além do incrível fato de as tales of the grotesque and arabesque serem inéditas no brasil, como seleta poeana, sinto falta de uma atenção mais detida aos conceitos de "grotesco" e "arabesco" de poe. já vi coisas absurdas, tipo serem tomados
como sinônimos ou, no caso do grotesco, ser identificado com
o barroco.
é sabido que poucas pistas ele deu a respeito. mas creio que não seria totalmente infecunda uma boa exploração de seu prefácio, com o levantamento dos usos (o "grotesco" eu não tomaria de barato como idêntico à grotesquerie dos crimes da rua morgue), uma análise focada da filosofia do mobiliário, uma pesquisa de possíveis fontes da época etc. quanto ao "arabesco" tenho um palpite de que é um conceito bastante sofisticado, que ele associa aos contos de horror, rejeitando o epíteto de gótico ou germânico.
imagem: arabesco
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Mostrando postagens com marcador edgar allan poe. Mostrar todas as postagens
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5 de ago de 2011
3 de ago de 2011
poe XLV, FBN, socorro II
no outro catálogo da BN, aqui, temos:
aliás, desde que mudaram o sistema de consulta, está absurdamente lento e vive caindo ou travando. além disso, no exemplo com link acima, uma entrada registra, por exemplo, 124 obras. você abre, são 62. outra registra 4 obras; você abre, são 2. os números estão todos duplicados.
galeno amorim, socorro de novo.
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poe, edgar allanme recuso a acreditar que seja tão difícil padronizar as entradas.
poe, edgar allan, 1809-1848
poe, edgar allan, 1809-1849
poe, edgar allan, 1809-1949
poe, edgard allan, 1809-1849
aliás, desde que mudaram o sistema de consulta, está absurdamente lento e vive caindo ou travando. além disso, no exemplo com link acima, uma entrada registra, por exemplo, 124 obras. você abre, são 62. outra registra 4 obras; você abre, são 2. os números estão todos duplicados.
galeno amorim, socorro de novo.
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2 de ago de 2011
poe XLIV, FBN, socorro
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fico doente com o relaxo no cadastramento dos autores em nossa fundação biblioteca nacional:
Aí a gente vai consultar o Edgar Allan Poe (o quarto da lista acima), e temos lá:
GALENO AMORIM, SOCORRO!!!
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fico doente com o relaxo no cadastramento dos autores em nossa fundação biblioteca nacional:
| NOME DO AUTOR |
| ALLAN POE |
| Edgar Alan Poe |
| Edgar Allam Poe |
| Edgar Allan Poe |
| Edgard Allan Poe |
| EDGAR ALLAN POE |
| EDGAR ALLAN POE |
| EDGAR ALLAN PPOE |
| EDGAR ALLEN POE |
| EDGARD ALLAN POE |
Aí a gente vai consultar o Edgar Allan Poe (o quarto da lista acima), e temos lá:
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| RESULTADO DA BUSCA |
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| Página | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | |
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poe XLIII, planilhas no google docs
quem quiser acompanhar essa fase inicial de levantamento de dados sobre as traduções da ficção de edgar allan poe no brasil, as planilhas estão aqui no google docs. os dados podem ser livremente usados, mas solicito a gentileza de que seja dada a fonte do levantamento.
agradeço a sugestão de ricardo nassif.
imagem: brint montgomery
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imagem: brint montgomery
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1 de ago de 2011
poe XLII, primeira parcial
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nessa pesquisa sobre a bibliografia da ficção de edgar allan poe no brasil, estou chegando a uns resultados interessantes. numa parcial inicial, temos que, do total de 69 contos de poe, 66 estão traduzidos. faltam apenas coisas muito pouco conhecidas, a saber: um fragmento manuscrito descoberto apenas em 1924, chamado The Light-House, o conto Von Kempelen and his Discovery (também tratado no ensaio "O jogador de xadrez de Maelzel") e uma novela inacabada, The Journal of Julius Rodman. Uma hora, estou boa de traduzi-los e disponibilizá-los na rede, para termos a totalidade da ficção de Poe em português.
até o momento, levantei 401 traduções diferentes desses 66 contos. não estou levando em conta as edições, reedições e licenciamentos de cada tradução, mas apenas a primeira edição de cada uma delas. falta ainda localizar umas boas dezenas, principalmente em antologias com vários autores do tipo "obras-primas do conto tal e tal", "maravilhas do conto tal", muitas vezes utilizando traduções existentes. mas a distribuição até agora é bastante interessante. por exemplo, quatro contos tiveram mais de vinte traduções nesse período. são eles:
- the black cat, com 27 traduções (21 legítimas e 6 espúrias)
- the purloined letter, com 23 traduções (20 legítimas e três espúrias)
- the gold-bug, com 23 traduções (19 legítimas e 4 espúrias)
- the murders in the rue morgue, com 21 traduções (19 legítimas e 2 espúrias)
outro dado que achei interessante foi a distribuição temporal dessas traduções. a vantagem é que chegamos a 1944 com todos os 66 contos traduzidos por milton amado e oscar mendes, na edição que saiu pela globo. dividi o período em três blocos e os resultados até agora são seguintes:
- 1900-1949: 106 traduções
- 1950-1999: 202 traduções
- 2000 --> : 93 traduções
outra coisa interessante é o perfil das edições. sobretudo a partir dos anos 80, a quantidade de edições didáticas aumenta muito, e também a quantidade de adaptações para o público infanto-juvenil, afora gibis e quadrinhos..
poe XLI, dificuldades
estou tentando rastrear os contos de poe em tradução brasileira publicados desde o começo do século XX até agora. já encontrei umas quatrocentas traduções de 66 contos, e falta ainda identificar algumas dezenas de outras.
mas tem um volume que está me dando uma canseira danada: contos de horror, em tradução de luiza lobo, que saiu pela bruguera em 1970, naquela coleção "trevo negro", vol. 11. as pouquíssimas referências estão no currículo da própria tradutora, aqui na pesquisa "poe no brasil" e no catálogo do acervo da fundação biblioteca nacional:
depois que a bruguera fechou e se transformou na cedibra, a trevo negro foi republicada, mas com outra numeração. descobri que o volume 16 da trevo negro da cedibra se chama horror, e é uma antologia - então talvez tenha essas misteriosas traduções, mas não consegui localizar um único exemplar!
tentei contato com a tradutora, liguei para a universidade onde ela dá aula, nada... então tenho que juntar as pequenas pistas: restam os contos da edibolso/cedibra de 1975. tirando os de brenno que estão em seu nome ("o gato preto" e "a queda da casa de usher"), ficariam "o enterro prematuro", "o barril de amontillado", "o coração revelador", "a máscara da peste vermelha" e "o homem na multidão".
atribuição é uma coisa complicada em pesquisa documental. pois esse "coração revelador" que tenho em mãos, de 1975, apresenta algumas diferenças significativas em relação às passagens de 1971 citadas na tese acima. como posso considerar que se trata da mesma tradução na edição da bruguera de 71 e na edição da edibolso de 75? este é apenas um pequeno exemplo das dificuldades em reconstituir a trajetória de um autor traduzido no brasil: exemplar mutilado em nosso acervo nacional, editoras extintas, livros que não se encontram nos sebos, cotejos que não batem, escassez de referências na internet...
imagem: histoires extraordinaires, ed. 1856
atualização em 02/08/2011: a leitora deize mara gentilmente forneceu o contato da profa. luiza lobo. espero poder logo esckarecer essas dúvidas.
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mas tem um volume que está me dando uma canseira danada: contos de horror, em tradução de luiza lobo, que saiu pela bruguera em 1970, naquela coleção "trevo negro", vol. 11. as pouquíssimas referências estão no currículo da própria tradutora, aqui na pesquisa "poe no brasil" e no catálogo do acervo da fundação biblioteca nacional:
e parece brincadeira: no volume da fbn faltam quase 60 páginas! já havia aquela confusão no volume da edibolso/cedibra, com contos traduzidos por brenno silveira e atribuídos a luiza lobo, que mostrei nos últimos posts. já numa tese que faz uma análise comparativa das traduções de the tell-heart, o autor menciona a tradução de luiza lobo numa antologia da bruguera com o título Horror - Antologia, com textos de poe, defoe e bierce, de 1971.
Autor: Poe, Edgar Allan, 1809-1849.
Título original: [Contos. Portugues. Selecoes]
Título / Barra de autoria: Contos de horror / Edgar Allan Poe ; traducao de Luiza Lobo. -
Imprenta: Rio [de Janeiro] : Bruguera, c1970.
Descrição física: 160p. ; 18cm. -
Série: (Colecao Trevo negro ; 11)
Notas: Faltam as p. de 1-58.
Classificação Dewey:
Edição: 813
Indicação do Catálogo: II-6,5,30
depois que a bruguera fechou e se transformou na cedibra, a trevo negro foi republicada, mas com outra numeração. descobri que o volume 16 da trevo negro da cedibra se chama horror, e é uma antologia - então talvez tenha essas misteriosas traduções, mas não consegui localizar um único exemplar!
tentei contato com a tradutora, liguei para a universidade onde ela dá aula, nada... então tenho que juntar as pequenas pistas: restam os contos da edibolso/cedibra de 1975. tirando os de brenno que estão em seu nome ("o gato preto" e "a queda da casa de usher"), ficariam "o enterro prematuro", "o barril de amontillado", "o coração revelador", "a máscara da peste vermelha" e "o homem na multidão".
atribuição é uma coisa complicada em pesquisa documental. pois esse "coração revelador" que tenho em mãos, de 1975, apresenta algumas diferenças significativas em relação às passagens de 1971 citadas na tese acima. como posso considerar que se trata da mesma tradução na edição da bruguera de 71 e na edição da edibolso de 75? este é apenas um pequeno exemplo das dificuldades em reconstituir a trajetória de um autor traduzido no brasil: exemplar mutilado em nosso acervo nacional, editoras extintas, livros que não se encontram nos sebos, cotejos que não batem, escassez de referências na internet...
imagem: histoires extraordinaires, ed. 1856
atualização em 02/08/2011: a leitora deize mara gentilmente forneceu o contato da profa. luiza lobo. espero poder logo esckarecer essas dúvidas.
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28 de jul de 2011
poe XL, o conto fantasma
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Como se vê na foto do índice do volume, aqui, "Berenice" se iniciaria à p. 148. Sendo o único conto cuja tradução não é atribuída a Sandro Pivatto, a Berenice Xavier ou a Luisa Lobo na página dos créditos, imaginar-se-ia que finalmente seria a tradução de Brenno Silveira, que consta com destaque na página de rosto. No entanto, o livro termina na p. 147. Não sei se a foto consegue mostrar o que está na sequência, e que seria a p. 148: a propaganda do lançamento de O exorcista. E, depois de mais algumas páginas de divulgação das obras publicadas pela editora, termina o livro.
A meu ver, essa edição da Edibolso, com traduções licenciadas da Cedibra, lamentavelmente integra o capítulo das infâmias editoriais na história de Edgar Allan Poe no Brasil.
Como se vê na foto do índice do volume, aqui, "Berenice" se iniciaria à p. 148. Sendo o único conto cuja tradução não é atribuída a Sandro Pivatto, a Berenice Xavier ou a Luisa Lobo na página dos créditos, imaginar-se-ia que finalmente seria a tradução de Brenno Silveira, que consta com destaque na página de rosto. No entanto, o livro termina na p. 147. Não sei se a foto consegue mostrar o que está na sequência, e que seria a p. 148: a propaganda do lançamento de O exorcista. E, depois de mais algumas páginas de divulgação das obras publicadas pela editora, termina o livro.
A meu ver, essa edição da Edibolso, com traduções licenciadas da Cedibra, lamentavelmente integra o capítulo das infâmias editoriais na história de Edgar Allan Poe no Brasil.
poe XXXIX, absurdidades editoriais
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Continuação:
imagem: google images
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Continuação:
O gato preto, Brenno Silveira:Como a tradução de Brenno Silveira saiu originalmente em 1959, e essa em nome de Luísa Lobo em 1975, não resta dúvida sobre a anterioridade. Para tornar as coisas ainda mais absurdas, tanto Brenno Silveira quanto Luísa Lobo são tradutores renomados, com trabalhos de qualidade, e é um absurdo supor que um se apropriasse da tradução do outro. Acontece que tais são os créditos constantes no livro, que, prima facie, têm valor documental. Como a Edibolso fechou, a Cedibra fechou, Brenno Silveira morreu, a meu ver seria importante que Luísa Lobo contribuísse para dirimir qualquer dúvida que possa vir a pairar sobre a legítima autoria dessa tradução.
Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã morro e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram. No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror — mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.
O gato preto, Luísa Lobo, segundo atribuição feita na edição Edibolso, com copirraite e licença da Cedibra:
Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã morro e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram. No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror — mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.
imagem: google images
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poe XXXVIII, o poço da irresponsabilidade
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Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia - e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. A sentença - a terrível sentença de morte - foi a última frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos. Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido indefinido de sonho.Veja-se a tradução de Brenno Silveira:
Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia - e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. A sentença - a terrível sentença de morte - foi a última frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos. Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido indefinido de sonho.Para a argumentação geral sobre o tema, ver o post anterior. Sobre a importância de uma manifestação pública de Sandro Pivatto desautorizando essa barbaridade da Edibolso/ Cedibra, idem. Se alguém se interessar pelo original e outras traduções do mesmo trecho, é só avisar.
imagem: o poço e o pêndulo
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poe XXXVII, irresponsabilidade
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Passo à apresentação dos motivos de minha perplexidade e irritação com irresponsabilidades editoriais que mencionei no post anterior, poe XXXVI. Seguirei o índice.
O grande risco, a meu ver, tal como ocorreu no caso da editora Itatiaia, atribuindo a Galeão Coutinho uma tradução de Mário Quintana, e no caso da editora Martin Claret, atribuindo a Isa Silveira Leal traduções de Ruth Guimarães, é que o nome do segundo tradutor, vitimado pela incúria da editora, fique conspurcado, ou pelo menos sob suspeita. No mínimo instaura-se uma confusão em nossa história lítero-tradutória. O que dirá um pesquisador daqui a cinquenta anos, perante a materialidade dos fatos?
Como a Edibolso fechou, a Cedibra fechou, Brenno Silveira morreu, a meu ver seria muito proveitoso que a profa. Luísa Lobo legasse para nossa memória documental um depoimento a respeito, a fim de esclarecer antecipadamente qualquer dúvida que possa vir a surgir no futuro sobre a legítima autoria dessa tradução.
atualização em 14/09/2011: a tradutora Luiza Lobo avisou que tentará descobrir o que pode ter acontecido.
imagem: a queda da casa de usher
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Passo à apresentação dos motivos de minha perplexidade e irritação com irresponsabilidades editoriais que mencionei no post anterior, poe XXXVI. Seguirei o índice.
"A queda da Casa de Usher", pela Edibolso/Cedibra, em nome de Luísa Lobo:
Durante um dia inteiro de outono, escuro, sombrio, silencioso, em que as nuvens pairavam, baixas e opressoras, nos céus, passava eu a cavalo, sozinho, por uma região singularmente monótona - e, quando as sombras da noite se estendiam, finalmente me encontrei diante da melancólica Casa de Usher.
"A queda da Casa de Usher", pela Civilização Brasileira, em nome de Brenno Silveira:Poderia prosseguir até o final do conto, mas, para fins ilustrativos, creio que basta esta primeira frase. Para mostrar claramente como é impossível encontrar duas traduções iguais feitas por dois tradutores diferentes, veja-se como José Paulo Paes, Oscar Mendes/ Milton Amado e Aurélio Lacerda vertem o mesmo original:
Durante um dia inteiro de outono, escuro, sombrio, silencioso, em que as nuvens pairavam, baixas e opressoras, nos céus, passava eu a cavalo, sozinho, por uma região singularmente monótona - e, quando as sombras da noite se estendiam, finalmente me encontrei diante da melancólica Casa de Usher.
A queda da Casa de Usher, pela Cultrix (Companhia das Letras), José Paulo Paes:Eis o original:
Durante todo um dia pesado, escuro e mudo de outono, em que nuvens baixas amontoavam-se opressivamente no céu, eu percorri a cavalo um trecho de campo de tristeza singular, e finamente me encontrei, quando as sombras da noite se avizinhavam, à vista da melancólica Casa de Usher.
A queda do Solar de Usher, pela Globo (Nova Aguilar), Oscar Mendes e Milton Amado:
Durante todo um pesado, sombrio e silente dia outonal, em que as nuvens pairavam opressivamente baixas no céu, estive eu passeando, sozinho, a cavalo, através de uma região do interior, singularmente tristonha, e afinal me encontrei, ao caírem as sombras da tarde, perto do melancólico Solar de Usher.
A queda da casa de Usher, pela Pinguim, Aurélio Lacerda:
Por todo o correr de um dia escuro, lúgubre e silencioso de outono, quando as nuvens, baixas, se acumulavam opressivas no céu, atravessara sozinho, a cavalo, uma região de campanha singularmente triste e, afinal, quando já caíam as sombras da tarde, encontrava-me à vista da merencórea Casa de Usher.
During the whole of a dull, dark, and soundless day in the autumn of the year, when the clouds hung oppressively low in the heavens, I had been passing alone, on horseback, through a singularly dreary tract of country; and at length found myself, as the shades of the evening drew on, within view of the melancholy House of Usher.Como a tradução de Brenno Silveira saiu originalmente em 1959, e essa em nome de Luísa Lobo em 1975, não resta dúvida sobre a anterioridade. Para tornar as coisas ainda mais absurdas, tanto Brenno Silveira quanto Luísa Lobo são tradutores renomados, com trabalhos de qualidade, e não faria o menor sentido que um se apropriasse da tradução do outro. Acontece que assim estão os créditos no livro; assim está a atribuição de autoria; assim, em termos materiais, está criado um dado objetivo.
O grande risco, a meu ver, tal como ocorreu no caso da editora Itatiaia, atribuindo a Galeão Coutinho uma tradução de Mário Quintana, e no caso da editora Martin Claret, atribuindo a Isa Silveira Leal traduções de Ruth Guimarães, é que o nome do segundo tradutor, vitimado pela incúria da editora, fique conspurcado, ou pelo menos sob suspeita. No mínimo instaura-se uma confusão em nossa história lítero-tradutória. O que dirá um pesquisador daqui a cinquenta anos, perante a materialidade dos fatos?
Como a Edibolso fechou, a Cedibra fechou, Brenno Silveira morreu, a meu ver seria muito proveitoso que a profa. Luísa Lobo legasse para nossa memória documental um depoimento a respeito, a fim de esclarecer antecipadamente qualquer dúvida que possa vir a surgir no futuro sobre a legítima autoria dessa tradução.
atualização em 14/09/2011: a tradutora Luiza Lobo avisou que tentará descobrir o que pode ter acontecido.
imagem: a queda da casa de usher
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poe XXXVI, os torvelinhos da desmemória
como é difícil reconstituir coisas nem tão distantes em nossa história lítero-tradutória! e quantas surpresas desagradáveis!
explico-me: depois de ter feito um levantamento das primeiras edições de contos de poe no brasil, das várias traduções d' o gato preto e das diversas coletâneas enfeixadas sob o mesmo título de histórias extraordinárias - veja aqui -, retomei minha pesquisa, na intenção de cobrir todas as traduções brasileiras de poe no século XX e XXI.
e eis que me deparo com isso aqui:
como se vê, é um voluminho da edibolso, com traduções licenciadas pela cedibra, 1975.* a nos fiar pelos dados do livro, temos os seguintes responsáveis por elas:
apresentarei os motivos de minha perplexidade e irritação nos próximos posts. reitero aqui minha indignação: enquanto este país e nossos editores se obstinarem em confundir, omitir, mascarar ou falsear os dados das obras tradutórias, continuaremos patinhando nessa patética rasura e ignorância em nossa formação cultural.
* esse volume me foi fornecido por joana canêdo, a quem agradeço novamente a gentileza.
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explico-me: depois de ter feito um levantamento das primeiras edições de contos de poe no brasil, das várias traduções d' o gato preto e das diversas coletâneas enfeixadas sob o mesmo título de histórias extraordinárias - veja aqui -, retomei minha pesquisa, na intenção de cobrir todas as traduções brasileiras de poe no século XX e XXI.
e eis que me deparo com isso aqui:
como se vê, é um voluminho da edibolso, com traduções licenciadas pela cedibra, 1975.* a nos fiar pelos dados do livro, temos os seguintes responsáveis por elas:
- sandro pivatto para "o poço e o pêndulo" e "a caixa quadrangular";
- berenice xavier para "william wilson";
- luisa lobo para "o enterro prematuro", "o barril de amontillado", "a queda da casa de usher", "o coração revelador", "o gato preto", "a máscara da peste vermelha", "o homem na multidão"
- para brenno silveira, o único nominalmente anunciado na página de rosto, mas não citado na página de dados catalográficos, restaria "berenice"
apresentarei os motivos de minha perplexidade e irritação nos próximos posts. reitero aqui minha indignação: enquanto este país e nossos editores se obstinarem em confundir, omitir, mascarar ou falsear os dados das obras tradutórias, continuaremos patinhando nessa patética rasura e ignorância em nossa formação cultural.
* esse volume me foi fornecido por joana canêdo, a quem agradeço novamente a gentileza.
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23 de jul de 2011
os sons do tempo III
descubro que lúcio cardoso, um dos poucos autores brasileiros do século XX em quem consigo perceber alguma afinidade com o intenso espírito trágico-romântico que vemos em poe, também traduziu e fez a adaptação teatral de the tell-tale heart, com o título de "o coração delator", para o teatro de câmera, em 1947.
segundo enaura quixabeira rosa e silva, "por inexplicável escrúpulo, lúcio cardoso apresenta [a peça] como de autoria de graça mello" (aqui, p. 147).
numa entrevista a sábato magaldi, porém, ele comenta:
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segundo enaura quixabeira rosa e silva, "por inexplicável escrúpulo, lúcio cardoso apresenta [a peça] como de autoria de graça mello" (aqui, p. 147).
numa entrevista a sábato magaldi, porém, ele comenta:
... fundei com Agostinho Olavo e Gustavo Dória o “Teatro de Câmera”, que marcou a primeira reação contra o gênero “grande espetáculo” que “Os Comediantes” vinham impondo como gênero absoluto e que deu nascimento a essa série de teatrinhos íntimos e espetáculos mais ou menos fechados, atualmente tão em voga. O “Teatro de Câmera” deu-me sessenta contos de prejuízo e inúmeros dissabores. Mesmo assim, montei, num espetáculo inteiramente organizado por mim, O Coração Delator, de Edgar Poe. Foram tais atropelos que jurei não voltar tão cedo ao teatro. (in Junia N. Neves, aqui, p.63)seria fascinante saber quais foram as soluções sonoras adotadas no palco para o deathwatch! aliás, lembrando a grandíssima amizade entre lúcio cardoso e clarice lispector, talvez não à toa a tradução e adaptação de the tell-tale heart feita por clarice, muitos anos depois, também se chame "o coração delator".
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17 de mai de 2011
sons do tempo II
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com o título de "o coração revelador"*:
- renato guimarães, in os mais extraordinários contos de horror, org. rosamund morris (civilização brasileira, 1978)
- celina portocarrero, in os melhores contos de loucura, org. flávio moreira da costa (ediouro, 2007)
- rodrigo breunig, in o escaravelho de ouro & outras histórias (lpm, 2011)
- ricardo gouveia (adapt.), in o gato preto e outras histórias (scipione, 2010)
*há ainda uma referência na revista fragmentos da ufsc (n. 17, 1999, p. 96), porém receio que talvez equivocada, à tradução de um certo "t. booker washington", in maravilhas do conto universal, org. diaulas riedel (cultrix, 1957). quanto a "t. booker washington", trata-se visivelmente de pseudônimo (tenho até um palpite de quem seria), que também aparece em vários outros volumes da mesma coleção: "traduções revistas por t. booker washington" ou "revisão das traduções por t. booker washington". são: maravilhas do conto inglês, maravilhas do conto alemão, maravilhas do conto italiano, maravilhas do conto francês, maravilhas do conto russo, maravilhas do conto norte-americano. receio que, como ocorre em grande parte dessa coleção de 24 volumes da cultrix, trate-se de reprodução não autorizada de uma tradução anterior.
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16 de mai de 2011
relações
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retomando um post anterior: naturalmente, a questão que se coloca é se poe conhecia o artigo de thoreau, publicado anonimamente em julho de 1842 na revista the dial, sobre a história natural de massachusetts, onde se encontra a analogia entre o canto do grilo, o tique do caruncho e o pulsar do coração, que reaparece tortuosamente em "o coração revelador".
sobre isso, robinson dá boas indicações: como resenhista literário, poe acompanhava as publicações de the dial, e aliás parecia considerar um tanto absurdos vários artigos publicados na revista dos transcendentalistas.
certa vez, poe explicou que antipatizava não com a doutrina transcendentalista em si, mas com "os embusteiros e os sofistas". não especificou quem seriam. o engraçado é que, se apreciava profundamente nathaniel hawthorne, a proximidade entre este e o círculo transcendentalista - na verdade, o simples fato de morar em concord - foi motivo para poe investir contra ele.
(numa rabeira a propósito da presença bastante difundida de anacreonte naquela primeira metade do século XIX, ver também as traduções de thoreau de algumas odes do poeta grego da juventude de poe, in thoreau tradutor.)
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retomando um post anterior: naturalmente, a questão que se coloca é se poe conhecia o artigo de thoreau, publicado anonimamente em julho de 1842 na revista the dial, sobre a história natural de massachusetts, onde se encontra a analogia entre o canto do grilo, o tique do caruncho e o pulsar do coração, que reaparece tortuosamente em "o coração revelador".
sobre isso, robinson dá boas indicações: como resenhista literário, poe acompanhava as publicações de the dial, e aliás parecia considerar um tanto absurdos vários artigos publicados na revista dos transcendentalistas.
sobre thoreau ele nada comenta, nem thoreau nada comenta sobre poe. de emerson, poe publica em janeiro de 1842 uma análise grafológica, na qual aproveita para reiterar sua aversão ao farisaísmo do "sábio de concord". achei muito divertida e de bastante acuidade:
MR. RALPH WALDO EMERSON belongs to a class of gentlemen with whom we have no patience whatever — the mystics for mysticism's sake. Quintilian mentions a pedant who taught obscurity, and who once said to a pupil "this is excellent, for I do not understand it myself." How the good man would have chuckled over Mr. E. ! His present role seems to be the outCarlyling Carlyle. Lycophron Tenebrosus is a fool to him. The best answer to his twaddle is cui bono? — a very little Latin phrase very generally mistranslated and misunderstood — cui bono? — to whom is it a benefit ? If not to Mr. Emerson individually, then surely to no man living.
His love of the obscure does not prevent him, nevertheless, from the composition of occasional poems in which beauty is apparent by flashes. Several of his effusions appeared in the " Western Messenger" — more in the "Dial," of which he is the soul — or the sun — or the shadow. We remember the "Sphynx," the "Problem," the "Snow Storm," and some fine old-fashioned verses entitled "Oh fair and stately maid whose eye."
His MS. is bad, sprawling, illegible and irregular — although sufficiently bold. This latter trait may be, and no doubt is, only a portion of his general affectation.
certa vez, poe explicou que antipatizava não com a doutrina transcendentalista em si, mas com "os embusteiros e os sofistas". não especificou quem seriam. o engraçado é que, se apreciava profundamente nathaniel hawthorne, a proximidade entre este e o círculo transcendentalista - na verdade, o simples fato de morar em concord - foi motivo para poe investir contra ele.
(numa rabeira a propósito da presença bastante difundida de anacreonte naquela primeira metade do século XIX, ver também as traduções de thoreau de algumas odes do poeta grego da juventude de poe, in thoreau tradutor.)
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anacreonte em poe
embora eu não me sinta muito persuadida de uma possível filiação direta, aventada por claudio w. abramo,* de the raven
a anacreonte, é inegável a presença do poeta como símbolo de louco hedonismo juvenil em algumas peças de poe.
além de shadow - a parable, mencionada por abramo, lembro os versos da terceira estrofe de introduction (1831), reelaboração de preface (1829) e posteriormente trabalhada em diversas versões de romance, até a versão final de 1845.
interessante também notar que a estrofe de 1831, com sua referência a anacreonte, traz os elementos que reaparecerão refundidos em prosa na parábola shadow, desde sua versão inicial de 1835 (aqui).
desnecessário destacar a strange alchemy of brain, acima, descrevendo com tanta clareza o processo de intensificação e inversão (ou perversão, em sentido psicanalítico) das pulsões e afetos, que viria a caracterizar
grande parte de sua obra futura.
* o corvo (2011), pp. 15, 47-51.
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a anacreonte, é inegável a presença do poeta como símbolo de louco hedonismo juvenil em algumas peças de poe.
além de shadow - a parable, mencionada por abramo, lembro os versos da terceira estrofe de introduction (1831), reelaboração de preface (1829) e posteriormente trabalhada em diversas versões de romance, até a versão final de 1845.
For, being an idle boy lang syne,é interessante acompanhar a trajetória do poema entre sua formulação inicial, em 1829, até a versão final de 1845: aqui.
Who read Anacreon, and drank wine,
I early found Anacreon rhymes
Were almost passionate sometimes —
And by strange alchemy of brain
His pleasures always turn’d to pain —
His naivete to wild desire —
His wit to love — his wine to fire —
And so, being young and dipt in folly
I fell in love with melancholy,
And used to throw my earthly rest
And quiet all away in jest —
I could not love except where Death
Was mingling his with Beauty’s breath —
Or Hymen, Time, and Destiny
Were stalking between her and me.
interessante também notar que a estrofe de 1831, com sua referência a anacreonte, traz os elementos que reaparecerão refundidos em prosa na parábola shadow, desde sua versão inicial de 1835 (aqui).
desnecessário destacar a strange alchemy of brain, acima, descrevendo com tanta clareza o processo de intensificação e inversão (ou perversão, em sentido psicanalítico) das pulsões e afetos, que viria a caracterizar
grande parte de sua obra futura.
* o corvo (2011), pp. 15, 47-51.
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14 de mai de 2011
os sons do tempo
I.
thoreau, numa entrada em seu diário em agosto de 1838, tinha escrito uma nota chamada the time of universe. ali dizia ele:
já a analogia literária ou de fundo romântico-transcendental de thoreau entre o cricri do grilo, o tique do caruncho e a pulsação (isto é, o bater do coração que se sente no pulso) era, ao que consta, inteiramente original.
assim, aguçada minha curiosidade pelo breve artigo de e. arthur robinson a este respeito,* pareceu-me extremamente sugestivo e até esclarecedor reler em the tell-tale heart (1843), de edgar allan poe, a passagem:
é tudo muito interessante: oito longas noites de silenciosa e sinistra vigília, à espera da ocasião propícia para liquidar a vítima. o assassino no escuro, sozinho, o velho dormindo, imagina-se o vazio sonoro em que qualquer mínimo ruído repercutiria muito. digno de atenção o verbo hearkening: não apenas ouvindo casualmente, mas prestando muita atenção. basta pensar: oito longas noites de profundo silêncio, ouvindo com atenção obsessiva os prenúncios de morte, os deathwatches in the wall! a psique como que esvaziada após se dissolver a tremenda tensão acumulada até o momento do assassinato; os carunchos que, imagina-se, continuam com seu tiquetaque na madeira, mesmo tendo o assassino se esquecido da existência deles; a sensação de um terrível aumento do espaço interno de sua cabeça; a pulsação rítmica se avolumando na tremenda caixa de ressonância em que se transformou a mente do protagonista, finda sua vigília de morte; quase como consequência de férrea lógica alucinatória surge a projeção final do som do caruncho fatídico para a pulsação do coração do morto.
e ainda mais interessante constatar esse vínculo entre uma referência muito concreta - o som no interior da parede - e o enlouquecimento progressivo do protagonista. isso, a meu ver, enriquece, dá uma densidade bem maior ao processo psicológico do personagem do que se se alimentasse apenas de sua ansiedade mental, desligada de qualquer elemento exterior tangível.
depois de reler o conto à luz da conexão entre thoreau, com sua analogia metafísica entre o tique do caruncho e o bater do coração, e poe, com sua transposição alucinatória do tique dos carunchos na parede para o bater do coração do morto, sinto-me razoavelmente persuadida de que o elemento central do conto the tell-tale heart é mesmo o deathwatch, que dá a chave para entendermos o desenvolvimento do processo mental do protagonista. se o entrelaçamento dos sentidos na mesma expressão: o bichinho em si, o som que prenuncia a morte, a espera marcada pelo tiquetaque desse relógio-da-morte, a vigília ao lado do moribundo, a vigília para infligir a morte, já leva a um grau não negligenciável de espessura literária, ao acrescentarmos a ele a ligação tácita - mas tão convincente, praticamente inegável depois de a conhecermos! - com o pulse-beat, a batida do coração de thoreau, a interligação dos elementos da narrativa lhe confere qualidade adicional.
ainda a esta luz, outros detalhes adquirem interesse renovado: identifica-se o som que o velho ouve após despertar; sua esperança de que o som pressago seja apenas um cricrilar (se lembrarmos que, tradicionalmente, o grilo é sinal de boa sorte, simétrico inverso dos maus presságios do deathwatch; aliás, também mencionado por thoreau em sua tríade cósmica do tempo universal); as outras menções a relógios - tudo parece adquirir mais consistência.
II
assim, foi decepcionante constatar que as traduções brasileiras mais conhecidas de the tell-tale heart simplesmente desconsideram ou francamente erram ao traduzir o trecho que descreve o protagonista hearkening to the deathwatches in the wall. temos:
é uma pena que, já praticamente perdida a densidade semântica de deathwatch nas transposições apresentadas, perca-se também a possibilidade de acompanhar na narrativa o funcionamento desse sutil mecanismo de projeção e transposição entre os sons de máxima carga simbólica: o som da morte e o som da vida.
* trata-se de seu artigo "Thoreau and the Deathwatch in Poe’s 'The Tell-Tale Heart'”, disponível aqui.
** atualização em 27/7/11: margarida vale de gato, da universidade de lisboa, gentilmente avisa que não se trata do poeta caboverdiano januário leite. seu xará, o tradutor homônimo aqui citado, era lusitano, integrante do grupo "renascença portuguesa" e colaborador do órgão "a águia", ao lado de álvaro pinto. o fato de ser português é também o que explica sua pertinente opção por "ralos".
imagem: deathwatch, google.
thoreau, numa entrada em seu diário em agosto de 1838, tinha escrito uma nota chamada the time of universe. ali dizia ele:
THE TIME OF THE UNIVERSEem the natural history of massachusetts, longo artigo que saiu anônimo em the dial em 1842, thoreau utilizou sua nota acima, enxugando-a para:
Aug. 10. Nor can all the vanities that so vex the world alter one whit the measure that night has chosen, but ever it must be short particular metre. The human soul is a silent harp in God's quire, whose strings need only to be swept by the divine breath to chime in with the harmonies of creation. Every pulse-beat is in exact time with the cricket's chant, and the tickings of the deathwatch in the wall. Alternate with these if you can.
Nor can all the vanities that vex the world alter one whit the measure that night has chosen. Every pulse-beat is in exact time with the cricket's chant, and the tickings of the deathwatch in the wall. Alternate with these if you can.embora o termo se aplicasse outrora a vários coleópteros, hoje o deathwatch designa mais particularmente o xestobium rufovillosum, um pequeno coleóptero da família dos carunchos, apreciador especialmente de madeira de carvalho, já meio umedecida ou embolorada, seja na mata ou em em casas velhas. emite um som regular, que faz lembrar o tiquetaque de um relógio, e, geralmente estando dentro da madeira, fica oculto ao olho humano. por superstição popular, ficou associado a um presságio sinistro, prenunciando a morte - e daí o nome deathwatch, "relógio da morte" (aliás, em francês o bichinho, la grosse vrillette, também tem o nome de horloge de la mort.) paralelamente, vale lembrar que deathwatch significa também a vigília de um moribundo ou ainda o velório de um morto.
já a analogia literária ou de fundo romântico-transcendental de thoreau entre o cricri do grilo, o tique do caruncho e a pulsação (isto é, o bater do coração que se sente no pulso) era, ao que consta, inteiramente original.
assim, aguçada minha curiosidade pelo breve artigo de e. arthur robinson a este respeito,* pareceu-me extremamente sugestivo e até esclarecedor reler em the tell-tale heart (1843), de edgar allan poe, a passagem:
He was still sitting up in the bed, listening; just as I have done night after night hearkening to the deathwatches in the wall.como se sabe, "o coração revelador" (ou denunciador, ou delator, variam as traduções) descreve, a partir de certa altura da narrativa, a alucinação crescente de um assassino que sente latejar em seus ouvidos um som cada vez mais alto e pulsante, que por fim julga ser o coração do velho que havia esquartejado.
é tudo muito interessante: oito longas noites de silenciosa e sinistra vigília, à espera da ocasião propícia para liquidar a vítima. o assassino no escuro, sozinho, o velho dormindo, imagina-se o vazio sonoro em que qualquer mínimo ruído repercutiria muito. digno de atenção o verbo hearkening: não apenas ouvindo casualmente, mas prestando muita atenção. basta pensar: oito longas noites de profundo silêncio, ouvindo com atenção obsessiva os prenúncios de morte, os deathwatches in the wall! a psique como que esvaziada após se dissolver a tremenda tensão acumulada até o momento do assassinato; os carunchos que, imagina-se, continuam com seu tiquetaque na madeira, mesmo tendo o assassino se esquecido da existência deles; a sensação de um terrível aumento do espaço interno de sua cabeça; a pulsação rítmica se avolumando na tremenda caixa de ressonância em que se transformou a mente do protagonista, finda sua vigília de morte; quase como consequência de férrea lógica alucinatória surge a projeção final do som do caruncho fatídico para a pulsação do coração do morto.
e ainda mais interessante constatar esse vínculo entre uma referência muito concreta - o som no interior da parede - e o enlouquecimento progressivo do protagonista. isso, a meu ver, enriquece, dá uma densidade bem maior ao processo psicológico do personagem do que se se alimentasse apenas de sua ansiedade mental, desligada de qualquer elemento exterior tangível.
depois de reler o conto à luz da conexão entre thoreau, com sua analogia metafísica entre o tique do caruncho e o bater do coração, e poe, com sua transposição alucinatória do tique dos carunchos na parede para o bater do coração do morto, sinto-me razoavelmente persuadida de que o elemento central do conto the tell-tale heart é mesmo o deathwatch, que dá a chave para entendermos o desenvolvimento do processo mental do protagonista. se o entrelaçamento dos sentidos na mesma expressão: o bichinho em si, o som que prenuncia a morte, a espera marcada pelo tiquetaque desse relógio-da-morte, a vigília ao lado do moribundo, a vigília para infligir a morte, já leva a um grau não negligenciável de espessura literária, ao acrescentarmos a ele a ligação tácita - mas tão convincente, praticamente inegável depois de a conhecermos! - com o pulse-beat, a batida do coração de thoreau, a interligação dos elementos da narrativa lhe confere qualidade adicional.
ainda a esta luz, outros detalhes adquirem interesse renovado: identifica-se o som que o velho ouve após despertar; sua esperança de que o som pressago seja apenas um cricrilar (se lembrarmos que, tradicionalmente, o grilo é sinal de boa sorte, simétrico inverso dos maus presságios do deathwatch; aliás, também mencionado por thoreau em sua tríade cósmica do tempo universal); as outras menções a relógios - tudo parece adquirir mais consistência.
II
assim, foi decepcionante constatar que as traduções brasileiras mais conhecidas de the tell-tale heart simplesmente desconsideram ou francamente erram ao traduzir o trecho que descreve o protagonista hearkening to the deathwatches in the wall. temos:
- oscar mendes e milton amado: ouvindo a ronda da morte próxima
- josé paulo paes: espreitando o relógio na parede
- clarice lispector (adapt.): omitido
- januário leite (literato caboverdiano radicado em lisboa;** dado equivocadamente como autor de "uma das versões brasileiras mais antigas do conto"): escutando os ralos da parede
- annunziata de filippis (embora o autor da dissertação não observe o fato, trata-se de uma tradução por interposição do italiano): escutando os pássaros da morte esvoaçando ameaçadores
- márcia pedreira: ouvindo a morte rondar ali por perto
- luísa lobo: ouvindo a ronda da morte próxima [note-se a identidade com a solução de mendes / amado]
- paulo schiller: espreitando os relógios da morte na parede
é uma pena que, já praticamente perdida a densidade semântica de deathwatch nas transposições apresentadas, perca-se também a possibilidade de acompanhar na narrativa o funcionamento desse sutil mecanismo de projeção e transposição entre os sons de máxima carga simbólica: o som da morte e o som da vida.
* trata-se de seu artigo "Thoreau and the Deathwatch in Poe’s 'The Tell-Tale Heart'”, disponível aqui.
** atualização em 27/7/11: margarida vale de gato, da universidade de lisboa, gentilmente avisa que não se trata do poeta caboverdiano januário leite. seu xará, o tradutor homônimo aqui citado, era lusitano, integrante do grupo "renascença portuguesa" e colaborador do órgão "a águia", ao lado de álvaro pinto. o fato de ser português é também o que explica sua pertinente opção por "ralos".
imagem: deathwatch, google.
13 de mai de 2011
o bálsamo de gileade
Outro aspecto que Claudio Weber Abramo aponta em seu ensaio sobre O Corvo é "uma possível gênese bíblica e anacreôntica para a narrativa de Poe" (p. 15). A poeana brasileira tem imensas lacunas, e essa sugestão, desenvolvida no capítulo "Fontes" (pp. 43-56), parece promissora.
O capítulo se inicia com a transcrição de Jeremias 8:22, conforme a Bíblia do rei Jaime: Is there no balm in Gilead; is there no physician there? why then is not the health of the daughter of my people recovered? (p. 43) Inspirada pela citação, atraiu-me no poema o verso que remete diretamente a ela - a quinta linha da 15a. estrofe, quando o personagem pergunta ao Corvo: Is there - is there balm in Gilead? O escopo da análise de Abramo é bem mais amplo, mas essa menção explícita ao bálsamo de Gileade - que justamente deve ter servido, imagino eu, de ponto de partida para a hipótese mais abrangente do autor - dá mesmo margem a supor que a presença de Jeremias em The Raven não é episódica nem circunstancial. E, nessa linha de raciocínio, eu arriscaria: tampouco seria à toa que, nesta e na estrofe seguinte, o personagem se dirige ao Corvo chamando-o de Profeta.
Balm of Gilead, balm of Mecca, Mecca balsam; baume de Galaad, baume de Judée, baume de la Mecque; bálsamo de Gilead(e), bálsamo de Galaad, bálsamo da meca, bálsamo da Judeia, os nomes variam. (Baudelaire e mais tarde Mallarmé usaram baume en Judée.)
Sempre consultando o utilíssimo site de Elson Fróes, para "balm in Gilead" temos:
O capítulo se inicia com a transcrição de Jeremias 8:22, conforme a Bíblia do rei Jaime: Is there no balm in Gilead; is there no physician there? why then is not the health of the daughter of my people recovered? (p. 43) Inspirada pela citação, atraiu-me no poema o verso que remete diretamente a ela - a quinta linha da 15a. estrofe, quando o personagem pergunta ao Corvo: Is there - is there balm in Gilead? O escopo da análise de Abramo é bem mais amplo, mas essa menção explícita ao bálsamo de Gileade - que justamente deve ter servido, imagino eu, de ponto de partida para a hipótese mais abrangente do autor - dá mesmo margem a supor que a presença de Jeremias em The Raven não é episódica nem circunstancial. E, nessa linha de raciocínio, eu arriscaria: tampouco seria à toa que, nesta e na estrofe seguinte, o personagem se dirige ao Corvo chamando-o de Profeta.
Balm of Gilead, balm of Mecca, Mecca balsam; baume de Galaad, baume de Judée, baume de la Mecque; bálsamo de Gilead(e), bálsamo de Galaad, bálsamo da meca, bálsamo da Judeia, os nomes variam. (Baudelaire e mais tarde Mallarmé usaram baume en Judée.)
Sempre consultando o utilíssimo site de Elson Fróes, para "balm in Gilead" temos:
- Machado de Assis: um bálsamo no mundo
- Alfredo R. Rodrigues: o bálsamo ... do esquecimento
- João Kopke: lenitivo que a [a dor] acalme
- Emílio de Menezes: algum repouso, algum consolo
- Fernando Pessoa: um bálsamo longínquo
- Gondim da Fonseca: bálsamo em Galaad
- Milton Amado: um bálsamo em Galaad
- Benedito Lopes: na Judeia um bálsamo
- José Luiz de Oliveira: um bálsamo pra dor
- Rubens F. Lucchetti: um bálsamo da Judeia
- Alexei Bueno: um bálsamo em Galaad
- João Inácio Padilha: no mundo um bálsamo
- Sergio Duarte: algum bálsamo
- Edson Negromonte: o bálsamo de Galaade
- Odair Creazzo Jr.: tem Galahad bálsamo
- Aluysio M. Sampaio: bálsamo em Galaad
- Luís C. Guimarães: um bálsamo em Galaad
- Helder da Rocha: bálsamo em Gileade
- Vinícius Alves: o bálsamo em Galaad
- Diego Raphael: bálsamo em Galaad
- Eduardo A. Rodrigues: um bálsamo em Galaad
- Carlos Primati: o bálsamo
- Isa Mara Lando: um bálsamo ali
- Margarida Vale de Gato: em Galaad há consolo
- Alskander Santos: bálsamo
- Thereza C. R. da Motta: bálsamo na Esperança
- Raphael Soares: bálsamo em outros mares
12 de mai de 2011
poe contista
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nos últimos posts, tenho me concentrado em the raven e alguns aspectos que me parecem interessantes. de acompanhamento às traduções do poema comentadas por ivo barroso e claudio w. abramo, quem se interessa por seus contos encontra aqui no blog mais de uma trintena de posts agrupados na linha de assunto poe no brasil. pode consultar também um artigo meu, "alguns aspectos da presença de edgar allan poe no brasil", publicado na tradução em revista, puc-rio, 2010/1, disponível aqui.
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11 de mai de 2011
emblemas
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na primeira vez em que publicou the raven, poe assinou com o pseudônimo "quarles". não parece haver muitas dúvidas de que ele se referia a francis quarles, autor de paráfrases bíblicas e poeta seiscentista inglês que escreveu um livro de emblemas,* reiterativamente chamado emblems.
há quem diga que talvez poe estivesse fazendo um trocadilho com quarrels. de minha parte, acho imensamente sugestiva a referência de poe a quarles, insinuando por extensão o caráter emblemático d'o corvo.
* categoria literária específica dos séculos XVI e XVII, basicamente com imagens simbólicas e textos explicativos, muitas vezes de fundo bíblico. na wikipedia encontram-se inúmeros verbetes e links para obras de emblemas.
imagem: quarles, emblems
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na primeira vez em que publicou the raven, poe assinou com o pseudônimo "quarles". não parece haver muitas dúvidas de que ele se referia a francis quarles, autor de paráfrases bíblicas e poeta seiscentista inglês que escreveu um livro de emblemas,* reiterativamente chamado emblems.
há quem diga que talvez poe estivesse fazendo um trocadilho com quarrels. de minha parte, acho imensamente sugestiva a referência de poe a quarles, insinuando por extensão o caráter emblemático d'o corvo.
* categoria literária específica dos séculos XVI e XVII, basicamente com imagens simbólicas e textos explicativos, muitas vezes de fundo bíblico. na wikipedia encontram-se inúmeros verbetes e links para obras de emblemas.
imagem: quarles, emblems
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as versões de the raven
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a história de the raven é bastante acidentada: entre sua primeira publicação em janeiro de 1845 até a edição de 1849, tida como a versão final autorizada, poe procedeu a dezenas de modificações no texto. a escolha da edição não deveria ser leviana, portanto. mas, para as traduções feitas no brasil (e mesmo na frança, com baudelaire e mallarmé), já temos aí um problema: se poe teve por bem, entre outras coisas, modificar soul para fancy na oitava e na duodécima estrofes do poema, muitas das traduções, quando não simplesmente atropelam seja a alma ou a fantasia, adotam o repudiado soul de 1845 - o que não me parece coisa de somenos, ainda mais se levarmos em conta as ressonâncias da seminal distinção romântica fancy/ imagination do amado coleridge de poe.
aqui se encontra o histórico das modificações feitas por poe, com respectivos textos.
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a história de the raven é bastante acidentada: entre sua primeira publicação em janeiro de 1845 até a edição de 1849, tida como a versão final autorizada, poe procedeu a dezenas de modificações no texto. a escolha da edição não deveria ser leviana, portanto. mas, para as traduções feitas no brasil (e mesmo na frança, com baudelaire e mallarmé), já temos aí um problema: se poe teve por bem, entre outras coisas, modificar soul para fancy na oitava e na duodécima estrofes do poema, muitas das traduções, quando não simplesmente atropelam seja a alma ou a fantasia, adotam o repudiado soul de 1845 - o que não me parece coisa de somenos, ainda mais se levarmos em conta as ressonâncias da seminal distinção romântica fancy/ imagination do amado coleridge de poe.
aqui se encontra o histórico das modificações feitas por poe, com respectivos textos.
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