25 de mai de 2013

khadji-murat, tradução de georges selzoff

ilustração de m. barychnicoff para khadji-murat, edição cultura, 1931

esta é para um caro amigo, que tão bem soube apreciar a beleza da tradução de khadji-murat, de tolstói, feita por georges selzoff (com a colaboração de allyrio meira wanderley). ela foi publicada em 1931 pela edição cultura, na bibliotheca de auctores russos concebida e desenvolvida pelo tradutor-editor selzoff.

transcrevo os dois primeiros parágrafos, onde o narrador conta a dificuldade que teve em arrancar uma bardana tártara, então florida, cujo vigor e resistência lhe fizeram lembrar a história de khadji-murat, que depois passa a narrar.

      Regressava eu a casa pelos campos. Ia em meio o verão. Segada a erva, começava a ceifa do centeio. Há, nessa época do ano, maravilhosa variedade de flores: as dos trevos, vermelhas, brancas, perfumadas, penugentas; alvos malmequeres de fundo amarelo vivo; a colza dourada, rescendendo a mel; longo o caule, como o caule longo da tulipa, altas campânulas roxas e nevadas; e ervilhas desenrolando-se em trepadeiras; escabiosas flavas, rubras, róseas: com uma pubescência levemente corada, com um aroma agradável e sutil, a tanchagem lilá; e as centáureas, de um azul vibrante ao sol quando recém-desabrochadas e de um azul mortiço à tarde quando se vão fanando; depois, fraquinhas, passageiras, as da cuscuta, que cheiram a amêndoa.
      Colhera grande ramalhete, e prosseguia, mas vi num fosso magnífica bardana violácea, em plena floração; uma dessas entre nós chamadas "tártara", que o foiceiro evita com cuidado, e separa do feno, para não picar as mãos, se porventura a cortou. Quis arrancá-la e pô-la no molho. Desci à vala e, expulso felpudo zangão que adormecera, enroscado e indolente, no coração duma flor, eis-me a desarraigar a planta. Foi bem difícil. Não só o caule ferroava por todos os lados, mesmo através do lenço onde enrolara a mão, como resistia tanto, tanto, que lutei quase cinco minutos com ele, dilacerando-o fibra a fibra. Desaferrada enfim, tinha em frangalhos a haste, e já não parecia nem tão fresca nem tão linda. Além disso, bruta e rude, não se dava com as outras, delicadas. Arrependi-me de haver destruído a flor, tão bela no seu canto, e joguei-a fora. "Que energia! Que vitalidade", me disse a mim próprio, recordando os esforços para desprendê-la. "Como se defendia, e como vendeu cara a vida!"

sabe-se que o russo não dispõe de artigo definido ou indefinido; daí, na tradução, tantas ausências - nem por isso, porém, gramaticalmente incorretas em português - do artigo indefinido que nos soa mais habitual: "maravilhosa variedade", "grande ramalhete", "magnífica bardana", "felpudo zangão". 

quanto à ocorrência de várias orações reduzidas ("segada a erva", "expulso felpudo zangão", "desaferrada enfim"), nelas ressoa à distância a morfologia mais sintética do russo, porém sempre bem desenvolvidas num português leve, desenvolto e até quase coloquial ("fraquinhas", "bem difícil", "resistia tanto, tanto", "não se dava").

considero um trabalho admirável.

por isso tanto mais me surpreendeu a tentativa de leitura crítica de paula scarpin, em seu brevíssimo cotejo com a tradução de boris schnaiderman. reproduzo abaixo meus comentários naquela época, que havia feito aqui.


encontro na matéria de paula scarpin, aqui, um seu juízo sobre a tradução de khadji-murat, de liév tolstói, feita diretamente do russo por georges selzoff em parceria (para o arredondamento final do texto em português) com allyrio meira wanderley, em 1931.

diz a jornalista a certa altura:

[...] é possível perceber que em algum momento do processo o texto coloquial e fluente de Tolstói resultou em um português rebuscado e recheado de arcaísmos, com excesso de uso da ordem indireta. Num trecho do preâmbulo, por exemplo, onde Schnaiderman traduz: “Desci para o fundo da ravina e, depois de expulsar um zangão cabeludo, que se cravara no centro da flor e nela adormecera flácida e docemente, comecei a cortar a haste”, Selzoff escolheu: “Desci à vala e, expulso felpudo zangão que adormecera, enroscado e indolente, no coração de uma flor, eis-me a desarraigar a planta.”
em primeiro lugar, não vejo no exemplo tomado a selzoff/wanderley qualquer "excesso de uso da ordem indireta" - na verdade, não vi absolutamente nenhuma ocorrência de ordem indireta; muito pelo contrário, nada mais direto do que "desci", "que adormecera", "eis-me a desarraigar".

em segundo lugar, utilizar o português do século XXI, mais especificamente o português corrente em 2012, como parâmetro para julgar "rebuscado" e "recheado de arcaísmos" o português de mais de oitenta anos antes, parece-me método de um anacronismo inqualificável. talvez uma possível estranheza que pode ter sentido a jornalista se deva à ausência de artigos indefinidos onde seu uso nos pareceria natural, como no caso do zangão.

mas, afora isso, o que haveria de tão arcaico e rebuscado em "vala", "expulso", "felpudo", "enroscado", "indolente" ou "desarraigar"? muito pelo contrário, bem menos coloquial e fluente parece-me o contraexemplo (tomado à tradução de boris schnaiderman) dado pela jornalista: "adormecera flácida e docemente"!


em suma, creio que, no afã de querer por alguma obscura razão desqualificar a pioneiríssima (e bela!) tradução de selzoff, a jornalista errou a mão.

podíamos passar sem essa.



Um comentário:

  1. Anônimo10.8.16

    É como ler a Ilíada de Haroldo de Campos seguida das de Odorico Mendes e de Carlos Alberto Nunes.

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