15 de jul de 2016

confusões de brito broca



é difícil bater de frente contra afirmações não verificadas que, com o tempo, acabam se tornando referências consagradas. só que, de vez em quando, é algo que se torna inevitável.

então aqui vou eu contra brito broca.

pode um de nossos grandes críticos literários ter afirmado o que bem quis (ou o que lhe sugeriu a memória talvez empanada pelo decurso das décadas) em seu famoso prefácio à edição de crime e castigo pela josé olympio, lançada em 1949 em tradução de rosário fusco:
A primeira tradução portuguesa do Crime e Castigo apareceu no Brasil por volta de 1920, assinada por Fernão Neves, em estilo meio precioso editada pela Livraria Castilho. Tudo nos leva a supor que o tradutor se tivesse valido de uma das versões francesas, que, segundo o conselho do próprio Vogüé, procuravam adaptar Dostoievski ao gosto do público gaulês. Em todo caso esse já foi um esforço louvável para vulgarizar o grande romancista entre nós.
sim, de fato fernão neves – pseudônimo que, curiosamente, brito broca não elucida para o leitor ser de fernando nery – havia feito “um esforço louvável para vulgarizar o grande romancista entre nós”. e sim, realmente ele se valeu de "uma das versões francesas". e sim, a obra foi mesmo "editada pela livraria castilho". e sim, isso se deu “por volta de 1920”. e sim, com efeito, fernão neves se entregava a um "estilo meio precioso”, até virulentamente criticado por seus resenhistas na época.

só que tudo isso se passou não com crime e castigo, mas com recordações da casa dos mortos, em sua primeira tradução brasileira, publicada em 1917.


resumindo: a afirmação de brito broca não procede. jamais surgiu em momento algum, antes ou depois de c.1920, qualquer tradução de fernão neves para crime e castigo, nem pela castilho nem por qualquer editora.


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