27 de mar de 2014

a arte de traduzir, segundo millôr

Millôr Fernandes – De uma entrevista para a Revista Senhor, 1962:
Com a experiência que tenho, hoje, em vários ramos de atividade cultural, considero a tradução a mais difícil das empreitadas intelectuais. É mais difícil mesmo do que criar originais, embora, claro, não tão importante. E tanto isso é verdade que, no que me diz respeito, continuo a achar aceitáveis alguns contos e outros trabalhos meus de vinte anos atrás; mas não teria coragem de assinar nenhuma das minhas traduções da mesma época. Só hoje sou, do ponto de vista cultural e profissional, suficientemente amadurecido para traduzir. As traduções quase sem exceção (e não falo só do Brasil), têm tanto a ver com o original quanto uma filha tem a ver com o pai ou um filho a ver com a mãe. Lembram, no todo, de onde saíram, mas, pra começo de conversa, adquirem como que um outro sexo. No Brasil, especialmente (o problema econômico é básico), entre o ir e o vir da tradução perde-se o humor, a graça, o talento, a poesia, o pensamento, e, mais que tudo, o estilo do autor. 
Fica dito – não se pode traduzir sem ter uma filosofia a respeito do assunto. Não se pode traduzir sem ter o mais absoluto respeito pelo original e, paradoxalmente, sem o atrevimento ocasional de desrespeitar a letra do original exatamente para lhe captar melhor o espírito. Não se pode traduzir sem o mais amplo conhecimento da língua traduzida mas, acima de tudo, sem o fácil domínio da língua para a qual se traduz. Não se pode traduzir sem cultura e, também, contraditoriamente, não se pode traduzir quando se é um erudito, profissional utilíssimo pelas informações que nos presta – o que seria de nós sem os eruditos em Shakespeare? – mas cuja tendência fatal é empalhar a borboleta. Não se pode traduzir sem intuição. Não se pode traduzir sem ser escritor, com estilo próprio, originalidade sua, senso profissional. Não se pode traduzir sem dignidade.
extraído daqui.

há um bom artigo de gabriel perissé, millôr tradutor, aqui.

2 comentários:

  1. Boa noite, denise bottmann

    Gostaria de lhe falar do recente plagio que sofri no Recanto das Letras, não sei o que fazer uma vez que sou uma cidadã Portuguesa e o indivíduo que me plagiou é Brasileiro. Já enviei e-mails à administração do site mas nada fazem. O poema que me plagiaram está registado em meu nome e já foi editado em livro. O meu nome é Conceição Bernardino, coloquei um post no Facebook a denunciar o indivíduo para que todos soubesse quem ele é; este é o link da minha página do face, https://www.facebook.com/conceicao.bernardino/posts/10202556202718752?comment_id=6902503&offset=0&total_comments=23&notif_t=share_comment

    E este é o link onde descobri o plagio no recanto das letras; http://www.recantodasletras.com.br/poesias/2079276

    Agradecia-lhe de coração se me pudesse ajudar, não sei o que fazer e a quem denunciar esta vergonha,

    Com os melhores cumprimentos

    Conceição Bernardino

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  2. Anônimo20.4.14

    Já fui muito fã de Millor quando era garoto. Isso passou com a idade. Hoje vejo como um pseudointelectual, um charlatão. Tinha essa coisa meio esquemática dos aforismos, frases de efeito, mas quando se descartam os efeitos não sobrava muita substância. A pose e as relações sempre ajudam a reputação, penso eu, e estas nunca faltaram. Esta análise de uma de suas traduções não deixa dúvidas que ele não dominava o inglês: http://drplausivel.blogspot.com.br/2010/03/00.html

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