19 de mai de 2013

o triste destino de belas traduções

como algumas considerações são anacrônicas e despropositadas!

encontro na matéria de paula scarpin, aqui, um seu juízo sobre a tradução de khadji-murat, de liév tolstói, feita diretamente do russo por georges selzoff em parceria (para o arredondamento final do texto em português) com allyrio meira wanderley, em 1931.

diz a jornalista a certa altura:
[...] é possível perceber que em algum momento do processo o texto coloquial e fluente de Tolstói resultou em um português rebuscado e recheado de arcaísmos, com excesso de uso da ordem indireta. Num trecho do preâmbulo, por exemplo, onde Schnaiderman traduz: “Desci para o fundo da ravina e, depois de expulsar um zangão cabeludo, que se cravara no centro da flor e nela adormecera flácida e docemente, comecei a cortar a haste”, Selzoff escolheu: “Desci à valla e, expulso felpudo zangão que adormecera, enroscado e indolente, no coração de uma flor, eis-me a desarraigar a planta.”
em primeiro lugar, não vejo no exemplo tomado a selzoff/wanderley qualquer "excesso de uso da ordem indireta" - na verdade, não vi absolutamente nenhuma ocorrência de ordem indireta; muito pelo contrário, nada mais direto do que "desci", "que adormecera", "eis-me a desarraigar".

em segundo lugar, utilizar o português do século XXI, mais especificamente o português corrente em 2012, como parâmetro para julgar "rebuscado" e "recheado de arcaísmos" o português de mais de oitenta anos antes, parece-me método de um anacronismo inqualificável. talvez uma possível estranheza que pode ter sentido a jornalista se deva à ausência de artigos indefinidos onde seu uso nos pareceria natural, como no caso do zangão.

mas, afora isso, o que haveria de tão arcaico e rebuscado em "vala", "expulso", "felpudo", "enroscado", "indolente" ou "desarraigar"? muito pelo contrário, bem menos coloquial e fluente parece-me o contraexemplo (tomado à tradução de boris schnaiderman) dado pela jornalista: "adormecera flácida e docemente"!

em suma, creio que, no afã de querer por alguma obscura razão desqualificar a pioneiríssima (e bela!) tradução de selzoff, a jornalista errou a mão.

podíamos passar sem essa.

veja-se também aqui.

9 comentários:

  1. há muitos jornalistas q pensam q são historiadores, linguistas, tradutores, etc, etc.

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    1. e ouvem o galo cantar, mas não sabem onde.

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  2. Bravo, Denise, que bom que voce existe, para desmistificar certas tonterias.

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  3. Julia V.20.5.13

    Lendo em diagonal, achei que o primeiro trecho é que era o exemplo da tradução rebuscada...

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  4. Denise, "expulso felpudo zangão que adormecera, enroscado e indolente, no coração de uma flor, eis-me a desarraigar a planta" é uma beleza mesmo! abraços, Renato

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    1. e não é? abraços a ti também, renato.

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  5. Acho que a ausência de artigo indefinido visa o ritmo da frase. Lendo em voz alta (sim, fiz isso, confesso...), fica bem mais fluido.

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