28 de jun de 2015

o problema da crítica de fontes: um exemplo de hermann hesse no brasil

sempre nesse intuito de reconstituir o passado tradutório que compõe nossa formação cultural e nosso patrimônio bibliográfico, eis um dado que, a meu ver, não procede:

1935 O lobo da estepe. (Der Steppenwolf). Trad. Augusto de Souza. São Paulo: Cultura brasileira. (Coleção literatura moderna).
1964 Demian. História da juventude de Emil Sinclair. Trad. Augusto de Souza. Rio de Janeiro: Cultura Brasileira. 
1965 Demian. História da juventude de Emil Sinclair. Trad. Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Ed. civilização brasileira.

encontrei essa referência num ótimo estudo sobre a recepção crítica de hermann hesse no brasil (1935-2005), de joão paulo francisco de souza, disponível aqui, à p. 293, dando como fonte o site de gunther gottschalk, professor emérito de letras germânicas na universidade da califórnia, um trabalho incrivelmente exaustivo e magnífico sobre hermann hesse, http://www.gss.ucsb.edu/projects/hesse/.

pequenos lapsos, sobretudo em projetos de tal envergadura como o do prof. gunther, são inevitáveis. pesquisadores que recorrem a quaisquer fontes secundárias - e mesmo primárias - nunca farão mal em cotejar a veracidade das informações e buscar outras referências corroboradoras. esse procedimento, chamado de "crítica das fontes", é uma regra metodológica básica para qualquer trabalho historiográfico.

no caso presente, não foi o que aconteceu, e assim temos reproduzido um dado inverossímil, qual seja, que a primeira tradução de demian teria sido feita por augusto de souza e teria sido publicada pela cultura brasileira em 1964. ora, ocorre que a editora cultura brasileira encerrou suas atividades em 1938 (e, ademais, era de são paulo e não do rio de janeiro) e, portanto, não teria como publicar nada em 1964, ainda por cima uma misteriosa tradução que jamais fora publicada em lugar nenhum antes de 1964, sendo que augusto de souza, se ainda estava em vida, já há algum tempo não traduzia mais nada, acrescendo-se ainda que a única referência a tal edição é esse mesmo arrolamento, que foi utilizado sem a necessária crítica da fonte.

minha impressão é que houve um empastelamento involuntário nas linhas referentes aos verbetes de 1964 e 1965 no site do prof. gunther - que no entanto, repito, tem servido de fonte para pesquisadores brasileiros sem apuração ulterior. essa hipótese tornaria compreensível a troca entre Cultura Brasileira e Civilização Brasileira, entre São Paulo e Rio de Janeiro, bem como a manutenção do mesmo título exato para as duas aparentes edições - na verdade sendo apenas uma, a de 1965, esta sim a primeira tradução de demian no brasil, na lavra de ivo barroso.

augusto de souza traduziu hermann hesse, sim, para a paulista cultura brasileira, sim, em 1935: o lobo da estepe. foi a primeira obra de hesse traduzida e publicada em livro entre nós. mas, até onde sei e até prova em contrário, este foi o único hesse que a editora de galeão coutinho publicou, e foi o único hesse que augusto de souza traduziu.


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