29 de out de 2012

ai, que saudades eu tenho da rosane

há 26 dias, em 3 de outubro, escrevi à dinf, divisão de atendimento à distância da fundação biblioteca nacional, fazendo uma consulta singelíssima. reproduzo a novela com a troca de e-mails:

I.
boa tarde:
estou escrevendo um artigo para a revista belas infiéis, da pós-graduação de estudos de tradução da unb, sobre as traduções de gustave flaubert publicadas no brasil.
vi que constam em nossos acervos na biblioteca nacional dois volumes que parecem ser as primeiras obras de flaubert traduzidas entre nós. mas as fichas catalográficas não mencionam o nome dos tradutores. eu gostaria de perguntar se, por acaso, os srs. poderiam dar uma conferida nos volumes impressos, para confirmar se são de fato traduções anônimas ou se há alguma referência a seus tradutores.
os volumes são os seguintes:
Autor:Flaubert, Gustave, 1821-1880.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Salambô (romance).
Imprenta:Rio, Ed. guanabara, 1932. 
Descrição física:249 p.
Notas:Registro Pré-MARC
Classificação Dewey:
Edição:
843
Indicação do Catálogo:843/F587s7/1932 

e
 
Autor:
Título / Barra de autoria:
Madame Bovary.
Imprenta:
S. Paulo, Impressora paulista, [1934?]. 
Descrição física:
345 p.
Notas:
Registro Pré-MARC
Classificação Dewey:
Edição:
843 
Indicação do Catálogo:
843/F587m7/1934 
agradeço a atenção 
denise bottmann
II.
passam-se seis dias, e nada. no dia 9 de outubro, reenvio a solicitação, acrescentando:
boa tarde: se não for demasiado incômodo, reitero meu pedido abaixo.
obrigada,
denise bottmann
III.
passam-se mais seis dias, e no dia 15 de outubro recebo a seguinte resposta:
Prezada Denise, 
Abriremos uma pesquisa para você e o pesquisador que ficar responsável por ela em breve entrará em contato informando sobre forma de reprodução, orçamento, instruções para pagamento e preenchimento do termo de responsabilidade. Informamos ainda que as pesquisas são atendidas por ordem de chegada.  
Atenciosamente,  
Flávia Cezar 
Chefe da Divisão de Informação Documental - DINF/FBN
IV.
no mesmo dia, respondo esclarecendo:
boa tarde, flávia:
obrigada, fico no aguardo. não preciso de reprodução, apenas de confirmação dos dados catalográficos.
denise bottmann
V.
depois de três dias, em 18 de outubro, recebo um e-mail com apenas duas letras:
OK.

bom, passaram-se mais onze dias e nada. estamos em 29 de outubro; preciso entregar o artigo até o dia 31. e agora? vou explicar no artigo que foi a dinf que não forneceu a confirmação tão singela que solicitei com quase 30 dias de antecedência...

ah, que saudades do gentilíssimo, rapidíssimo e eficientissimo atendimento da dinf, na pessoa de rosana maria nunes andrade - aliás, para uma consulta bem mais complexa!

atualização em 30/10: hoje de manhã recebi resposta da FBN via twitter, que transcrevo:

Desculpe pelo transtorno. Fizemos a pesquisa agora e de fato não há nenhuma referência aos tradutores nos livros mencionados.
Mensagem direta enviada por Biblioteca Nacional (@FBN) para você (@dbottmann) em Oct 30, 10:59 AM.

obrigada.

26 de out de 2012

o jogador de dostoiévski, uma elucidação

graças a mais uma contribuição de alex quintas de souza, a quem agradeço, foram solucionados dois mistérios de uma tacada só.

no levantamento das traduções de dostoiévski no brasil, fiz um post específico sobre o/um jogador, aqui, e mencionei duas edições que me deram um baile:
V. esta é um mistério. mas está lá em nosso acervo na biblioteca nacional:

Autor:Dostoievskii, Fedor Mikhailovich, 1821-1881.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:O jogador.
Imprenta:Rio, Ed. G. Carneiro [1953]. 
Descrição física:132 p.
Notas:Registro Pré-MARC


e
XIII. esta aqui é outro mistério. consegui apenas a imagem de capa; não localizei editora, ano, tradutor, nada. parece revistinha de banca de jornal.
O Jogador Fiódor Dostoiévski Clássico Da Literatura Russa 
alex informa que a editora é a gertum carneiro s/a, sem data nem crédito de tradução, e envia imagens preciosas:




 vendo-se a ficha catalográfica no acervo da biblioteca nacional, onde consta ed. g. carneiro, deduz-se que é a gertum carneiro. o uso de colchetes na data indica o ano de de integração ao acervo, não de publicação (neste caso, o ano vem dado diretamente, sem colchetes).

ou seja, o mistério V e o mistério XIII se esclarecem: trata-se da mesma edição d'o jogador pela gertum carneiro, c. 1953 (aí o circa é meu, indicando uma data limite).

mas quem era a gertum carneiro? nada menos que a atual ediouro, depois de passar pelos nomes de tecnoprint e edições de ouro.

a história é a seguinte: dois irmãos, antônio e jorge gertum carneiro, gaúchos, mudaram-se para o rio de janeiro, onde abriram em 1939 uma importadora de livros chamada publicações panamericanas. devido à guerra e às dificuldades de importação, a partir de 1940 passaram também a publicar obras, tanto brasileiras quanto traduzidas, com o nome de editora panamericana, sobretudo na área de literatura. a panamericana teve vida curta, até 1946, mais ou menos.

a partir de 1942, os dois irmãos e mais um sócio (fritz israel mannheimer) criam também a gertum carneiro, voltada basicamente para publicações técnicas na área de engenharia, mecânica, medicina etc.

se voltarmos ao post o/um jogador, lá encontraremos:
II. em 1943, otto schneider tem sua tradução publicada pela panamericana:
O Jogador - Fiodor Dostoiévski
ora, como a panamericana e a gertum carneiro eram dos mesmos donos, parece-me mais do que provável que a tradução d'o jogador pela gertum dos anos 50 seja a de otto schneider pela panamericana dos anos 40, cuja imagem de capa é mostrada acima.

com isso, além de resolvidos os dois mistérios, temos boas indicações também sobre a provável data de edição e a probabilíssima autoria da tradução d'o jogador na coleção "livros de bolso" da gertum.

25 de out de 2012

zaratustra: da escala à lafonte

no final do ano passado, quando estava fazendo um levantamento das traduções de nietzsche no brasil, deparei-me com o zaratustra publicado pela editora escala, com tradução em nome de ciro mioranza, mas que não passava de uma transcrição levemente adulterada de uma tradução antiga. os links para esse caso estão agrupados aqui.

aí, everton marcos grison chamou minha atenção para uma outra edição de assim falava zaratustra, lançada agora em 2012. saiu na coleção "grandes clássicos da filosofia" da lafonte, selo do grupo editorial larousse do brasil (do qual também faz parte a editora escala educacional):


o atento everton notou uma bizarrice na edição e me enviou as imagens documentando o fato. trata-se do seguinte: a página de rosto traz os créditos de tradução em nome de ciro mioranza. até aí estamos no terreno do previsível - ainda que pairem dúvidas sobre a legitimidade dessa atribuição, como mostrei aqui e aqui, não chega a surpreender que o grupo larousse do brasil tenha reeditado pela lafonte a mesma suposta tradução de mioranza que saíra pela escala:


o que surpreende, e muito, é a discrepância que aparece na ficha catalográfica do mesmo livro, onde os créditos de tradução vêm atribuídos não mais a ciro mioranza, e sim a antonio carlos braga:


aí realmente fica complicado: afinal, que tradução é esta?

20 de out de 2012

ganhadores do jabuti de tradução 2012


1. Lugar
"Odisseia"
Tradutor: Trajano Vieira
Editora 34

2º Lugar
"Guerra e Paz"
Tradutor: Rubens Figueiredo
Cosac & Naify

3º Lugar
"Madame Bovary"
Tradutor: Mario Laranjeira
Companhia das Letras


parabéns a todos!


[obrigada a lucas cordeiro]


18 de out de 2012

programa de apoio à tradução

a Fundação Biblioteca Nacional alterou o nome de sua página no facebook, passando de Programa de Residência de Tradutores Estrangeiros no Brasil para Programa de Apoio à Tradução - FBN. 

espero que isso sinalize uma disposição da fbn em fomentar e dar apoio também aos tradutores brasileiros.

transcrevo abaixo o email que acabei de enviar a eles, tradutoresbrasil@bn.br:

boa tarde: parabenizo a fbn por não reduzir mais seu programa de apoio à tradução apenas a tradutores estrangeiros interessados num período de residência no brasil.
a mudança do nome na página do facebook parece sinalizar a abertura desta fundação aos tradutores brasileiros também - que, afinal, são as pessoas que proveem os meios de acesso dos leitores brasileiros a obras estrangeiras vertidas para nossa língua.
espero que essa sinalização seja o prenúncio de programas concretos de apoio aos praticantes deste ofício no brasil.
atenciosamente,
denise bottmann

17 de out de 2012

o amante de lady chatterley, via gustavo barroso

algum tempo atrás, em 2008, levantei umas pistas que me parecem interessantes e mereceriam talvez uma pesquisa a rigor.

trata-se da misteriosa tradução de o amante de lady chatterley, atualmente no catálogo da record, com tradução em nome de "rodrigo richter".

em 1938, a minúscula e efemeríssima agência minerva editora, de linha integralista, estridentemente fascista e antissemita (cujo colaborador mais constante era gustavo barroso - até me pergunto se não seria ele o dono ou um dos associados dessa editora), publica uma tradução da lady chatterley, inexpurgada. tem reedições em 1941 e 1946. a tradução vinha anônima.

em 1956, a civilização brasileira volta a publicar essa tradução. em 1959, acrescenta na página de rosto créditos de tradução em nome de "rodrigo richter".

é incontável a quantidade de reedições dessa obra. quando a record adquiriu a civilização, ela passou a integrar seu catálogo, saindo pela bestbolso. aliás, essa tradução não escapou à sanha da martin claret, onde foi transcrita sob o nome de "jorge luís penha" e lá permanece viçosa até hoje.

reproduzo abaixo partes de dois posts que publiquei aqui e aqui, com algumas considerações:
desde que foi publicado pela primeira vez na itália, em 1928, lady chatterley's lover (na versão final de lawrence, a chamada "terceira versão") foi proibido pela censura britânica, sendo publicado em outros países, mas na inglaterra circulando ou clandestinamente ou numa versão "expurgada" durante 30 anos. em 1959, num julgamento nos estados unidos, o supremo tribunal liberou a edição da obra integral no país, abrindo a brecha para novo julgamento na inglaterra, onde ela foi finalmente liberada em 1960.
a tradução que aparece na civilização brasileira em nome de rodrigo richter, em 1959, na verdade foi publicada inicialmente em 1938, pela agência minerva. a página de rosto dessa edição de 1938 já traz os dizeres "versão integral inexpurgada", e na página da imprenta consta "versão autorizada". não consta o nome do tradutor.

a agência minerva publica uma segunda edição em 1941 e uma terceira em 1946, ambas com o apêndice "em defesa de 'lady chatterley'":

  
em 1956 o título reaparece na civilização brasileira, onde segue sua carreira por algumas décadas. é apenas em 1959 que a civilização brasileira acrescenta os créditos de tradução em nome de "rodrigo richter", desde a edição cuja capa de eugênio hirsch ficou célebre pela renovação gráfica que introduziu na editora. "rodrigo richter" se mantém até hoje como autor da tradução no catálogo da record (bestbolso).


com esses achados, o caso parece se tornar ainda mais interessante. trata-se de uma tradução que vem desde 1938, tendo portanto completado 70 anos de existência. [hoje, 74 anos!] 
quanto ao verdadeiro tradutor, que se manteve anônimo por vinte anos, não posso afirmar nada. "rodrigo richter" pode ser um pseudônimo, pode ser um nome emprestado, pode ser alguém de verdade. isso, decerto, a record há de saber melhor do que eu. 
quanto à sua edição inicial em 1938, o curioso é que ela foi publicada pela agência minerva. em seu reduzidíssimo catálogo, constam na mesma época a publicação de um livro de l. bertrand, a maçonaria, seita judaica: suas origens, sagacidade e finalidades anticristãs (1938), em alardeada tradução do integralista e antissemita gustavo barroso; o famosíssimo os protocolos dos sábios de sião (1936), traduzido, anotado, comentado e "apostilado" também por ele; e ainda o grande processo de berna sobre a autenticidade dos "protocolos" - provas documentais (1936), do mesmo gustavo barroso. 
na mesma década de 1930, gustavo barroso publicou várias obras pela companhia editora nacional, seja em seu selo principal, no selo civilização brasileira ou em sua coleção brasiliana (as colunas do templo; brasil, colônia de banqueiros; judaísmo, maçonaria e comunismoa história secreta do brasil em 3 vols.; história militar do brasil). até os anos 1950, gustavo barroso fazia parte do quadro de sócios da civilização brasileira, ainda subsidiária da companhia editora nacional. 
isso parece sugerir vivamente que a migração de o amante de lady chatterley da agência minerva para a civilização brasileira teria se dado por meio de gustavo barroso, que teria feito a evidente conexão entre ambas. [sobre as relações entre gustavo barroso e a nacional/civilização, com octalles e ênio silveira, há farta documentação disponível para pesquisas.]
a curiosidade que fica é como, em primeiro lugar, a agência minerva teria decidido publicar em seu microcatálogo um título decididamente polêmico, ao lado de peças de propaganda antissemita traduzidas ou "apostiladas" pelo mais ruidoso e profícuo ideólogo integralista do país. (aqui talvez fosse o caso de se levarem em conta as posições protofascistas de d.h. lawrence, que certamente seriam prato cheio para alimentar a propaganda integralista no brasil...) 
então junte-se tudo isso: um livro que, sob vários aspectos, é um marco da literatura mundial, passa 30 anos censurado, é editado no brasil em sua versão integral antes mesmo de cair a censura por uma editora virulentamente militante na ala mais extremada do fascismo brasileiro, reaparece numa editora progressista,  depois é absorvida pela voragem comercial que tragou boa parte da diversidade de nossa indústria editorial e se mantém até hoje, com quase 75 anos de movimentada existência nas costas, incluindo até uma rude espoliação - a gente sente uma espécie de densidade nessa trajetória, que acho interessante e, quem sabe, importante de ser lembrada e resgatada. além disso, a própria vetustez da tradução em si poderia fornecer bons subsídios para o estudo de práticas tradutórias do passado, sem contar que um estudo desses entrelaçamentos editoriais ajudaria a compor em mais detalhes o cenário ideológico e cultural da primeira metade do século 20.
como tema de uma pesquisa de mestrado, creio que pode ser bastante fecundo. e até me arrisco a dar um palpite: não terá sido o próprio gustavo barroso, tradutor de vários livros, a traduzir também essa obra? não será "rodrigo richter" o nome que a civilização inventou ou lhe foi sugerido em 1959, ano da morte de gustavo barroso, para batizar sua tradução lançada vinte anos antes pela extinta agência minerva?

14 de out de 2012

contra fraudes de tradução

a revista sorria deste mês, de n. 28, comenta o problema das fraudes de tradução.
está aqui, à p. 39. e se cola na prova é jeitinho, plágio de tradução é crime mesmo.

12 de out de 2012

leya: tradução anônima?

a editora leya volta e meia é protagonista de umas confusões em suas traduções (lembrem-se os clamorosos episódios referentes a a guerra dos tronos). elvira serapicos avisa agora que: "O poder da união, da Leya, saiu em agosto; em NENHUM lugar aparece o nome da pessoa responsável pela tradução".



dona leya, a única hipótese em que a sra. pode se dispensar de colocar o nome do tradutor nos créditos e na ficha catalográfica é quando o tradutor PROÍBE expressamente a menção a seu nome. em procedendo a informação acima, foi isso o que aconteceu em o poder da união?

atualização em 14/10: elvira serapicos explica: "Oi, Denise. Só agora vi este post. Acho que fui muito enfática e não me expliquei direito. Minha indignação tem a ver com o fato de a Leya nunca fornecer o nome do tradutor para a divulgação; em todas as livrarias e sites, parece que o livro foi escrito em português.
Quanto aos créditos e ficha catalográfica, não sei dizer porque não vi o livro. Esse é outro hábito da editora. Lançam o livro e não enviam um exemplar, não informam o tradutor. Então, fico sem saber se meu nome consta ou não. Aconteceu a mesma coisa com A menina que não sabia ler. Só tive certeza de que meu nome constava como tradutora quando vi que o livro foi publicado e pedi um exemplar."

atualização em 25/10: elvira serapicos informa: "pedi um exemplar e recebi o livro O Poder da União, que traduzi para a Editora Leya e, por incrível que pareça, meu nome não consta nem da ficha catalográfica. Escreveram apenas: Tradução de As One. Simples assim, sem dizer quem traduziu. Isso não fere a legislação? Pode uma coisa dessas?"

11 de out de 2012

tradução/ adaptação

vale a pena distinguir entre:
- a adaptação feita diretamente do original estrangeiro
- a tradução de uma adaptação estrangeira
- a adaptação de uma tradução previamente existente


o primeiro caso é o menos frequente - na verdade, é bastante raro (e, em minha modesta opinião, resulta nas adaptações mais saborosas).

no segundo caso, a editora costuma informar nos créditos qual foi a adaptação de origem.

o último caso - e mais frequente - não requer nenhuma atividade de tradução e, em geral, a tradução adotada como base nem vem indicada nos créditos.

9 de out de 2012

mais uma sugestão de pesquisa (esta, ufa!)

o autor mais assíduo das chamadas "traduções especiais" do clube do livro parece ter sido josé maria machado. já comentei algumas vezes, por exemplo aqui e aqui, que essas traduções especiais muitas vezes não passam de meras adaptações de traduções portuguesas ao português brasileiro.

I.
apenas para registro, segue uma rápida lista de "traduções especiais" de josé maria machado. em vista das altas tiragens e frequentes reedições das obras publicadas pelo clube do livro em seus quarenta anos de existência (embora intermitente), talvez fosse interessante rastrear os verdadeiros tradutores dessas obras e compor um painel mais preciso de nossa produção e recepção literotradutória.

1944 (1987), gustave flaubert, madame bovary
1945 (1988), edgar allan poe, histórias extraordinárias 
1946, oscar wilde, o retrato de dorian gray (“j. machado”)
1947 (1988), honoré de balzac, mulher de trinta anos
1948, emily brontë, o morro dos ventos uivantes
1951, robert louis stevenson, o médico e o monstro
1953, walter scott, ivanhoé
1954, mark twain, as aventuras de tom sawyer 
1955, cyrano de bergerac, viagem aos impérios do sol e da lua
1955, flavia steno, apaixonadamente
1956, alexandre dumas, o colar de veludo 
1956, charles dickens, uma aventura de natal (com tito marcondes)
1956, jonathan swift, as viagens de gulliver
1956, théophile de gautier, a paixão de militona
1957, george sand, a pequena fadette*
1957, herman melville, moby dick
1958, charlotte brontë, o professor 
1958, victor hugo, os miseráveis (condensada, 516 pp.)
1960, georges kamké, na ponta de um arco
1961, alexandre dumas, a loura huberta 
1961, françois rabelais, o gigante gargântua
1961, mark twain, as aventuras de huckleberry finn
1962, fenimore cooper, o último dos moicanos
1963, ivã turgueniev, o passaporte
1963, oscar wilde, o jovem rei
1965, prosper mérimée, a serpente
1968, summer lincoln, a cicatriz
1969, charles dickens, tempos difíceis
1969, leon tolstoi, o diabo branco
1972, walter scott, a última torre
1974, alexandre dumas, homem de guadalupe
1975, william sackleton, dois mistérios (com paulo arinos)
1976, honoré de balzac, uma paixão no deserto (com augusto dantas)
1977, anne brontë, a preceptora
1983, honoré de balzac, o renegado

* agradeço a informação de elaphar. citem-se a propósito do clube do livro os estudos de john milton.

obs.: os dois primeiros e o quarto títulos saíram como tradução anônima - apenas em data posterior, assinalada entre parênteses, surge o nome de josé maria machado. já o retrato de dorian gray foi a primeira obra trazendo a menção "traduzido especialmente para o clube do livro", que depois se tornaria habitual. interessante notar que, nesta primeira aparição, consta apenas "j. machado".


II.
por outro lado, e mais na linha do pulp fiction, o clube do livro publicou alguns livretos (fletcher, oppenheim, futrelle e wallace) que já tinham saído na "coleção vampiro" da coluna sociedade editora, na tradução do próprio josé maria machado: 


Clique para ampliar a capa
1951 CSE, 1955 CdL

Clique para ampliar a capa
1951 CSE, 1956 CdL (a tôrre em 1963)

1952 CSE, 1956 CdL


1953 CSE, 1955 CdL


1953 CSE, 1957 CdL

outra tradução de josé maria machado na coleção vampiro, pela coluna, é atrás da máscara, de summer lincoln, de 1951, mas não encontrei imagem de capa e não tenho notícias de reedição pelo clube do livro.

não sei como é a história da coluna sociedade editora (que, aliás, introduziu a fotonovela no brasil, com a revista encanto, desde 1949). o que sei é que, a certa altura do ano de 1953, o clube do livro incorporou a coleção vampiro, o que explicaria tais reedições. mas tampouco sei como foi a sobrevida dessa coleção no CdL.

III.
um adendo final: mário graciotti, fundador e proprietário do clube do livro, foi um dos mais destacados membros da frente integralista brasileira, tendo sido seu primeiro secretário. segundo ele afirma em os deuses governam o mundo, josé maria machado era "português de nascimento, mas brasileiro de coração", seu companheiro de fundação da sep (sociedade de estudos políticos), capitaneada por plínio salgado, e correligionário da ação integralista brasileira. ver aqui. note-se também que josé maria machado foi autor de um livro chamado a marca de caim, publicado em 1948 pela coluna.

essa sugestão de pesquisa me parece mais ambiciosa do que as anteriores (veja aqui) e demandaria maior fôlego ou um trabalho cooperado. mas acho que valeria a pena, e muito.

8 de out de 2012

que contraste!



inúmeras vezes frisei a importância de se pesquisarem amplamente as grandes contribuições da esquerda brasileira para a abertura do brasil ao mundo por intermédio da atividade de tradução.

inúmeras vezes também apontei as descabeladas fraudes de tradução perpetradas pelo clube do livro em seus quarenta anos de existência mais ou menos intermitente. consistiam basicamente na apropriação de traduções em geral portuguesas, que eram publicadas ou anonimamente ou, com maior frequência, como "feitas especialmente para o clube do livro por josé maria machado".

num expressivo contraste de valores, posições e ações - pense-se, por exemplo, na athena editora (aqui) -, tem-se que mário graciotti, concebedor, fundador e proprietário do clube do livro, era um destacado membro da frente integralista brasileira, tendo sido, aliás, seu primeiro secretário.

hoje vim a descobrir que josé maria machado, o tal das "traduções especiais" do clube do livro, era correligionário de graciotti e foram ambos companheiros de fundação da SEP (sociedade de estudos políticos), capitaneada por plínio salgado, à qual se seguiu, poucos meses depois, a fundação da AIP (ação integralista brasileira). conta graciotti que machado - "português de nascimento, mas brasileiro de coração" - era um funcionário do clube português, cuja sede abrigara a assembleia de fundação da entidade. veja-se aqui o artigo de victor emanuel vilela barbuy, "setenta e seis anos da sep". machado escreveu uma obra chamada a marca de caim (cujo título, em tal contexto, dispensa maiores comentários), publicada em 1948 pela coluna sociedade editora.

imagem: capa da revista anauê, 1935, ano I, n. 2, aqui

7 de out de 2012

um breve reparo e uma sugestão de pesquisa

aqui apresento mais um pequeno elemento para estudantes e estudiosos da história da tradução no brasil, que poderia servir como tema para um modesto plano de pesquisa.

o extenso e meticuloso levantamento de laurence hallewell sobre o livro no brasil (sua história) é fonte indispensável para qualquer estudo sobre o tema. e é devido à sua importância que vale a pena fazermos um pequeno reparo. ao comentar o papel pioneiro da laemmert para a literatura infantil no brasil, hallewell cita as contribuições de carlos jansen müller (1829-1889), que traduziu vários clássicos adaptados, entre eles dom quixote. trata-se de uma tradução seguindo o plano de adaptação da obra montado por hoffmann, e foi feita a partir do alemão (ver hohlfeldt, 2003).

Autor:Cervantes Saavedra, Miguel de, 1547-1616.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:D. Quixote de la Mancha
Imprenta:Rio de Janeiro, Laemmert & c. 
Descrição física:viii, 216 p. il.
Notas:Registro Pré-MARC
Entradas secundárias:Hoffmann, Franz, 1814-1882.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Jansen, Carlos, m. 1889.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 
Classificação Dewey:
Edição:
087.1
Indicação do Catálogo:087.1/C419d7 

hallewell dá como data de publicação o ano de 1901 (pp. 169-70). na verdade, a tradução de jansen teria saído inicialmente em 1886, segundo hohlfeld e também villas-boas (ver aqui), o que parece mais plausível, em vista do ano da morte de jansen. neste caso, pode ser que a data citada por hallewell se referisse a uma segunda edição. para confirmar, bastaria consultar os catálogos da laemmert.

por outro lado, o famigerado "k. d'avellar" que consta em tantas contrafações da h. garnier (ver aqui), várias delas depois republicadas pela livraria garnier, se sai com uma adaptação intitulada história de d. quichote:

Autoria:
Título:
Historia de D. Quichote / por Miguel de Cervantes Saavedra ; traducao de K. d'Avellar.
Título original:
[Don Quijote.Portugues].
Imprenta:
Rio de Janeiro : H. Garnier ...,Descrição: clique aqui para ver as obras desta Editora no Catálogo de Editores [19--?].
Descrição física:
[2], 90p., [8]p. de estampas col. : il. ; 31cm.



Autoria:
Título:
Historia de D. Quichote / por Miguel de Cervantes Saavedra ; traducao de K. d'Avellar. -
Título original:
[Don Quijote.Portugues.]
Imprenta:
Rio de Janeiro ; Paris [Franca] : Livraria Garnier ,Descrição: clique aqui para ver as obras desta Editora no Catálogo de Editores 1924.
Descrição física:
[2], 90p., [8]p. de estampas : il. ; 31cm.


quanto à data de edição pela h. garnier, imagino algo entre 1901 e 1910, em esp. 1903-1906, em vista do histórico das pretensas traduções de "k. d'avellar" publicadas pela casa. 

não me dediquei ao rastreamento da fonte dessa adaptação, mas a questão parece pertinente devido a mais um comentário de hallewell, que é o seguinte: algumas dezenas de páginas adiante, hallewell discorre sobre o papel de monteiro lobato para as traduções e adaptações infantojuvenis. afirma que lobato teria feito a versão de dom quixote e de outras obras baseando-se "nas traduções anteriores portuguesas publicadas pela garnier e pela laemmert" (p. 260).  

ora, pelo menos o dom quixote pela laemmert é uma tradução brasileira, justamente a do teutobrasileiro carlos jansen, como hallewell já havia mencionado, embora com data posterior de publicação.

várias perguntas interessantes surgem daí: monteiro lobato de fato se baseou nessas traduções anteriores, apenas adotando "linguagem cuidadosamente modernizada e abrasileirada", como afirma hallewell? a tradução publicada pela garnier, que hallewell dá sumariamente como portuguesa, mas sabendo nós que "k. d'avellar" não passa de um nome de fachada para as contrafações da h. garnier, seria da autoria de quem e de qual edição lusitana? em suma, qual é o histórico de dom quixote em suas primeiras adaptações infantojuvenis publicadas no brasil? 

6 de out de 2012

como e quando madame bovary chega ao brasil? não sei

apenas para registrar.

outro dia encontrei um artigo sobre traduções de madame bovary no brasil, e o articulista comentava que a primeira tradução brasileira teria sido feita pelo literato mineiro renato travassos e publicada em 1931.

de fato, o volume saiu em 1931 pela waissman, em sua coleção "obras célebres", mas com "tradução revista por renato travassos". ver a catalogação na universidade de coimbra, aqui e aqui. não consta o nome do tradutor de origem.

o que andava muito em voga eram as sucessivas reedições da tradução lusitana de madame bovary pela livraria chardron, da lello & irmão, de portugal, importadas e vendidas aqui no brasil. o interessante é que essa tradução portuguesa, por sua vez, já era anônima e "revista" por joão barreira. ao longo das décadas, passou a ser publicada pura e simplesmente como tradução de joão barreira, em circulação até hoje, e assim constando em sua biografia e em vários estudos de sua obra.

de qualquer forma, os acervos portugueses trazem os exemplares mais antigos, desde a década de 1890, devidamente catalogados com a especificação de que se tratava apenas de uma revisão de tradução. por exemplo:

Autor: 
Título: 
Madame Bovary : scenas da província / Gustave Flaubert ; trad. revista por João Barreira
Publicação: 
Descrição física: 
2 vol. ; 16 cm
Descrição de 2º nível: 
vol. 1: 5.ª edição . - 265 p.
vol. 2: 4.ª edição . - 228 p.
CDU: 
Cota: 
L 7  BMC  68609
L 7  BMC  68610

a única notícia que tenho de uma tradução de madame bovary em português em data anterior à revisão de joão barreira é a de f. ferreira da silva vieira, publicada em 1881, da qual dispomos inclusive de um exemplar em nossos acervos na biblioteca nacional:

Autor:
Título / Barra de autoria:
Madame Bovary, costumes de provincia.
Imprenta:
Lisboa, Ty. Lisbonense, 1881. 
Descrição física:
2 v.
Notas:
Registro Pré-MARC
Classificação Dewey:
Edição:
843 
Indicação do Catálogo:
843/F587m7 

e na biblioteca nacional de portugal:

MADAME BOVARY : COSTUMES DE PROVINCIA. SEGUIDO DA REQUISITORIA DO ADVOGADO IMPERIAL DO PROCESSO INTENTADO CONTRO O AUCTOR NO TRIBUNAL CORRECIONAL DE PARIS / GUSTAVE FLAUBERT ; TRAD. DE F. F. DA SILVA VIEIRA
AUTOR(ES): 
Flaubert, Gustave, 1821-1881Vieira, F. F. da Silva, 1831-1888, trad.
PUBLICAÇÃO: 
Lisboa : Emp. Literária Fluminense, 1881
DESCR. FÍSICA: 
1 t. ; 18 cm

assim, minha tendência é crer que a tradução de origem foi feita por da silva vieira, foi revista por joão barreira (a quem, com o tempo, veio-se a atribuí-la) e, no brasil, foi provavelmente essa tradução já revista por barreira que foi trevista por renato travassos. talvez, como trabalho de conclusão de curso (tcc), valesse a pena algum estudante pesquisar a procedência dessa hipótese.*

* existe outra possibilidade. algumas vezes usava-se "tradução revista por" em casos de traduções encomendadas pela editora que ficavam com qualidade tão aquém do desejado que precisavam ser reelaboradas e praticamente refeitas antes de ser publicadas. é o que acontece, por exemplo, com as traduções revistas por godofredo rangel ou por monteiro lobato, pela nacional. ver "uma breve tipologia dos créditos de tradução", aqui. se tiver sido este o caso, não seria difícil comprovar: bastaria compulsar a tradução de da silva vieira e a revista por joão barreira.

quanto à primeira madame bovary brasileira, fica a questão: há uma edição publicada em c.1934 pela sociedade impressora paulista. a ficha catalográfica na biblioteca nacional não registra os créditos de tradução: não sei se é de fato anônima ou se o dado existe e não foi cadastrado. escrevi à dinf (divisão de informação), da fbn, e estou no aguardo de uma resposta. até lá, as únicas informações de que disponho são estas:

Autor:Flaubert, Gustave, 1821-1880.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Madame Bovary.
Imprenta:S. Paulo, Impressora paulista, [1934?]. 
Descrição física:345 p.
Notas:Registro Pré-MARC
Classificação Dewey:
Edição:
843
Indicação do Catálogo:843/F587m7/1934 

atualização: sobre a dificuldade em conseguir um atendimento minimamente satisfatório da dinf/fbn, ver a novela aqui.