17 de mar de 2013

como e em que as fraudes de tradução lesam diretamente os leitores

imagem enviada por federico carotti

hoje recebi uma consulta que me pareceu interessante. a pessoa perguntava: "No que exatamente consistem as fraudes?", referindo-se aos plágios de tradução apontados por este blog. "A editora lesa os leitores [aproveitando-se de] edições esgotadas e isso necessariamente acarreta prejuízos ao conteúdo/qualidade da obra?"

as perguntas me pareceram muito pertinentes, e eis minha resposta, que espero aproveite também a outros leitores interessados em entender melhor como e em que esse tipo de fraude os lesa diretamente.
deixe-me ver se entendi bem sua questão. você está perguntando "no que exatamente consistem as fraudes" para o ponto de vista do leitor, é isso? pois, do ponto de vista do autor legítimo da tradução e para o patrimônio de nosso domínio público, creio que a lesão do direito é evidente, não? 
bom, então suponhamos que sua preocupação sejam os eventuais "prejuízos no conteúdo/qualidade da obra" para a leitura, certo? 
então eu diria o seguinte: algumas das fraudes são meras reproduções ipsis litteris, e neste sentido o conteúdo/qualidade da obra prossegue inalterado. em muitas das fraudes, porém, há tentativas de disfarçar a cópia, as quais adulteram o conteúdo e, em alguns casos, mesmo a inteligibilidade do texto; há casos de alterações ainda mais grotescas, resultando em passagens que não fazem o menor sentido, as quais só posso atribuir à má qualidade do escaneamento da obra usada na fraude; outras ainda podem afetar conceitos centrais de um autor. contem-se também os casos de montagem de duas traduções diferentes, para compor uma terceira espúria, resultando numa obra de texto irregular, descontínuo e às vezes, se não contraditório, um tanto incoerente. todos esses tipos de adulterações estão amplamente documentados no blog.*
outro aspecto que considero relevante para o leitor, quanto à identidade correta do autor da tradução, é um pouco mais sutil, mas nem por isso, a meu ver, menos importante: creio que, mesmo para o leitor mais imediatista, é relevante saber que tal ou tal tradução foi feita por monteiro lobato ou por manuel odorico mendes ou por boris schnaiderman - não só pelo valor das contribuições dessas pessoas a nosso patrimônio cultural, mas também até para situar e entender melhor os textos resultantes em suas traduções, compreender as soluções e dicções adotadas na tradução dentro de um quadro histórico concreto e determinado. quero dizer, uma tradução feita em 1870 ou em 1930 ou em 1940 carrega traços de sua época, o que ajuda o leitor a compor um quadro mais geral da cultura correspondente, em vez de supor que todas essas traduções teriam sido feitas em 2001, 2002 ou 2003. 
espero ter entendido suas perguntas e respondido a elas satisfatoriamente.
* exemplos para ilustrar os vários tipos de adulteração acima mencionados e os prejuízos que causam ao texto:
- max weber, a ética protestante e o espírito do capitalismo, aqui
- ralph w. emerson, ensaios, aqui
- descartes, o discurso do método, aqui
- aristóteles, arte poética, aqui

visite os diversos cotejos realizados, disponíveis aqui.

5 comentários:

  1. Acho interessante trazer a explicação sobre o porquê de as traduções espúrias lesarem o leitor, mas eu sempre acho que quem realmente se pergunta isso deve ser bem egoísta: "Então não devo comprar traduções plagiadas? Em que isso me lesa?". Acho esse pensamento horrível. Só de deixar evidente que essas traduções lesam o tradutor original da obra já deveria ser argumento o suficiente para qualquer pessoa decente se manter longe delas.

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  2. Sobre a questão dos direitos eu estou de acordo, mas ao lesar o tradutor eu acho dificil.

    Tudo bem que deixaremos de prestigiar o tradutor que tanto se esforça em seu trabalho, ainda mais sobre o prisma de tradutor/escritor sendo cada um quase o novo autor da obra que traduz.

    Acho apenas que o lesaria em questão de prestígio pois, normalmente, o tradutor não é pago por vendas, mas sim por página. Podemos então prever que o lesado da história seria a editora.
    Mas se vermos o tradutor como invisivel, visão de poucos que realmente gostam de literatura, não há nenhum prejuízo até pq a má tradução será atribuida ao copiador e não ao tradutor original.

    Bom, o que não exclui todos os outros pontos já explanados aqui.

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    1. olá, alexandre: você tocou num ponto importante, os dois tipos de direitos autorais. há os econômicos ou patrimoniais, que de fato são em geral totalmente transferidos para a editora - mas os direitos morais ou personalíssimos (direito ao nome, à integridade da obra e à paternidade) são sempre do autor/tradutor, são inalienáveis e irrenunciáveis. a lesão ao tradutor a que eu me referia diz respeito a esses direitos morais.

      obrigada pela ocasião em especificar melhor essa questão.

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  3. Esse é um daqueles posts em que a parte de comentários devia vir colada ao texto! Parabens pelo blog e pela batalha.

    Desculpe o off-topic... há algum caminho que podemos recorrer para pesquisar por tradutores, especialmente os não contemporâneos (data da tradução, se é domínio público, etc)? Tentei o DITRA e o catálogo da BN, mas eles não são lá muito eficientes para tradutores antigos. Fiquei pensando se o EDA teria esse tipo de registro e se seria aberto a consulta.

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    1. flavio, não existe nenhum site e mesmo local físico que agregue todos esses dados. muitas vezes esses dados até existem, mas estão bastante dispersos, e não é nada fácil o trabalho de compilá-los. minha sugestão, se vc está interessado em algum tradutor específico, é mesmo a pesquisa artesanal na internet, indo de referência em referência, juntando todas elas, até conseguir montar uma minibibliografia daquele tradutor.

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