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16 de nov de 2012

crônica de um sumiço

este é um caso interessante, onde certamente não há má fé nenhuma, apenas um daqueles lapsos que acabam se sedimentando.

devo a história a rafael augusto parrotto, que me escreveu um email muito bem documentado. já adianto que entrei em contato com a globo e ela está apurando o caso. publico o episódio porque me parece ilustrar bem didaticamente como alguns equívocos podem vir a se consolidar com o passar dos anos.

a obra do britânico somerset maugham, autor muito prolífico, conheceu enorme sucesso na primeira metade do século passado. chegou ao brasil pela livraria do globo, creio que pela primeira vez em 1937, com histórias dos mares do sul em tradução de leonel vallandro.

rapidamente seguiu-se uma bateladazinha de obras de maugham, em geral publicadas pela livraria do globo, depois editora globo, salvo outra indicação:
  • 1938, um drama na malásia 
  • 1939, servidão humana 
  • 1940, o véu pintado, pela civilização brasileira, e pela globo a partir de 1943 
  • 1941, férias de natalum agente britânicoum gosto e seis vinténs; "o homem que contemplava a natureza", este pel'a noite 
  • 1942, a carta; um casamento em florença 
  • 1943, o destino de um homem/ seis novelas; a hora antes do amanhecer; a garota de lambeth, este pela vecchi; meu diário de guerra, pela epasa
  • 1944, ah king
  • 1945, e aqui chegamos ao que nos interessa, o fio da navalha.

o livro saiu em tradução de lígia junqueira smith na coleção nobel e teve diversas reedições naquela época: em 1946, 1947, 1953, 1956.

aí, em 1960, a globo reedita a obra, mas agora na coleção catavento, recém-iniciada em 1959:


o interessante é que essa edição na catavento traz nos créditos de tradução o nome de ligia junqueira smith, mas agora também o de lino vallandro. eis a ficha catalográfica do exemplar disponível em nosso acervo nacional:

Autor:Maugham, W. Somersetclique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes (William Somerset), 1874-1965.
Título original:[The razor's edge. Portugues]
Título / Barra de autoria:O fio da navalha / W. Somerset Maugham ; traducao de Ligia Junqueira Smith e Lino Vallandro. -
Edição:2. ed., 1a impr. -
Imprenta:Rio de Janeiro : Globo, 1960. 
Descrição física:282p. ; 18cm. -
Série:(Coleção Catavento ; 20)
Notas:Tradução de: The razor's edge.
Entradas secundárias:Junqueira, Ligia,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1906-
Vallandro, Lino,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1917- 
Classificação Dewey:
Edição:
823
Indicação do Catálogo:V-430,7,22 
Registro Patrimonial:787.250 DL 21/01/1991

já aviso que não comparei a edição da coleção nobel e a da catavento. claro que seria muito bom ver quais (se as há) as diferenças entre uma e outra - fica aí mais uma sugestão de pesquisa, esta bastante simples, para uma monografia de graduação, por exemplo. pode ter havido alguma simplificação entre uma e outra, alguma atualização do texto, alguma correção de eventuais insuficiências, ou mesmo uma retificação dos créditos, caso lino vallandro já tivesse colaborado na tradução de 1945. mas meu palpite favorito é que talvez se trate uma adaptação, pois as edições anteriores tinham 375 páginas, em formato 13 x 19, enquanto essa da catavento conta com 282 páginas, em formato menor de 12 x 18 (sem contar a ilustração de capa, que parece voltada para um público infantojuvenil).

mas que seja, prossigamos. em 1970, a globo volta a lançar uma edição mais gordinha, com 352 páginas, em sua coleção sagitário, constando apenas lígia junqueira como tradutora:


a partir de 1973 e até 1997, a obra sai em várias reedições pelo círculo do livro e pela abril cultural; em 1983, pela rio gráfica, para bancas de jornal; em 2003 há o enorme sucesso da edição pela biblioteca da folha, além das constantes reedições pela globo, nestas décadas, até 2006, sempre em formato grandinho (chegando a 14 x 21), gordinha (com até 452 páginas em algumas das edições!) e trazendo apenas ligia junqueira como tradutora.

pois muito que bem. em 2009, a globo lança o fio da navalha na biblioteca azul, em sua coleção "globo de bolso". o formato até pode ser de bolso - 11 x 17,3 - mas tem nada menos de 560 páginas! ver aqui.


ora, é aí que acontece uma coisa que chamou a atenção de rafael parrotto, e transcrevo seu comentário: "vi o livro em agosto de 2012 e percebi que é a mesma tradução [de ligia], porém creditada a lino vallandro e vidal serrano". 

de fato, tanto no cadastro do isbn quanto na ficha catalográfica do exemplar depositado em nosso acervo nacional constam:

PESQUISA NO CADASTRO DO ISBN
RESULTADO
Palavra Pesquisada:O fio da navalha
ISBN: 978-85-250-4773-1
TÍTULO: O fio da navalha
SÉRIE: globo de bolso
AUTOR: W. Somerset Maugham
TRADUTOR: Lino Villandro
TRADUTOR: Vidal Serrano
EDIÇÃO: 1
ANO DE EDIÇÃO: 2009
LOCAL DE EDIÇÃO: SÃO PAULO
TIPO DE SUPORTE: PAPEL
PÁGINAS: 560
EDITORA: EDITORA GLOBO

Autor:Maugham, W. Somersetclique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes (William Somerset), 1874-1965.
Título original:[The razor's edge. Português]
Título / Barra de autoria:O fio da navalha / W. Somerset Maugham ; tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano. -
Imprenta:São Paulo : Globo, 2009. 
Descrição física:558p. ; 18cm. -
Série:(Globo de bolso)
Notas:Tradução de: The razor's edge.
BNB 04/10 
ISBN:9788525047731 (broch.)
Assuntos:Ficção inglesa.clique aqui para ver as obras sob este assunto no Catálogo de Autoridades de Assuntos 
Entradas secundárias:Vallandro, Lino,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1917-
Nunes Junior, Vidal Serrano,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1966- 
Títulos de série:Globo de bolso 

então as perguntas são: que fim deu ligia junqueira? por que lino vallandro apareceu na edição da catavento de 1960, e apenas nela? aparentando ser uma edição condensada, foi ele que fez a adaptação? e por que ressurge quase cinquenta anos depois numa edição aparentemente integral? e o que fez vidal serrano, que pelo visto nem era nascido naquela época, para constar como cotradutor dessa edição de 2009?

cumpre dizer que, ao consultar a globo sobre a questão, recebi pronta resposta do editor: "A tradução 'histórica' da Globo (1945) é a de Ligia Junqueira. Pedi para o CEDOC da editora levantar todo o passado desse título e, assim que apurarmos com mais detalhe, torno a escrever. Desde já agradecido pela sua atenção, Alexandre Barbosa de Souza".*

* diga-se ainda em favor da globo livros que, sob nova direção editorial desde julho de 2011, raras editoras têm demonstrado tanto apreço e respeito pelo trabalho de tradução. e agradeço a rafael parrotta a inestimável contribuição para que venha a se retificar um lapso certamente involuntário, mas capaz de se arraigar e apagar nossa memória tradutória.

atualização em 21/11/2012: ver o desfecho aqui

28 de dez de 2010

a febre de voltaire

o caso do voltaire ressurreto na coleção "sacode a poeira" da folha me levou a procurar outras traduções dos anos 1930-1950. encontrei coisas interessantes, e minha listinha ficou assim:

1. cândido, ou o otimista, na já citada tradução de jorge silva, pela editora athena, 1938;
2. cândido ou o otimismo, tradução de lívio teixeira, pela livraria martins, no volume o pensamento vivo de voltaire, 1940;

3. cândido, ou o otimista, tradução de galeão coutinho, pela livraria martins, 1943;

4. cândido, tradução de mario quintana, pela editora globo, num volume chamado contos e novelas, 1951;

5. cândido ou o otimismo, tradução de lívio teixeira, num volume pela difel com o título romances e contos, 1959.

quatro traduções do cândido entre 1938 e 1951! devia estar uma febre danada de voltaire naqueles anos.

1.










2.











3.











4.












5.








interessou-me bastante a edição rosadinha da martins, em sua coleção excelsior. já há o caso muito bizarro do zadig de voltaire, envolvendo galeão coutinho e mario quintana, ambos assinando traduções absolutamente idênticas, fato que atribuí a algum lapso da editora itatiaia. veja aqui. por outro lado, é interessante que um livro chamado candide, ou le optimisme encontre duas traduções diferentes com o título cândido, ou o otimista. como essa tradução do cândido pela atena parece ser filha única de mãe viúva, como diziam antigamente, do tal "jorge silva", quero dar uma checada. vai que é algum pseudônimo do galeão?

obs.: romances e contos da martins aparece na ilustr. 2 na edição de 1951.
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22 de nov de 2010

requentando a sopa

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uns meses atrás houve o caso da editora leya, em a guerra dos tronos: a editora (que é portuguesa e se instalou alguns anos atrás no brasil) licenciou a tradução portuguesa feita por jorge candeias, deu uma leve abrasileirada e mandou ver.

até aí, nada demais. fazia-se muito isso, e ainda se faz. mas vale a pena acompanhar os protestos do tradutor português e dar uma lida no primeiro capítulo do livro. já não tão edificantes são as manifestações da editora no twitter a respeito do episódio.


neste mundo nada se perde, tudo se transforma
imagem: tunicao

muito cômico e ainda menos edificante foi um caso anterior da editora globo, que eu não conhecia e vim a saber pelo excelente blog de alfredo monte. retomo o episódio, pois me parece muito ilustrativo de como às vezes as coisas rolam no país. trata-se do relançamento de o condenado, de graham greene, pela globo. cito alfredo monte:
Ele está sendo apresentado numa edição que se apresenta como “revista”, embora ainda utilize como base uma velha tradução de Leonel Vallandro, [...] e que é muito boa, só ficou anacrônica no quesito gíria [...]. Eu costumava me irritar com a aportuguesada Rosa (a personagem-chave do enredo) e fiquei feliz ao vê-la se tornar uma legítima e inglesa Rose. Mas parece que a dose foi demasiada e o remédio só piorou a doença: uma sucessão de palavras incorporou o Rose reconquistado. O leitor conhece uma polícia vagaRose? Pois aparece na página 152. E há um vagaRosemente tanto na 205 quanto na 296. Temos doloRosemente (155, 283, 336), doloRose (190, 279, 317), rancoRose (200), tenebRosemente (218), tenebRose (283, 295), indecoRosemente (291), prazeRosemente (239), temos “Roses, roses, roses, por todo o caminho” (234), ficamos sabendo que a vida não é cor-de-Rose (220), que “nem tudo são Roses” (270).
depois de apontar outros sérios problemas de edição (erros de revisão, frases truncadas, passagens eliminadas), conclui o crítico: "Edição 'revista'!!! é esse o respeito que as editoras brasileiras têm pelos seus leitores (ou vítimas)".

atualizado em 22/11, às 18 horas: a editora globo, na pessoa do editor andré de oliveira lima, enviou um e-mail informando que a edição de o condenado (de 2002), acima comentada por alfredo monte, está fora de catálogo, e que os erros apontados foram corrigidos em reimpressão posterior.

agradeço o pronto esclarecimento. de qualquer forma, como livro não é produto perecível, tomara que a globo tenha se prontificado junto aos leitores a trocar os exemplares da infeliz edição anterior, ou pelo menos tenha divulgado em seu site a possibilidade de substituí-la por uma edição mais confiável!


agradeço a lilian ogussuko pelas referências sobre o caso da guerra dos tronos.
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