectos:

I. por que tanto tempo:
- para a sociedade, haveria antes disso a possibilidade de acesso a tais obras por meio de cópias reprográficas ou digitais em condições e prazos (bem mais curtos) a ser estabelecidos pelo estado na reformulação da LDA, atendendo ao uso privado, de ensino, pesquisa e inclusão em acervos públicos;
- para os autores das obras de tradução, seria um prazo suficiente para propor a republicação de suas obras de tradução seja junto às editoras com direitos exclusivos, seja, em caso de cessão temporária e/ou licença temporária e não exclusiva, a outras editoras;
- para o setor editorial com a titularidade dos direitos, garantiria segurança e estabilidade em relação a títulos não mais rentáveis comercialmente, com decurso de tempo suficiente para não afetar suas estratégias empresariais de médio e longo prazo.

II. por que tão pouco tempo:
-  para a sociedade, mesmo que, do ponto de vista histórico, 20 anos não seja um prazo muito longo para a constituição e enriquecimento de seu acervo de bens culturais, é fundamental ter acesso não apenas à reprodução xerográfica ou digital, e sim ao formato livro novamente disponível nos circuitos de circulação ativa;
- para os autores das obras de tradução que não quiseram ou não puderam obter sua republicação, é uma garantia de terem seus direitos respeitados em novas edições sob esse "licenciamento social";
- para o setor editorial e livreiro como um todo, seria um fomento a suas atividades, podendo manter em circulação um constante acervo ativo de obras traduzidas, respeitadas as condições especificadas na proposta.
deu no blog do galeno:

Licenciamento de obras esgotadas

Postado por Galeno Amorim - 05/11/2009

Corre no mundo do livro um debate interessante sobre o licenciamento de obras de tradução esgotadas. A proposta será apresentada como contribuição às discussões para a reforma da lei do direito autoral na segunda-feira, dia 9/11. Quem quiser conhecer ou mesmo aderir à proposta, ela está em http://naogostodeplagio.blogspot.com/2009/11/proposta-para-reforma-da-lda.html.

agradeço a ele e a todos os blogs e sites que estão divulgando a proposta: jane austen em portuguêsa grenha, livros e afinsflanela paulistana7 razões, vermelho carne, meia palavra, tradutoria, abrates

Bom fim de semana!


Eric Nepomuceno falará sobre traduzir Gabriel Garcia Marquez no próximo encontro do ciclo Tertúlia Tradutores (" encontros em que importantes tradutores da língua portuguesa ... discorrerão acerca de obras clássicas que traduziram, a curiosa vida dos escritores imortais e sobre o desafiador ofício da tradução"), evento idealizado por Tiago Novaes.
Este domigo, 8/11, 18h, na choperia do SESC Pompéia.

Joana Canêdo

imagem: art.com
Ministério da Cultura reforça debate em torno de lei que trata dos direitos autorais e interesse público

5 de nov. de 2009

mais uma vez recomendo vivamente o livro direitos autorais, de pedro paranaguá e sérgio branco, pela editora da fgv. também disponível para baixar aqui.

acréscimos



para fins de maior clareza do texto, julguei conveniente fazer três acréscimos ao texto original da proposta para o licenciamento de obras de tradução esgotadas.

espero que as pessoas que estão dando seu apoio não julguem tais cuidados descabidos. agradeço a todos que enviaram sugestões, e em especial a dr. marco túlio de barros e castro e dr. petrus barretto, advogados autoralistas que gentilmente avaliaram o texto de um ponto de vista jurídico. em negrito, os acréscimos.

LICENCIAMENTO DE OBRAS DE TRADUÇÃO ESGOTADAS

Os plágios de tradução de grandes obras da literatura e do pensamento universal constituem uma negra mancha na história do livro no Brasil. O recurso a tal prática teve um grande impulso sobretudo a partir de 1998. A principal característica comum à grande maioria de tais ilícitos é o uso fraudado de traduções antigas, geralmente esgotadas e que ainda não entraram em domínio público.

Por um lado, uma grande e necessária retificação da atual lei 9.610/98 seria a autorização para o licenciamento em curto prazo de obras esgotadas para reprodução sem fins comerciais, sob a forma de reprografia e digitalização para uso privado, para o ensino e para os acervos de bibliotecas públicas.

Por outro lado, cremos que, além desta flexibilização que atende ao premente direito social de acesso a obras esgotadas e abandonadas, seria da máxima importância prever igualmente um dispositivo legal autorizando a livre reprodução dessas obras de tradução também em formato de livro, sempre respeitados os direitos inalienáveis de seus autores e a cadeia dos direitos prévios eventualmente vigentes.

Assim, sugerimos que, decorridos 20 (vinte) anos após a última edição da obra, ela possa ser novamente disponibilizada à sociedade como livro impresso, pelos circuitos tradicionais de publicação e distribuição.

Tal proposta não fere as regras dos tratados internacionais sobre propriedade intelectual e está em consonância com as condições previstas no Anexo da Convenção de Berna, pois se trata de caso especial, que não conflita com a exploração normal e tampouco prejudica os interesses legítimos do titular.

Cremos que todos terão a ganhar: os cidadãos leitores que poderão dispor de obras até então esgotadas, seus autores assim resgatados do esquecimento, os editores que poderão publicar tais obras e os livreiros que poderão fazê-las chegar aos leitores.

Toda a sociedade poderá assim ter garantias de preservar ativamente sua memória cultural, permitindo a sobrevivência íntegra de importantes obras de tradução que compõem nossa história.

4 de nov. de 2009

quero ler livros legais

têm sido enviadas diversas considerações sobre o textinho de proposta de licenciamento de obras de tradução esgotadas. o nãogosto agradece a todos os que têm levantado vários aspectos importantes.

gostaria de esclarecer algumas questões:

I. desde o século XIX, por força de convenção jurídica internacional e por legislação nacional, tradutor é autor. portanto, na proposta específica de licenciamento de obras de tradução esgotadas, quando se fala em "autor" entenda-se "o autor da obra de tradução objeto da presente proposta".

II. outro aspecto a ser frisado é que essa proposta pressupõe a existência de um ordenamento jurídico amplo, dentro do qual ela visa a um ponto muito específico. isso significa que o tipo de licenciamento proposto não pode contrariar dispositivos legais mais gerais, enquadrando-se dentro deles apenas como um subtipo particular.

a título comparativo, apresento dois exemplos bem concretos:*

- o rei édipo traduzido por j.b. de mello e souza, p.ex., publicado pela jackson nos anos 50, segundo a proposta, deveria poder ser liberado para edição em formato livro, por ser obra fora de circulação há décadas, e além do mais abandonada pelo encerramento de atividades da editora detentora dos direitos de tradução. os eventuais sucessores de mello e souza deveriam ser consultados para autorizar a republicação dessa obra esgotada. em caso de busca diligente infrutífera, sem localizar os eventuais herdeiros, valeria automaticamente o princípio de atendimento aos interesses da sociedade, sempre respeitados os direitos morais de mello e souza sobre sua tradução. não haveria necessidade de buscar herdeiros de sófocles, por se tratar de obra em domínio público.

isso significa que qualquer editora poderia publicá-la, sem querer impingir à sociedade adulterações e plágios grotescos, que atentam contra a boa-fé dos leitores, saqueiam nosso patrimônio cultural, criam práticas predatórias de concorrência desleal e assim por diante.

- já o caso, por exemplo, de a vida secreta de laszlo, conde drácula, de roderick anscombe, é muito diferente: trata-se de um autor vivo, com seus direitos patrimoniais protegidos por seu agente ou cedidos à editora que o publicou originalmente. mesmo que sua tradução brasileira estivesse fora de circulação há mais de 20 anos, ela não poderia ser objeto do licenciamento social proposto, visto que os direitos sobre a obra original, inclusive o próprio direito de tradução, encontram-se em plena vigência.

* ambas foram objeto do crime de plágio em editoras brasileiras, respectivamente pela editora martin claret e pela jardim dos livros (selo do grupo geração). vide os cotejos neste blog. 

III. um livro escrito em língua estrangeira e traduzido para o português do brasil nem sempre se resume, ao ser editado, à obra de tradução ali impressa - é o caso, por exemplo, de obras de história da arte, de arte e arquitetura com alto grau de elaboração editorial e conteúdo de imagens com seus próprios direitos a ser preservados. além da cadeia anterior de direitos vigentes, podem existir direitos correlatos ou simultâneos aos da tradução. a proposta de licenciamento aqui apresentada se restringe exclusivamente a obras de tradução não editadas há mais de 20 anos.

é certo que existem vários aspectos sociais que não cabem numa proposta sintética, a ser apresentada a especialistas da área autoral, e incontáveis meandros jurídicos que escapam à minha competência.

mas a questão, no fundo, é simples: como leitora, quero poder ir à livraria e comprar, p. ex., suave é a noite na tradução de lygia junqueira ou a abadia de northanger por lêdo ivo. como cidadã, quero que o ordenamento jurídico da nação possibilite esse meu acesso a elas. só isso.

Satíricon III

Satyricon de Fellini, por Milo ManaraComparando as edições do Satíricon que eu tinha em mãos, pudemos perceber  que o texto da edição da Martin Claret, assinado por Alex Marins, é estranhamente semelhante à tradução de Marcos Santarrita. Vejamos mais alguns exemplos, comparando agora apenas esses dois  textos (em vermelho o que mudou de uma para outra) e o de Cláudio Aquati, para se ter uma referência sobre como traduções podem ser diferentes, bem diferentes! É verdade que o original de Marcos Santarrita é a partir de uma tradução francesa, e o de Cláudio Aquati é direto do latin - o que pode trazer algumas variações curiosas.

Trecho I

Marcos Santarrita (1970, p. 4)

O gênio é filho da frugalidade.
Tu, cujo orgulho aspira à imortalidade,
Deves fugir de lautos banquetes, de luxos pérfidos.
Os vapores de Baco ofuscam a razão,
E a rígida virtude, diante do vício feliz,
Teme inclinar a cabeça.

Ninguém deve te ver sentado num teatro,
Coroado com flores vergonhosas, a misturar
– Aos aplausos de uma multidão idólatra –
clamores indecentes e vazios.

A honra te chama a Nápoles ou a Atenas:
Lá chegando, teu primeiro incenso deve ser para Apolo.
Dedicando-te aos versos,
Deves beber abundantemente na fonte de Homero.
Levado a Sócrates pela sabedoria,
Deves empunhar as armas do altivo Demóstenes.


Alex Marins (2001, p. 18)

O gênio é filho da frugalidade.
Tu, cujo orgulho aspira à imortalidade,
Deves fugir de lautos banquetes, de luxos pérfidos.
Os vapores de Baco ofuscam a razão,
E a rígida virtude, diante do vício feliz,
Teme inclinar a cabeça.

Ninguém deve te ver sentado em um teatro,
Coroado com flores vergonhosas, a misturar
Aos aplausos de uma multidão idólatra
clamores indecentes e vazios.

A honra te chama a Nápoles ou a Atenas.
Lá chegando, teu primeiro incenso deve ser para Apolo.
Dedicando-te aos versos,
Deves beber abundantemente na fonte de Homero.
Levado a Sócrates pela sabedoria,
Deves empunhar as armas do altivo Demóstenes.


Cláudio Aquati (2008, p. 16)

Se alguém deseja realizar a arte com seriedade
E aplica sua mente a causas importantes,
Primeiro, com o maior rigor, habitue-se à moderação
Não aspire a um palácio perverso, embora nobre na fachada;
Não procures, como simples cliente,
Obteres jantares junto aos poderosos;
Não afogue no vinho, entregue a costumes desregrados,
A chama de seu talento;
Nem, pago para aplaudir, sente-se no teatro
Como um apaixonado pela carreira teatral.
Mas, quer a ele sorria a cidadela da guerreira Tritônia,
Quer a terra habitada pelo colono lacedemônio
E a mansão das sereias, (2)
Que ele consagre à poesia os anos de sua juventude
E, de coração afortunado, beba junto à fonte meônia. (3)
Depois, saciado do círculo socrático,
Ponhas-se a caminho, livre,
E maneje as armas no grande Demóstenes.

(2) Cidades do sul da Itália: a guerreira de Tritônia é Túrio; a terra habitada pelo colono lacedemônio é Tarento, a mansão das sereias é Nápoles.
(3) Os poemas homéricos.

Trecho II

Marcos Santarrita (1970, p. 116)
CI
Essas palavras caíram como um raio sobre mim. Senti estremecer-me todos os membros e, apresentando minha garganta descoberta, exclamei:
– Ó Destino, está acabado! Venceste!
Gitão havia desmaiado há algum tempo, e caíra sobre mim. Por fim, quando uma suadeira abundante nos fez retornar aos nossos sentidos, eu me agarrei aos joelhos de Eumolpo, suplicando-lhe:
– Tem piedade de dois agonizantes. Em nome deste garoto, nosso amor comum, livra-nos da vida. A morte está diante de nós e, se não opuseres nenhum obstáculo, nós a receberemos como um benefício dos céus!

Alex Marins (2001, p. 116)
CI
Essas palavras caíram como um raio sobre mim. Senti estremecer-me todos os membros e, apresentando minha garganta descoberta, exclamei:
– Ó Destino, está acabado! Venceste!
Gitão havia desmaiado há algum tempo e caíra sobre mim. Por fim, quando uma suadeira abundante nos fez retornar aos nossos sentidos, eu me agarrei aos joelhos de Eumolpo, suplicando-lhe:
– Tem piedade de dois moribundos. Em nome deste garoto, nosso amor comum, livra-nos da vida. A morte está diante de nós e, se não opuseres nenhum obstáculo, nós a receberemos como um benefício dos céus!

Cláudio Aquati (2008, p. 16)
[101.] Atônito depois desse cataclismo, estremeci e, o pescoço a descoberto, disse:
– Enfim, ó Destino, venceste-me de uma vez por todas!
Gitão, que se aninhara no meu peito, conteve a respiração durante muito tempo. Depois, quando nosso próprio suor nos reanimou, atirei-me aos pés de Eumolpo, dizendo:
– Tenha piedade destes moribundos, e, em nome da mesma inclinação para os estudos que nos une, ponha um fim nisso tudo com tua própria mão. A morte se avizinha: se por teu intermédio ela não for admissível, será contudo para nós uma dádiva.

Trecho III
Marcos Santarrita (1970, p. 11)
Cedi finalmente ao impulso do amor, e eis o que decidimos: Licurgo conservaria Ascilto consigo (seu antigo amor por ele renascera), e eu e e Gitão iríamos com Licas. Ascilto e eu combinamos, por outro lado, que os lucros obtidos por cada um, na ocasião, pertenceriam de direito ao patrimônio comum. Encantado com aquele arranjo, Licas apressou a nossa partida. Despedimo-nos dos amigos e, no mesmo dia, chegamos à sua casa. Ele tomara tão bem suas providências que, durante a viagem, se pôs a meu lado, deixando Trifena em companhia de Gitão.

Alex Marins (2001, p. 23-24)
Cedi finalmente ao impulso do amor, e eis o que decidimos: Licurgo conservaria Ascilto consigo (seu antigo amor por ele renascera), e eu e e Gitão iríamos com Licas. Ascilto e eu combinamos, por outro lado, que os lucros obtidos por cada um, na ocasião, pertenceriam de direito ao patrimônio comum. Encantado com aquele arranjo, Licas apressou a nossa partida. Despedimo-nos dos amigos e, no mesmo dia, chegamos à sua casa. Ele tomara tão bem suas providências que, durante a viagem, se pôs a meu lado, deixando Trifena em companhia de Gitão.

Cláudio Aquati (2008, p. 24)

Opa! Não tem nada. Só um asterisco indicando uma lacuna... Aliás, o capítulo XI da edição da Cosac Naify tem apenas algumas linhas, enquanto o mesmo capítulo XI na edição da Civilização Brasileira (e, consequentemente, da Martin Claret) tem 8 páginas!

O mistério será desvendado no próximo post, no qual se relatará uma fraude renascentista.

Imagem: Bookpalace

Joana Canêdo

3 de nov. de 2009

programação do congresso para a revisão da lda

PROGRAMA

PRIMEIRO DIA: 9 DE NOVEMBRO DE 2009

08:00 - CREDENCIAMENTO
08:45 - CERIMÔNIA DE ABERTURA

09:00 - PAINEL I - PRINCÍPIOS PARA REVISÁO DA LEI DOS DIREITOS AUTORAIS
EXPOSITOR: Prof. Dr. José de Oliveira Ascensão - UNIV. DE LISBOA
MODERADOR: Prof. Dr. Antonio Carlos Wolkmer - UFSC

10:00 - PAINEL II - DISPOSIÇÕES PRELIMINARES E DEFINIÇÕES
RELATOR: Dr. Marcos Wachowicz - UFSC
REVISOR: Dr. Antonio Carlos Morato - USP e FMU
MODERADOR: Dr. João Luis Nogueira Matias - UFC

11:15 - INTERVALO

11:30 - PAINEL III - OBRAS INTELECTUAIS E AUTORIA
RELATOR: Dr. Álvaro Loureiro Oliveira - OABRJ/ABPI
REVISOR: Dr. José Isaac Pilati - UFSC
MODERADOR: Profa. Dra. Danielle Annoni - UFSC

12:45 - ALMOÇO LIVRE

14:00 - PAINEL IV - DIREITOS DO AUTOR : DIREITOS MORAIS E PATRIMONIAIS
RELATOR: Dra. Silmara Chinelatto - Profa Titular da FADUSP
REVISOR: Dr. Newton Silveira - FADUSP
MODERADOR: Prof. Dr. Orides Mezzaroba - UFSC

15:15 - PAINEL V - LIMITAÇÕES AOS DIREITOS AUTORAIS I
RELATOR: Dr. Luiz Gonzaga Silva Adolfo - UNILASALLE/ ULBRA(RS)
REVISOR: Dr. Manoel J. Pereira dos Santos - FGV/GVLAW
MODERADOR: Prof. Dr. Aires José Rover - UFSC

16:30 - INTERVALO

16:45 - PAINEL VI - LIMITAÇÕES AOS DIREITOS AUTORAIS II
RELATOR: Dr. Guilherme Carboni - FAAP
REVISOR: Dr. Allan Rocha - UERJ/FDC
MODERADOR: DR. Jorge Renato dos Reis - UNISC

SEGUNDO DIA: 10 DE NOVEMBRO DE 2009

8:45 - PAINEL VII - OBRA SOB ENCOMENDA - LICENÇAS NÃO-VOLUNTÁRIAS
RELATOR: Dra. Lilian de Melo Silveira
REVISOR: Dr. Denis Borges Barbosa - UFRJ
MODERADOR: Prof. Dr. Wilson Pinheiro Jabur - FGV/GVlaw

10:00 - PAINEL VII - TRANSFERÊNCIA DOS DIREITOS DO AUTOR
RELATOR: Dra. Eliane Abrão
REVISOR: Dr. Eduardo Lycurgo Leite
MODERADOR: Profa. Dra. Mácia Carla Pereira Ribeiro - UFPR

11:15 - INTERVALO

11:30 - PAINEL IX - UTILIZAÇÃO DE OBRAS INTELECTUAIS E FONOGRAMAS I
RELATOR: Dra. Vanisa Santiago
REVISOR: Dr. Hildebrando Pontes Neto
MODERADOR: Prof. Dr. Orides Mezzaroba - UFSC

12:45 - ALMOÇO LIVRE

14:00 - PAINEL X - UTILIZAÇÃO DE OBRAS INTELECTUAIS E FONOGRAMAS II
RELATOR: Dr. Antonio de Figueiredo Murta - PUC/RJ
REVISOR: Dra. Sonia Maria D'Elboux
MODERADOR: Profa. Dra. Carla Eugenia Caldas Barros - UFS

15:15 - PAINEL XI - ASSOCIAÇÕES DE TITULARES E ENTIDADE REGULADORA
RELATOR: Dr. José Carlos Costa Netto
REVISOR: Ministro Carlos Fernando Mathias de Souza - STJ
MODERADOR: Prof. Dr. Marcos Wachowicz - UFSC

16:30 - INTERVALO

16:45 - PAINEL XII - SANÇÕES, PRESCRIÇÃO E DISPOSIÇÕES FINAIS
RELATOR: Dra. Helenara Braga Avancini - PUC/RS
REVISOR: Dr. Eduardo Pimenta
MODERADOR: Prof. Dr. José Isaac Pilati - UFSC

18:00 - APRESENTAÇÃO DAS COMUNICAÇÕES DOS GRUPOS DE PESQUISA EM DIREITO AUTORAL

19:00 - CERIMÔNIA DE ENCERRAMENTO

http://www.direitoautoral.ufsc.br/

dinâmica dos painéis

Sobre a dinâmica dos debates no III Congresso, com vistas è reformulação da LDA 9610/98:

Dinâmica dos Painéis

I. Geral
1. Excetuado o Painel I, não haverá palestras ou exposições gerais, mas sim debates.
2. O objetivo do evento é produzir consenso com relação às propostas legislativas submetidas, debatendo-se a norma em si e a redação do texto legal.
3. Ao final do evento, será produzido um relatório de todas as propostas, com o resumo das conclusões.
4. Tal como sucede nas conferências diplomáticas, havendo posições antagônicas ou falta de consenso, deve-se consignar as versões alternativas com relação à redação dos dispositivos.

II. Papel do Moderador
1. O moderador e os demais participantes de cada painel deverão receber a proposta legislativa respectiva com antecedência da data do evento.
2. A função básica do moderador é conduzir as discussões de forma ordenada de modo a otimizar o tempo e assegurar a consecução do resultado pretendido ao final do painel.
3. Para esse fim, o moderador deve combinar com o relator e o revisor quais os tópicos principais que serão discutidos para evitar que o debate se prolongue e impeça a obtenção de resultados práticos.
4. O moderador deve cuidar para que, ao final de cada painel, haja um texto consensado ou, se isso não for possível, um resumo das diferentes posições.
5. Na medida do possível, o moderador facultará a palavra a pessoas da platéia para fazerem observações curtas e objetivas, evitando-se digressões gerais ou demoradas.

III. Papel do Relator e do Revisor
1. Levando em conta os tópicos principais que serão discutidos, o relator deve apresentar sua posição no sentido de (a) adotar a redação proposta, (b) aperfeiçoá-la ou (c) propor redação alternativa.
2. Para tanto, o relator deve manifestar-se por até 15 minutos.
3. A seguir, o revisor deve fazer a crítica da proposta discutida assim como da posição do relator, devendo igualmente (a) adotar a redação proposta, (b) aperfeiçoá-la ou (c) propor redação alternativa.
4. O revisor deve manifestar-se por até 15 minutos.
5. A seguir, o moderador deve facultar à platéia comentários por até 15 minutos, sumarizando a seguir, em até 10 minutos, os pontos convergentes e os tópicos divergentes.
6. Relator e revisor deverão debater por até 10 minutos, visando conciliar as opiniões e sugestões existentes, com a moderação do moderador.

IV. Conclusão
Cabe ao moderador, nos 10 minutos finais, apresentar o resumo das conclusões, consignando as versões alternativas com relação à redação dos dispositivos.

fonte: blog do congresso de direito de autor

reforma da lda, proposta de licenciamento

acompanhe a discussão e dê seu apoio à proposta de licenciamento de obras de tradução esgotadas.

a propósito de nosso texto, transcrevo algumas considerações de dr. marco túlio de barros e castro, advogado autoralista que também não gosta de plágios:

"Faço apenas algumas pequenas sugestões. Acho de fundamental importância ressaltar o fato de que a alteração legislativa que está sendo proposta não viola as regras dos tratados internacionais sobre propriedade intelectual. O art. 9.1 do TRIPS obriga os países membros a observarem as condições previstas no Anexo da Convenção de Berna. Esse Anexo, por seu turno, estabelece condições especiais aos países em desenvolvimento, particularmente no que diz respeito a possibilidade de concessão de licenças compulsórias. Independentemente dessa disposição acerca do licenciamento compulsório, o art. 13 do TRIPS prevê o seguinte: 'Os Membros restringirão as limitações ou exceções aos direitos exclusivos a determinados casos especiais, que não conflitem com a exploração normal da obra e não prejudiquem injustificavelmente os interesses legítimos do titular do direito.'

Creio que a alteração proposta se enquadra nas hipóteses desse dispositivo, pois se trata de caso especial, que não conflita com a exploração normal e, tampouco, prejudica os interesses legítimos do titular.

Outra questão a ser destacada diz respeito à constitucionalidade da proposição. Ao meu ver o ordenamento constitucional da cultura tem por objetivo assegurar a realização dos princípios fundamentais da cidadania e dignidade da pessoa humana, mediante a instituição de uma política cultural oficial que garanta o pleno exercício dos direitos culturais. Assim, os direitos autorais têm caráter instrumental e objetivam a promoção do desenvolvimento econômico, cultural e tecnológico mediante a democratização dos bens culturais."

Ao longo destes próximos dias colocarei em posts as sugestões que tenho recebido. Mesmo não sendo possível alterar o texto já formalmente apoiado por tantas pessoas, tais sugestões serão devidamente encaminhadas ao debate durante a fase de consulta pública do anteprojeto do MinC.

kafka no brasil II - a germanização das fontes

retomando as metamorfoses de kafka,* celso donizete cruz desvenda uma daquelas infelizes brasilices na história das traduções em nossa terra.

a primeira metamorfose no brasil saiu em tradução de brenno silveira, em 1956, pela civilização brasileira. na edição consta devidamente o nome do texto de partida: tradução da edição americana metamorphosis. em 1963, a mesma tradução sai numa pequena edição popular pela bup, efêmera editora também de ênio silveira. desta feita a imprenta traz apenas o título do original em alemão, die verwandlung, sem qualquer referência à fonte usada para a tradução. o mesmo se repete em reedições d'a metamorfose pela civilização nas décadas seguintes. já não é um tipo de procedimento muito desejável, pela ampla margem de ambiguidade, dando o título do original, mas não o título da fonte para a tradução - de qualquer modo, porém, omissão de dados é uma coisa e falsificação de dados é outra.

acontece que, conforme levantou celso cruz, a fonte americana da tradução de brenno silveira, de uma hora para outra, adquiriu cidadania germânica. assim é que, na edição da civilização de 1997, "a ficha catalográfica não deixa dúvidas, ao anotar: 'tradução de: Die Verwandlung'" (p. 194).

bom, aí complica. há várias reedições até 1999, todas esgotadas. a record comprou a civilização em 2000 e nunca mais reeditou essa tradução. segundo a valiosa constatação de celso cruz, desde 1997 a civilização passou a falsificar as informações em seus exemplares, e dificilmente alguém vai corrigi-las. leitores e pesquisadores vão sempre tropeçar nessas incongruências, e a história da tradução no brasil fica com mais essa nodoazinha de negligência ou má fé.

* celso donizete cruz, metamorfoses de kafka. são paulo, annablume, 2007.

2 de nov. de 2009

proposta para a reforma da lda

esta é uma proposta simples para permitir que a sociedade possa voltar a ter acesso, em formato de livro, a tantas obras de tradução esgotadas que têm sido objeto de plágio.

a sugestão, em forma de carta aberta, será apresentada por ocasião do III Congresso do Direito de Autor, a se realizar nos dias 09 e 10 de novembro, quando se inaugura o prazo de consulta pública do governo para a revisão da atual lei do direito autoral. os temas em discussão estão arquivados neste blog em fnda e em direito autoral. consulte também documentação relevante em "documentos", na coluna da direita.

LICENCIAMENTO DE OBRAS DE TRADUÇÃO ESGOTADAS

Os plágios de tradução de grandes obras da literatura e do pensamento universal constituem uma negra mancha na história do livro no Brasil. O recurso a tal prática teve um grande impulso sobretudo a partir de 1998. A principal característica comum à grande maioria de tais ilícitos é o uso fraudado de traduções antigas, geralmente esgotadas e que ainda não entraram em domínio público.

Por um lado, uma grande e necessária retificação da atual lei 9.610/98 seria a autorização para o licenciamento em curto prazo de obras esgotadas para reprodução sem fins comerciais, sob a forma de reprografia e digitalização para uso privado, para o ensino e para os acervos de bibliotecas públicas.

Por outro lado, cremos que, além desta flexibilização que atende ao premente direito social de acesso a obras esgotadas e abandonadas, seria da máxima importância prever igualmente um dispositivo legal autorizando a livre reprodução dessas obras de tradução também em formato de livro, sempre respeitados os direitos inalienáveis de seus autores e a cadeia dos direitos prévios eventualmente vigentes.

Assim, sugerimos que, decorridos 20 (vinte) anos após a última edição da obra, ela possa ser novamente disponibilizada à sociedade como livro impresso, pelos circuitos tradicionais de publicação e distribuição.

Tal proposta não fere as regras dos tratados internacionais sobre propriedade intelectual e está em consonância com as condições previstas no Anexo da Convenção de Berna, pois se trata de caso especial, que não conflita com a exploração normal e tampouco prejudica os interesses legítimos do titular.

Cremos que todos terão a ganhar: os cidadãos leitores que poderão dispor de obras até então esgotadas, seus autores assim resgatados do esquecimento, os editores que poderão publicar tais obras e os livreiros que poderão fazê-las chegar aos leitores.

Toda a sociedade poderá assim ter garantias de preservar ativamente sua memória cultural, permitindo a sobrevivência íntegra de importantes obras de tradução que compõem nossa história. *

* atualização feita em 05/11, ver justificativa em acréscimos

Abílio Guerra
Adriana Lisboa
Adriana Zavaglia
Adriane Veras
Agenor Soares dos Santos
Alberto Parahya Quartim de Moraes
Aldo Dinucci
Alessandra Allegri
Alessandro Martins
Alexandre Soares Carneiro
Alfredo Monte
Alice Xavier
Allison Roberto
Ana Resende
Ana Miriam Wuensch
Ana Paula Alves Ribeiro
Andityas Soares de Moura
André Malta
André Medina Carone
André da Silveira Gonçalves
Ângela Xavier de Brito
Anita Di Marco
Anna Magdalena Machado Bracher
Antonio F. Hermida
Aurora Bernardini
Beatriz Caldas
Beatriz Medina
Beatriz Viégas-Faria
Bruno Andrade Pedrassani
Bruno Casotti
Carlos Daghlian
Carlos Teixeira
Carlos Alberto Fonseca
Carlos José Baboni
Carlos Nelson Coutinho
Carmem Cacciacarro
Cássio Arantes Leite
Cecília Silva Furquim Marinho
Celina Portocarrero
Claudia Berliner
Cláudia Drucker
Claudio Marcondes
Claudio Willer
Cristina Carneiro Rodrigues
Daniel Aço
Daniel Argolo Estill
Daniel Pellizzari
Davi Arrigucci Jr.
Denise G. Bottmann
Desidério Murcho
Dilma Machado
Doralice Lima
Dorival Santos Scaliante
Duda Machado
Ebréia de Castro Alves
Edla Van Steen
Edson Cruz
Eduardo Sterzi
Eleonora G. Bottmann
Elizabeth Thompson
Eugênio Vinci de Moraes
Euler de França Belém
Everardo Norões
Fábio Fernandes
Fátima Vasco
Fátima Aparecida de Oliveira Abbate
Federico Carotti
Fernando Santoro
Flávia Nascimento
Francisco Foot Hardman
Francisco César Manhães Monteiro
Gabriel Perissé
Geraldo Holanda Cavalcanti
Gonzalo Armijos
Haroldo Cantanhede
Heloísa Gonçalves Barbosa
Heloísa Jahn
Iara Fino Silva
Ivo Barroso
Ivone C. Benedetti
James Emanuel de Albuquerque
Janaína Amado
Janaína Castilho Marcoantonio
Janaína Pietroluongo
Jean Cristtus Portela
Joana Canêdo
João Carlos Brum Torres
João Ubaldo Ribeiro
Joice Elias Costa
Jorge Coli
Jorge Machado
Jorio Dauster
José Lira
José Eduardo S. Lohner
José Veríssimo Teixeira da Matta
Josely Vianna Baptista
Juliana Saul
Juliano Olímpio dos Anjos
Julieta Sueldo Boedo
Julio Jeha
Lenita M. Rimoli Esteves
Leonardo Fróes
Letícia Braun
Lia Levy
Lina Cerejo
Lucas Angioni
Luciano Codato
Luís Dolhnikoff
Luiz Cardoso
Luiz Marques
Malu Campos
Mamede Jarouche
Marcelo Backes
Marcelo Cipolla
Márcio Suzuki
Marco Aurélio Werle
Marco Túlio de Barros e Castro
Marcos Siscar
Marcus Mazzari
Margarete de Toledo Ressurreição
Maria Augusta da Costa Vieira
Maria Clara Castellões
Maria Constança Pires Pissarra
Maria Cristina Pires Pereira
Maria de Lourdes Sette
Maria Helena Nery Garcez
Maria Rita Drumond Viana
Maria Teresa H. Fornaciari
Mariarosaria Fabris
Mário Miranda Filho
Mário Luiz Frungillo
Marion L. Pfeffer
Mauri Furlan
Maurício Ayer
Maurício Mendonça Cardozo
Maurício Santana Dias
Mauro Castelo Branco Moura
Mauro Pinheiro
Milton Genésio de Brito
Mônica Saddy Martins
Mônica Cristina Corrêa
Myriam Campello
Nancy Rozenchan
Olivia Niemeyer Santos
Osvaldo Pessoa Jr.
Otacílio Nunes
Pablo Ortellado
Patrícia Reuillard
Patrizia Collina Bastianetto
Paula Glenadel
Paula Aryana de Sena
Paulo Bezerra
Paulo Henriques Britto
Paulo Oliveira
Paulo Wengorski
Paulo Mariano Lopes
Pedro Dubois
Pedro Maciel
Pedro Maia Soares
Peterso Rissatti
Raquel Sallaberry Brião
Rejane Janowitzer
Renata C. Bottino
Renato Aguiar
Renato Janine Ribeiro
Ricardo Ferreira
Ricardo Terra
Roberto Gomes Camacho
Roberto Grey
Roberto Romano
Rogerio A. de Mello Basali
Rosa Freire d'Aguiar
Saulo Von Randow Jr.
Sebastião Carlos Leite Gonçalves
Selvino José Assmann
Sergio de Carvalho Pachá
Sérgio de Castro Pinto
Sergio J. Flaksman
Sheila Kurc
Silvia Oselka
Simone Revolti
Suzana Guimarães Castilho
Telma Miranda
Vera Ribeiro
Virna Teixeira
William Cassemiro

Com o apoio da ABRATES - Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes, e do SINTRA - Sindicato Nacional dos Tradutores

se concordar com o teor da proposta, por favor deixe seu comentário abaixo com nome e sobrenome, ou escreva para dbottmann@uol.com.br. obrigada.

obs.: o texto a ser distribuído aos participantes do III congresso apresenta a lista de assinantes que deram seu apoio até as 14 horas de 06/11, num total de 175 nomes. adesões posteriores serão incluídas normalmente aqui no blog.

reedição de obras esgotadas


há coisa de um mês atrás, mais ou menos, enviei um e-mail a várias pessoas preocupadas com o destino do livro no país. era uma consulta, para ver se apoiariam uma iniciativa em propor algo bem simples, concreto e específico em relação às obras órfãs, abandonadas e esgotadas, que são as principais vítimas dos plágios de tradução no país.

as respostas foram unanimemente positivas. quem quiser ver o teor daquela consulta inicial, alessandro martins a divulgou em livros e afins, conheça o limbo autoral.

agora, aproximando-se a realização do III congresso de direito de autor e a rodada final do minc para a reforma da lei autoral 9610/98, em 09 e 10 de novembro, abre-se também o prazo de consulta pública para as propostas do governo para a revisão da lei.

várias pessoas que não gostam de plágio vão encaminhar uma sugestão muito singela, que está no próximo post, e para a qual peço divulgação e apoio.

imagem: proxy

kafka no brasil I


metamorfoses de kafka, dissertação de mestrado de celso donizete cruz publicada pela annablume/ fapesp (2007), é uma minuciosa análise comparada das diversas edições d'a metamorfose de kafka no brasil.

o autor se concentra nos paratextos, isto é, nos elementos acompanhantes da obra propriamente dita: capa, dizeres de capa e contracapa, formato do livro, dados de imprenta, orelhas, prefácios, introduções. há também um item sobre os tradutores e traduções das edições analisadas.

as traduções mencionadas no estudo são, em ordem cronológica de lançamento, as de brenno silveira, torrieri guimarães, marques rebelo, syomara cajado, modesto carone, erlon josé paschoal, dora del mercato, lourival holt, regina régis junqueira, marcelo backes, calvin carruthers, e a inefável "equipe de tradutores da martin claret", posteriormente substituída pelo não menos inefável pietro nassetti.

num post chamado trivia I, apresentei alguns fatos e algumas hipóteses sobre o processo de geração de nomes fictícios nas traduções espúrias da nova cultural. reproduzo aqui o trecho referente ao suposto tradutor d'a metamorfose na coleção "obras-primas":

"já no nível do puro escárnio foi a utilização do nome 'calvin carruthers'. [...] calvin carruthers aparece como tradutor de a metamorfose do kafka nessas obras covaculturais. aviso que não fui atrás dessa tradução, não sei se é plágio ou deixa de ser, mas o uso do nome de fantasia por si só já dá um certo pano para a manga.
bom, qualquer criança sabe que o protagonista do livro se chama gregor samsa. e de que rincão do mundo algum desinfeliz resolveu desenterrar o nome de 'calvin carruthers' como tradutor das vicissitudes de gregor samsa?
aí, por mero acaso, você sabe que um ator chamado vic tayback fez em 1971 um filme de horror chamado blood and lace, onde representava o papel de um detetive chamado 'calvin carruthers'. e sabe também que no último filme do tayback antes de morrer, em 1990, seu personagem se chamava george samsa. (quem gostar dessas curiosidades, pode ver aqui a filmografia dele.)"*

* embora sem mencionar o personagem de tayback em horseplayer, justamente george samsa, celso cruz também comenta essa conexão calvin carruthers/ vic tayback.

como disse, metamorfoses de kafka se debruça sobre os paratextos, e apenas marginalmente sobre as traduções. mesmo assim, traz coisas muito divertidas sobre elas, que podem interessar de perto aqui ao nãogostodeplágio. em breve voltarei a esse estudo.

imagem: annablume

1 de nov. de 2009

ivo barroso - itinerários I



Um caderno escolar com três escoteiros na capa, o do meio empunhando uma colossal bandeira do Brasil, me assegura que já em 1947 eu andava às voltas com a tradução de versos: Amado Nervo, Emile Lante, Siegfried Sassoon, o Anônimo Espanhol (“No me mueve, mi Dios, para quererte"), Baudelaire (“L´homme et la mer”) e... Shakespeare (nada menos que o soneto XXIX, When in disgrace with fortune and men´s eyes). Mas outras recolhas indicam que antes mesmo, em 1944-46, ousara encarar os célebres sonetos de Lupercio Leonardo de Argensola e de Manuel González Prada; e, fora do espanhol, houve uma curiosa "adaptação" das Feuilles Mortes, do então e hoje desconhecido poeta suíço Henry Spiess, e uma transposição do espanhol para o inglês, o poema Lazarus, do colombiano José Asunción Silva. O curto poema, cujo original espanhol só agora consigo recuperar, dizia assim:

Vem, Lázaro! – gritóle
el Salvador. Y del sepulcro negro
el cadáver alzóse entre el sudario,
ensayó caminar, a pasos trémulos,
olió, palpó, miró, sintió, dio um grito
y lloró de contento.
Cuatro lunas más tarde, entre las sombras
del crepúsculo escuro, en el silencio
del lugar y la hora, entre las tumbas
del antiguo cementerio,
Lázaro estaba sollozando a solas
Y envidiando a los muertos.

Recordo-me que fiz a versão para o inglês como trabalho de casa quando estudava na Cultura Inglesa com o professor Mullholand. Sem ainda ter lido Ezra Pound, andei operando uns cortes no original:

“Come, Lazarus, come with me”,
said the Master. And the dead body
arouse up and began to walk
with shaking steps.
Looked, touched, smelt, felt,
and cried for happiness.
Four moons later, in the shadows
of the night, in the silence
of the old cemetery,
among the graves,
Lazarus was alone, sobbing,
fully envious of the dead.

Mullholand elogiou o trabalho e corrigiu duas frases:
Em inglês não se dizia “cried of happiness”, mas “cried for happiness”; e também não era “fully of envy of the dead” e sim “fully envious of the dead”.

Não conto essas coisas para me gabar nem exibir precocidade tradutória. Rimbaud aos 16 anos fazia versos em latim e há referências assustadoras e dissuasórias de feitos literários realizados em idades imaturas. Quero apenas imaginar que existe um certo pendor, uma inclinação para o traduzir que se manifesta desde cedo. Conheço pessoas, é verdade, que começaram a traduzir muito tarde, depois mesmo de terem realizado sua obra original. Mas o fizeram como uma espécie de hobby, de suplemento ao ócio, e não por aquela necessidade compulsória que move o tradutor orgânico. Nessa idade, o traduzir era um ato impulsivo.

Creio que cheguei à tradução como consequência lógica de minha abundante produção poética. Não me contentava em fazer três ou quatro sonetos e, quando a inspiração faltava, recorria aos versos alheios para supri-la. Era também a época ginasiana em que me encantava com o estudo das línguas e encontrava um fascínio na descoberta das palavras. Minha formação poética fora irregular e acronológica. Até os anos '40, vivi no interior, onde não havia biblioteca, e me satisfazia com os livros que encontrava, geralmente coleções compradas para enfeitar estantes. Em duas delas - Machado de Assis e Humberto de Campos, da Editora Jackson - desbravei os dois primeiros livros de poesia que li. Achei Humberto de Campos um poeta cultíssimo, íntimo dos deuses mitológicos e das passagens bíblicas. Fiz vários poemas sobre Ícaro, Galileu, Atalarico e outras personagens que ficara conhecendo de segunda mão. Meu primeiro soneto, O Pássaro Cego, publicado na Gazeta de Viçosa, em Minas, trazia uma epígrafe de H. de Campos, aliás inspiradora do poema. Mas tarde descobri Augusto dos Anjos e passei a pertencer à escola naturalista sem saber ainda o que era uma escola. Lembro-me de um professor meu “impressionado” com o soneto Vida, que ousei mostrar-lhe depois da aula, Vida, cujo começo era assim: "A Vida é o resultante grau da orgânica / Evolução da célula. É Energia que mais se apura dia para dia / Desde os tempos remotos da Era Oceânica”... Em seguida viriam outras fases: Bilac, Raul de Leôni, Menotti Del Picchia... Poesias “filosóficas” e amargamente amorosas, típicas da minha falta de experiência em ambas as lides.

Essa desordenada ânsia de leitura poética, que se extravasou de maneira igualmente desordenada para os poetas estrangeiros, é que coloco no cerne de meu anseio de traduzir. Digo anseio sem medo de crítica nem de pagar exagero. A satisfação de traduzir supria todos os outros interesses - sociais ou esportivos - que eu pudesse ter à época. Acordava cedo e ia para a Biblioteca Nacional ler e copiar poemas estrangeiros, pois não tinha respaldo econômico para adquirir os livros. Mas um - não me esqueço - comprei-o com o dinheiro de meu primeiro salário, em 1945: A Rosa do Povo, que li perplexo. Essa preciosidade, essa primeira edição “histórica”, perdi-a por ter emprestado o livro a alguém. Lição número um: nunca empreste livros.
Ivo Barroso