27 de jun de 2015

troca de nomes

no levantamento da obra de roberto louis stevenson no brasil que estou fazendo nas últimas semanas, encontrei uma bizarrice. bom, bizarrices há várias - desde as "traduções especiais" de josé maria machado pelo clube do livro e as descaradas apropriações da martin claret de traduções alheias até as traduções sem crédito que muito provavelmente são contrafações.

mas esta que encontrei hoje não parece indicar nenhuma má fé, apenas alguma confusão no meio do caminho. o caso é o seguinte:

até 1933, não havia nenhum livro de stevenson traduzido no brasil. aí, a partir de 1933, houve um pequeno corre-corre da companhia editora nacional, em são paulo, e da livraria do globo, em porto alegre, para publicar obras dele. entre 1933 e 1934 saiu uma enxurradinha, cinco livros em rápida sucessão: a ilha do tesouro, o clube dos suicidas e raptado, pela nacional; aventuras de david balfour em 1751 e outro a ilha do tesouro, pela globo. nesta editora, balfour saiu em tradução de fernando pio e a ilha do tesouro em tradução de pepita de leão. ver aqui.

pois muito que bem.

passando para a segunda parte de meu levantamento, encontro as aventuras de david balfour pela l&pm, em 1984. a tradução vem em nome de pepita leão, com licenciamento feito junto à globo. acontece que, até onde sei, a única obra de stevenson que pepita de leão traduziu na vida (1875-1945) foi, justamente, aquela ilha do tesouro de 1934 para a globo. balfour, foi fernando pio.




comparando os textos (tenho as duas edições em casa, a da globo de 1933 e a da l&pm de 1984), vejo que são os mesmos. pois claro - a troco do quê uma editora faria um contrato de licenciamento para publicar uma tradução do catálogo de outra editora, se não fosse para usá-la?



acabei concluindo que deve ter havido uma troca involuntária de nomes, um lapso aí no meio da contratação do direito de uso. ainda mais depois que a globo gaúcha foi adquirida pela globo de roberto marinho, creio que uma boa parte daquele catálogo enorme deve ter ficado meio às traças; sabe-se lá.

como meu interesse é sempre com os percursos históricos da tradução no brasil, nosso patrimônio traduzido, nossa memória cultural e tudo isso, fiquei meio preocupada - vai que, ao longo de décadas e de reedições de david balfour supostamente traduzido por pepita de leão, as pessoas acabem achando que é isso mesmo. assim, escrevi à editora, colocando minha dúvida e tentando deslindar o mistério.


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