2 de jul de 2015

cervantes traduzido no brasil

começo esclarecendo uma coisa importante: uma tradução em português publicada no brasil não significa necessariamente que seja uma tradução brasileira. muitas vezes é uma tradução portuguesa apenas publicada aqui.

I.
no caso de dom quixote entre nós, existem não só dezenas e dezenas de adaptações, quadrinizações, cordelizações, como também dezenas de edições brasileiras da tradução lusitana de dom quixote feita pelos viscondes de castilho e de azevedo [com a nem sempre reconhecida colaboração de pinheiro chagas], publicada em portugal desde 1876 e no brasil desde 1898 até a data presente. não me deterei sobre elas; interessam-me apenas as traduções brasileiras.
  • O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha, Almir de Andrade e Milton Amado, 1952; revista e extensamente anotada em 1954 por M. Amado, José Olympio. Reed. à parte o episódio A novela do curioso impertinente, Relume Dumará, 2005
  • O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha, Eugênio Amado, 1983, Itatiaia
  • O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha, Sérgio Molina, Primeira Parte, edição bilíngue, 2002, O engenhoso cavaleiro D. Quixote de La Mancha, Segunda Parte, edição bilíngue, 2007, ed. 34
  • O engenhoso fidalgo Dom Quixote da Mancha, Carlos Nougué com José Luiz Sánchez, Primeira Parte, 2005, Record [não tenho notícia de que tenha saído a Segunda Parte]
  • Dom Quixote, Ernani Ssó, 2013. Penguin/Companhia. 
a título de esclarecimento, cervantes publicou o quixote em duas partes. a primeira, que se chamava Il ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha, em 1605; a segunda, Il ingenioso caballero Don Quijote de La Mancha, em 1615.


II.
antes de passarmos às demais obras de cervantes traduzidas no brasil, cabe aqui a mesma observação sobre a publicação brasileira de traduções portuguesas. é o caso do volume novellas exemplares, contendo dois contos, "cornélia" e "o ciumento", traduzido pela escritora, tradutora e cineasta portuguesa dona virgínia de castro e almeida, publicado em 1921 pela annuario do brasil, uma espécie de ramo ou sucursal informal do grupo político-cultural "renascença portuguesa", que mantinha uma editora de mesmo nome, e que também publicou no mesmo ano essa referida tradução de dona virgínia. a publicação da annuario do brasil é, podemos dizer, a primeira edição brasileira de algumas (duas) das novelas ejemplares de cervantes,


feita essa observação, segue-se em ordem cronológica a bibliografia tradutória brasileira de cervantes:
  • "O casamento enganoso", in  As obras-primas do conto universal. Trad. Almiro Rolmes Barbosa e/ou Edgard Cavalheiro. Martins, 1942 


















almiro rolmes barbosa e edgard cavalheiro aparecem como os responsáveis pela compilação, introdução, tradução e notas da coletânea de 1942 (martins). segundo o que os organizadores expõem em sua introdução, alguns dos contos foram traduzidos por terceiros, sendo especificados com os devidos créditos na introdução e no final de cada conto, além de agradecimentos pela licença de uso. são eles: "a lição de canto", de katherine mansfield, trad. érico veríssimo; "a luz da outra casa", de pirandello, trad. francisco pati; "duas mil palavras", de o. henry, trad. brito broca; "as três palavras divinas", de tolstói, trad. lígia autran rodrigues; e "o espectro", de dickens, trad. élsie lessa. assim, infere-se dos créditos e das explicações dadas na introdução que a tradução dos demais contos coube a rolmes barbosa e cavalheiro, sem especificar qual a quem.
  • "A falsa tia", in Os mais belos contos galantes dos mais famosos autores. Trad. Líbero Rangel de Andrade. Vecchi, 1944. Reed. in O livro de ouro dos contos galantes, Tecnoprint,1964

  • Cornélia e outras novelas. Contém “Cornélia”, “O ciumento”, “O casamento enganoso”, “A força do sangue” e “O curioso impertinente” (do Quixote), Trad. Edgard Cavalheiro. Coleção Excelsior, 27. Livraria Martins, c.1944
aqui devo dizer que tenho algumas dúvidas sobre a real autoria das traduções em nome de edgard cavalheiro. valeria a pena, a meu ver, cotejar "cornélia" e "o ciumento" com a tradução de dona virgínia e "o curioso impertinente" (que faz parte de dom quixote) com a tradução dos viscondes.
outra questão é o ano de edição, que não consta no volume. mas, como ele é o vigésimo-sete volume da coleção, entre o vigésimo-sexto, o eterno marido, de dostoiévski, e o vigésimo-oitavo, sebastopol, de tolstói, ambos publicados em 1944, parece-me bastante seguro considerar que o volume com cornélia também saiu em 1944.

hallewell, aqui

  • "Rinconete e Cortadillo", in Mar de histórias. Trad. Aurélio Buarque de Hollanda e Paulo Rónai. José Olympio, 1945

  • Novelas exemplares. Contém “A ciganinha”, “Rinconete e Cortadilho” e “A ilustre criada”. Trad. Manoel Salvaterra. Rio de Janeiro: Edições Pinguim, 1948
manoel salvaterra não é muito conhecido como tradutor. sua tradução mais citada é a de viagem ao brasil através das províncias do rio de janeiro e minas gerais, de herman burmeister, feita em parceria com huberto schönfeld. ele era, até onde pude apurar, chefe da seção de enciclopédias e dicionários do inl (instituto nacional do livro), e faleceu em 1952. uma pena que não consegui imagem de capa desse volume de novelas exemplares.

  • "A tia fingida", in Titãs do humorismo. Trad. M. C. de Oliveira. Coleção Os Titãs, 8. El Ateneo do Brasil, 1957
a el ateneo do brasil era uma filial da grande livraria e editora argentina "el ateneo", aqui inaugurada nos meados dos anos 50 e, como editora, teve existência breve entre nós. essa coleção "os titãs" tinha dez volumes, organizada por lázaro liacho.
  • A destruição de Numância (teatro). Trad. e "modernização" de J. Carlos Lisboa. Coleção Obras Imortais, 8. Civilização Brasileira, 1957
J. Carlos Lisboa
  • "A força do sangue", in Maravilhas do conto espanhol. Sem créditos de tradução, constando apenas "Traduções revistas por [um implausibilíssimo] T. Booker Washington". Cultrix, 1958. 
  • Este era um problema recorrente nessa coleção da Cultrix a cargo de Edgard Cavalheiro, que fazia constar nomes escalafobéticos como organizadores de vários volumes de Maravilhas do conto. Ver vários apontamentos a esse respeito aqui.
  • "Um casamento singular", in Contos de Alcova. Org. Yves Idílio. Noel Buchmann, s/d; O Livreiro, c.1960; Flamingo, 1963. Reed. 2013, org. em nome de Wagner Chiodi, Retrô

  • "O estremenho ciumento", in Contos espanhóis. Org. Jacob Penteado. Sem créditos de tradução. Coleção Primores do Conto Universal, 3. Edigraf, 1962
  • Novelas exemplares. Contém “O amante liberal”, “A força do sangue”, “O ciumento”, “A espanhola inglesa”, “O casamento enganoso”, “As duas donzelas”, “O Licenciado Vidreira”, “A senhora Cornélia”, “Rinconete e Cortadilho”. Trad. Darly Nicolanna Scornaienchi. Boa Leitura, 1963. Reed. Tecnoprint, 1965; Abril Cultural, 1970.

  • A prisioneira. Contém “A prisioneira”, “As duas donzelas” e “A tia fingida”. Trad. Rolando Roque da Silva. Clube do Livro, 1965

  • A galateia. Não consta trad. Coleção Biblioteca Universal. Editora Três, 1974
  • "O tribunal dos divórcios", in Cadernos 63. Trad. Virgínia Valli. Coleção Cadernos de Teatro. O Tablado, 1974 [embora seja mais uma revista do que um livro, vale a menção]
  • "O retábulo das maravilhas", in Cadernos 67. Trad. José Carlos Lisboa e Heloísa Guimarães Ferreira. Coleção Cadernos de Teatro. O Tablado, 1975 [embora seja mais uma revista do que um livro, vale a menção]. Saiu antes em 1961, volume 15.

a coleção completa dos cadernos de teatro se encontra disponível para download aqui.

  • "O casamento enganoso", in Contos Universais. Sel. José Paulo Paes. Trad. Mustafa Yazbek. Coleção Para Gostar de Ler, 11. Ática, 1983

  • A ciganinha. Novelas e entremezes. Contém “A ciganinha”, “A força do sangue” e “Rinconete e Cortadilho”, nas novelas; nos entremezes, traz “O retábulo das maravilhas”, “A cova de Salamanca” e “Os banhos de Argel”. Trad. Henrique Santo (“A ciganinha”) e Rolando Roque da Silva (os demais). Círculo do Livro, 1987

  • "A guarda cuidadosa", "Os faladores", "O juiz dos divórcios" e "O teatro das maravilhas", in Peças breves e deliciosas. Org. e trad. Paulo Hecker Filho. Coleção Dramaturgia Universal. Tchê, 1987
agradeço a éder silveira pelos dados bibliográficos e pela informação de que
tais peças foram originalmente publicadas em plaquete pela editora da ufrgs, em 1967,
e posteriormente apanhadas em livro.

  • A espanhola inglesa. Trad. Luís de Lima. Coleção Novelas Imortais. Rocco, 1988
  • "O casamento enganoso", in Os 100 melhores contos de humor da literatura universal. Trad. Flávio Moreira da Costa. Ediouro, 2001
  • Retábulo das maravilhas: entremez. Trad., notas e estudos Ester Abreu Vieira de Oliveira, Jorge Luis do Nascimento e Maria Mirtis Caser. Ed. bilíngue. Embajada de España en Brasil. Thesaurus, 2004
  • Rinconete e Cortadillo. Trad. Sandra Nunes e Eduardo Fava Rubio. Peirópolis, 2005
  • Quatro novelas exemplares. Contém “A ciganinha”, “Rinconete e Cortadilho”, “O amante liberal” e “O Licenciado Vidraça”. Trad. Nylcéa Thereza de Siqueira Pedra. Arte e Letra, 2009

  • Três novelas exemplares. Contém “A espanhola inglesa”, “A senhora Cornélia” e “A ilustre criada”. Trad. Nylcéa Thereza de Siqueira Pedra. Arte e Letra, 2010
  • Cinco novelas exemplares. Contém “O ciumento de Extremadura”, “O colóquio dos cachorros”, “As duas donzelas”, “A força do sangue” e “O casamento enganoso”. Trad. Nylcéa Thereza de Siqueira Pedra. Arte e Letra, 2012. Reed. O colóquio dos cachorros, Grua, 2014
  • "A tia fingida", in Arte e Letra: Estórias Q. Trad. Nylcéa Thereza de Siqueira Pedra. Arte e Letra, 2012
  • O Colóquio dos cães. Trad. Walter Carlos Costa e Pablo Cardelino Soto. Ed. Unicamp, 2013


III.
desse apanhado geral, o que podemos concluir é que, aparentemente, o primeiro cervantes traduzido entre nós é o de "o casamento enganoso", em 1942. 

em segundo lugar, podemos ver que apenas em data recente, entre 2010 e 2012, teremos todas as novelas exemplares traduzidas, felizmente, pela mesma tradutora, nylcéia thereza, ainda que em três volumes separados, pela editora curitibana arte e letra.

por fim, para se ter uma ideia da cervantiana brasileira, a obra completa de cervantes consiste em:
  • A Galateia (1585)
  • Dom Quixote, 1ª. parte (1605)
  • Novelas exemplares, 12 contos (1613):
La gitanillaEl amante liberalRinconete y CortadilloLa española inglesaEl licenciado VidrieraLa fuerza de la sangreEl celoso extremeñoLa ilustre fregonaLas dos doncellasLa señora CorneliaEl casamiento engañosoEl coloquio de los perros
  • Viagem de Parnaso (1614) – poesia
  • Poesias avulsas
  • Oito comédias e oito entremezes novos nunca antes representados (1615):
Comédias:
El gallardo español
La casa de los celos
Los baños de Argel
El rufián dichoso
La gran sultana
El laberinto de amor
La entretenida
Pedro de Urdemalas
Entremezes:
El juez de los divorcios
El rufián viudo
La elección de los alcaldes de Daganzo
La guarda cuidadosa
El vizcaíno fingido
El retablo de las maravillas
La cueva de Salamanca
El viejo celoso
  • Dom Quixote, 2ª. parte (1615) 
  • Os trabalhos de Persiles e Sigismunda (póstumo, 1617)
  • A Numância (peça avulsa, inédita até 1784)
  • Os banhos de Argel (idem)

fontes: biblioteca nacional, hemeroteca digital da biblioteca nacional, acervos de bibliotecas públicas, livrarias e sebos. alguns estudos sobre cervantes no brasil foram preciosos para vários dados bibliográficos, a saber: silvia cobelo, aqui e aqui, e célia navarro flores, aqui e aqui.

3 comentários:

  1. Saulo von Randow Júnior4.7.15

    Denise,

    O engenhoso fidalgo Dom Quixote da Mancha, tradução de Carlos Nougué com José Luiz Sánchez, para mim uma das melhores traduções já feitas para o português, também foi publicado pela Editora Abril em 2 volumes para a coleção Clássicos da Abril Coleções e, assim como a Record, de quem a Abril adquiriu os direitos, não houve a publicação da 2a parte (O Engenhoso Cavaleiro Dom Quixote da Mancha)

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  2. Olá, Denise,
    também sempre achei estranha aquela informação: "traduções revistas por T. Booker Washington" de alguns volumes da Cultrix. E por algum motivo recôndito sempre ligava esse nome a Graciliano Ramos. Então fiz uma busca no Google e, no site oficial de Graciliano encontrei as Memórias de um Negro, de Booker T. Washington traduzidas por ele para a Nacional em 1940. Devo ter visto o livro alguma vez e já não me lembrava mais, embora a relação entre os dois tivesse ficado guardada em algum canto escuro da memória. Vai ver, saiu daí a inspiração para batizar o misterioso "revisor".

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  3. ah, sem dúvida, mário! no fim, o pessoal da pensamento me informou que era pseudônimo de alguém próximo da casa, do pessoal seguidor da pensamento mesmo, que já escrevia no magazine deles, e que ficou dando uma forcinha na cultrix. como se todo aquele projeto do cavalheiro já não fosse por si só uma bandalheira. (os "nomes" dos supostos organizadores de diversas "maravilhas" também beiram o surreal, um mais estapafúrdio e visivelmente fake do que outro.) bom, depois da morte de cavalheiro, entraram nos trilhos e fizeram coisas excelentes mesmo.

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