17 de jun de 2014

por que me aferrar a walter scott, a "d'avellar" e a detalhes do catálogo da h. garnier aparentemente insignificantes de mais de cem anos atrás? nessa crônica que venho esboçando, o quadro geral é composto por três linhas de força principais: 1. a trajetória de uma das mais importantes editoras do país, a garnier; 2. a relativa estagnação econômica nas décadas finais do século 19 e na virada do século 20; 3. a lei dos direitos autorais de 1898.

assim, uma importante editora de repente se vê acéfala, perdendo seu proprietário que exercia gestão direta de seus negócios, em meio à crise política que se segue à implantação da república, é transferida para um sucessor ainda mais idoso do que o falecido, desde sempre morador em paris, com seus próprios assuntos e negócios a cuidar, o qual envia um gerente francês para assumir a editora, o qual desconhece o brasil e a língua e contrata um gerente regional, isso em meio a uma estagnação econômica geral e o encarecimento das tarifas de importação, seja de livros, seja de papel - e perante a entrada em vigor de uma legislação referente aos direitos autorais que passa a inviabilizar uma prática secular, qual seja, a utilização brasileira de traduções cujos direitos pertencem a casas editoriais estrangeiras (portugal, sobretudo), opção, aliás, já dificultada pelo alto custo do papel importado. continua a ser mais barato imprimir as edições nacionais no exterior, em paris, sobretudo. porém, o uso de traduções portuguesas para as edições nacionais se torna inviável devido à nova lei autoral. além disso, a concorrência ameaça: a laemmert assume o posto de principal editora e livraria no brasil, até então ocupado pela b.-l. garnier. o finado garnier já sabia disso; desde 1891, antes de falecer, já tentava vender a empresa, sem conseguir.

daí, a meu ver, o esforço de manter um catálogo, de manter um mínimo de atividade editorial - pois hyppolite, o idoso irmão sucessor que herdou a b.-l. garnier, preferira antes investir na reforma da livraria, não da editora. a parte editorial, mais lenta, passa a retomar alguma atividade maior já no século 20 - como, porém? trazendo autores inéditos no país em formato de livro, como edgar allan poe, alardeando ser "traducção brasileira" (assim, em aparente obediência à nova lei autoral), porém simplesmente reproduzindo traduções portuguesas do século anterior. é interessante notar, a propósito, que as primeiras edições de walter scott no catálogo da h. garnier, a partir de 1905, não trazem créditos de tradução. é apenas a partir de 1907, 1908 que passa a aparecer o nome de "k. d'avellar" ou "r. d'avellar" - suspeito que devido a algum tipo de pressão, seja dos concorrentes, seja dos clientes, seja de quem fosse.

foi o pior dos caminhos. o gerente brasileiro saiu da h. garnier em 1906, poucos anos depois de ser contratado. a partir daí se intensificam os lançamentos de walter scott, de balzac e outros autores estrangeiros.

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