Mostrando postagens com marcador hemus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador hemus. Mostrar todas as postagens

30 de out de 2009

miséria pouca é bobagem

.
num primeiro levantamento que fiz, a origem das espécies de darwin aparece no brasil nas seguintes edições:

I.
- Hemus, em pretensa tradução de Eduardo Fonseca, desde 1979 até hoje, em inúmeras reedições;
- Ediouro, em pretensa tradução de Eduardo Fonseca, desde 1987 até hoje, em inúmeras reedições;
- Hemus/Novo Século, em pretensa tradução de Eduardo Fonseca, 2000 e 2002;
- Madras, em pretensa nova tradução, várias reedições desde 2004;*
* atualização em 10/12/2009: sobre a atribuição da tradução, ver informe. atualização em 14/12/2009: ver solicitação. 04/10/2011: ver atualização abaixo, neste mesmo post.
- Leopardo/Hemus, em pretensa tradução de Eduardo Fonseca, 2009.

As pretensas traduções acima citadas foram cotejadas com a tradução de Joaquim Dá Mesquita Paul, publicada pela editora Lello & Irmão, Porto, desde 1913 até hoje, em inúmeras reedições. Em ambos os casos, é incontestável o recurso ao plágio, com a agravante de adulterações na tentativa de disfarçar a cópia.

II.
- Martin Claret, em suposta tradução de John Green, desde 2001 até hoje, em várias reedições, e com chapa fria na FBN/ISBN, onde consta o nome de "Jean Melville" em lugar de "John Green".

John Green assina o plágio de um Sherlock Holmes (vide aqui), e devido à quantidade de plágios presentes no catálogo da editora sinto uma certa cautela em relação a essa edição. Retornarei a ela em breve.

atualizado em julho de 2010: com efeito trata-se de uma colcha de retalhes copiando trechos da tradução de Joaquim dá Mesquita e grande parte da tradução de Eugênio Amado. Veja aqui. (04/10/2011: com isso entendo que essa tradução se enquadra no bloco I, entre as outras espúrias.)

III.
- Itatiaia/Villa Rica, em tradução de Eugênio Amado, desde 1985 até hoje, em várias reedições;
- Larousse/Escala, em tradução de André Campos Mesquita, desde 2004 até hoje, em várias reedições (ver comentário do tradutor na caixa de comentários).

Não conheço essas duas edições, mas, como sempre parto do princípio da boa fé e não sei de nada que possa desaboná-las, tomo-as por legítimas e honestas. (Ver ainda atualização de 04/10/2011, no final deste post.)

Atualizado em julho de 2010: tive ocasião de consultar a edição da Itatiaia/Villa Rica. a tradução de eugênio amado me pareceu bastante fidedigna.

Obs.: Há ainda um pequeno volume, A origem das espécies - esboço de 1842, pela Newton Compton, em tradução de Mario Fondelli, publicado algumas vezes entre 1992 e 1997.
Existe também uma versão condensada da obra, em tradução de Fábio de Melo Sene, em edição conjunta Melhoramentos/ UnB, 1982. Atualizado em 07/03/2011: Agradeço a Lucas Petry Bender e faço duas retificações: a tradução é de Aulyde Soares, e a primeira edição é de 1979.

Voltando ao início, nem sei bem como colocar a quantidade de problemas revelados por esse levantamento.

Vou começar pelo básico: concorde-se com Darwin ou não, A origem das espécies é uma obra absolutamente fundamental, tida por muitos como a obra mais influente de toda a história da humanidade, desde a Bíblia, não só por seu radical impacto científico e cultural, mas por ter determinado uma profunda transformação nos rumos do pensamento e da prática humana.

Então acho uma miséria  que o Brasil disponha, até onde sei, apenas de duas - DUAS - traduções integrais legítimas d'A origem das espécies após 150 anos de sua primeira edição.

Acho uma vergonha que o Brasil disponha, até onde sei, de cinco - CINCO - falsificações numa incessante sequência de reedições infindáveis, além de uma edição ainda em análise. (Atualização: foi feita a análise dessa edição da Martin Claret: veja aqui. São, portanto, SEIS falsificações.)

Acho uma lástima que o Brasil disponha de cinco [atualização: seis] falsificações de uma provecta tradução portuguesa que não é direta do inglês, e sim por interposição do francês.

Acho um tremendo azar que o Brasil disponha de cinco [atualização: seis] falsificações de uma tradução que, além de interposta, parece demonstrar talvez não suficiente conhecimento da língua de interposição.

Além de achar uma miséria, uma vergonha, uma lástima e um tremendo azar, acho o fim da picada que estudantes, pesquisadores e leitores em geral passem décadas lendo um texto com não pequenos deslizes e ademais plagiado, justamente nas edições de maior circulação no país.

Os tostões que os ishpertos ganham com isso não lhes queimam as mãos?


da esquerda para a direita: hemus; ediouro; hemus/novo século; madras; hemus/leopardo; martin claret; itatiaia/villa rica; larousse/escala; newton compton.

Atualização: uma tristeza absurda foi que a Coleção Folha, Livros que Mudaram o Mundo, licenciou justamente essa coisa infame da Hemus para o volume Darwin. Veja aqui e aqui.

atualização em 04/10/2011: a ediouro assinou um termo de ajuste de conduta com o ministério público, retirando sua edição espúria de circulação. veja aqui.

a madras, por sua vez, desde 2009 havia retirado espontaneamente sua edição espúria de circulação, e agora em 2011 lançou uma nova edição de a origem das espécies, com tradução de soraya freitas. com isso, e especificando melhor, entendo que ela passa a integrar o terceiro bloco de traduções que arrolei acima e que, até onde sei, são legítimas e honestas.


imagens: google, livraria cultura, estante virtual. não encontrei ilustração da capa da edição condensada de melhoramentos/unb.
.

23 de out de 2009


imagem: pato ao alvo

em comentário ao post anterior, danilo nogueira, editor do blog tradutor profissional, matou a charada de uma monumental jequice que nos assola há décadas.

recapitulando: eu tinha achado muito engraçado que nossos plagiadores de plantão, não se avexando em copiar a vetusta tradução portuguesa (1913) da origem das espécies, mimoseassem-nos com os ducks selvagens e domésticos de darwin travestidos de "canários".

e aí bem lembra danilo: pato em francês é canard, e não inexistem pessoas capazes de achar que canard quereria dizer canário (e que pato seria, talvez, pat ou pateau, por que não...)

isso lá é comemoração?

tenho aqui em mãos a origem das espécies e a seleção natural, de darwin, com pretensa nova tradução* pela editora madras. o livro foi reeditado agora em 2009, quando se comemoram os 200 anos de nascimento de darwin e 150 anos da primeira edição de on the origin of species.

* atualização em 10/12/2009: sobre a atribuição dessa tradução, ver informe. atualização em 14/12/2009: ver solicitação. atualização em 04/10/2011: em 2011, a madras lançou nova tradução, de soraya freitas - veja aqui

trata-se de uma cópia levemente modificada da provecta tradução de joaquim dá mesquita paul (1913, lello & irmão, portugal), já indevidamente utilizada pela editora hemus e várias vezes reeditada pela ediouro em nome de eduardo nunes fonseca.

[Ch. I] Changed habits produce an inherited effect as in the period of the flowering of plants when transported from one climate to another. With animals the increased use or disuse of parts has had a more marked influence; thus I find in the domestic duck that the bones of the wing weigh less and the bones of the leg more, in proportion to the whole skeleton, than do the same bones in the wild duck; and this change may be safely attributed to the domestic duck flying much less, and walking more, than its wild parents. The great and inherited development of the udders in cows and goats in countries where they are habitually milked, in comparison with these organs in other countries, is probably another instance of the effects of use. Not one of our domestic animals can be named which has not in some country drooping ears; and the view which has been suggested that the drooping is due to disuse of the muscles of the ear, from the animals being seldom much alarmed, seems probable.

Joaquim Dá Mesquita Paul (1913):
A mudança dos hábitos produz efeitos hereditários; poderia citar-se, por exemplo, a época da floração das plantas transportadas de um clima para outro. Nos animais, o uso ou não uso das partes tem uma influência mais considerável ainda. Assim, proporcionalmente ao resto do esqueleto, os ossos da asa pesam menos e os ossos da coxa pesam mais no canário doméstico que no canário selvagem. Ora, pode incontestavelmente atribuir-se esta alteração a que o canário doméstico voa menos e marcha mais que o canário selvagem. Podemos ainda citar, como um dos efeitos do uso das partes, o desenvolvimento considerável, transmissível por hereditariedade, das mamas das vacas e das cabras nos países em que há o hábito de ordenhar estes animais, comparativamente ao estado desses órgãos nos outros países. Todos os animais domésticos têm, em alguns países, as orelhas pendentes; atribui-se esta particularidade ao fato de estes animais, tendo menos causas de alarme, acabarem por se não servir dos músculos da orelha, e esta opinião parece bem fundada.

Edição da Madras (2009):
A mudança dos hábitos produz efeitos hereditários; poderíamos citar, por exemplo, a época da floração das plantas transportadas de um clima para outro. Nos animais, o uso ou não-uso das partes tem uma influência mais considerável ainda. Assim, proporcionalmente ao resto do esqueleto, os ossos da asa pesam menos e os ossos da coxa pesam mais no canário doméstico que no canário selvagem. Ora, incontestavelmente, pode-se atribuir esta alteração ao fato de que o canário doméstico voa menos e marcha mais que o canário selvagem. Podemos citar, ainda, como um dos efeitos do uso dos membros, o desenvolvimento considerável, transmissível por hereditariedade, das mamas das vacas e das cabras nos países em que se tem por hábito ordenhar estes animais, comparativamente ao estado destes órgãos em outros países. Todos os animais domésticos têm, em alguns países, as orelhas pendentes; atribui-se esta particularidade ao fato de estes animais, por terem menos motivos para alarmar, acabarem por não se servir dos músculos da orelha, e esta opinião parece bem fundada.

Algumas coisas chamam a atenção. Por que, ó céus, não se poderia traduzir duck por pato? Ou como duas traduções, com quase um século de distância entre elas, conseguem se afastar do texto original exatamente da mesma maneira? Como ambas conseguem pegar uma frase tão simples e direta como: “thus I find in the domestic duck that the bones of the wing weigh less and the bones of the leg more, in proportion to the whole skeleton, than do the same bones in the wild duck”, e lhe dar tal idêntica torção a ponto de transformá-la em “Assim, proporcionalmente ao resto do esqueleto, os ossos da asa pesam menos e os ossos da coxa pesam mais no canário doméstico que no canário selvagem”?

[Ch. IV] It may metaphorically be said that natural selection is daily and hourly scrutinising, throughout the world, the slightest variations; rejecting those that are bad, preserving and adding up all that are good; silently and insensibly working, WHENEVER AND WHEREVER OPPORTUNITY OFFERS, at the improvement of each organic being in relation to its organic and inorganic conditions of life. We see nothing of these slow changes in progress, until the hand of time has marked the long lapse of ages, and then so imperfect is our view into long-past geological ages that we see only that the forms of life are now different from what they formerly were.

Joaquim Dá Mesquita Paul (1913):
Pode dizer-se, metaforicamente, que a seleção natural procura, a cada instante e em todo o mundo, as variações mais ligeiras; repele as que são nocivas, conserva e acumula as que são úteis; trabalha em silêncio, insensivelmente, por toda a parte e sempre, desde que a ocasião se apresente para melhorar todos os seres organizados relativamente às suas condições de existência orgânicas e inorgânicas. Estas transformações lentas e progressivas escapam-nos até que, no decorrer das idades, a mão do tempo as tenha marcado com o seu sinete e então damos tão pouca conta dos longos períodos geológicos decorridos, que nos contentamos em dizer que as formas viventes são hoje diferentes do que foram outrora.

Edição da Madras (2009):
Pode-se dizer, metaforicamente, que a seleção natural procura, a cada instante e em todo o mundo, as variações mais sutis; repele as [] nocivas, conserva e acumula as que são úteis; trabalha em silêncio, insensivelmente, por toda a parte e sempre, desde que se apresente a ocasião para melhorar [] os seres organizados relativamente às suas condições de existência orgânicas e inorgânicas. Essas transformações lentas e progressivas fogem à nossa percepção até que, com o tempo, as mãos dos mesmos [sic] as tenham marcado com [] seu sinete e, então, damos tão pouca conta dos longos períodos geológicos decorridos que simplesmente nos contentamos em dizer que as formas viventes são hoje diferentes do que foram outrora.

traduções também trazem seus sinetes próprios.

so imperfect is our view into long-past geological ages that we see only that the forms of life are now different from what they formerly were.
damos tão pouca conta dos longos períodos geológicos decorridos, que nos contentamos em dizer que as formas viventes são hoje diferentes do que foram outrora.
damos tão pouca conta dos longos períodos geológicos decorridos que simplesmente nos contentamos em dizer que as formas viventes são hoje diferentes do que foram outrora.

[Ch. V] The eyes of moles and of some burrowing rodents are rudimentary in size, and in some cases are quite covered by skin and fur. This state of the eyes is probably due to gradual reduction from disuse, but aided perhaps by natural selection. In South America, a burrowing rodent, the tuco-tuco, or Ctenomys, is even more subterranean in its habits than the mole; and I was assured by a Spaniard, who had often caught them, that they were frequently blind. One which I kept alive was certainly in this condition, the cause, as appeared on dissection, having been inflammation of the nictitating membrane. As frequent inflammation of the eyes must be injurious to any animal, and as eyes are certainly not necessary to animals having subterranean habits, a reduction in their size, with the adhesion of the eyelids and growth of fur over them, might in such case be an advantage; and if so, natural selection would aid the effects of disuse.

aqui segue-se um exemplo de "tradução por sinonímia", como diz meu amigo saulo von randow jr.

Joaquim Dá Mesquista Paul (1913):
As toupeiras e alguns outros roedores cavadores têm os olhos rudimentares, algumas vezes mesmo completamente cobertos de uma película e de pêlos. Este estado dos olhos é provavelmente devido a uma diminuição gradual, proveniente do não uso, aumentando sem dúvida pela seleção natural. Na América Meridional, um roedor chamado Tucu-Tuco ou Ctenomys tem costumes ainda mais subterrâneos que a toupeira; asseveravam-me que estes animais são freqüentemente cegos. Observei um vivo e realmente este era cego; dissequei-o depois da morte, e descobri então que a cegueira provinha de uma inflamação da membrana pestanejante. A inflamação dos olhos é necessariamente nociva ao animal; ora, como os olhos não são necessários aos animais que têm hábitos subterrâneos, uma diminuição deste órgão, seguida da aderência das pálpebras e da proteção pelos pêlos, poderia neste caso tornar-se vantajosa; se é assim, a seleção natural vem completar a obra começada pelo não uso do órgão.

Edição da Madras (2009):
As toupeiras e alguns outros roedores cavadores têm os olhos rudimentares, algumas vezes [] totalmente cobertos por uma película e pelos. Esta situação dos olhos é devida, talvez, a uma diminuição gradual, ocasionada pelo não-uso, aumentado sem dúvida pela seleção natural. Na América meridional, um roedor chamado tuco-tuco ou Ctenomys tem hábitos ainda mais subterrâneos que a toupeira; asseveraram-me que, em geral, estes animais são [] cegos. Observei um exemplar vivo e na realidade este era cego; dissequei-o depois de morto e descobri [] que a cegueira provinha de [] inflamação da membrana pestanejante. A inflamação dos olhos é absolutamente nociva ao animal; ora, como os olhos não são essenciais aos animais que têm costumes subterrâneos, uma diminuição deste órgão, acompanhada da aderência das pálpebras e da proteção pelos pelos, poderia tornar-se vantajosa neste caso; se assim for, a seleção natural vem completar o trabalho iniciado pelo não-uso do órgão.

[Ch. VIII] The possibility, or even probability, of inherited variations of instinct in a state of nature will be strengthened by briefly considering a few cases under domestication. We shall thus be enabled to see the part which habit and the selection of so-called spontaneous variations have played in modifying the mental qualities of our domestic animals. It is notorious how much domestic animals vary in their mental qualities. With cats, for instance, one naturally takes to catching rats, and another mice, and these tendencies are known to be inherited.

Joaquim Dá Mesquista Paul (1913):
O exame rápido de alguns casos observados nos animais domésticos permitir-nos-á estabelecer a possibilidade ou mesmo a probabilidade de transmissão por hereditariedade das variações do instinto no estado de natureza. Poderemos apreciar, ao mesmo tempo, o papel que o hábito e a seleção das variações chamadas espontâneas têm gozado nas modificações que sofreram as aptidões mentais dos nossos animais domésticos. Sabe-se o quanto variam a este respeito. Certos gatos, por exemplo, atacam naturalmente as ratazanas, outros lançam-se sobre os ratos, e estes caracteres são hereditários.

Edição da Madras (2009):
O exame rápido de alguns casos constatados nos animais domésticos nos permitirá estabelecer a possibilidade, ou mesmo a probabilidade, de transmissão por hereditariedade das variações do instinto no estado natural. Poderemos apreciar, ao mesmo tempo, o papel que o hábito e a seleção das variações chamadas espontâneas têm desfrutado nas modificações que sofreram as capacidades mentais dos nossos animais domésticos. Sabe-se o quanto variam a este respeito. Alguns gatos, por exemplo, atacam naturalmente as ratazanas, outros lançam-se sobre os ratos, e estes caracteres são hereditários.

[Ch. VIII] One cat, according to Mr. St. John, always brought home game birds, another hares or rabbits, and another hunted on marshy ground and almost nightly caught woodcocks or snipes. A number of curious and authentic instances could be given of various shades of disposition and taste, and likewise of the oddest tricks, associated with certain frames of mind or periods of time.

Joaquim Dá Mesquista Paul (1913):
Um gato, segundo M. Saint-John, espreitava sempre a capoeira, outro a repartição das lebres e dos coelhos; um terceiro caçava nos terrenos pantanosos e apanhava quase todas as noites alguma narceja. Poderia citar-se um grande número de casos curiosos e autênticos indicando diversas modalidades de caráter e de gosto, assim como hábitos exóticos, em relação com certas disposições de tempo ou de lugar, e tornados hereditários.

Edição da Madras (2009):
Um gato, segundo M. Saint-John, espreitava sempre a capoeira, outro, a região das lebres e dos coelhos; um terceiro caçava nos terrenos pantanosos e caçava quase todas as noites alguma narceja. Poder-se-ia citar um sem-número de casos curiosos e autênticos apresentando diversas modalidades de caráter e de gosto assim como hábitos bizarros em relação a certas disposições de tempo ou de lugar, e tornados hereditários.

copidesque é uma função importantíssima no trabalho editorial, mas não se confunde com tradução. quando o copidesque se apresenta como se fosse uma nova tradução, deixa de ser copidesque e passa a ser plágio, contrafação, roubo intelectual ou como se queira chamar. é importante que as editoras tenham essa clareza e que revisores e copidesquistas não se prestem ao papel de pseudotradutores. é ruim para todo mundo, sobretudo para os leitores e a cultura geral da sociedade.

para o original, usei a 6a. edição, considerada a definitiva, disponível em gutenberg.org


imagens: livraria culturacanário-preto; sinete; catbird

21 de out de 2009

hi, charlie

uma vez, lá pelos meus trinta anos, fui aprender grego. foi muito legal, o professor instilava muita confiança na gente, e acho que em menos de dois meses botou na lousa alguns parágrafos do flávio josefo para a gente traduzir. vá lá que era um koiné muito do básico, mas grego sempre era.

se hoje não consigo ler a história dos hebreus no original, é porque depois de um semestre os horários não batiam mais e deixei o curso, e não porque grego seja muito difícil.

também tenho imenso gosto por livros infantis. um dos livros que li nos últimos anos e que achei encantador foi uma pequena coletânea de contos de grimm, na deliciosa tradução da minha amiga heloísa jahn. são dons que jamais terei, entre infindos outros: um, dominar o grego; outro, conseguir um texto de fluência infantil que não seja um sofrível tatibitati.

então, em princípio eu estaria com a mente e o coração abertos para respeitar e louvar, e quiçá até ambicionar, uma biografia tradutória que inclui:

hello kitty, pequeno livro das grandes ideias
hello kitty, ama a escola
hello kitty, uma surpresa para mamãe
hello kitty, um dia com papai
hello kitty, em todo lugar
fábulas de la fontaine
a origem das espécies
história dos hebreus - seleções de flavius josephus

por outro lado, vejo que a titular das traduções citadas* é a mesma pessoa a quem é atribuída uma flagrante cópia da tradução de a cabana do pai tomás feita por octavio mendes cajado, e aí já fico meio assim. como disse, o koiné do flávio josefo não é nenhum bicho de sete cabeças, e não duvido que quem traduz um dia com papai também possa fazer uma bela tradução da história dos hebreus. e, inversamente, nada impede que quem traduz a história dos hebreus possa ter flexibilidade de espírito para traduzir hello kitty.

mas, em vista do precedente da cabana do pai tomás, olho a listinha acima e começo a me sentir meio desconfortável. como ainda por cima tenho o maior respeito pelo darwin, e agora são 200 anos de seu nascimento e 150 anos da publicação da origem das espécies, e ainda estou meio triste por causa do plágio da tradução dele no catálogo da ediouro, só por curiosidade - mas também com uma certa esperança, para ver se me reconforto de novo neste mundo - encomendei um volume da origem das espécies, publicado pela editora madras. darei notícias.

* atualização em 10/12/2009: sobre a atribuição da tradução, ver informe. atualização em 14/12/2009: ver solicitação.


15 de set de 2009

ê tristeza!


émile zola, germinal, hemus, ediouro (tecnoprint) e nova cultural (círculo do livro), em "tradução" assinada por eduardo nunes fonseca:

http://www1.capes.gov.br/estudos/dados/2002/33002045/029/2002_029_33002045014P7_Disc_Ofe.pdf http://www.biblioteca.uesc.br/arquivos/0/3500/134_3595.htm
http://www.ifch.unicamp.br/graduacao/disciplinas/semestre100/disciplinas/HH728A.pdf
http://bibliotecacircula.prefeitura.sp.gov.br/pesquisa/titulo.jsp?ck=83298&tipoPesq=indice&TipoDoc=Livro&BibliReg=&tipoBibli=-1&campo=tit&tipoMat=null
http://www.fae.edu/publicacoes/pdf/revista_da_fae/fae_v8_n2/rev_fae_v8_n2_02_jose_edmilson.pdf http://cpsf.phlnet.com.br/cgi-bin/wxis.exe?IsisScript=phl8/003.xis&cipar=phl8.cip&bool=exp&opc=decorado&exp=ROMANCE&code=&lang= http://direito.up.edu.br/arquivos/direito/File/Grupos%20de%20estudos/2_Contribuio%20do%20Direito%20Romano%20e%20contemporneo%20ao%20co%20operativismo%20popular.pdf
http://www.uninorte.com.br/modulos/servicos/downloads/arquivos/ProjetoPedagogicoHistoria.pdf http://consorcio.bn.br/scripts/odwp032k.dll?t=nav&pr=livros_pr&db=livros&use=pn&rn=6&disp=card&sort=off&ss=52318574&arg=fonseca,%20eduardo%20nunes
http://libdigi.unicamp.br/document/?code=vtls000410277
http://www.biblioteca.pucpr.br/tede//tde_busca/arquivo.php?codArquivo=328
http://wwwusers.rdc.puc-rio.br/marcosdantas/metodologia/Regras-de-citacao.pdf
http://www1.capes.gov.br/DistribuicaoArquivos/CursoNovo/Arquivos/2002/divulga/33002045/029/2002_029_330020452004_ementas.pdf http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&cr=countryBR&rlz=1W1GGLD_pt-BR&q=germinal+zola+tecnoprint&start=20&sa=N
http://www.cofecon.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=929&Itemid=114
http://www.cchla.ufpb.br/posletr/Teses2008/Mario.pdf

aponta a profa. cláudia poncioni que esta suposta tradução é praticamente uma cópia da edição portuguesa da crisos, na adaptação de j. martins. ver aqui.

imagem: http://meualtofalante.blogspot.com

14 de set de 2009

zola, germinal

cláudia poncioni é autora de um estudo comparado de traduções de germinal, que foi publicado em 1999 pela editora annablume. o título da obra é émile zola em português: um estudo das traduções de germinal no brasil e em portugal.


sua análise aborda o trabalho de cinco tradutores, sendo três portugueses, a saber, "beldemónio" (1885), bel-adam (1900) e j. martins (1930), e dois brasileiros, francisco bittencourt (1969) e eduardo nunes fonseca (1982).

a edição da crisos especifica que j. martins fez apenas a adaptação - termo muitas vezes usado para designar uma revisão e/ou atualização de tradução anterior. ao incluí-lo em seu estudo comparado, não admira que cláudia poncioni tenha encontrado grande similaridade entre a tradução de bel-adam e a adaptação de j. martins.

feita essa ressalva, a conclusão da autora é que, depois da secular tradução de beldemónio, francisco bittencourt foi o único a empreender uma nova tradução.* bel-adam se baseia em várias soluções de seu compatriota e j. martins apenas a adaptou. curiosamente foi essa adaptação de j. martins que foi copiada por eduardo nunes fonseca, pela editora hemus:
O exame deste fenômeno permite a constatação de que a tradução n. 5, de Eduardo Nunes da Fonseca, é praticamente uma cópia da tradução de J. Martins (n. 3), que se limitou a adaptar a tradução de Bel-Adam (n. 2), que por sua vez baseara-se na tradução de Beldemónio. O único tradutor a ter feito sua própria tradução foi Francisco Bittencourt (n. 4)" (op. cit., p. 127, negrito meu, db).
* há uma tradução de bandeira duarte, que saiu em 1935 pela flores & mano que, embora mencionada pela autora, não chega a ser objeto de análise em seu estudo.

apenas a título informativo: francisco bittencourt (1933-1997), nascido em itaqui, no rio grande do sul, foi poeta, tradutor, jornalista, editor e crítico de arte. teve vários livros de poemas publicados, foi colaborador da tribuna da imprensa no rio e do correio do povo de porto alegre. morou no egito nos anos 1960, como tradutor, jornalista e locutor, e nos anos 1970 e 1980 trabalhou como tradutor e jornalista na embaixada britânica no rio. foi um dos fundadores do jornal alternativo lampião de esquina (1978-1981) e da editora esquina, ao lado de aguinaldo silva, jean-claude bernardet, darcy penteado, joão silvério trevisan e outros. sua tradução de germinal saiu pela editorial bruguera, em 1969, e teve sucessivas reedições pela abril cultural e círculo do livro. francisco bittencourt traduziu também limões amargos, de durrell, e taras bulba, de gógol, por interposição.
eduardo nunes fonseca, por seu lado, já apareceu algumas vezes aqui no nãogostodeplágio, assinando outras edições espúrias, como a origem das espécies de darwin, pela hemus e pela ediouro, e a cidade antiga, de fustel de coulanges, também pela hemus e pela ediouro.
germinal, na pseudotradução de eduardo nunes fonseca, foi publicado pela hemus em 1982, com várias reedições. em 1986, passou a ser publicado também pela ediouro. em 1996, saiu na coleção "imortais da literatura universal", pela nova cultural e círculo do livro.

7 de ago de 2009

os galápagos caipiras

o ano de 2009 deveria ser uma comemoração: 200 anos de nascimento de darwin e 150 anos de publicação de um dos livros mais importantes de todos os tempos, a origem das espécies.

no país dos ishpertos, porém, a origem das espécies é conhecida sobretudo na provecta tradução lusitana de joaquim dá mesquita paul (1913!), sob o indisfarçado plágio em nome de "eduardo nunes", pela editora hemus (c. 1974 até hoje) e pela ediouro (1987 até hoje). segue uma pequeníssima amostra:

hemus:
http://www.scielo.br/pdf/ciedu/v13n2/v13n2a05.pdf http://www.ibb.unesp.br/graduacao/cb_lic/plano_de_ensino/PE_CB_LIC_evolucao.pdf www.alb.com.br/anais16/sem12pdf/sm12ss04_01.pdf www.unicruzeiro.org.br/100101/571271.html www.univille.edu.br/biblioteca/Agosto_2/Jlle.htm www.ufpi.br/bomjesus/arquivos/file/EmentadasDisciplinas.doc www.uems.br/proec/arquivos/bilbioteca/2%20tabela.pdf http://bdtd.bce.unb.br/tedesimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=2561 www.uems.br/proec/arquivos/bilbioteca/1%20tabela.pdf

ediouro:
www.iea.usp.br/iea/evolusociais/doriaoutrodarwin.pdf
www.prp.ueg.br/06v1/ctd/pesq/inic_cien/.../efeito_uso.pdf
http://www.uezo.rj.gov.br/cgi-bin/wxis.exe?IsisScript=phl8/003.xis&cipar=phl8.cip&bool=exp&opc=decorado&exp=DARWINISMO%20&code=&lang=
http://www.webartigos.com/articles/161/1/heresia-darwinista-a-cruzada-criacionista-pela-supressao-do-ensino-do-evolucionismo/pagina1.html
http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2700,1.shl
www.ifch.unicamp.br/pos/so/2009/ementas_1s/SO120A.pdf
http://www.fflch.usp.br/dh/22009disciplinas/Francisco%20Queiroz.htm
http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-53162008000300001&lng=es&nrm=iso
http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2007/resumos/R0695-1.pdf
http://www.redenacionaldetanatologia.psc.br/Artigos/artigo_24.htm
http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/made/article/view/3046/2437
http://www.pernambuco.com/diario/2004/07/17/viver4_0.html
http://www.gematec.cefetmg.br/Artigos/Fatima%20-%20Analogias%20no%20ensino%20da%20biologia.PDF
http://docs.google.com/gview?a=v&q=cache:VHTbskrwXv4J:www.ufra.edu.br/cursosgraduacao/veterinaria/conteudo_prog/Fisiologia%2520Veterinaria%2520I%2520G0113.pdf+darwin+%22a+origem+das+esp%C3%A9cies%22+ediouro&hl=pt-BR&gl=br
http://www.ibb.unesp.br/graduacao/c_biomed/plano_de_ensino/PE_CBM_Evolucao.doc
http://sare.unianhanguera.edu.br/index.php/rencp/article/viewPDFInterstitial/265/264
http://www.amda.org.br/assets/files/extincoesemmassa.pdf
http://www.fundamentalpsychopathology.org/app/index.php
http://www.colegioeducar.com.br/default.asp?link=darwin.htm
www.sbis.org.br/cbis/arquivos/810.pdf
www.educacao.go.gov.br/especiais/cantinho/99.pdf
http://www.ea.ufrgs.br/pos_graduacao/disciplinas/add006/ADD006_2008_2.pdf
http://docs.google.com/gview?a=v&q=cache:QWXkjx_-SzQJ:www.senept.cefetmg.br/galerias/Arquivos_senept/anais/terca_tema3/TerxaTema3Artigo12.pdf+darwin+%22a+origem+das+esp%C3%A9cies%22+ediouro&hl=pt-BR&gl=br
http://200.189.113.123/portals/portal/diretrizes/pdf/t_biologia.pdf
http://tede.pucrs.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1462
www.faculdadeideal.com.br/portal/central.../pdf/arq00069.pdf
http://www.sociesc.com.br:8080/waenetbb/servlet/hwbobrn?1,000,BIOLOGIA,S
http://www.ppgecologia.biologia.ufrj.br/oecologia/index.php/oecologiabrasiliensis/article/view/241/207 www.garibaldi.rs.gov.br/.../009_Pregao_Aquisicao_de_Cartilhas_e_.doc
E D I T A L D E P R E G Ã O Nº 036/2009
http://biblioteca.unisantos.br/tede/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=138
www.igrejaadventista.org.br/.../Artigos/Origens-monografia.doc
http://docs.google.com/gview?a=v&q=cache:LdchYlannHsJ:www1.capes.gov.br/estudos/dados/2002/33002010/046/2002_046_33002010003P9_Disc_Ofe.pdf+darwin+%22a+origem+das+esp%C3%A9cies%22+ediouro&hl=pt-BR&gl=br
http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/diaadia/diadia/arquivos/File/conteudo/artigos_teses/Ingles/patriciarocha.pdf http://74.125.47.132/search?q=cache:9j_oumEzSNkJ:revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fadir/article/view/5161/3785+darwin+%22a+origem+das+esp%C3%A9cies%22+ediouro&cd=158&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br
http://74.125.47.132/search?q=cache:9j_oumEzSNkJ:revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fadir/article/view/5161/3785+darwin+%22a+origem+das+esp%C3%A9cies%22+ediouro&cd=158&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br
www.salesianolins.br/projpedagogico/curso76.pdf
http://docs.google.com/gview?a=v&q=cache:Su1J0rCLtNYJ:www1.capes.gov.br/estudos/dados/2004/22003010/036/2004_036_22003010006P3_Disc_Ofe.pdf+darwin+%22a+origem+das+esp%C3%A9cies%22+ediouro&hl=pt-BR&gl=br
http://www.pde.pr.gov.br/arquivos/File/pdf/Resolucoes/PDE.pdf
http://dspace.c3sl.ufpr.br/dspace/bitstream/1884/3833/1/Tese.pdf
www.pr2.ufrj.br/suporte/jornada/jic08/Humanas.pdf
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/1843/CSPO-724K4B/1/victor_natanael.pdf

imagem: www.comunity.kompas.com

1 de jun de 2009

por quê? e até quando?

a pergunta que nunca se cala é: por quê? por que tanta cópia, tanta apropriação indevida do trabalho alheio, tanta falsa identificação?

quando saiu numa comunidade do orkut uma notícia de plágio de ivanhoé, quando saíram aquelas famosas matérias do jornal opção e da folha de s.paulo, e então comecei a pesquisar o tema, não fazia ideia da extensão que a cópia espúria de traduções no brasil tinha adquirido nos últimos quinze anos. eu sabia de alguns casos avulsos, como a editora germinal; quanto à nova cultural, foi um choque descobrir o que vinha ocorrendo desde 1995, e que adquiriu uma dimensão fantástica em 2002/2003 com o patrocínio da suzano celulose e da ong ecofuturo; sobre a martin claret, já corriam vários boatos e em abril ou maio do ano passado comecei a pesquisar um pouco suas edições. até o começo de 2009 eu achava que esse fenômeno em escala industrial estava restrito à editora nova cultural e à editora martin claret - que, juntas, respondem por milhões e milhões de exemplares fraudados presentes em lares, escolas, bibliotecas, instituições públicas e privadas de norte a sul do país.

então foi estarrecedor ver que o recurso à cópia deslavada de traduções andou se alastrando como um contágio. já apresentei os casos da landmark, da jardim dos livros (grupo geração), da rideel e da hemus (respingando na ediouro). tirando a hemus, os outros três enveredaram por tais rumos em data relativamente recente, isto é, a partir de 2004/2005.

quanto à landmark e à jardim dos livros, embora ainda devam satisfações ao público e ressarcimento aos leitores lesados, tenho a impressão de que interromperão essa prática sem maiores traumas, e até por interesse próprio: a landmark trilhou essa senda escusa em dois títulos, é uma editora pequena, seus donos parecem alimentar pretensões políticas no mundo do livro, certamente não quererão ter um tal telhado de vidro. a jardim dos livros, também pequena, agora é selo editorial do grupo geração, ao lado da editora leitura e da geração editorial, e não creio que seus novos sócios se interessem em preservar tais práticas.

já o caso da rideel foi totalmente inesperado e me surpreendeu muito: uma editora de porte médio, sólida, de aparência respeitável, com vasto catálogo de obras jurídicas, com presença marcante no mundo do livro, haja vista o cargo de diretoria que ocupa na principal entidade editorial do país, a câmara brasileira do livro. foi uma revelação muito contristadora e decepcionante. é um deslustro para todo o mundo do livro - digo isso porque entendo que representantes de uma categoria deveriam dar o bom exemplo. e digo isso não porque estaria me metendo em assuntos de uma entidade patronal que não me diriam respeito. digo isso porque o mundo do livro diz respeito a toda a sociedade, e as políticas de suas principais entidades editoriais, que naturalmente estão expressas em suas diretorias, afetam e se refletem em toda a sociedade. a cbl e demais entidades do livro carregam uma responsabilidade muito grande, que transcende a linha empresarial adotada no âmbito privado de cada editora. a meu ver, a cbl tem aí um pepino que terá que resolver de alguma maneira, para proteger sua credibilidade e suas intenções de legitimidade e transparência.

é com muita tristeza que reservo o próximo post para mais um caso da rideel, também em nome de "heloísa da graça burati". (para os outros casos da editora rideel, ver aqui e aqui.)

imagens: www.plagiarius.com; www.travelblog.org

6 de mai de 2009

zola na babilônia

esta é para quem gosta de análise comparada. encontrei um artigo interessante escrito por ana cristina tavares e josé manuel lopes, da universidade lusófona, chamado "Crítica das Traduções Portuguesas de La Bête humaine de Émile Zola". está na revista babilónia, n. 5, pp. 9-42.

os pesquisadores examinam 6 traduções de a besta humana, entre 1912 e 1991. a primeira foi feita por henrique marques, sob o pseudônimo de pandemónio. foi publicada em 1912 (T1a) pela guimarães e reeditada em 1956 (T1b) pela mesma editora, apenas com atualização ortográfica e mínimas outras alterações. no mesmo ano de 1956, a editorial crisos lança uma outra (suposta) tradução, em nome de gil avelar (T2), que, para a surpresa dos pesquisadores, mostrou ser cópia da tradução atualizada de pandemónio. em 1967, a guimarães lança nova tradução, em nome de jorge reis, também praticamente idêntica à sua edição de 1956 (T3). apenas a partir de 1976 começam a surgir traduções efetivamente novas: europa-américa, com sampaio marinho, T4; civilização, daniel augusto gonçalves (1983), T5; círculo dos leitores, isabel st. aubyn (1991), T6.

por mera curiosidade, dei uma olhada nos trechos destacados pelos pesquisadores em seu artigo, e comparei as diversas soluções às dadas por eduardo nunes fonseca, na hemus (1982). reproduzo abaixo as passagens do artigo, interpolando em vermelho os trechos correspondentes na pretensa tradução de eduardo nunes fonseca. acho que a conclusão salta aos olhos, e dispensa maiores comentários.

Assim, no original: «elle pouvait rattraper la phrase» (p.1012) aparece em T1a e b como: «podia iludir a frase» (p.23).
HEMUS - podia iludir a frase (p. 14)
A mesma tradução é retomada em T2 e T3, e só em T4 temos «podia recuperar a frase» (p.19) e, em T5 «podia ter emendado a frase» (p.26) e, em T6 «ainda estava a tempo de retomar a frase» (p.22).

«Mais, continua-t-il, tu m’as toujours dit que c’était ta mére qui te l’avait laissée, cette bague» (p.1012) surge com um tom empolado em ambas as versões da tradução: «— Mas — continuou ele — tu disseste-me sempre que fora tua mãe quem te dera esse anel.» (T1a e b, p.23).
HEMUS - — mas, continuou ele, tu disseste-me sempre que fora tua mãe quem te dera esse anel. (p. 14)em T4 há uma ligeira alteração: «— Mas — prosseguiu ele — sempre me disseste que foi a tua mãe que te deixou esse anel.» (p.19); em T5 «— Mas — continuou ele, — tu tinhas-me sempre dito que fora tua mãe que te deixara esse anel.» (p.26); em T6 «— Mas — prosseguiu ele — sempre me disseste que herdaste esse anel da tua mãe.» (p.22).

«Qu
and ils reprirent haleine, hébétés, gonflés de cette horreur, las de frapper et d’être frappé, ils étaient revenus près du lit […]»
Assim, temos em T1a: «Quando retomaram a respiração, embrutecidos, tumefactos d’aquelle horror, cançados de espancar e de ser espancada, tinham voltado para junto da cama [...]» (p. 26) e, em T1b: «Quando retomaram a respiração, embrutecidos, tumefactos daquele horror, cansados de se espancar um ao outro, tinham voltado para junto da cama [...]» (p. 25).
HEMUS - Quando retomaram a respiração, embrutecidos, tumefatos daquele horror, cansados de se espancarem um ao outro, tinham voltado para junto da cama [...], p. 21T5 opta por outra alternativa: «Quando recuperaram fôlego, estupidificados, cheios daquele horror, ele cansado de bater e ela de apanhar, tinham voltado perto do leito [...]» (p.28)

«Nom de Dieu de garce! tu as couché avec.» (p.1013), é traduzido em T1a por: «Grandíssima desvergonhada! Então tu foste com ele!» (p. 24), e T1b: «Grandíssima desavergonhada! Então tu foste dele!» (p.24). O mesmo se verifica em T2 e T3.
HEMUS - - Grandíssima desavergonhada! Então estiveste com ele! (p. 20)
Só nas edições posteriores ao 25 de Abril de 1974 vamos encontrar traduções que não evitam dizer o que se afirma no original. Deste modo, em T4, de 1976, temos uma tradução que não evita «transpor» o que se afirma no original: «Rameira duma figa! Dormiste com ele!» (p.20). Em T5, de 1983, encontramos «Sua cabra de um raio! Tu foste para a cama com ele!» (p.27), e em T6, de 1991: «Que pega, meu Deus! Dormiste com ele!» (p.23). Note-se que na única tradução feita por uma mulher, a T6 de Isabel St. Aubyn, a expressão é mais contida e indirecta.

«aussi, parfois, allait-il trop loin, il écrasait les pétards, “les cors au pied”, comme on dit, ce qui lui avait valu deux fois des mises à pied de huit jours.» (p.1162). Em T1a e T1b, este segmento é traduzido do seguinte modo: «por isso, às vezes, ia longe demais, o que lhe valera ser suspenso por vinte dias.» (T1a, p.7, vol.2), e em T1b (p.183).
HEMUS – por isso, às vezes, ia longe de mais, o que lhe valera ser suspenso por vinte dias (p. 159).Como se poderá constatar não foi traduzida a sequência que colocava mais dificuldades. Em T3, como se trata frequentemente de uma cópia de T1, a frase mantém-se igual. Em T4, porém, há uma tentativa de a traduzir: «esmagava os petardos, “com asas nos pés”, como sói dizer-se, o que lhe valera por duas vezes ser suspenso por oito dias» (p.164). T5, no entanto, apresenta outra alternativa igualmente pouco apropriada: «esmagava os petardos, “os calos do pé” como lhes chamam, o que lhe tinha valido por duas vezes suspensões de oito dias.» (p.156). Finalmente, em T6, poderemos ler o seguinte: «esmagava os petardos, complementos dos sinais ópticos, o que lhe valera já duas suspensões de oito dias.» (p.197). Ora parece-nos que a solução apropriada deveria ter sido: «passava os sinais da linha a toda a pressa, com “asas nos pés”, como se costuma dizer, o que lhe valera já duas suspensões de oito dias».

«comme le sang mêlé de leurs coeurs» (p.1151) que aparece como «o sangue amalgamado dos seus corações» (T1a, p.193, e T1b, p.171).
HEMUS - como o sangue amalgamado dos seus corações (p. 149)
Contudo, algumas das dificuldades que o texto original colocava também não foram resolvidas. É disto exemplo a frase «comme le sang mêlé de leurs coeurs» (p.1151) traduzida por «tal como o sangue dos seus corações» (p.183).

«Mon mari a dû m’empoigner» (p.1204), traduzido em T1 como «meu marido teve que pegar em mim» (T1a, p.58, vol.2).
HEMUS - Meu marido teve que pegar-me (p. 197)
Só em T5 descobrimos uma solução mais apropriada: «meu marido deve ter-me agarrado» (p. 192), porém, em T6, voltamos a ter «o meu marido deve ter pegado em mim» (p.244).

«Chez Séverine, après la montée ardente de ce long récit, ce cri était comme l’épanouissement même de son besoin de joie, dans l’exécration de ses souvenirs. Mais Jacques, qu’elle avait bouleversé et qui brûlait comme elle, la retint encore.
— Non, non, attends...Et tu étais aplatie sur ses jambes, et l’as senti mourir?» (p.1204).
Em T1b temos :
«Em Severina, depois da confissão ardente do seu crime, aquele grito era como que a expansão máxima da sua necessidade de alegria, na execração das suas recordações. Mas Tiago, cujo espírito ela revolvera e que ardia como ela, reteve-a ainda.
— Não, não, espera... E tu, quando lhe estavas a carregar nas pernas, sentiste-lo morrer?»
(p.228).
HEMUS – Em Severina, depois da confissão ardente do seu crime, aquele grito era como que a expansão máxima da sua necessidade de alegria, na execração das suas recordações. Mas Tiago, cujo espírito ela revolvera e que ardia como ela, reteve-a ainda.
— Não, não, espera... E tu, quando lhe forçavas as pernas, sentiste-o morrer?» (pp. 197-8)
Nesta passagem verificamos não só um excesso de interpretação em que «récit» é traduzido por «crime», mas onde também se verifica, tal como constatámos anteriormente, uma tradução demasiado «presa» ao original. Examinemos, então, as outras soluções. Dado que T3 é uma cópia de T1, passemos a T4:
«Em Séverine, após o arrebatado afluxo desta longa confissão, este grito era como uma manifestação da sua necessidade de alegria, no meio da execração das suas recordações. Mas Jacques, que ela havia perturbado e que também ardia de desejo não a deixou terminar ali.
— Não, não, espera... E tu estavas deitada nas suas pernas e sentiste-o morrer?» (p.204).
Em T5 temos:
«Em Severina, depois da explosão ardente desta longa narrativa, aquele grito era como a própria expansão da sua necessidade de alegria, na execração das suas recordações. Mas Tiago, que ela tinha transtornado e que ardia como ela, reteve-a ainda.
— Não, não espera... Tu estavas então deitada sobre as pernas do velho e sentiste-o morrer?» (p. 192),
e em T6:
«Para Séverine, depois da progressão ardente desta longa narrativa, este desabafo traduzia a sua carência de alegria, na execração das negras recordações. Mas Jacques, ardente de desejo e perturbado pela confissão, insistiu mais uma vez:
— Não, não, espera... Estavas deitada sobre as suas pernas, sentiste-o morrer?» (p.244).

«Les dents serrées, n’ayant plus qu’un bégaiement, Jacques cette fois l’avait prise ; et Séverine aussi le prenait. Ils se possédèrent, retrouvant l’amour au fond de la mort, dans la même volupté douloureuse des bêtes qui s’éventrent pendant le rut. Leur souffle rauque, seul, s’étendit. Au plafond, le reflet saignant avait disparu ; et, le poêle éteint, la chambre commençait à se glacer, dans le grand froid du dehors. Pas une voix ne montait de Paris ouaté de neige. Un instant, des ronflements étaient venus de chez la marchande de journaux, à côté. Puis, tout s’était abîmé au gouffre noir de la maison endormie.» (p. 1205)
Em T1b, temos a seguinte tradução literal:
«Com os dentes cerrados, mal balbuciando, o Tiago desta vez apoderara-se dela; e a Severina também dele tomara posse. Possuiram-se encontrando o amor no fundo da morte, a mesma voluptuosidade dolorosa dos animais que se matam durante o cio. Só se lhes ouvia a respiração rouca. No tecto, o reflexo sangrento desaparecera; como o fogão se tivesse apagado, o quarto começava a gelar, no grande frio exterior. Nem uma voz subia de Paris acolchoada de neve. Por um instante, sentiram-se rouquidos vindos da casa da vendedora de jornais, ao lado. Depois tudo mergulhara no abismo negro da casa adormecida.» (p. 229).
HEMUS - Com os dentes cerrados, mal balbuciando, Tiago desta vez apoderara-se dela; e Severina também dele tomara posse. Possuíram-se encontrando o amor no fundo da morte, a mesma voluptuosidade dolorosa dos animais que se matam durante o cio. Só se lhes ouvia a respiração rouca. No tecto, o reflexo sangrento desaparecera; como o fogão se tivesse apagado, o quarto começava a gelar, no grande frio exterior. Nem uma voz subia de Paris acolchoada de neve. Por um instante, ouviram-se roncos vindos da casa da vendedora de jornais, ao lado. Depois tudo mergulhara no abismo negro da casa adormecida.» (p. 198)Como se poderá ver, só em T6 as passagens acima assinaladas adquirem um registo perfeitamente adequado à língua portuguesa: «De dentes cerrados, num leve sussurro, Jacques abraçara-a; e Sévérine também o enlaçava. Possuíram-se, reencontrando o amor no fundo da morte, na mesma volúpia dolorosa dos animais que se dilaceram durante o cio. Ouvia-se apenas uma respiração rouca. No tecto, desvanecera-se o reflexo sangrento; o lume extinguira-se e o quarto começava a gelar, penetrado pelo frio intenso do exterior. Não se ouvia uma voz, nas ruas de Paris, cobertas de neve. Na casa do lado, a vendedora de jornais ressonou por alguns momentos. Depois, mergulhou tudo no negro abismo do prédio adormecido.» (p.245).

«Ce ne fut que plus d’une heure après qu’on vint ramasser le cadavre de Flore.» (p.1274), traduzido por «Só passada mais de meia hora, é que vieram levantar o cadáver da Flora.» (p.301).
HEMUS - Só passada mais de meia hora é que vieram levantar o cadáver de Flora. (p. 261)Só a partir de T4 encontramos escolhas mais pertinentes: «Só mais de uma hora depois foram buscar o cadáver de Flore.» (T4, p.270); «Foi só passada mais de uma hora que vieram recolher o corpo de Flora.» (T5, p.252); «Só uma hora mais tarde vieram buscar o cadáver de Flore»
(T6, p.324).

«Au sortir du tunnel, il s’était efforcé de crier l’accident au gardien. Mais, à Barentin seulement, il avait pu raconter que quelqu’un venait de se faire couper là-bas : c’était certainement une femme ; des cheveux, mêlés à dés débris de crâne, restaient collés encore à la vitre brisée du
fanal. » (p.1274).
Encontramos em T1 : «Ao sair do túnel, esforçara-se por comunicar, gritando, o acidente ao guarda. Mas só em Barentin pudera contar que alguém acabava de se fazer matar, lá para baixo: era decerto uma mulher; cabelos pegados a restos de crânio, estavam colados ainda ao vidro quebrado do farol» (T1, p.301).
HEMUS - Ao sair do túnel, esforçara-se por comunicar, gritando, o acidente ao guarda. Mas só em Barentin pudera contar que alguém acabava de expor-se à morte lá para baixo, decerto uma mulher; cabelos pegados a restos de crânio, estavam colados ainda ao vidro quebrado do farol (p. 261)A tradução literal, sobretudo nas partes a que demos ênfase, só irá, mais uma vez, ser resolvida a partir de T4: «Ao sair do túnel, esforçara-se por gritar ao guarda o acidente. Mas só em Barentin conseguira contar que alguém tinha sido trucidado; era certamente uma mulher: cabelos misturados com pedaços de crânio estavam ainda colados ao vidro estilhaçado do farol. (T4, p. 270). Se bem que esta tradução esteja mais bem conseguida, ainda apresenta uma frase que nos parece pouco apropriada: «esforçara-se por gritar ao guarda o acidente», melhor conseguida em T5: «tentara gritar ao guarda o que acontecera» (p. 252), ou em T6: «esforçara-se por comunicar o acidente ao guarda.» (p. 324)

«Qu’importaient les inconnus de la foule tombés en route, écrasés sous les roues ! On avait emporté les morts, lavé le sang, et l’on repartait pour là-bas, à l’avenir.» (p. 1275), notamos que a tradução em T1 ora se prende ao original, ora se afasta deste, omitindo alguns vocábulos relevantes: «Que importavam os desconhecidos da multidão, caídos no caminho, esmagados debaixo das rodas? Tinham-se levado os mortos, havia-se lavado, e tornava-se a partir lá para baixo, para o futuro.» (p. 302)

HEMUS - «Que importavam os desconhecidos da multidão, caídos no caminho, esmagados debaixo das rodas? Tinham-se levado os mortos, havia-se socorrido os feridos, e tornava-se a partir lá para baixo, para o futuro.» (p. 261-2)


Só a partir de T4, tal como nos outros casos, encontramos traduções mais bem conseguidas: «Que importavam os desconhecidos da multidão caídos em viagem, esmagados sob as rodas? Os mortos haviam sido levados, o sangue lavado, e partia-se de novo para longe, para o futuro.» (p.271). T5 apresenta uma melhor solução: «Que importavam os desconhecidos sem rosto, caídos pelo caminho, trucidados pelas rodas! Tinham levado os mortos, lavado o sangue e agora partia-se de novo para a frente, para o futuro» (T5, p.253), se bem que T6 seja a que mais nos agrada: «Que lhes importavam os desconhecidos caídos, trucidados pelas rodas! Transportados os cadáveres, lavado o sangue, retomavam o andamento rumo ao futuro.» (p.324).

Et la machine, libre de toute direction, roulait, roulait toujours. Enfin, la rétive, la fantasque, pouvait céder à la fougue de sa jeunesse, ainsi qu’une cavale indomptée encore, échappée des mains du gardien, galopant par la campagne rase.» (p. 1330).
Quando nos debruçamos sobre as várias traduções, constatamos uma série de padrões consistentes já mencionados anteriormente. Assim, T1 oscila entre o lapso e a literalidade:
«E a máquina, livre de qualquer direcção, rodava, rodava sempre. Enfim, a teimosa, a fantástica, podia ceder ao impulso da mocidade, como uma égua indomada ainda escapa das mãos do guarda, galopando pela montanha rasa. » (p. 360).
HEMUS - «E a máquina, livre de qualquer direção, rodava, rodava sempre. Enfim, a teimosa, a fantástica, podia ceder ao impulso da mocidade, como uma égua indomada ainda escapa das mãos do guarda, galopando pela montanha rasa. » (p. 312)
Se bem que a primeira frase ainda consiga manter o ritmo do original, temos «rodava» onde as outras traduções apresentam um mais apropriado «rolava»; «guarda» onde outras apresentam «tratador», e o deselegante oxímoro «montanha rasa» como tradução de «planura». [...] em T4 surge-nos uma melhor alternativa: «E a máquina, livre de qualquer direcção, rolava, rolava sempre: Finalmente, a renitente, a caprichosa podia ceder ao entusiasmo da sua juventude, como uma égua ainda por domar, escapada das mãos do tratador, galopando pelo campo plano.» (p. 324).
T5 surge-nos como uma variante de T4, e só em T6 nos surge a versão que nos parece mais bem conseguida: «E a máquina, descomandada, rolava, rolava sempre. Finalmente, a caprichosa, a reticente podia ceder ao impulso da juventude, como uma égua selvagem, livre das mãos do tratador, galopando pela planura.» (p.338)

«Qu’importaient les victimes que la machine écrasait en chemin ! N’allait-elle pas quand même à l’avenir, insoucieuse du sang répandu ? Sans conducteur, au milieu des ténèbres, en bête aveugle et sourde qu’on aurait lâchée parmi la mort, elle roulait, elle roulait, chargée de cette chair à canon, de ces soldats, déjà hébétés de fatigue, et ivres, qui chantaient» (p. 1331).
T1 apresenta-nos :
«Que importavam as vítimas que a máquina esmagava no caminho! Não ia ela também para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem o condutor no meio das trevas, como fera cega e surda, que se soltasse entre a morte, rodava, rodava atulhada dessa carne para canhão, desses
soldados já estupidificados de fadiga e embriagados, que cantavam.» (p. 362).
HEMUS - «Que importavam as vítimas que a máquina esmagava no caminho! Não ia ela também para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem condutor no meio das trevas, fera cega e surda, indômita, rodava, rodava atulhada dessa carne para canhão, desses soldados já estupidificados de fadiga e embriagados, que cantavam.» (p. 313)Por seu lado, T4 mostra-se mais elaborada: «Que importavam as vítimas que a máquina esmagava no caminho! Não se dirigia para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem condutor, no meio das trevas, como besta cega e surda largada entre a morte, rolava, rolava, carregada de carne para canhão, esses soldados já insensibilizados pela fadiga e embriagados que cantavam.» (p.325).
T5 sugere algumas variantes lexicais e um maior rigor de pontuação, contudo T6 apresenta-se-nos, uma vez mais, como a tradução mais bem conseguida: «Que importavam as vítimas que a máquina esmagava pelo caminho? Não caminhava para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem condutor, entre as trevas, como uma besta cega e surda libertada entre a
morte, rolava, rolava, carregada de carne para canhão, de soldados meio atordoados pela fadiga, e ébrios, que não paravam de cantar.» (p.390).

imagens: jean gabin em la bête humaine; capa da hemus, em google images

30 de abr de 2009

os 200 anos de darwin, hemus/ediouro

em le deuil, citei algumas supostas traduções de eduardo nunes fonseca que a editora hemus licenciou para a ediouro. faço agora uma retificação: além de a cidade antiga, de fustel de coulanges, uma outra dita "tradução" da hemus que está na ediouro e que, a meu ver, consiste num flagrante atentado à boa-fé do leitor é a origem das espécies, de darwin.

a tradução da hemus licenciada para a ediouro está em nome de eduardo fonseca, e tem tido inúmeras reedições e reimpressões nas duas editoras. salta à vista a inequívoca semelhança com a tradução do médico português joaquim dá mesquita paul, publicada em 1913 pela livraria chardron, lello & irmão editores, no porto. aliás, para quem se interessar, o portal da ediouro disponibiliza uma prévia do livro no googlebooks e a tradução de joaquim paul está disponível para download gratuito na web.


seguem-se, a título comparativo, apenas dois parágrafos, o primeiro e o último do livro:

1. joaquim dá mesquita paul:
Proponho-me noticiar a largos traços o progresso da opinião relativamente à origem das espécies. Até há bem pouco tempo, a maior parte dos naturalistas supunha que as espécies eram produções imutáveis criadas separadamente. Numerosos sábios defenderam habilmente esta hipótese. Outros, pelo contrário, admitiam que as espécies provinham de formas preexistentes por intermédio de geração regular. Pondo de lado as alusões que, a tal respeito, se encontram nos autores antigos,1 Buffon foi o primeiro que, nos tempos modernos, tratou este assunto de um modo essencialmente científico. Todavia, como as suas opiniões variavam muito de época para época, e não trata nem das causas, nem dos meios de transformação da espécie, é inútil entrar aqui em maiores minudências a respeito dos seus trabalhos.
(1) Aristóteles, nas suas «Physicae Auscultationes» (lib. II, cap. VIII, 2), depois de ter notado que a chuva não cai para fazer crescer o trigo como não cai para o deteriorar quando o rendeiro o bate nas eiras, aplica o mesmo argumento aos organismos e acrescenta (foi M. Clair Grece que me notou esta passagem): «Qual a razão por que as diferentes partes (do corpo) não teriam na natureza estas relações puramente acidentais? Os dentes, por exemplo, crescem necessariamente incisivos na parte anterior da boca, para dividir os alimentos; os maiores, planos, servem para mastigar; portanto não foram feitos para este fim, e esta forma é o resultado de um acidente. O mesmo se diz para os outros órgãos que parecem adaptados a
determinado acto. Por toda a parte, pois, todas as coisas reunidas (isto é, o conjunto das partes de um todo) são constituídas como se tivessem sido feitas com vista em algum desiderato; estas formas de uma maneira apropriada, por uma espontaneidade interna, são conservadas, enquanto que, no caso contrário, têm desaparecido e desaparecem ainda». Encontra-se aqui um esboço dos princípios da selecção natural; mas as observações sobre a conformação dos dentes indicam quão pouco Aristóteles compreendia estes princípios.

2. eduardo nunes fonseca:
Proponho-me noticiar a largos traços o progresso da opinião referente à origem das espécies. Até há bem pouco tempo, a maioria dos naturalistas admitia que as espécies eram produções imutáveis criadas separadamente. Numerosos cientistas defenderam habilmente esta possibilidade. Outros, pelo contrário, admitiam que as espécies provinham de formas preexistentes através de geração regular. Deixando de lado as alusões que, a tal respeito, se encontram nos autores antigos,1 Buffon foi o primeiro nos tempos modernos, a tratar este assunto de maneira essencialmente científica. Contudo, como as suas opiniões variavam muito de época para época, e não trata nem das causas, nem dos meios de transformação da espécie, é inútil entrar aqui em minúcias com referência aos seus trabalhos.
(1) Aristóteles nas suas Physicae Auscultationes (lib. II, cap. VIII, 2), depois de ter observado que a chuva não cai para fazer crescer o trigo como não cai para o deteriorar quando o rendeiro o bate nas eiras, aplica o mesmo argumento aos organismos e acrescenta (foi M. Clair Grece que me anotou esta passagem): «Qual a razão por que as diferentes partes (do corpo) não teriam na natureza estas relações puramente acidentais? Os dentes, por exemplo, crescem necessariamente incisivos na parte anterior da boca, para dividir os alimentos; os maiores, planos, servem para mastigar; portanto não foram feitos para este fim, e esta forma é o resultado de um acidente. O mesmo se diz para os outros órgãos que parecem adaptados a determinado ato. Por toda parte, pois, todas as coisas reunidas (isto é, o conjunto das partes de um todo) são constituídas como se tivessem sido feitas com vista em algum desiderato; estas formas de uma maneira apropriada, por uma espontaneidade interna, são conservadas, enquanto que, no caso contrário, desapareceram e desaparecem ainda». Encontra-se aqui um esboço dos princípios da seleção natural; mas as observações sobre a conformação dos dentes indicam quão pouco Aristóteles compreendia estes princípios.

1. joaquim dá mesquita paul:
É interessante contemplar uma ribeira luxuriante, atapetada com numerosas plantas pertencentes a numerosas espécies, abrigando aves que cantam nos ramos, insectos variados que volitam aqui e ali, vermes que rastejam na terra húmida, se se pensar que estas formas tão admiravelmente construídas, tão diferentemente conformadas, e dependentes umas das outras de uma maneira tão complexa, têm sido todas produzidas por leis que actuam em volta de nós. Estas leis, tomadas no seu sentido mais lato, são: a lei do crescimento e reprodução; a lei da hereditariedade que implica quase a lei de reprodução; a lei de variabilidade, resultante da acção directa e indirecta das condições de existência, do uso e não uso; a lei da multiplicação das espécies em razão bastante elevada para trazer a luta pela existência, que tem como consequência a selecção natural, que determina a divergência de caracteres, a extinção de formas menos aperfeiçoadas. O resultado directo desta guerra da natureza que se traduz pela fome e pela morte, é, pois, o facto mais admirável que podemos conceber, a saber: a produção de animais superiores. Não há uma verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida, com os seus poderes diversos atribuídos primitivamente pelo Criador a um pequeno número de formas, ou mesmo a uma só? Ora, enquanto que o nosso planeta, obedecendo à lei fixa da gravitação, continua a girar na sua órbita, uma quantidade infinita de belas e admiráveis formas, saídas de um começo tão simples, não têm cessado de se desenvolver e desenvolvem-se ainda!

2. eduardo nunes fonseca:
É interessante contemplar uma ribeira exuberante, atapetada com numerosas plantas pertencentes a numerosas espécies, abrigando aves que cantam nos galhos, insetos variados que saltitam aqui e ali, vermes que rastejam na terra úmida, se se pensar que estas formas tão admiravelmente construídas, tão diferentemente conformadas, e dependentes umas das outras de uma maneira tão complicada, foram todas produzidas por leis que atuam ao nosso redor. Estas leis, tomadas no seu sentido mais amplo, são: a lei do crescimento e reprodução; a lei da hereditariedade de que implica [] a lei de reprodução; a lei de variabilidade, resultante da acção direta e indireta das condições de vida, do uso e não-uso; a lei da multiplicação das espécies em razão bastante elevada para provocar a luta pela sobrevivência, que tem como consequência a seleção natural, que determina a divergência de caracteres, a extinção de formas menos aperfeiçoadas. O resultado direto desta guerra da natureza que se traduz pela fome e pela morte, é, pois, o fato mais admirável que podemos conceber, a saber: a produção de animais superiores. Não há uma verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida, com os seus poderes diversos atribuídos primitivamente pelo Criador a um pequeno número de formas, ou mesmo a uma só? Ora, enquanto que o nosso planeta, obedecendo à lei fixa da gravitação, continua a girar na sua órbita, uma quantidade infinita de belas e admiráveis formas, originadas de um começo tão simples, não cessou de se desenvolver e desenvolve-se ainda!

escolhi este último parágrafo também por uma interessante observação adicional, relatada pelo físico carlos fiolhais, no blog coletivo de rerum natura, e que reproduzo aqui:

O Dr. José Feijó, Comissário da Exposição sobre Darwin, na Fundação Gulbenkian, chamou-me a atenção para o facto de na edição original não haver esta referência ao Criador, na penúltima frase... O leitor poderá verificar isso mesmo, lendo o original inglês:

It is interesting to contemplate an entangled bank, clothed with many plants of many kinds, with birds singing on the bushes, with various insects flitting about, and with worms crawling through the damp earth, and to reflect that these elaborately constructed forms, so different from each other, and dependent on each other in so complex a manner, have all been produced by laws acting around us. These laws, taken in the largest sense, being Growth with Reproduction; inheritance which is almost implied by reproduction; Variability from the indirect and direct action of the external conditions of life, and from use and disuse; a Ratio of Increase so high as to lead to a Struggle for Life, and as a consequence to Natural Selection, entailing Divergence of Character and the Extinction of less-improved forms. Thus, from the war of nature, from famine and death, the most exalted object which we are capable of conceiving, namely, the production of the higher animals, directly follows. There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being, evolved.

a ediouro está ciente do fato desde dezembro de 2008, quando enviei um e-mail alertando-a do problema. espero de todo o coração que ela tome providências junto a nós leitores, pois esse descaso em relação ao público consumidor e a toda a sociedade é realmente contristador.

imagem: http://dererummundi.blogspot.com

atualização feita em 18 de outubro de 2009:

um leitor me informa que apenas a primeira edição da origem das espécies não trazia a referência ao Criador. assim, o motivo pelo qual eu tinha escolhido o último parágrafo como exemplo da identidade entre a secular tradução de joaquim dá mesquita paul e a pretensa tradução de eduardo nunes fonseca perde sua razão de ser.

apresento, então, outros trechos para ilustrar o tema deste post. usarei como fonte do original a edição da universidade da pensilvânia, disponível em http://www2.hn.psu.edu/faculty/jmanis/darwin/originspecies.pdf

conforme dito acima a edição de joaquim dá mesquita paul se encontra em: http://www.4shared.com/get/23646920/1962dc99/Charles_Darwin_-_A_Origem_das_Espcies.html;jsessionid=D1A6327C7C1707E18F50FF2F8625DFCA.dc156

a edição da hemus que tenho em mãos não traz data, e a edição citada da ediouro se encontra em:
http://books.google.com.br/books?id=WYOwnMq3x9MC&pg=PA3&dq=origem+das+esp%C3%A9cies+ediouro&ei=Sah4Sq2LNqbAygTw7q2TAw#v=onepage&q=&f=false

Dá Mesquita Paul:
É na excelente história de Isidore Geoffroy Saint-Hilaire (”Hist. Nat. Générale”, 1859, t. II, p. 405) que encontrei a data da primeira publicação de Lamarck; esta obra contém também um resumo das conclusões de Buffon sobre o mesmo assunto. É curioso ver quanto o Dr. Erasmo Darwin, meu avô, na sua «Zoonomia» (vol. I, p. 500-510), publicada em 1794, antecedeu Lamarck nas suas ideias e seus erros. Segundo Isidore Geoffroy, Goethe partilhava completamente as mesmas ideias, como prova a introdução de uma obra escrita em 1794 e 1795, mas publicada muito mais tarde. Insistiu sobre este ponto («Goethe als Naturforscher», pelo Dr. Karl Meding, p. 34), que os naturalistas terão de procurar, por exemplo, como os bois e carneiros adquiriram os cornos, e não para que servem, É um caso bastante singular a aparição quase simultânea de opiniões semelhantes, porque se vê que Goethe na Alemanha, o Dr. Darwin na Inglaterra, e Geoffroy Saint-Hilaire em França, chegam, nos anos de 1794-1795, à mesma conclusão sobre a origem das espécies.

Eduardo Nunes Fonseca:
É na excelente história de Isidore Geoffroy Saint-Hilaire (Hist. Nat. Générale, 1859, t. II, p. 405) que encontrei a data da primeira publicação de Lamarck; esta obra contém também um resumo das conclusões de Buffon sobre o mesmo assunto. É curioso ver quanto o Dr. Erasmo Darwin, meu avô, na sua «Zoonomia» (vol. I, p. 500-510), publicada em 1794, antecedeu Lamarck nas suas idéias e seus erros. Segundo Isidore Geoffroy, Goethe partilhava completamente as mesmas idéias, como prova a introdução de uma obra escrita em 1794 e 1795, mas publicada muito mais tarde. Insistiu sobre este ponto (Goethe als Naturforscher, pelo Dr. Karl Meding, p. 34), que os naturalistas terão de procurar, por exemplo, como os bois e carneiros adquiriram os cornos, e não para que servem.* É um caso bastante singular a aparição quase simultânea de opiniões semelhantes, porque se vê que Goethe na Alemanha, o Dr. Darwin na Inglaterra, e Geoffroy Sant[sic]-Hilaire na França, chegam, nos anos de 1794-1795, à mesma conclusão sobre a origem das espécies.
* curiosamente, na edição da ediouro, está "como os bois e carneiros adquiriram os cornos, e para que servem".

Joaquim Dá Mesquita Paul:
Na sua obra Nature of Limbs, p. 86, o professor Owen escrevia em 1849: «A ideia arquétipo está encarnada no nosso planeta por manifestações diversas, muito tempo antes da existência das espécies animais de que são actualmente a expressão. Mas, até agora, ignoramos inteiramente a que leis naturais ou a que causas secundárias têm sido submetidas a sucessão regular e a progressão destes fenómenos orgânicos». No seu discurso na Associação Britânica, em 1858, fala (p. 51) do «axioma da contínua potência criadora, ou do destino preordenado das coisas vivas». Mais adiante, a propósito da distribuição geográfica, acrescenta: «Estes fenómenos abalam a crença em que estávamos de que o aptérix da Nova Zelândia e o “tetras urogallus L.” da Inglaterra tenham sido criações distintas feitas numa ilha e só para ela. É útil, além disso, lembrar sempre que o zoólogo atribui o nome de criação ao processo sobre o qual nada se conhece». Desenvolve esta ideia acrescentando que todas as vezes que um «zoólogo cita exemplos, como o precedente, para provar uma criação distinta numa ilha e para ela, quer dizer somente que não sabe como o “tetras urogallus L.” se encontra exclusivamente neste lugar, e que esta maneira de exprimir a sua ignorância implica ao mesmo tempo a crença numa grande causa criadora primitiva, à qual a ave, assim como as ilhas, devem a sua origem». Se nós relacionarmos as frases pronunciadas no seu discurso umas com as outras, parece que em 1858 o célebre naturalista não estava convencido que o aptérix e o “tetras urogallus L.” tenham aparecido pela primeira vez nos seus países respectivos, sem que se possa explicar como e porquê.

Eduardo Nunes Fonseca:
Na sua obra Nature of Limbs, p. 86, o professor Owen escrevia em 1849: «A idéia arquétipo está encarnada no nosso planeta por manifestações diversas, muito tempo antes da existência das espécies animais de que são atualmente a expressão. Mas, até agora, ignoramos inteiramente a que leis naturais ou a que causas secundárias têm sido submetidas a sucessão regular e a progressão destes fenômenos orgânicos». No seu discurso na Associação Britânica, em 1858, fala (p. 51) do «axioma da contínua potência criadora, ou do destino preordenado das coisas vivas». Mais adiante, a propósito da distribuição geográfica, acrescenta: «Estes fenômenos abalam a crença em que estávamos de que o aptérix da Nova Zelândia e o tetras urogallus L. da Inglaterra tenham sido criações distintas feitas numa ilha e só para ela. É útil, com efeito, lembrar sempre que o zoólogo atribui o nome de criação ao processo sobre o qual nada se conhece». Explana esta idéia acrescentando que todas as vezes que um «zoólogo cita exemplos, como o precedente, para provar uma criação distinta numa ilha e para ela, quer dizer apenas que não sabe como o tetras urogallus L. se encontra exclusivamente neste lugar, e que esta maneira de exprimir a sua ignorância implica, ao mesmo tempo, a crença numa grande causa criadora primitiva, à qual a ave, assim como as ilhas, devem a sua origem». Se [] relacionarmos as frases pronunciadas no seu discurso umas com as outras, parece que em 1858 o eminente naturalista não estava convencido que o aptérix e o tetras urogallus L. tenham aparecido pela primeira vez nas suas respectivas regiões, sem que se possa explicar como e porquê.

vale a pena ver o original:
Professor Owen, in 1849 ("Nature of Limbs", page 86), wrote as follows: "The archetypal idea was manifested in the flesh under diverse such modifications, upon this planet, long prior to the existence of those animal species that actually exemplify it. To what natural laws or secondary causes the orderly succession and progression of such organic phenomena may have been committed, we, as yet, are ignorant." In his
address to the British Association, in 1858, he speaks (page li) of "the axiom of the continuous operation of creative power, or of the ordained becoming of living things." Further on (page xc), after referring to geographical distribution, he adds, "These phenomena shake our confidence in the conclusion that the Apteryx of New Zealand and the Red Grouse of England were distinct creations in and for those islands respectively. Always, also, it may be well to bear in mind that by the word 'creation' the zoologist means 'a process he knows not what.'" He amplifies this idea by adding that when such cases as that of the Red Grouse are "enumerated by the zoologist as evidence of distinct creation of the bird in and for such islands, he chiefly expresses that he knows not how the Red Grouse came to be there, and there exclusively; signifying also, by this mode of expressing such ignorance, his belief that both the bird and the islands owed their origin to a great first Creative Cause." If we interpret these sentences given in the same address, one by the other, it appears that this eminent philosopher felt in 1858 his confidence shaken that the Apteryx and the Red Grouse first appeared in their respective homes "he knew not how," or by some process "he knew not what."

ou ainda, joaquim dá mesquita paul:
Entrevejo num futuro afastado caminhos abertos a pesquisas muito mais importantes ainda. A psicologia será solidamente estabelecida sobre a base tão bem definida já por M. Herbert Spencer, isto é, sobre a aquisição necessariamente gradual de todas as faculdades e de todas as aptidões mentais, o que lançará uma viva luz sobre a origem do homem e sua história. Certos autores eminentes parecem plenamente satisfeitos com a hipótese de cada espécie ter sido criada de uma maneira independente. A meu ver, parece-me que o que nós sabemos das leis impostas à matéria pelo Criador concorda melhor com a hipótese de que a produção e a extinção dos habitantes passados e presentes do Globo são o resultado de causas secundárias, tais como as que determinam o nascimento e a morte do indivíduo. Quando considero todos os seres, não como criações especiais, mas como os descendentes em linha recta de alguns seres que viveram muito tempo antes que as primeiras camadas do sistema cambriano tivessem sido depositadas, parecem-me enobrecidos. Julgando assim pelo passado, podemos concluir com exactidão que nenhuma das espécies actualmente vivas transmitirá a sua semelhança intacta a uma época futura muito afastada, e que só um pequeno número delas terá descendentes nas idades por vir, Porque o modo de agrupamento de todos os seres organizados nos prova que, em cada género, o maior número de espécies, e que todas as espécies em muitos géneros, não deixaram descendente algum, mas estão totalmente extintas. Podemos mesmo lançar ao futuro um volver de olhos profético e predizer que são as espécies mais comuns e as mais espalhadas, pertencendo aos grupos mais consideráveis de cada classe, que prevalecerão ulteriormente e que procriarão espécies novas e preponderantes.
Como todas as formas actuais da vida descendem em linha recta das que viviam muito tempo antes da época cambriana, podemos estar certos de que a sucessão regular das gerações jamais foi interrompida e que nenhum cataclismo subverteu o mundo por completo. Podemos, pois, contar, com alguma confiança, sobre um futuro de incalculável comprimento. Ora, como a selecção natural actua apenas para o bem de cada indivíduo, todas as qualidades corporais e intelectuais devem tender a progredir para a perfeição.

eduardo nunes fonseca:
Entrevejo, num futuro remoto, caminhos abertos a pesquisas muito mais importantes ainda. A psicologia será solidamente estabelecida sobre a base tão bem definida [] por Mr. Herbert Spencer, isto é, sobre a aquisição necessariamente progressiva de todas as faculdades e de todas as aptidões mentais, o que lançará uma nova luz sobre a origem do homem e sua história.
Certos autores abalizados parecem plenamente satisfeitos com a possibilidade de cada espécie ter sido criada de uma maneira independente. A meu ver, parece-me que o que nós sabemos das leis impostas à matéria pelo Criador concorda melhor com a hipótese de que a produção e a extinção dos habitantes passados e presentes do globo sejam o resultado de causas secundárias, tais como as que determinam o nascimento e a morte do indivíduo. Quando considero todos os seres, não como criações especiais, mas como os descendentes em linha reta de alguns seres que viveram muito tempo antes que as primeiras camadas do sistema cambiano [sic] tivessem sido depositadas, parecem-me enobrecidos. Analisando assim pelo passado, podemos concluir com certeza que nenhuma das espécies atualmente vivas transmitirá a sua semelhança intacta a uma época futura muito afastada, e que só um pequeno número delas terá descendentes nas idades por vir, porque o modo de agrupamento de todos os seres organizados nos prova que, em cada gênero, o maior número de espécies, e que todas as espécies em muitos gêneros, não deixaram nenhum descendente, porém, estão totalmente extintas. Podemos mesmo lançar no futuro um olhar profético e dizer que são as espécies mais comuns e as mais disseminadas, pertencendo aos grupos mais consideráveis de cada classe, que prevalecerão posteriormente e que procriarão espécies novas e predominantes.
Como todas as formas atuais da vida descendem em linha reta das que viviam muito tempo antes da época cambriana, podemos estar certos de que a sucessão regular das gerações jamais foi interrompida e que nenhum cataclismo subverteu totalmente o mundo. Podemos, pois, contar, com alguma confiança, sobre um futuro de incalculável comprimento. Ora, como a seleção natural atua apenas para o bem de cada indivíduo, todas as qualidades corporais e intelectuais devem tender a progredir para a perfeição.

original:
In the future I see open fields for far more important researches. Psychology will be securely based on the foundation already well laid by Mr. Herbert Spencer, that of the necessary acquirement of each mental power and capacity by gradation. Much light will be thrown on the origin of man and his history.
Authors of the highest eminence seem to be fully satisfied with the view that each species has been independently created. To my mind it accords better with what we know of the laws impressed on matter by the Creator, that the production and extinction of the past and present inhabitants of the world should have been due to secondary causes, like those determining the birth and death of the individual. When I view all beings not as special creations, but as the lineal descendants of some few beings which lived long before the first bed of the Cambrian system was deposited, they seem to me to become ennobled. Judging from the past, we may safely infer that not one living species will transmit its unaltered likeness to a distinct futurity. And of the species now living very few will transmit progeny of any kind to a far distant futurity; for the manner in which all organic beings are grouped, shows that the greater number of species in each genus, and all the species in many genera, have left no descendants, but have become utterly extinct. We can so far take a prophetic glance into futurity as to foretell that it will be the common and widely spread species, belonging to the larger and dominant groups within each class, which will ultimately prevail and procreate new and dominant species. As all the living forms of life are the lineal descendants of those which lived long before the Cambrian epoch, we may feel certain that the ordinary succession by generation has never once been broken, and that no cataclysm has desolated the whole world. Hence, we may look with some confidence to a secure future of great length. And as natural selection works solely by and for the good of each being, all corporeal and mental endowments will tend to progress towards perfection.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.