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19 de ago de 2012

afinidades tradutivas



em 2002, a boitempo editorial publicou uma coletânea de ensaios de perry anderson reunidos sob o título de afinidades seletivas. a tradução vem atribuída a paulo césar castanheira, ressalvado apenas um dos ensaios: "agradecemos à fundação editora unesp a cessão do ensaio 'as afinidades de norberto bobbio', traduzido por raul fiker e publicado em zona de compromisso" (p. 11, "nota da edição").

entre os onze autores tratados por anderson nos textos reunidos em afinidades seletivas, cabe a gramsci o mais extenso, intitulado "as antinomias de gramsci" (p. 13-100). este mesmo ensaio saiu pela editora joruês em 1986, em tradução de juarez guimarães e felix sanchez, numa coletânea chamada a estratégia revolucionária na atualidade, da série crítica marxista.



seguem-se alguns trechos extraídos das duas edições, a título comparativo. o texto como um todo, nas duas traduções (ou melhor, naquilo que aparenta ser uma só tradução), segue o mesmo padrão de identidade abaixo ilustrado.

em nome de juarez guimarães e felix sanchez (joruês, 1986)
Nos dias de hoje, nenhum pensador marxista posterior ao período clássico é tão universalmente respeitado no Ocidente como Antonio Gramsci. Nem há algum conceito tão livre ou diversamente invocado entre as forças de esquerda do que [sic] o de hegemonia, que ele tornou de uso corrente. A reputação de Gramsci, localizada e marginal fora de sua Itália de origem no início dos anos sessenta, transformou-o, uma década após, numa celebridade mundial. A homenagem ao seu trabalho realizado na prisão - trinta anos após a primeira publicação de seus Cadernos do Cárcere - está sendo, afinal, intensamente prestada. A ignorância sobre o seu pensamento ou a escassez de estudos sobre ele deixaram de ser obstáculos à sua difusão. (p. 7)

em nome de paulo césar castanheira (boitempo, 2002)
Nos dias de hoje, nenhum pensador marxista posterior ao período clássico é tão universalmente respeitado no Ocidente como Antonio Gramsci. Nem há algum conceito tão livre ou diversamente invocado entre as forças de esquerda do que [sic] o de hegemonia, que ele tornou de uso corrente. A reputação de Gramsci, localizada e marginal fora de sua Itália de origem no início dos anos 1960, transformou-o, uma década após, numa celebridade mundial. A homenagem ao seu trabalho realizado na prisão - trinta anos após a primeira publicação de seus Quaderni del carcere - está sendo, afinal, intensamente prestada. A ignorância sobre o seu pensamento ou a escassez de estudos sobre ele deixaram de ser obstáculos à sua difusão. (p. 15)

mesmo um erro palmar como "conceito tão livre ... do que" (em vez de "tão livre... quanto") foi mantido nas duas edições, além de alguns errinhos em relação ao original, como "a reputação de gramsci ... transformou-o numa celebridade mundial", em vez de "transformou-se em fama mundial", ou o uso de "intensamente" para fully, além de detalhes como o mesmo torneio de frase no final do trecho citado. segue o trechinho correspondente no original:
Today, no Marxist thinker after the classical epoch is so universally respected in the West as Antonio Gramsci. Nor is any term so freely or diversely invoked on the Left as that of hegemony, to which he gave currency. Gramsci’s reputation, still local and marginal outside his native Italy in the early sixties, has a decade later become a world-wide fame. The homage due to his enterprise in prison is now— thirty years after the first publication of his notebooks—finally and fully being paid. Lack of knowledge, or paucity of discussion, have ceased to be obstacles to the diffusion of his thought. 
chamo a atenção para esses detalhes, pois parecem indicar que a tradução de guimarães e sanchez não chegou a passar por uma revisão mais detida, à diferença de outros casos anteriormente apontados.

em nome de juarez guimarães e felix sanchez (joruês, 1986)
O próprio Gramsci estava, na verdade, bastante consciente da necessidade de uma cuidadosa distinção das formas históricas sucessivas do "consentimento" pelos explorados à sua exploração e de uma diferenciação analítica de seus componentes a cada momento. Ele criticou justamente a Croce por afirmar em sua História da liberdade que todas as ideologias antecedentes ao liberalismo eram da "mesma indistinta e árida cor, isentas de desenvolvimento ou conflito" - e sublinhava a especialidade do refúgio da religião sobre as massas a Nápoles dos Bourbons, o poderoso apelo ao sentimento nacional que a sucedeu na Itália e, ao mesmo tempo, a possibilidade de combinações populares das duas. (p. 30)

em nome de paulo césar castanheira (boitempo, 2002)
O próprio Gramsci estava, na verdade, bastante consciente da necessidade de uma cuidadosa distinção das formas históricas sucessivas do "consentimento" pelos explorados à sua exploração e de uma diferenciação analítica de seus componentes a cada momento. Ele criticou justamente a Croce por afirmar em sua História da liberdade que todas as ideologias antecedentes ao liberalismo eram da "mesma indistinta e árida cor, isentas de desenvolvimento ou conflito" - e sublinhava a especialidade do refúgio da religião sobre as massas a Nápoles dos Bourbons, o poderoso apelo ao sentimento nacional que a sucedeu na Itália e, ao mesmo tempo, a possibilidade de combinações populares das duas. (p. 44)

neste trecho, além da pura identidade, destaca-se a manutenção de um surpreendente "a especialidade do refúgio da religião sobre as massas" para o original "the specificity of the hold of religion on the masses" ["a especificidade do domínio da religião sobre as massas"].

em nome de juarez guimarães e felix sanchez (joruês, 1986)
Pois o debate no seio da social-democracia alemã teve uma sequela reveladora na social-democracia russa. Poucas semanas depois, Martov escreveu um artigo na Die Neue Zeit sobre O debate prussiano e a experiência russa. Aprovando calorosamente o conjunto das teses de Kautsky, Martov argumentou que a Rússia realmente estava longe de escapar às lições que elas [sic] podiam ser extraídas. Não deveria ser permitida a Rosa Luxemburgo utilizar a revolução de 1905 como um trunfo contra a política oficial do SPD na Alemanha. Sua análise da revolução não deveria ser admitida pelos socialistas ocidentais, em nome do privilegium odiosum que fazia da Rússia um caso excepcional. A experiência russa era agora no fundamental semelhante, em todos os sentidos, à experiência europeia em seu conjunto. Onde ela se desviou do padrão, em 1905, terminou em desastre. A mistura de greves econômicas e políticas exaltadas por Rosa Luxemburgo era mais uma fraqueza do que uma força do proletariado russo. O levantamento [sic] de Moscou foi o resultado calamitoso de um movimento lançado "artificialmente" para um "enfrentamento decisivo" com o Estado. (p. 63)

em nome de paulo césar castanheira (boitempo, 2002)
Pois o debate no seio da socialdemocracia alemã teve uma sequela reveladora na socialdemocracia russa. Poucas semanas depois, Martov escreveu um artigo no Die Neue Zeit sobre "O debate prussiano e a experiência russa". Aprovando calorosamente o conjunto das teses de Kautsky, Martov argumentou que a Rússia realmente estava longe de escapar às lições que elas [sic] podiam ser extraídas. Não deveria ser permitido a Rosa Luxemburgo utilizar a revolução de 1905 como um trunfo contra a política oficial do SPD na Alemanha. Sua análise da revolução não deveria ser admitida pelos socialistas ocidentais, em nome do privilegium odiosum que fazia da Rússia um caso excepcional. A experiência russa era agora no fundamental semelhante, em todos os sentidos, à experiência europeia em seu conjunto. Onde ela se desviou do padrão, em 1905, terminou em desastre. A mistura de greves econômicas e políticas exaltadas por Rosa Luxemburgo era mais uma fraqueza do que uma força do proletariado russo. O levantamento [sic] de Moscou foi o resultado calamitoso de um movimento lançado "artificialmente" para um "enfrentamento decisivo" com o Estado. (p. 85)

em nome de juarez guimarães e felix sanchez (joruês, 1986)
Os debates clássicos, por isso, ainda continuam a ser, em vários aspectos, o mais avançado limite de referência que possuímos hoje. Não é assim um mero arcaísmo relembrar as controvérsias estratégicas que ocorreram quatro ou cinco décadas antes. Reapropriá-las [sic] é, pelo contrário, um passo na direção de uma discussão marxista na esperança - necessariamente modesta - [sic] que ela tome uma "forma inicial" de teoria correta para hoje. Regis Debray falou, em um parágrafo famoso, da dificuldade permanente de ser contemporâneo como [sic] o nosso presente. Na Europa, ao menos, temos ainda de ser contemporâneos com o nosso passado. (p. 74)

em nome de paulo césar castanheira (boitempo, 2002)
Os debates clássicos, por isso, ainda continuam a ser, em vários aspectos, o mais avançado limite de referência que possuímos hoje. Não é assim um mero arcaísmo relembrar as controvérsias estratégicas que ocorreram quatro ou cinco décadas antes. Reapropriá-las [sic] é, pelo contrário, um passo na direção de uma discussão marxista na esperança - necessariamente modesta - [sic] que ela tome uma "forma inicial" de teoria correta para hoje. Regis Debray falou, em um parágrafo famoso, da dificuldade permanente de ser contemporâneo como [sic] o nosso presente. Na Europa, ao menos, temos ainda de ser contemporâneos com o nosso passado. (p. 100)

em nota recente, a editora boitempo comunicou que dava por encerrado o processo de auditoria interna a fim de eliminar qualquer vestígio de irregularidade em seu catálogo (ver aqui). no entanto, o ensaio "as antinomias de gramsci" parece ter escapado a seu crivo, pois não é mencionado na referida nota. em vista do empenho que a editora tem dedicado a apurar alguns problemas apontados em suas publicações, quero crer que se disporá também a avaliar o caso acima exposto. 

sobre os outros problemas apontados em seu catálogo, ver aqui.

adendo: paulo césar castanheira, até onde consigo entender, é um tradutor sério e respeitado, com boas referências, por exemplo, na editora revan. tem diversas traduções publicadas por diversas editoras, e não conheço nada que o desabone como pessoa e como profissional.

se seu nome aparece atribuído a algumas pretensas traduções publicadas pela boitempo editorial, eu jamais suporia nem jamais me permitiria supor que tenha sido ele o responsável por tais irregularidades. ademais, suas relações profissionais com a editora não me dizem respeito e sou da opinião de que elas não vêm ao caso. o que vem ao caso é a fidedignidade dos créditos, a veracidade das informações sobre a autoria dos textos traduzidos, a integridade intelectual da obra ofertada ao público leitor: todos esses quesitos são sempre e inapelavelmente de responsabilidade da casa editorial que a publica. em vista disso, acrescentei nas especificações dos nomes nos trechos exemplificativos a expressão "em nome de", e passarei a adotar este procedimento em todos os cotejos que eventualmente eu vier a apresentar neste blog.

12 de ago de 2012

pesadelo de uma noite de natal






na sequência do post uma duradoura árvore natalina, aqui, passo agora ao conto de máximo gorki, sonho de uma noite de natal, publicado em 1947 pela livraria martins editora, em tradução de luiz macedo, e em 1995 pela boitempo editorial, com tradução atribuída a isa tavares.



apresento sucintamente o trecho inicial e o trecho final do texto, com as duas edições em paralelo. todo o miolo do conto guarda o mesmo padrão de identidade.

luiz macedo (martins, 1947)
Eu havia terminado um conto sombrio como os breves e tristes dias de inverno, que então pesava sobre meu país. Deixei cair a pena e comecei a passear pela casa.
Era noite. Lá fora prenunciava-se uma tormenta. A neve caía em flocos espessos. A rua estava deserta e, encostando-me à vidraça, eu via apenas uma lanterna pendurada a uma porta, do outro lado da rua, e agitada pelo vento. Aquele espetáculo era tão profundamente desolador que, afastando-me da janela, apaguei a lâmpada e fui deitar-me.
Então, na escuridão que invadia todo o meu quarto, os sons da noite se fizeram mais nítidos. O relógio contava os segundos, mas por vezes o zumbir da neve, lá fora, afogava seu rumor. Em vão. O tic-tac apressado, incansável, voltava a dominar os murmúrios do inverno: e aquele tic-tac seco, monótono e teimoso, em sua marcha para a eternidade, impunha-se a meu cérebro, ressoava dentro dele.
Não podendo dormir, pensava nas páginas que acabara de escrever. Era uma narração muito simples: a história de dois velhos tímidos e meigos, dois abandonados pelo destino. Ele - cego; ela, sua esposa, humilde e fiel.
Uma madrugada, na véspera de Natal, saíram de seu sórdido abrigo e foram mendigar pela casaria da vizinhança, para ver se obtinham com que comprar um pouco de alegria e conforto para o dia, entre todos, santo.
Movidos por essa esperança, percorreram os arredores, crentes de que poderiam voltar, à hora da Missa do Galo, com os bolsos cheios de dádivas feitas em nome do Senhor. Mas foram tão escassas as esmolas que nem sequer compensaram a caminhada, e era já muito tarde quando o triste casal compreendeu que tinha de voltar a seu casebre sem fogo para se aquecer e apenas com o indispensável para não passar fome. (p. 253-4)

isa tavares (boitempo, 1995)
Eu havia terminado um conto sombrio como os breves e tristes dias de inverno, que então pesava sobre meu país. Deixei cair a pena e comecei a passear pela casa.
Era noite. Lá fora prenunciava-se uma tormenta. A neve caía em flocos espessos. A rua estava deserta e, encostando-me à vidraça, via apenas uma lanterna pendurada a uma porta, do outro lado da rua, e agitada pelo vento. Aquele espetáculo era tão profundamente desolador que, afastando-me da janela, apaguei a lâmpada e fui dormir.
Então, na escuridão que invadia todo o meu quarto, os sons da noite se fizeram mais nítidos. O relógio contava os segundos, mas por vezes o zumbir da neve, lá fora, afogava seu rumor. Em vão. O tic-tac apressado, incansável, voltava a dominar os murmúrios do inverno: e aquele tic-tac seco, monótono e teimoso, em sua marcha para a eternidade, entrava em meu cérebro, ressoava dentro dele.
Não conseguia dormir, pensava nas páginas que acabara de escrever. Era uma narração muito simples: a história de dois velhos tímidos e meigos, dois abandonados pelo destino.
Ele - cego; ela, sua esposa, humilde e fiel.
Uma madrugada, na véspera de Natal, saíram de seu sórdido abrigo e foram mendigar pelas casas da vizinhança, para ver se obtinham alguma coisa para comprar um pouco de alegria e conforto para o dia, entre todos, santo.
Movidos por essa esperança, percorreram os arredores, crentes de que poderiam voltar à hora da Missa do Galo, com os bolsos cheios de dádivas feitas em nome do Senhor. Mas foram tão escassas as esmolas que nem sequer compensaram a caminhada, e era já muito tarde quando o triste casal compreendeu que tinha de voltar a seu casebre sem fogo para se aquecer e apenas com o indispensável para não passar fome. (p. 21-2)

luiz macedo (martins, 1947)
- É mentira! - bradou a velha. - Mentira ingênua e ridícula. Então pretendes, com dores e misérias, despertar bons sentimentos nos corações acostumados a desgraças reais? Idiota! Pensas enternecer com tuas pobres fantasias os homens, que não se comovem ante a realidade miserável de todos os dias?
O resto do sonho foi uma confusão, que não consigo recompor. Mas, pela manhã, quando despertei, meu primeiro movimento foi correr à mesa onde deixara as tiras de papel escritas na véspera.
Rasguei-as sem tornar a lê-las; atirei os pedaços pela janela e eles esvoaçaram no ar claro como mariposas. (p. 256)

isa tavares (boitempo, 1995)
- É mentira! - bradou a velha. - Mentira ingênua e ridícula. Então pretende[], com dores e misérias, despertar bons sentimentos nos corações acostumados a desgraças reais? Idiota! Pensa[] enternecer com suas pobres fantasias os homens, que não se comovem ante a realidade miserável de todos os dias?
O resto do sonho foi uma confusão, que não consigo recompor. Mas, pela manhã, quando despertei, meu primeiro movimento foi correr à mesa onde deixara as tiras de papel escritas na véspera.
Rasguei-as sem tornar a lê-las; atirei os pedaços pela janela e eles esvoaçaram, no ar claro, como mariposas. (p. 29-30)

considerando a boa vontade da boitempo editorial em apurar possíveis irregularidades de outras obras com tradução atribuída a isa tavares, quero crer que a editora já esteja procedendo ou venha a proceder também à apuração das coincidências acima apontadas, em relação ao conto de máximo gorki.
    sobre outras traduções atribuídas a isa tavares, veja-se aqui. sobre o compromisso da boitempo editorial em apurar as irregularidades, veja-se aqui.

    9 de ago de 2012

    uma duradoura árvore natalina


















    I.
    em 1947, a livraria martins editora lançou a antologia livro de natal - as mais lindas histórias de natal dos maiores escritores do mundo, com reedições até 1970. a coletânea ficou a cargo de araújo nabuco, também responsável pelas notas biográficas dos autores. alguns contos trazem o nome do tradutor; outros não. lá temos, entre muitos outros, "sonho de uma noite de natal" de máximo gorki, em tradução de luiz macedo, e "a árvore de cristo" de th. dostoiewski, sem crédito de tradução.



    em 1957, a cultrix lança maravilhas do conto russo, que também traz o mesmo conto de dostoiewski (adoravam o w naquela época), agora fedor e não mais th. (de theodor[e]), com o título de "a árvore de natal de cristo". a seleção ficou a cargo de um implausível "serge ivanovitch", com introdução e notas de edgard cavalheiro e "traduções revistas por t. booker washington". já comentei inúmeras vezes aqui no blog a doideira que era essa coleção das maravilhas da cultrix, com suas constantes "traduções revistas" pelo quase ubíquo "t. booker washington": a prática da editora, na verdade, consistia essencialmente em caçar aqui e ali contos já publicados em outras editoras, brasileiras e portuguesas, e republicá-los sem dar fontes nem créditos. 


    bem, seja como for, as traduções da martins e da cultrix são totalmente independentes. por exemplo, na descrição inicial tem-se:
    • um "velho colchão de capim, duro e seco como um pão de pobre, onde, com um saco por travesseiro, repousava sua mãe doente" na cultrix e um "leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino omo um crepe, onde está deitada a sua mãe" na martins;
    • para esta, o menino "está sentado a um canto, em cima de uma mala"; na cultrix, ele está "sentado no canto de uma sala" (o que parece meio absurdo, pois trata-se de um pequeno tugúrio num porão - que sala seria esta?);
    • para o anônimo da martins, o menino usa "uma espécie de roupão sujo"; para o anônimo da cultrix, são "farrapos que o cobriam".
    ou, do meio para o fim:
    • na cultrix, os bonecos que ele vê na vitrine "eram tão engraçados, tão engraçados que transformaram em riso o seu pranto";* já na martins, o menino "ri quase que tem vontade de chorar; mas... que ridículo chorar por causa de uns bonecos!";
    • para o anônimo da martins, entre os meninos do final, havia alguns "mortos nas isbás sem ar dos tchaukhnas"; segundo o anônimo da cultrix, "morreram nos asilos das províncias";
    • e no final, para a martins, "quanto à árvore de natal, meu deus! não sou eu romancista para inventar coisas como estas?"; para a cultrix, "quanto à árvore de natal de cristo, não poderei afirmar que exista. mas, já que sou romancista, posso bem imaginar que sim".
    II.
    em 1995, entre seus primeiros lançamentos, a boitempo editorial publica um pequeno volume chamado histórias de natal, com apenas dois contos: um de máximo gorki, "sonho de uma noite de natal", e o mesmo de fedor dostoiewski, "a árvore de natal de cristo", que atualmente consta no site da editora como esgotado.*


    * atualização em 19/9/2012: agora sumariamente removido do site, mas ainda constante nos catálogos da editora.

    a tradução, segundo o que consta no volume impresso, teria sido feita por isa tavares a partir do espanhol. no entanto, têm-se semelhanças ou, melhor, identidades difíceis de explicar, mesmo sendo uma tradução supostamente feita do espanhol (aliás, engana-se redondamente quem pensa que o espanhol não passa de una adaptación del portugués o viceversa). vejamos alguns exemplos:

    anônimo (martins, 1947)
    Está envolto numa espécie de roupão sujo e treme. ... Mas tem muita fome. Várias vezes já, desde a manhã, ele se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada a sua mãe. Por que razão estará ela ali? (p. 315)

    isa tavares (boitempo, 1995)
    Veste uma espécie de roupão sujo, e treme. ... Mas tem muita fome. Várias vezes, desde a manhã, ele se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada sua mãe. Por que razão estará ela ali? (p. 9)

    anônimo (martins, 1947)
    Percebe, por um outro vidro uma outra sala; e ainda árvore e bolos de toda espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e, quando alguém chega, dão-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.
    Oh, que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, meteu um kopek na mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como ele teve medo, o menino!
    A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, de modo a segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? não sabia. Gostaria bem de chorar, porém, tem medo de mais. E corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza; sente-se tão só, tão espantado! e, de repente, meu Deus! que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, que admira. Numa vitrina, por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente como se fossem vivas! E o velhinho sentado que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violino pequenino e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de fato! Apenas não se ouve, por causa do vidro. (p. 317)

    isa tavares (boitempo, 1995)
    Percebe, por um outro vidro, uma outra sala; e ainda uma árvore e bolos de toda a espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e quando alguém chega uma delas dá-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.
    Oh, que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, colocou uma moeda na sua mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como ele teve medo, o menino.
    A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, para segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? Não sabia. Gostaria de chorar, porém, tem medo e corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza; sente-se tão só, tão abandonado, quando, de repente, meu Deus, que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, numa vitrina. Por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente
    como se fossem vivas. E o velhinho, sentado, que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violinos pequeninos e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de verdade. Apenas não se ouve, por causa do vidro. (p. 13-4)

    anônimo (martins, 1947)
    E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos; quando compreende que são bonecos, põe-se a rir. Nunca ele viu bonecos semelhantes e nem imaginara que os houvessem assim. Ri quase que tem vontade de chorar; mas... que ridículo chorar por causa de uns bonecos! (p. 317)

    isa tavares (boitempo, 1995)
    E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos. Quando compreende que são bonecos, começa a rir. Nunca viu bonecos semelhantes e nem imaginara que existissem assim. Eram tão engraçados, tão engraçados, que transformam em riso o seu pranto. (p. 14-5; *ver acima)

    anônimo (martins, 1947)
    Ele cai. Ao mesmo tempo, todo o mundo grita; ele fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.
    "Aqui ninguém me vai encontrar; está bem escuro."
    Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, ele mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar... Mas de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e ele se sente quente como se estivesse perto do fogão e todo o seu corpo estremece. Ah! ele vai adormecer.
    "Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez" - pensa ele e sorri à ideia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!..." (p. 318)

    isa tavares (boitempo, 1995)
    Ele cai. Ao mesmo tempo, todo [] mundo grita; ele fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.
    "Aqui ninguém vai me encontrar; está bem escuro."
    Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, [] mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar... Mas, de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e ele se sente quente como se estivesse perto do fogo e todo o seu corpo estremece. Ah! ele vai adormecer.
    "Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez", pensa ele e sorri com a ideia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!..." (p. 16)

    III.
    no conto de dostoiewski, às p. 9-19 do volume da boitempo, não me parece implausível supor que, em vista de tantos elementos coincidentes, trate-se de uma reprodução levemente adulterada da tradução publicada em 1947 pela livraria martins. notam-se três ou quatro diferenças expressivas em relação à tradução publicada pela martins, as quais, porém, correspondem exatamente às soluções adotadas na tradução anônima da cultrix de 1957.*

    * a menos, claro, que a referida isa tavares tivesse publicado anonimamente sua dita tradução do espanhol pela martins em 1947 e apenas quase cinquenta anos depois, em 1995, decidisse assumir sua autoria, depois de substituir algumas soluções antigas suas por outras adotadas na tradução que saiu pela cultrix em 1957 - mas essa hipótese, embora não de todo impossível, parece-me um pouco menos plausível. 

    considerando a boa vontade da boitempo editorial em apurar possíveis irregularidades de outras obras com tradução atribuída a isa tavares, quero crer que a editora já esteja procedendo ou venha a proceder também à apuração das coincidências acima apontadas, em relação ao conto de dostoiewski.
    sobre outras traduções atribuídas a isa tavares, veja-se aqui. sobre o compromisso da boitempo editorial em apurar as irregularidades, veja-se aqui.

    2 de ago de 2012

    o trabalho alienado

    I.
    em 1981, foi publicado no brasil o livro de istván mészáros, marx's theory of alienation, na tradução de waltensir dutra, marx: a teoria da alienação, pela zahar editores.



    em 2006, a boitempo editorial publica a teoria da alienação em marx, com tradução em nome de isa tavares, com reimpressões em 2007 e 2009 e uma nova edição com atualização ortográfica em 2011.



    IIa.
    ao examinar os dois volumes, não há como não perceber a absoluta identidade entre a tradução de waltensir dutra e a suposta tradução de isa tavares para os versos de schiller: 


    ou aqui, onde a única diferença da tradução em nome de isa tavares consiste nos itálicos de alguns versos:

    waltensir dutra (zahar)
    Que o grito da ralé passe por cima de ti
    E o grunhir dos porcos extravagantes!
    De nenhum homem livre tens medo,
    Nem do escravo que conquistou a liberdade. 

    E há um Deus, cuja vontade compele
    A mente indecisa do homem:
    A lembrança dos céus supera
    Toda possibilidade de conhecimento.
    Embora o mundo viva em eternas vicissitudes
    Há sempre repouso para a alma tranquila. (p. 268)



    isa tavares (boitempo)
    Que o grito da ralé passe por cima de ti
    E o grunhir dos porcos extravagantes!
    De nenhum homem livre tens medo,
    Nem do escravo que conquistou a liberdade. 

    E há um Deus, cuja vontade compele
    A mente indecisa do homem:
    A lembrança dos céus supera
    Toda possibilidade de conhecimento.
    Embora o mundo viva em eternas vicissitudes
    Há sempre repouso para a alma tranquila. 
    (p. 271)

    o mesmo fiel decalque pode ser visto na citação de fausto de goethe. 


    essa pura cópia se repete nas notas, que não sofreram praticamente nenhuma alteração. segue-se uma nota bastante extensa para ilustrar o fato apontado:





    IIb.
    no texto propriamente dito, é difícil não notar como são esporádicas e perfunctórias as diferenças entre as duas traduções. elas se concentram majoritariamente no mais singelo nível lexical, fazendo lembrar aquilo que saulo von randow jr. chamava jocosamente de "tradução por sinonímia", isto é, a substituição de vocábulos de uma tradução prévia para "melhorar" e disfarçar a cópia, apresentando o texto assim alterado como outra tradução, pretensamente nova.  

    apesar da linguagem razoavelmente simples de mészáros, notam-se, de um lado, alterações vocabulares bastante triviais de um para outro texto ("rigorosa igualdade" por "estrita igualdade"; "conseguir o domínio" por "alcançar o domínio"; "fundamentos firmes" por "fundamentos sólidos" etc.); de outro lado, observam-se similaridades nas estruturas sintáticas e alguns vezos bastante particulares de linguagem ("[marx] não tinha mais de parar no ponto de postular", "deu um grande passo à frente", "suposições muito exageradas são feitas", e assim por diante).veem-se também frases inteiras idênticas, como "as razões pelas quais essa determinação política passa a existir podem, é claro, ser muito variadas, desde um desafio exterior que ameaça[ce] a vida da comunidade, até uma localização geográfica que estimule uma acumulação mais rápida da riqueza; mas seu estudo não cabe[,] aqui" ou "o artista tornou-se livre para escolher, sob todos os aspectos, o assunto-tema [sic] de suas obras, mas ao preço de dúvidas constantes sobre sua relevância". seguem algumas imagens exemplificativas:


     

    III.
    perante tantas identidades e semelhanças difíceis de explicar pela mera coincidência, entrei em contato com a editora boitempo. eu tinha também algumas dúvidas sobre outras edições da casa, e ficaram de apurar as informações que pedi (algumas já divulguei aqui, aqui e aqui). explicaram-me que, de fato, a casa tem como praxe utilizar, "sempre que possível", traduções pré-existentes. ora, não vejo como a "revisão" de um texto poderia em qualquer hipótese autorizar ou justificar a omissão do nome do verdadeiro tradutor e sua substituição pelo do "revisor" da obra traduzida* - pelo contrário, até onde sei, tal procedimento fere frontalmente nossa legislação, isso sem falar no desdouro que acarreta indiretamente para toda a categoria dos lídimos e honestos revisores.

    IV.
    a meu ver, o principal aspecto que se destaca na obra de tradução marx: a teoria da alienação é que ela constitui um claro exemplo de obra abandonada. até onde sei, ela teve apenas uma edição, a já referida de 1981. seu autor, waltensir dutra, faleceu em 1994, quando, aliás, ocupava a presidência do sintra (sindicato dos tradutores). a zahar editores se reestruturou em 1985, passando a ser jorge zahar editora. entrei em contato com a jorge zahar, que me informou que boa parte do catálogo da antiga zahar foi transferida para a koogan guanabara - mas marx: a teoria da alienação não parece constar no catálogo ativo desta última. ou seja, tudo indica que se trata de obra de tradução esgotada e abandonada, de autor falecido, cujos sucessores (se os há) não estão exercendo a guarda de seus direitos.

    assim, largada no fundo do baú, à solta no limbo editorial, a tradução de waltensir dutra, pelo que consigo entender, foi retomada pela boitempo, submetida a uma revisão cosmética e publicada como de autoria de isa tavares, passando a engrossar o catálogo da editora. com tal artifício, a editora recriou para si todo um novo leque de pretensos direitos autorais sobre ela: um novo ciclo inteiro de proteção agora pertencente à suposta tradutora isa tavares e a seus herdeiros durante setenta anos após sua morte, e um novo copyright agora pertencente à boitempo. o fato de ter a editora me assegurado, naquela época em que a consultei a respeito desta obra, que "Muitas vezes isso não significou inclusive qualquer diminuição nos valores pagos, tendo sido os tradutores [?] remunerados integralmente ao reverem antigas traduções que foram por nós republicadas" não me parece anular a grande questão que se revela nesse tipo de procedimento: além de ilícito, a meu ver demonstra um acintoso desrespeito à tradução legítima e ao trabalho legítimo dos legítimos tradutores. 

    V. 
    a editora anunciou aqui suas providências quanto a outras duas edições bastante problemáticas, conforme apontei aqui, e declarou que "está revisando outros trabalhos da mesma tradutora", isa tavares. espero que entre eles esteja incluído o caso acima apresentado.

    30 de jul de 2012

    lágrimas, lágrimas


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    lacrimaeLacrimae Rerum – ensaios sobre Kieslowski, Hitchcock, Tarkovski e Lynch
    Slavoj Žižek

    Título original Lacrimae Rerum
    Tradução Luís Leitão
    Ano de edição 2008
    N.º pp. 276
    Formato 12,3 x 18 cm
    EAN 9789899556522


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    Lacrimae Rerum
    ensaios sobre cinema moderno
    Slavoj Žižek
    Trad.: Isa Tavares e Ricardo Gozzi
    182 páginas
    ISBN: 978-85-7559-134-5
    [2009]


    aqui




    a diferença de quantidade de páginas entre as duas edições provavelmente se explica pelas respectivas dimensões dos dois volumes: 12,3 x 18 na orfeu negro, com 32 linhas/página, para 16 x 23 na boitempo, com 40 linhas/página. há também algumas diferenças de conteúdo: o ensaio sobre kieslowski publicado pela orfeu negro apresenta três extensas seções a mais do que o publicado pela boitempo, ao passo que esta última traz o texto "hollywood hoje: notícias de um front ideológico" à guisa de prefácio e o ensaio "matrix ou os dois lados da perversão", ausentes da edição da orfeu negro.


    não sei o que dizer sobre o cotradutor ricardo gozzi. já sobre isa tavares sei dizer que consta como pretensa autora de uma tradução minha (veja aqui). como a editora boitempo não especifica na página de créditos quais textos couberam a cada um deles, tomarei como hipótese que ricardo gozzi tenha sido o legítimo responsável pela tradução dos dois textos ausentes da edição da orfeu negro, e que isa tavares - a julgar pelo precedente dado - seja o nome usado em edições com procedimentos semelhantes aos adotados contra minha tradução, no caso supracitado.

    seguem-se alguns trechos dos vários ensaios, a título comparativo. aqui utilizo a edição da boitempo de 2011.*
    * não destacarei em vermelho abrasileiramentos simples como "direto" para "directo", "objeto" para "objecto", "gênero" para "género" e similares.

    luís leitão (orfeu negro)
    De que modo, exactamente, o Decálogo de Kieslowski está relacionado com os Dez Mandamentos? A maioria dos analistas refugia-se na presumida ambiguidade desta relação: não devíamos correlacionar cada episódio com um único Mandamento; as correspondências são mais vagas e, por vezes, uma história refere-se a uma multiplicidade de Mandamentos... Contra esta escapatória fácil, devemos sublinhar a correlação estreita entre os episódios e os Mandamentos: cada história refere-se apenas a um Mandamento, mas com uma "mudança de velocidade". O Decálogo 1 refere-se ao segundo Mandamento, e assim por diante, até, finalmente, ao Decálogo 10, que nos traz de volta ao primeiro Mandamento. Este desfasamento é indicativo do deslocamento a que os Mandamentos são submetidos por Kieslowski. O que este faz está muito próximo do que Hegel realiza na sua Fenomenologia do Espírito: selecciona um Mandamento e "encena-o", consubstancia-o numa situação de vida exemplar, tornando assim visível a sua "verdade" e as suas consequências inesperadas que lhe minam as premissas. Quase se é tentado a afirmar que, no modo hegeliano estrito, este deslocamento de cada mandamento gera o mandamento seguinte. ("A teologia materialista de Krzysztof Kieslowski", p.  50-1)

    isa tavares (boitempo)
    De que modo exatamente o Decálogo de Kieslowski está relacionado com os Dez Mandamentos? A maioria dos analistas refugia-se na presumida ambiguidade dessa relação: não deveríamos relacionar cada episódio com um único mandamento; as correspondências são mais vagas e, por vezes, uma história refere-se a uma multiplicidade de  mandamentos... Contra essa escapatória fácil, devemos sublinhar a relação estreita entre os episódios e os  mandamentos: cada história diz respeito a apenas um Mandamento, mas com uma "mudança de velocidade". O Decálogo 1 refere-se ao segundo  mandamento e assim por diante, até finalmente o Decálogo 10, que nos traz de volta ao primeiro  mandamento. Essa defasagem é indicativdo deslocamento a que os mandamentos são submetidos por Kieslowski. O que este faz está muito próximo do que Hegel realiza em sua Fenomenologia do Espírito: seleciona um  mandamento e "encena-o", consubstancia-o numa situação de vida exemplar, tornando visível assim sua "verdade" e suas consequências inesperadas, que minam suas premissas. Quase se é tentado a afirmar que, no modo hegeliano estrito, este deslocamento de cada mandamento gera o mandamento seguinte. ("A teologia materialista de Krzysztof Kieslowski", p. 17-8)

    luís leitão (orfeu negro)
    Em primeiro lugar, ao nível da solução "literal" do mistério, há cinco possibilidades:
         - a explicação natural simples: três raparigas e uma das professoras caíram numa das fendas profundas que existem na intrincada estrutura do rochedo, ou foram mortas pelas aranhas e cobras que lá abundam;
         - a explicação do crime sexual: elas foram raptadas, violadas e mortas no rochedo por algum dos aborígenes sinistros que se escondem por lá, à espera de visitantes incautos, ou por Michael e Albert, os dois jovens que obviamente se sentem atraídos pelas raparigas e que depois salvam uma delas;
         - a explicação da sexualidade patológica: o recalcamento erótico das raparigas conduziu-as a uma explosão histérica de violência autodestrutiva;
         - a explicação natural da religião primitiva: o espírito da montanha raptou estes intrusos, escolhendo os que estavam mais em sintonia com os seus apetites (e que, por essa razão, rejeitou a quarta rapariga, a gorda, que não tinha interesse pelos mistérios da sensualidade);
         - a explicação do sequestro por alienígenas: as raparigas penetraram numa Zona do espaço-tempo diferente. (p. 195)

    isa tavares (boitempo)
    Em primeiro lugar, no nível da solução "literal" do mistério, há cinco possibilidades:
    • a explicação natural simples: três moças e uma das professoras caíram numa das fendas profundas que existem na intrincada estrutura do rochedo, ou foram mortas pelas aranhas e cobras que lá abundam;
    • a explicação do crime sexual: elas foram raptadas, violentadas e mortas no rochedo por algum dos aborígenes sinistros que se escondem por lá, à espera de visitantes incautos, ou por Michael e Albert, os dois jovens que obviamente se sentem atraídos pelas moças e que depois salvam uma delas;
    • a explicação da sexualidade patológica: o recalcamento erótico das moças conduziu-as a uma explosão histérica de violência autodestrutiva;
    • a explicação natural da religião primitiva: o espírito da montanha raptou os intrusos, escolhendo os que estavam mais em sintonia com [] seus apetites (e que, por essa razão, rejeitou a quarta moça, a gorda, que não tinha interesse pelos mistérios da sensualidade);
    • a explicação do sequestro por alienígenas: as moças penetraram numa Zona do espaço-tempo diferente. (p. 102-3)

    luís leitão (orfeu negro)
    Para além destas, existem pelo menos duas explicações "metafóricas": a história baseia-se na oposição entre a atmosfera vitoriana rígida e disciplinadora do internato, situado numa casa vetusta, asseada e em ordem, e a vida natural, exuberante e livre que impera na protuberância selvagem do Rochedo. A atmosfera rígida da escola está carregada de um erotismo latente (o desejo lésbico semi-reprimido de alunas por alunas, de alunas por professoras e de professoras por alunas...). Em contraste com esta severidade "vitoriana" proverbial, com os seus desejos recalcados, o Rochedo representa a riqueza irrefreável da vida com toda a sua profusão de formas, por vezes repugnantes (grandes planos de répteis e cobras, associados ao pecado original, a rastejar em volta das raparigas adormecidas, para já não falar na vegetação selvagem e luxuriante e nos bandos de pássaros). Então, nada mais natural do que interpretar a história do desaparecimento como uma variação do velho tema da repressão vitoriana que explode à luz do dia: a professora de matemática, a frígida Miss McCraw, descreve o nascimento do Rochedo como o produto da lava fundente que é "empurrada de baixo... expulsa num estado altamente viscoso", mais uma descrição do despertar lento das hormonas nas recalcadas raparigas púberes do que de um fenómeno natural, uma protuberância vulcânica proveniente das profundezas da Terra. Assim, o Rochedo representa obviamente a paixão irreprimível da vida desde há muito controlada pelos costumes sociais e que finalmente explode... (p. 196)

    isa tavares (boitempo)
    Para além dessas, existem pelo menos duas explicações "metafóricas": a história baseia-se na oposição entre a atmosfera vitoriana rígida e disciplinadora do internato, situado numa casa vetusta, asseada e organizada, e a vida natural, exuberante e livre que impera na protuberância selvagem do rochedo. A atmosfera rígida da escola está carregada de um erotismo latente (o desejo lésbico semirreprimido de alunas por alunas, de alunas por professoras e de professoras por alunas...). Em contraste com essa severidade "vitoriana" proverbial, com seus desejos recalcados, o rochedo representa a riqueza irrefreável da vida com toda a sua profusão de formas, por vezes repugnantes (grandes planos de répteis[], associados ao pecado original, rastejando em volta das moças adormecidas, para já não falar na vegetação selvagem e luxuriante e nos bandos de pássaros). Então, nada mais natural do que interpretar a história do desaparecimento como uma variação do velho tema da repressão vitoriana que explode à luz do dia: a professora de matemática, a frígida Miss McCraw, descreve o nascimento do rochedo como o produto da lava fundente que é "empurrada de baixo [...] expulsa num estado altamente viscoso": mais uma descrição do despertar lento dos hormônios nas recalcadas garotas púberes do que de um fenômeno natural, uma protuberância vulcânica proveniente das profundezas da Terra. Assim, é óbvio que rochedo representa [] a paixão irreprimível da vida desde há muito controlada pelos costumes sociais e que finalmente explode... (p. 103-4)


    em sobre remakes, aqui, fiz uma apresentação bastante didática sobre as inelimináveis e irredutíveis singularidades individuais de um trabalho de tradução, utilizando o excerto abaixo.

    luís leitão (orfeu negro)
    É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original na página esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura destes livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: regra geral, Durband tenta formular directamete, na locução do quotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em qualquer coisa como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo matar-me ou não?" E a minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente qualquer coisa como Hitchocock Made Easy: embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do realizador, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões acerca do toque único de Hitchcock, e coisas do género, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere aos seus filmes um carácter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 157)


    isa tavares (boitempo)
    É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, no inglês arcaico original na página da esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura desses livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: em regra [], Durband tenta formular diretamete, na locução do cotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em algo como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo me matar ou não?" Minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente algo como Hitchocock Made Easy. Embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do diretor, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões sobre o toque único de Hitchcock, e coisas do gênero, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere a seus filmes um caráter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 79)

    sobre remakes

    sem especificar as razões de meu pedido, eu tinha solicitado a alguns colegas tradutores a gentileza de traduzir um trechinho que enviava em anexo. agradeço-lhes a disposição e a boa vontade. segue-se o resultado.


    In any large American bookstore, it is possible to purchase some volumes of the unique series Shakespeare Made Easy, edited by John Durband and published by Barron's: a "bilingual" edition of Shakespeare's plays, with the original archaic English on the left page and the translation into common contemporary English on the right page. The obscene satisfaction provided by reading these volumes resides in how what purports to be a mere translation into contemporary English turns out to be much more: as a rule, Durband tries to formulate directly, in everyday locution, (what he considers to be) the thought expressed in Shakespeare's metaphoric idiom - say, "To be or not to be, that is the question" becomes something like: "What's bothering me now is: Shall I kill myself or not?" And my idea is, of course, that the standard remakes of Hitchcock's films are precisely something like Hitchcock Made Easy: although the narrative is the same, the "substance," the flair that accounts for Hitchcock's uniqueness evaporates. Here, however, one should avoid the jargon-laden talk on Hitchcock's unique touch, etc., and approach the difficult task of specifying what gives Hitchcock's films their unique flair. ("Is There a Proper Way to Remake a Hitchcock Film?")
    Em qualquer grande livraria norte-americana, é possível comprar alguns volumes da incomparável série Shakespeare Made Easy [Shakespeare Simplificado], editada por John Durband, e publicada pela editora Barron's. Trata-se de uma edição "bilíngue" das peças de Shakespeare, com o texto original em inglês arcaico, na página esquerda, e a tradução em inglês contemporâneo e comum, na página direita. A satisfação obscena oferecida pela leitura destes livros está no fato de que aquilo que aparenta ser uma simples tradução para o inglês contemporâneo resulta em muito mais: via de regra, Durband tenta formular diretamente, em linguagem cotidiana, (o que supõe ser) o pensamento expresso nas metáforas de Shakespeare – por exemplo, "Ser ou não ser: eis a questão" se torna algo como: "O que está me incomodando agora é: me mato ou não?". Sem dúvida, a minha ideia é que os remakes habituais dos filmes de Hitchcock são justamente uma espécie de Hitchcock Simplificado: embora a narrativa seja a mesma, a “substância”, o estilo responsável pelo caráter único de Hitchcock, evapora. No entanto, devemos evitar aquelas palestras cheias de jargões sobre o toque único de Hitchcock, etc., e partir para a difícil tarefa de determinar o que dá a seus filmes seu estilo único. ("Existe um modo certo de refilmar Hitchcock?")

    Em qualquer das grandes livrarias americanas pode-se comprar exemplares da série especial Shakespeare Facilitado, editada por John Durband e publicada pela Barron’s: uma edição “bilíngue” das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original na página esquerda e a tradução em inglês corrente contemporâneo, na direita. A satisfação obscena que se tem ao ler esses livros advém de como o que pretende ser uma mera tradução para o inglês contemporâneo acaba sendo muito mais do que isso: de modo geral, Durband procura formular diretamente, no modo de falar comum, (o que considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare ─ digamos, “Ser ou não ser, eis a questão” se torna algo como: “o que me aflige agora é: devo me matar ou não?” E a noção que tenho é, evidentemente, que os remakes comuns dos filmes de Hitchcock são exatamente algo como Hitchcock Facilitado: embora a narrativa seja a mesma, a “substância”, o jeito que confere a Hitckcock sua singularidade some. Aqui, no entanto, devemos evitar o discurso cheio de jargão sobre o toque indistinguível de Hitchcock, etc., e enfrentar a difícil tarefa de especificar o que dá aos filmes de Hitchcok a sua alma própria. ("Existe uma maneira certa de refazer um filme de Hitcocock?") 
    Em qualquer grande livraria americana, é possível comprar alguns volumes da série original   Shakespeare Made Easy [Shakespeare Mastigado, numa versão livre, ainda sem tradução em português], editado por John Durband e publicado pela editora Barron: uma edição "bilíngue" das peças de Shakespeare, com o original em inglês arcaico na página esquerda e a tradução em inglês contemporâneo laico na direita. A abjeta satisfação fornecida pela leitura desses volumes reside no fato de que uma pretensa e mera tradução para o inglês contemporâneo acaba por se tornar em algo muito maior : via de regra, Durband tenta exprimir, através de linguagem coloquial, (o que ele considera ser) o pensamento de Shakespeare expresso em linguagem metafórica - por exemplo : "Ser ou não ser, eis a questão" torna-se algo como:  "O que me perturba no momento é: devo me matar ou não?" E minha conclusão lógica é que os remakes dos filmes de Hitchcock são, precisamente, algo como Hitchcock Made Easy: embora a narrativa seja a mesma, a "substância", o estilo que representa a singularidade de Hitchcock se evapora. Não obstante, deve-se evitar, nesse momento, o clichê já gasto sobre o toque único de Hitchcock, etc., e enfrentar a difícil tarefa de especificar o que dá aos de filmes de Hitchcock a sua singularidade. ("Há uma forma correta de se fazer um remake dos filmes de Hitchcock?")
    Em qualquer grande livraria norte-americana é possível comprar alguns volumes da peculiar série Shakespeare simplificado, editada por John Durband e publicada pela Barron’s: uma edição “bilíngue” das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original à esquerda e a tradução para o inglês contemporâneo comum na página à direita. A obscena satisfação proporcionada pela leitura desses volumes reside na maneira como aquilo que pretende ser uma mera tradução para o inglês contemporâneo se revela como muito mais que isso: via de regra, Durband tenta formular diretamente, em locuções corriqueiras, (aquilo que ele considera ser) o pensamento expresso na linguagem metafórica de Shakespeare – por exemplo, “Ser ou não ser, eis a questão” se transforma em algo como “O que me preocupa agora: devo matar-me ou não?” E minha opinião é a de que, evidentemente, as refilmagens de Hitchcock são justamente algo como um Hitchcock simplificado: embora a narrativa seja a mesma, a “substância”, o estilo responsável pela singularidade de Hitchcock se evapora. Aqui, no entanto, deve-se evitar o jargão do discurso sobre o toque singular de Hitchcock etc., e abordar a difícil tarefa de especificar aquilo que confere aos filmes de Hitchcock seu estilo único. ("Há uma maneira apropriada de refilmar uma obra de Hitchcock?")
    trata-se do parágrafo inicial do artigo de slavoj zizek, "is there a proper way to remake a hitchcock film?", disponível aqui e incluído no volume lacrimae rerum, publicado tanto pela portuguesa orfeu negro (2008) quanto pela brasileira boitempo (2009). creio que este mostruário acima é mais do que suficiente para indicar como parece remota a probabilidade de que os dois textos abaixo sejam de dois tradutores diferentes:


    lacrimae
    luís leitão (orfeu negro, 2008)
    É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original na página esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura destes livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: regra geral, Durband tenta formular directamente, na locução do quotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em qualquer coisa como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo matar-me ou não?" E a minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente qualquer coisa como Hitchcock Made Easy: embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do realizador, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões acerca do toque único de Hitchcock, e coisas do género, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere aos seus filmes um carácter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 157)



    isa tavares (boitempo, 2009)
    É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, no inglês arcaico original na página da esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura desses livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: em regra, Durband tenta formular diretamente, na locução do cotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em algo como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo me matar ou não?" Minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente algo como Hitchcock Made Easy. Embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do diretor, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões sobre o toque único de Hitchcock, e coisas do gênero, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere a seus filmes um caráter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 79)


    sobre isa tavares na boitempo editorial, ver também you kiddin', rite?, aqui.

    28 de jul de 2012

    you kiddin', rite? - parte II

    um elemento bizarro naquele acinte que é a cópia de minha tradução de in the tracks of historical materialism, de perry anderson, publicada pela boitempo editorial como se fosse da lavra de isa tavares (veja aqui), é a seguinte menção na página dos créditos: "copyright © 1984 da 1a. edição brasileira brasiliense".



    tal menção me pareceu despropositada e liguei para a brasiliense para saber se a editora havia licenciado minha tradução para a boitempo. não, não só não haviam licenciado, como nem sabiam da contrafação e nem detinham mais os direitos de tradução dessa obra de anderson no brasil. e, acrescento eu, mesmo que a brasiliense a tivesse licenciado, não faria o menor sentido - aí sim, seria um completo contrassenso - que a boitempo publicasse uma obra devidamente licenciada utilizando  falsos créditos de tradução.


    só posso imaginar uma hipótese absurda: teria a boitempo apostado que, mencionando um copirraitezinho extinto, estaria adquirindo alguma legitimidade para sua edição? 

    you kiddin', rite? - parte I



    Título: Considerações sobre o marxismo ocidental/ Nas trilhas do materialismo histórico
    Título Original: Considerations on western marxism/ In the tracks of historical materialism
    Autor(a): Perry Anderson
    Prefácio: Emir Sader
    Tradutor(a): Isa Tavares
    Páginas: 240
    Ano de publicação: 2004
    ISBN: 85-7559-033-2





    in the tracks of historical materialism foi a primeira tradução que fiz na vida para uma editora. saiu em 1984 pela brasiliense, na coleção "primeiros voos", com o título de a crise da crise do marxismo.



    lá se veem os erros e vezos de uma marinheira de primeira viagem, fielmente reproduzidos na edição da boitempo, agora eu renomeada como "isa tavares". um catholicity que dei como "catolicismo", uma meia-dúzia de relevant como "relevante", evidence como "evidência", o mais amador uso de "através de" para through, uma enfiada de "mentes" usados com pródiga liberalidade - por exemplo, três numa frase só: "para alguns da minha geração, formados numa época em que a cultura britânica parecia completamente destituída de qualquer impulso marxista endógeno significativo - a retardatária da Europa, como constantemente denunciávamos ... -, essa foi uma metamorfose realmente espantosa", seguida por uma frase horrorosa preservada com todo o carinho por minha döppel: "a relação tradicional entre a inglaterra e a europa continental parece ... ter sido efetivamente invertida". alguns outros traços muito pessoais, que considero corretos e aceitáveis, conservo até hoje.

    denise bottmann (brasiliense, 1984)
    • o marxismo, é claro, entra maciça e predominantemente na categoria daqueles sistemas de pensamento preocupados com a natureza e a direção da sociedade como um todo. (p. 12)
    • tal concepção não envolvia nenhum elemento de positividade complacente - como se a verdade, a partir de então, estivesse garantida pelo tempo, o ser pelo devir, e sua doutrina imune a erros graças à simples imersão na transformação. (p. 14)
    • a cultura marxista historicamente centrada que surgiu no mundo anglófono finalmente não permaneceu confinada a suas próprias províncias. (p. 31)
    • esse processo fez surgirem as eufóricas coberturas dos meios de massa norte-americanos e europeus em 1977, a revista time tendo sido apenas uma dentre elas. mas, apesar de a escala e a velocidade do fenômeno terem sido suficientemente dramáticas, o próprio termo sempre foi enganoso. (p. 33)
    • especialmente na frança e na itália, os dois principais territórios pátrios de um materialismo histórico vivo nos anos 50 e 60, o massacre dos ancestrais tem sido impressionante para alguém que, como eu aprendeu muito de seu marxismo com aquelas culturas. (p. 36)
    • o tosco cadastramento do estado atual da teoria marxista ... terminou com um enigma. (p. 37)
    • o ponto relevante é que esta inveterada tensão - às vezes lesão - dentro do materialismo histórico não assumiu nenhuma forma diretamente política (p. 40)
    • os debates que os dividiram, no seu empreendimento inicialmente conjunto, foram de rara qualidade e intensidade (p. 41)
    • sartre, confiou althusser às páginas do semanário do partido comunista italiano, era um falso amigo do materialismo histórico, na verdade mais distante dele do que seu ostensivo crítico lévi-strauss. (p. 43)
    • althusser tentou adaptar tardiamente sua teoria, concedendo espaço ao papel das massas, que, reconhecia agora, "faziam história", mesmo que os "homens e mulheres" não a fizessem. (p. 45)
    • se essa foi, então, a curva aproximada da trajetória do estruturalismo para o pós-estruturalismo, nossa pergunta inicial responde-se a si mesma. (p. 63)
    isa tavares (boitempo, 2004)
    • o marxismo, é claro, entra maciça e predominantemente na categoria daqueles sistemas de pensamento preocupados com a natureza e a direção da sociedade como um todo. (p. 146)
    • tal concepção não envolvia nenhum elemento de positividade complacente - como se a verdade, a partir de então, estivesse garantida pelo tempo, o devir*, e sua doutrina imune a erros graças à simples imersão na transformação. (p. 147) - * mas aqui minha döppel comeu bola ao eliminar "o ser [garantido] pelo devir" e deixar apenas "o devir".
    • a cultura marxista historicamente centrada que surgiu no mundo anglófono, finalmente, não permaneceu confinada a suas próprias províncias. (p. 161)
    • esse processo fez surgirem as eufóricas coberturas dos meios de massa norte-americanos e europeus em 1977, a revista time tendo sido apenas uma dentre elas. mas, apesar de a escala e a velocidade do fenômeno terem sido suficientemente dramáticas, o próprio termo sempre foi enganoso. (p. 163)
    • especialmente na frança e na itália, os dois principais territórios de um materialismo histórico vivo nos anos 50 e 60, o massacre dos ancestrais tem sido impressionante para alguém que, como eu aprendeu muito de seu marxismo com aquelas culturas. (p. 166)
    • o tosco cadastramento do estado atual da teoria marxista ... terminou com um enigma. (p. 167)
    • o ponto relevante é que esta inveterada tensão - às vezes lesão - dentro do materialismo histórico não assumiu nenhuma forma diretamente política (p. 169-70)
    • os debates que os dividiram, no seu empreendimento inicialmente conjunto, foram de rara qualidade e intensidade (p. 170)
    • sartre, confiou althusser às páginas do semanário do partido comunista italiano, era um falso amigo do materialismo histórico, na verdade mais distante dele do que seu ostensivo crítico lévi-strauss. (p.  172)
    • althusser tentou adaptar tardiamente sua teoria, concedendo espaço ao papel das massas, que, reconhecia agora, "faziam história", mesmo que os "homens e mulheres" não a fizessem. (p. 173)
    • se essa foi, então, a curva aproximada da trajetória do estruturalismo para o pós-estruturalismo, nossa pergunta inicial responde-se a si mesma. (p. 189)
    esses torneios inconfundíveis não cessam de surgir (e de ser copiados) até o final do livro, e creio ser desnecessário acrescentar outros exemplos. passo agora a apresentar trechos mais extensos da cópia bastante evidente:

    denise bottmann (brasiliense, 1984)
    essa longa e atormentada tradição - conforme argumentei - estava finalmente se esgotando na virada dos anos 70. houve duas razões para isso. a primeira foi o redespertar das revoltas de massa na europa ocidental - na verdade, bem no centro do mundo capitalista avançado -, onde a grande onda de inquietação estudantil em 1968 anunciava a entrada de contingentes maciços da classe trabalhadora em uma nova insurgência política, de um tipo nunca visto desde os dias dos conselhos espartaquistas ou turinenses. a explosão de maio na frança foi a mais espetacular delas, seguida pela onda de militância industrial na itália em 1969, pela decisiva greve dos mineiros na inglaterra, que derrubou o governo conservador em 1974, e em poucos meses depois pela sublevação em portugal, com sua rápida radicalização para uma situação revolucionária do tipo mais clássico. em nenhum desses casos, o ímpeto da rebelião popular derivava dos partidos de esquerda estabelecidos, fossem social-democratas ou comunistas. o que pareciam prefigurar era a possibilidade de um fim no divórcio de meio século entre teoria socialista e prática operária maciça, que havia deixado uma marca tão deformante no próprio marxismo ocidental. ao mesmo tempo, o prolongado desenvolvimento do pós-guerra chegou a uma abrupta interrupção em 1974, questionando pela primeira vez em 25 anos a estabilidade sócio-econômica básica do capitalismo avançado. subjetiva e objetivamente, portanto, as condições pareciam iluminar o caminho para o surgimento de um outro tipo de marxismo. 
    minhas conclusões pessoais acerca de sua forma provável - conclusões que eram também recomendações, vividas num espírito de otimismo ponderado - foram quatro. (p. 21-2)

    isa tavares (boitempo, 2004)
    essa longa e atormentada tradição - conforme afirmei - estava finalmente se esgotando na virada dos anos 70. houve duas razões para isso. a primeira foi o redespertar das revoltas de massa na europa ocidental - na verdade, bem no centro do mundo capitalista avançado -, em que a grande onda de inquietação estudantil em 1968 anunciava a entrada de contingentes maciços da classe trabalhadora em uma nova insurgência política, de um tipo nunca visto desde os dias dos conselhos espartaquistas ou turinenses. a explosão de maio na frança foi a mais espetacular delas, seguida pela onda de militância industrial na itália em 1969, pela decisiva greve dos mineiros na inglaterra, que derrubou o governo conservador em 1974, e, poucos meses depois, pela sublevação em portugal, com sua rápida radicalização para uma situação revolucionária do tipo mais clássico. em nenhum desses casos, o ímpeto da rebelião popular derivava dos partidos de esquerda estabelecidos, fossem socialdemocratas ou comunistas. o que eles pareciam prefigurar era a possibilidade de um fim no divórcio de meio século entre teoria socialista e prática operária de massas que havia deixado uma marca tão deformante no [] marxismo ocidental. ao mesmo tempo, o prolongado crescimento do pós-guerra sofreu uma abrupta parada em 1974, ameaçando pela primeira vez em 25 anos a estabilidade socioeconômica básica do capitalismo avançado. subjetiva e objetivamente, portanto, as condições pareciam iluminar o caminho para o surgimento de um outro tipo de marxismo. 
    minhas conclusões [] acerca de sua forma provável - conclusões que eram também recomendações, vividas num espírito de otimismo ponderado - foram quatro. (p. 153-4)

    denise bottmann (brasiliense, 1984)
    dito tudo isso, continua sendo verdade que a diferença entre a filosofia da linguagem e da história de habermas e a de seus contrapositores estruturalistas e pós-estruturalistas não é mera redundância. falei da curiosa inocência da visão de habermas: mas ela também comporta uma espécie de integridade e dignidade intelectual geralmente estranhas aos exemplares franceses do modelo linguístico. o próprio estilo de habermas - frequentemente (não sempre) enfadonho, incômodo, laborioso - revela seu contraste com as excitantes coloraturas dos mestres parisienses. por trás disso estão, não sugestões wagnerianas fin-de-siècle, mas os ideais austeros e o sério otimismo do iluminismo alemão. a bildung é o real motivo condutor que unifica a série característica de interesses e argumentos de habermas. leva a uma visão essencialmente pedagógica da política, o foro transformado em sala de aula quando as lutas e confrontos se transmutam em processos de aprendizagem. mas, com todas as limitações dessa ótica, dolorosamente óbvias numa perspectiva marxista clássica, ela não exclui realmente a política como tal. ao contrário de seus muitos opostos na frança, habermas tentou uma análise estrutural direta das tendências imanentes do capitalismo contemporâneo e da possibilidade de surgimento, a partir delas, de crises de transformação dos sistema - mantendo o projeto tradicional do materialismo histórico. sua noção de uma crise de "legitimação" moral a minar a integração social - uma crise paradoxalmente gerada pelo próprio sucesso da regulação, dirigida pelo estado, do ciclo de acumulação capitalista - nesse aspecto conforma-se fielmente ao esquema de primazia normativa postulada pela teoria evolucionária da história como um todo. (p. 76-7)

    isa tavares (boitempo, 2004)
    dito tudo isso, continua sendo verdade que a diferença entre a filosofia da linguagem e da história de habermas e a de seus opositores estruturalistas e pós-estruturalistas não é mera redundância. falei da curiosa inocência da visão de habermasmas ela também comporta uma espécie de integridade e dignidade intelectual geralmente estranhas aos exemplares franceses do modelo linguístico. o próprio estilo de habermas - frequentemente (não sempre) enfadonho, incômodo, laborioso - revela seu contraste com as excitantes coloraturas dos mestres parisienses. por trás disso estão não sugestões wagnerianas fin-de-siècle, mas os ideais austeros e o sério otimismo do iluminismo alemão. a bildung é o real leitmotif que unifica a série característica de interesses e argumentos de habermas. leva a uma visão essencialmente pedagógica da política, o foro transformado em sala de aula quando as lutas e confrontos se transmutam em processos de aprendizagem. mas, com todas as limitações dessa ótica, dolorosamente óbvias numa perspectiva marxista clássica, ela não exclui realmente a política como tal. ao contrário de seus [] opostos na frança, habermas tentou uma análise estrutural direta das tendências imanentes do capitalismo contemporâneo e da possibilidade de surgimento, a partir delas, de crises de transformação dos sistema - mantendo o projeto tradicional do materialismo histórico. sua noção de uma crise de "legitimação" moral corroendo a integração social - uma crise paradoxalmente gerada pelo próprio sucesso da regulação, dirigida pelo estado, do ciclo de acumulação capitalista -, nesse aspecto conforma-se fielmente ao esquema de primazia normativa postulada pela teoria evolucionária da história como um todo. (p. 201)

    acompanhe you kiddin', rite? - parte II aqui you kiddin', rite? - parte III aqui