28 de ago de 2012

transfusão II

banner


transfusão II, na casa guilherme de almeida, em são paulo - logo deve sair a programação completa, mas segue o programa de domingo de manhã:

DOMINGO, 16 DE SETEMBRO
TRADUÇÃO LITERÁRIA COMO AUTORIA
Mesa-redonda, das 10h30 às 12h
DIREITOS AUTORAIS DO TRADUTOR
Com Denise Bottmann (Registro – SP) e Luciana Arruda (São Paulo)
Até que ponto se respeitam, na prática, os direitos autorais do tradutor, assegurados por lei, é uma questão que tem gerado discussões e poucos resultados concretos em prol dos tradutores profissionais. A importância da denúncia de abusos contra o trabalho do tradutor, como o plágio, por exemplo, será abordada paralelamente a questões conceituais e jurídicas que respaldam os tradutores na defesa de seus direitos.

26 de ago de 2012

aula inaugural na pget/ ufsc

foi com muita honra que recebi e aceitei o convite de apresentar a aula inaugural do segundo período letivo da pós-graduação em estudos de tradução da universidade federal de santa catarina, no dia 3 de setembro próximo, às 10 horas, com transmissão ao vivo e atendimento a perguntas enviadas por e-mail durante a transmissão. veja aqui. agradeço à coordenadora dra. andréia guerini.

o título da exposição é "quando monsieur jourdain descobre que fala em prosa: comentários sobre o difícil trânsito entre dois campos separados e mutuamente irredutíveis, a teoria e a prática da tradução".

22 de ago de 2012

uma ideologia poderosa




A Boitempo traz o clássico da teoria social contemporânea O poder da ideologia, de István Mészáros, um dos principais pensadores marxistas da atualidade. Com edição cuidadosa, o livro possui nova tradução para o português feita por Paulo Cezar Castanheira e uma introdução inédita[...].







este é um trecho da apresentação da obra de mészáros no site da boitempo editorial, aqui.

por outro lado, the power of ideology fora publicado pela extinta editora ensaio em 1996, com tradução de magda lopes.






















parece-me um caso bastante semelhante ao que ocorreu com outro livro de mészáros, em duas edições no brasil: marx: a teoria da alienação, em tradução de waltensir dutra e supervisão editorial de leandro konder, pela zahar, e a teoria da alienação de marx, em pretensa tradução em nome de isa tavares, pela boitempo, que apresentei aqui.*
* vale dizer que, no caso da teoria da alienação, a editora reconheceu a pertinência de meus apontamentos e declarou ter interrompido a distribuição da obra irregular e ter encomendado nova tradução (aqui).

digo que o caso me parece semelhante, pois a impressão que se tem durante a leitura de o poder da ideologia nas duas edições é que a da boitempo teria tomado como base de seu texto a tradução publicada pela ensaio, seguindo o padrão daquilo que já se sugeriu chamar de "tradução parafraseada":

  1. frases inteiras praticamente idênticas;
  2. diferença de termos no nível lexical mais simples;
  3. estruturação formal e sintática com alto grau de identidade;
  4. alguns vezos em comum;
  5. diferenças difíceis de explicar a não ser como "falha de revisão"
seguem-se alguns exemplos: 

em nome de magda lopes (ensaio, 1996)
A grande dificuldade é que os obstáculos a superar se erguem sobre as bases objetivas de determinações materiais contraditórias que se opõem a qualquer um que tente interferir com os ditames materiais de sua lógica. Dizer que, "no fim, os homens terão o que merecem" implica a intervenção de uma justiça divina muito peculiar e autodestrutiva, pois a esmagadora maioria dos homens é de um modo ou de outro privada do poder de tomar decisões, e por isso realmente não "merecem" o que lhes acontece em consequência das decisões de uma pequena minoria: uma circunstância que transforma em seu absoluto oposto a própria noção de "justiça divina". (p. 287) 

em nome de paulo cezar castanheira (boitempo, 2004)
A grande dificuldade é que os obstáculos a superar se erguem sobre as bases objetivas de determinações materiais contraditórias que se opõem a qualquer um que tente interferir com os ditames materiais de sua lógica. Dizer que, "no fim, os homens terão o que merecem" implica a intervenção de uma justiça divina muito peculiar e autodestrutiva, pois a esmagadora maioria dos homens é de um modo ou de outro privada do poder de tomar decisões, e por isso realmente não "merecem" o que lhes acontece por causa das decisões de uma pequena minoria: uma circunstância que transforma em seu absoluto oposto a [] noção de "justiça divina". (p. 282)

em nome de magda lopes (ensaio, 1996)
Entretanto, o problema é que as implicações óbvias e altamente perturbadoras de tais observações minam as expectativas esperançosas de Marx quanto à "última forma possível" de um poder de estado separado e independente da sociedade. Enquanto existir a base social da divisão sistemática e hierárquica do trabalho - e enquanto ela puder se renovar e fortalecer em conjunto com a transformação dos corpos sociais da "sociedade civil", em escala sempre crescente e rumo a uma integração global - uma reestruturação correspondente das formas de estado, em prol da continuação do domínio de classe (tanto internamente quanto no plano das relações interestatais), não pode ser negada ao sistema estabelecido. Por isso, ainda hoje estamos muito distantes da "última forma" do estado capitalista e de seu domínio de classe; quanto mais na época em que Marx escreveu as linhas citadas de sua defesa da Comuna. (p. 362)

em nome de paulo cezar castanheira (boitempo, 2004)
O problema, entretanto, é que as implicações óbvias e altamente perturbadoras de tais observações abalam as expectativas esperançosas de Marx quanto à "última forma possível" de um poder de Estado separado e independente da sociedade. Enquanto existir a base social da divisão sistemática e hierárquica do trabalho - e enquanto ela puder se renovar e fortalecer em conjunto com a transformação em curso dos corpos sociais da "sociedade civil", em escala sempre crescente e rumo a uma integração global -, uma reestruturação correspondente das formas de  Estado, em prol da continuação do domínio de classe (tanto internamente quanto no plano das relações interestatais), não pode ser negada ao sistema estabelecido.Assim, ainda hoje estamos muito distantes da "última forma" do Estado capitalista e de seu domínio de classe; quanto mais na época em que Marx escreveu as linhas citadas em defesa da Comuna. (p. 342)

em nome de magda lopes (ensaio, 1996)
Mais uma vez, a analogia com a vislumbrada superação e definhamento das várias instituições repressivas do estado estava diretamente associada à avaliação do futuro da ideologia. Assim como seria inconcebível sair "fora" da superestrutura jurídica e política estabelecida e "abolir" o estado a partir do ponto de vista imaginário do absoluto voluntarismo (tal como os anarquistas concebiam a tarefa), do mesmo modo a superação última da ideologia - a consequência prática inevitável das sociedades de classe - só poderia ser concebida sob a forma da eliminação progressiva das causas dos conflitos antagônicos que os indivíduos, membros das classes, tinham de "resolver pela luta" nas circunstâncias históricas prevalecentes. (p. 519)

em nome de paulo cezar castanheira (boitempo, 2004)
De novo, a analogia com a vislumbrada superação e definhamento das várias instituições repressivas do estado estava diretamente associada à avaliação do futuro da ideologia. Assim como seria inconcebível sair "fora" da superestrutura jurídica e política estabelecida e "abolir" o estado a partir do ponto de vista imaginário do absoluto voluntarismo (tal como os anarquistas encaravam a tarefa), também a superação última da ideologia - a consequência prática inevitável das sociedades de classe - só poderia ser concebida sob a forma da eliminação progressiva das causas dos conflitos antagônicos que os indivíduos, membros das classes, tinham de "resolver pela luta" nas circunstâncias históricas prevalecentes. (p. 469)

logo na sequência, um detalhe interessante:

em nome de magda lopes (ensaio, 1996)
Em outras palavras, a compreensão marxista - oposta ao voluntarismo - de que o "definhamento" do estado teria de ocorrer através da reestruturação radical de suas instituições e da transferência progressiva de suas múltiplas funções para os indivíduos sociais: os "produtores associados", fez com que a mesma consideração das restrições objetivas se impusesse também na atitude assumida em relação à ideologia em geral. (p. 519-20)

em nome de paulo cezar castanheira (boitempo, 2004)
Em outras palavras, a compreensão marxista - oposta ao voluntarismo - de que o "definhamento" do estado teria de ocorrer pela reestruturação radical de suas instituições e da transferência progressiva de suas múltiplas funções para os indivíduos sociais: os "produtores associados", fez com que a mesma consideração das restrições objetivas se impusesse também na atitude assumida em relação à ideologia em geral. (p. 469)

ninguém há de imaginar que mészáros estivesse se referindo a uma reestruturação da transferência progressiva de funções, como consta na edição da boitempo. parece mais plausível supor que, ao se substituir "através da" por "pela", tenha-se esquecido de aplicar a mesma substituição na sequência da frase, com  "e pela transferência progressiva etc.".   

um pequenino erro de tradução, mas que não deixa de ser curioso ao se repetir nas duas edições: "Para tornar as coisas ainda mais desconcertantes [...] Feyerabend reivindica em nome do mesmo espírito 'leigo' [sic] a separação da ciência e do estado" (ensaio, p. 62, nota; boitempo, p. 97, nota): trata-se, evidentemente, de espírito "laico".




em o poder da ideologia na edição da boitempo, repete-se um detalhe que já surgira em considerações sobre o marxismo ocidental/ nas trilhas do materialismo histórico, de perry anderson, que comentei aqui (cujas irregularidades de tradução, cabe dizer, também foram admitidas pela editora).

trata-se da menção "Copyright © 1996 da 1a. edição brasileira: Editora Ensaio" na página de créditos. 


não sabemos o que a editora ensaio haveria de pensar da referência (sabemos, por exemplo, que a brasiliense, posta diante de situação semelhante, manifestou sua estranheza), visto que a ensaio encerrou suas atividades faz um bom tempo. de qualquer forma, volta-me, mesmo um tanto absurda, uma hipótese: teria a boitempo julgado que, mencionando um antigo copirraite de uma editora extinta, estaria conferindo legitimidade à sua "nova tradução"? 

seja como for, a referida editora comunicou em nota recente que havia dado por encerrado o processo de apuração interna para eliminar qualquer vestígio de irregularidade em seu catálogo (ver aqui). no entanto, o poder da ideologia parece lhe ter escapado à atenção, pois, tal como o supracitado ensaio "as antinomias de gramsci", de perry anderson, essa obra de mészaros não é mencionada em lugar algum da referida nota. em vista do empenho que a editora tem dedicado a apurar alguns problemas em suas publicações, quero crer que se disporá também a avaliar o caso acima exposto. e por tão mais forte razão porque, no caso de paulo cez[s]ar castanheira, tradutor de muitas obras e não só para a boitempo, a editora poderia eventualmente correr o risco de vir a manchar o nome de um profissional atuante e conhecido no meio.

21 de ago de 2012

sobre a nota de repúdio da boitempo

hoje recebi email enviado pela editora boitempo, com o pedido de publicar na íntegra sua nota de repúdio em relação ao post afinidades tradutivas, publicado aqui. a nota da editora está reproduzida aqui.

não quero me deter sobre o tom da nota, que me pareceu um tanto, digamos, acalorado, com termos como "investida", "abusando", "calúnia pura e simples", "simular", "estardalhaço", "busca por holofotes", "modus operandi duvidoso" e coisas assim.

prefiro me ater ao cerne da questão, o qual, por vias indiretas, foi muito bem exposto na nota da editora boitempo.

- a frase que, pelo que consegui entender no arrazoado da nota da editora, constitui o cerne de sua posição é: "Cabe lembrar que o direito autoral interessa apenas àqueles que o negociam" e "O que é acordado entre as partes ... deve ser respeitado". os corolários, pelo que entendi, seriam: "A fidedignidade dos créditos reside nessa relação profissional", que não diria respeito às extrapartes. e esse acordo entre as partes privadas garantiria a integridade intelectual da obra e a veracidade dos créditos.

quanto a isso, cabe lembrar que o direito autoral se compõe de duas partes: a patrimonial e a moral.

sem dúvida, os direitos autorais patrimoniais sobre uma obra são livremente negociáveis entre as partes privadas, e aqui prevalece o princípio da liberdade contratual: trata-se do direito de uso e exploração econômica da obra, sob condições mutuamente acordadas.

já os direitos autorais morais são de natureza totalmente distinta: pertencem ao leque de direitos de personalidade, que são irrenunciáveis, inalienáveis e intransferíveis.

por exemplo: se eu, como autora da tradução de in the tracks of historical materialism, para a brasiliense em 1984, tivesse sido consultada pela editora boitempo, solicitando licença de uso de minha tradução para publicá-la em 2004, eu poderia concedê-la, respeitada a cadeia de direitos anteriores. mas, se a editora me consultasse propondo a substituição de meu nome como autora da tradução pelo de "isa tavares", eu não o poderia fazer, pelos mais simples princípios de boa fé e responsabilidade civil: como poderia acordar licitamente em ter meu nome substituído pelo de outra pessoa? qualquer contrato neste sentido me pareceria, em princípio, juridicamente nulo.

o que confere veracidade aos créditos de autoria, portanto, não é o acordo de transferência de direitos patrimoniais de uma parte a outra. o que lhes confere veracidade é a correspondência entre esses créditos e o nome do autor. os créditos são fidedignos se a pessoa responsável pela autoria daquela obra é a mesma que consta como responsável por ela nas informações dirigidas ao leitor, isto é, nos créditos. e a integridade de uma obra, naturalmente, consiste, entre outras coisas, na veracidade e fidedignidade das informações veiculadas sobre sua autoria.

assim, talvez uma das origens da confusão conceitual que parece permear a recente nota da editora boitempo seja a indistinção entre direitos patrimoniais e direitos morais dentro do leque dos direitos de autor.

- o segundo ponto é uma frase que não entendi muito bem: "quem julga obras que não lhe dizem respeito". como alguém poderia ser tolhido de julgar uma obra que lê? o que determina que tal ou tal obra dirá ou não dirá respeito a quem quer que seja? sem entrar em questões referentes a censuras ou policiamentos, aqui parece-me pertinente lembrar que um livro como objeto (seja impresso ou digital) se constitui como produto na relação com o leitor. estabelece o artigo 3, parágrafo 1, da lei que rege as relações de consumo, aqui:
Art. 3°  § 1° Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.
o leitor, como consumidor do produto livro, dispõe entre seus direitos básicos os de contar com:
III - a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade e preço [...]VI - a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos;
pode-se gostar ou não, concordar ou não, mas tais são os termos que dispõe a lei.

é neste sentido que, ao contrário do que entendi que afirma a editora boitempo, toda e qualquer obra em circulação ou mesmo esgotada diz legitimamente respeito a todo e qualquer leitor que tenha acesso a ela e se interesse em lê-la.

além dos direitos autorais (morais e patrimoniais), além dos direitos do leitor, eu gostaria de apresentar um último aspecto levantado um tanto transversalmente na nota da editora boitempo. a editora explica que fez um agradecimento especial a uma das editoras citadas em sua nota de edição no livro afinidades seletivas, "pela generosidade de ter cedido texto ainda disponível em seu catálogo".

este tema é muito importante, e retornarei a ele com calma. de qualquer forma, se raul fiker teve seu nome devidamente creditado como autor da tradução do artigo sobre bobbio, a menção é corretíssima (e até por isso dei destaque a ela). é corretíssima, não porque o texto ainda esteja disponível no catálogo da editora unesp (aspecto meramente patrimonial do direito de autor), mas porque foi ele o verdadeiro tradutor do ensaio (aspecto moral do direito de autor).

em suma, não é porque uma editora esteja extinta, nem porque uma edição esteja esgotada há muitos anos que o direito moral (irrenunciável, intransferível e inextinguível) do autor se torna letra morta.

quem acompanha este blog e meu trabalho em favor das obras esgotadas, órfãs e abandonadas sabe muito bem que defendo justamente a flexibilização da lei que dispõe sobre o acesso a essas obras. eu seria a primeira a aplaudir a proposta da editora boitempo em resgatar traduções antigas (como o fiz aqui e aqui), mas, evidentemente, desde que respeitados os direitos morais de seus autores.

nota de repúdio da editora boitempo

acabo de receber um email da editora boitempo, com o título "resposta da boitempo, com pedido de que seja publicada na íntegra". aqui segue.


NOTA DE REPÚDIO

Na semana passada a Boitempo divulgou nota em que dava por encerrada a verificação interna de alguns de seus títulos e apontava para a solução dos problemas. Ontem, porém, a editora foi surpreendida por nova investida da blogueira Denise Bottmann, que, abusando do exercício de seus direitos de manifestação, partiu do plano das suposições para o terreno arenoso da calúnia pura e simples, com a clara intenção de ferir a credibilidade da editora. Esta nota tem, portanto, não apenas o objetivo de esclarecer mais esse episódio, mas principalmente o de pôr a nu os “métodos” utilizados pela personagem em questão.
Em seu blog, Bottmann empreende uma falsa e completamente descabida acusação referente à tradução do ensaio “As antinomias de Gramsci”, parte da coletânea Afinidades seletivas (2002), de autoria de Perry Anderson. Sem antes pedir esclarecimentos à editora, concluiu e divulgou “evidências” que não existem. Para simular e legitimar sua versão, confunde os créditos dados às duas traduções previamente existentes com um agradecimento especial feito a uma das editoras citadas, pela generosidade de ter cedido texto ainda disponível em seu catálogo.
Diz o post que o ensaio “parece ter escapado” ao crivo da Boitempo, no entanto não há o que colocar em dúvida, a não ser a intenção de quem julga obras que não lhe dizem respeito; que acusa publicamente antes de averiguar com a editora – com a qual se comunica apenas via blog ou com muito estardalhaço via mídia –;  que omite ou prefere não tomar conhecimento de informações que possam enfraquecer sua argumentação; e que levanta semelhanças pontuais de algumas obras para impor a suspeita sobre o todo, incluindo a credibilidade da editora e de seu catálogo.
Com todos os direitos autorais negociados ou cedidos de forma legítima e em comum acordo com editora e tradutores dos dois ensaios – entre doze constantes no volume –, previamente traduzidos para a língua portuguesa,  definiu-se que a tradução na página de créditos seria atribuída ao nosso colaborador, a quem coube a tradução dos demais ensaios. Ou seja, há permissão expressa dos tradutores originais do ensaio “As antinomias de Gramsci” para que a editora procedesse dessa forma. Também foi acordado entre as partes envolvidas que a origem de cada texto seria mencionada na “Nota da Edição”, o que foi cumprido e está presente na página 11, trecho este que “parece ter escapado” à blogueira mas que pode ser conferido na página abaixo reproduzida:



Em vermelho, destaque da Boitempo Editorial. Em azul, destaque de Denise Bottmann.
Para usar as palavras da blogueira, “interessante” ela ter se esquecido de escanear e mostrar essa página aos seus leitores, lembrando de fazer isso apenas com a capa do livro, o que evidencia mais a sua busca por holofotes do que seu compromisso com a verdade ou com a categoria que afirma defender. Cabe lembrar que o direito autoral interessa apenas àqueles que o negociam. O que é acordado entre as partes, inclusive sobre a forma de apresentação nas obras, deve ser respeitado. A fidedignidade dos créditos reside nessa relação profissional, que, como a própria blogueira admite, mas sistematicamente ignora, não lhe diz respeito. Ao contrário do que insinua, a integridade intelectual da obra Afinidades seletivas está garantida, assim como a veracidade dos créditos.
Ao esclarecer essas acusações esperamos, além de evidenciar o modus operandiduvidoso empregado pela blogueira, tranquilizar uma vez mais os leitores da Boitempo quanto à seriedade de nosso trabalho. Vamos agora concentrar esforços na produção de nossos livros e cursos, dando por encerrados os pronunciamentos por esta via no que diz respeito a acusações levantadas por Denise Bottmann, a quem lembramos que a democracia assegura a todos os cidadãos a liberdade de expressão, mas também os responsabiliza por aquilo que expressam.

Boitempo Editorial

atualização: em vista da inusitada virulência desta nota, encaminhei o caso a meu advogado, para as providências cabíveis.

20 de ago de 2012

you kiddin', rite? - parte IV

é tão estranho esse volume da boitempo, considerações sobre o marxismo ocidental/ nas trilhas do materialismo histórico, com pretensa tradução em nome de isa tavares, que até o isbn está errado.

está lá na quarta capa: ISBN 85-7559-033-3. isso não existe. o último dígito é verificador, e não bate.
ok, vejo então que o dígito verificador correto é 2, conforme consta na ficha catalográfica da página de créditos.

mas aí a gente vai ao site do isbn, faz a consulta e está lá:

PESQUISA NO CADASTRO DO ISBN
"TODAS AS INFORMAÇÕES CONTIDAS NESTE CADASTRO FORAM FORNECIDAS
PELOS EDITORES NO MOMENTO DA SOLICITAÇÃO DO ISBN"
Escolha o campo para pesquisa:
ISBN
TÍTULO DA OBRA
NOME DA EDITORA
NOME DO AUTOR
Preencha o campo abaixo, sem os traços.
ISBN 10 Dígitos
ISBN 13 Dígitos
RESULTADO DA BUSCA
TÍTULO: CONSIDERACOES SOBRE O MARXISMO OCIDENTAL
VOLUME DA COLEÇÃO: 000
AUTOR: ANDERSON, PERRY
TRADUTOR: CASTANHEIRA, PAULO CESAR
PÁGINAS: NÃO INFORMADO
EDITORA: BOITEMPO EDITORIAL

paulo cesar castanheira como tradutor? e a tal da isa tavares, cadê?

historinha edificante

- fulaninha, boa tarde, sou fulano de tal, da editora tal, e queremos lançar o livro tal, de fulano de tal. existe uma tradução no brasil dessa obra, feita por beltrano, e me disseram que você talvez pudesse nos ajudar a localizar o tradutor beltrano, para pedirmos autorização para publicar sua tradução.
- sr. fulano de tal, o tradutor beltrano morreu no ano tal, em circunstâncias tais e tais, e não conheço essa tradução que o senhor menciona. o que sei é que várias traduções assinadas pelo finado beltrano eram cópias de traduções anteriores, e até cheguei a comentar alguns casos, como o senhor pode ver em tal e tal lugar.
- fulaninha, que coisa!
- pois é, sr. fulano de tal, uma tristeza. o que eu posso sugerir ao senhor é que consulte a tradução portuguesa dessa mesma obra, que saiu no ano tal, pela editora tal, com tradução de sicrano.
- ah, sim, vou consultar, obrigado, até logo.
- às ordens, até logo.
passam-se alguns dias ou algumas semanas, volta o sr. fulano de tal.
- fulaninha, sou eu de novo. de fato, adquiri a edição portuguesa e comparei com a brasileira, e parecem bastante claras as semelhanças. não sei o que fazer, pois, em vista disso, a tradução em nome de beltrano realmente não nos interessa mais.
- que pena, sr. fulano, mas acho que o senhor faz bem em não enveredar por esse rumo. se o senhor quiser, posso ver se consigo localizar o legítimo tradutor, um militante português até bastante conhecido.
- ah sim, se puder fazer isso, agradeço muito. até logo.
- até logo. se eu tiver alguma notícia, aviso o senhor.
passam-se mais alguns dias.
- sr. fulano de tal, o sicrano autor da tradução portuguesa faleceu, mas consegui contato com o filho dele, que dá aulas na universidade tal. tomei a liberdade de adiantar a ele que uma editora brasileira poderia ter eventual interesse em publicar uma antiga tradução de seu pai, a tal e tal e tal, que saiu no ano tal pela editora tal. ele me autorizou a lhe passar seu e-mail, que aqui segue: xxxxxx@xxxxxx.xxx. aí os senhores tratam diretamente entre si.
- agradeço a gentileza, fulaninha.
- não tem de quê, sr. fulano, até logo.
- até logo.
não sei o que rolou; não sei se o consciencioso editor de uma pequena editora de posições marxistas muito claras e definidas entrou em acordo com o filho de um conhecido militante comunista português para publicar no brasil a tradução de um clássico do marxismo feita por seu pai; não sei sequer se a editora chegou a publicar a obra, em qualquer tradução que fosse.

mas o caso, ocorrido algum tempo atrás, é verídico e mostra como é possível o respeito pelo trabalho dos outros.

a difusão das antinomias

como comentei aqui, um dos grandes problemas em obras espúrias, sobretudo quando são livros de estudo, de pesquisa, debate e reflexão, dentro e fora do ambiente universitário, é que acabam adquirindo uma difusão, uma propagação quase exponencial. consultadas e citadas em artigos, ensaios, dissertações, teses; indicadas em bibliografias e programas de cursos; presentes em bibliotecas de instituições de ensino públicas e privadas; muitas vezes oferecidas ou adquiridas em licitações e pregões públicos para escolas e bibliotecas, tais obras ganham uma credibilidade que não lhes cabe e uma permanência ao longo das décadas que dificilmente se extirpa com a mera retirada dos exemplares disponíveis no circuito de distribuição. já comentei inúmeras vezes este problema, e na tag nas escolas vê-se claramente a dimensão que ele adquire. 

sobre o importante texto de perry anderson sobre "as antinomias de gramsci", que comentei aqui, seguem alguns exemplos de sua difusão entre acervos de bibliotecas, programas de curso e artigos de reflexão e estudo:

www.acessa.com/gramsci/?id=454&page=visualizar
de L Ramos - Citado por 6 - Artigos relacionados
ANDERSONPerry. As antinomias de Gramsci. In: ______. Afinidades seletivas. São Paulo: Boitempo, 2002. 

amigosenff.org.br/.../Campanha%202011%20Biblioteca%20da%20E... Formato do arquivo: Microsoft Word - Visualização rápida
Rio de Janeiro, DP&A Editora, 2002. 
ANDERSON, P. “As antinomias de Gramsci
. In:ANDERSON, PERRY. Afinidades Seletivas. São Paulo: Boitempo, 2002.

www.unifesp.br/prograd/portal/index.php?option=com...Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
Bibliografia Complementar: 
ANDERSON, P. “As antinomias de Gramsci”. In:ANDERSON, PERRY. Afinidades Seletivas. São. Paulo: Boitempo, 2002.

disciplinas.stoa.usp.br/pluginfile.../Hegemonia%20e%20Direito.pdf Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
4 
ANDERSON, Perry. As antinomias de Gramsci. Afinidades eletivas. Tradução de. Paulo Castanheira. São Paulo: Boitempo, 2002. p. 26 e ss. 

[PDF] Título do Artigo: Joseph Schumpeter e a Democracia Inglesawww.sumarios.org/sites/default/files/pdfs/64585_7311.PDF Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
de RT Souza - Artigos relacionados
Estado de Exceção. São Paulo, 
Boitempo, 2004. ANDERSON, Perry. As Antinomias de Gramsci. In: Afinidades Eletivas. São Paulo,. Boitempo, 2002.

9. Referências bibliográficas

www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/6617/6617_10.PDF ANDERSON, Perry. Balanço do neoliberalismo. ... As antinomias de Gramsci. In: ______. Afinidades seletivas. São. Paulo: Boitempo, 2002. 

[PDF] Trotsky para Gramscianos: www.unicamp.br/cemarx/.../comunicações/GT1/gt1m4c2.pdf Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
de CZF de Sena Júnior - Artigos relacionados
6 
Perry Anderson. ... Anderson já exercitou uma comparação em “Antinomias de Gramsci”. In: ------------------. Afinidades seletivas. São Paulo: Boitempo, 2002

[PDF] A condição assalariada do jornalista - Rede de Estudos do Trabalho www.estudosdotrabalho.org/.../Andreia_Souza_Carvalho_A_condica... Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
A regra do jogo. São Paulo, Companhia das Letras, 1988. 
ANDERSON, Perry. As antinomias de Gramsci, In: Afinidades Seletivas. São Paulo, boitempo, 2002.

[PDF] Educação Jurídica Social www.uff.br/ppgsd/dissertacoes/marcos_silva2008.pdf Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat 3 Deve ser destacada a crítica ao pensamento de Gramsci feita por Perry Anderson(ANDERSON, 2002:13 a. 100), sob o título de “As Antinomias de Gramsci”.

[PDF] “Acá lo que cambió todo fue la privatización…” Aproximación ... revista-theomai.unq.edu.ar/.../ArtSoul.pdf - Traduzir esta página Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
de J Soul - Artigos relacionados
del concepto de hegemonía y sus implicancias, como 
Perry Anderson ...... (1976)
: As antinomias de Gramsci en Afinidades Seletivas. Ed. Boitempo. Sao Paulo.

Cuadernos de antropología social - Procesos hegemónicos y ...

www.scielo.org.ar/scielo.php?pid=S1850... - Traduzir esta página de J Soul - 2009 - Artigos relacionados
Anderson, Perry (2002). As antinomias de Gramsci. Afinidades Seletivas . Sao Paulo: Ed. Boitempo. (edición original de 1976) [ Links ]

[PDF] PROGRAMA DE COMPONENTES CURRICULARES www.facom.ufba.br/.../COM106-COMUNICAÇÃO-E-CULTURA-... Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
ANDERSON, Perry. “As antinomias de Gramsci” in ANDERSON, Perry. Afinidades Seletivas, São Paulo, Boitempo Editorial, 2002

 

embora a editora boitempo já tenha dado por encerrado seu processo de apuração de qualquer vestígio de irregularidade em seu catálogo (aqui), espero que ela reconsidere sua decisão e dedique o mesmo empenho em apurar também as possíveis irregularidades de tradução nessa obra tão importante de perry anderson.

19 de ago de 2012

afinidades tradutivas



em 2002, a boitempo editorial publicou uma coletânea de ensaios de perry anderson reunidos sob o título de afinidades seletivas. a tradução vem atribuída a paulo césar castanheira, ressalvado apenas um dos ensaios: "agradecemos à fundação editora unesp a cessão do ensaio 'as afinidades de norberto bobbio', traduzido por raul fiker e publicado em zona de compromisso" (p. 11, "nota da edição").

entre os onze autores tratados por anderson nos textos reunidos em afinidades seletivas, cabe a gramsci o mais extenso, intitulado "as antinomias de gramsci" (p. 13-100). este mesmo ensaio saiu pela editora joruês em 1986, em tradução de juarez guimarães e felix sanchez, numa coletânea chamada a estratégia revolucionária na atualidade, da série crítica marxista.



seguem-se alguns trechos extraídos das duas edições, a título comparativo. o texto como um todo, nas duas traduções (ou melhor, naquilo que aparenta ser uma só tradução), segue o mesmo padrão de identidade abaixo ilustrado.

em nome de juarez guimarães e felix sanchez (joruês, 1986)
Nos dias de hoje, nenhum pensador marxista posterior ao período clássico é tão universalmente respeitado no Ocidente como Antonio Gramsci. Nem há algum conceito tão livre ou diversamente invocado entre as forças de esquerda do que [sic] o de hegemonia, que ele tornou de uso corrente. A reputação de Gramsci, localizada e marginal fora de sua Itália de origem no início dos anos sessenta, transformou-o, uma década após, numa celebridade mundial. A homenagem ao seu trabalho realizado na prisão - trinta anos após a primeira publicação de seus Cadernos do Cárcere - está sendo, afinal, intensamente prestada. A ignorância sobre o seu pensamento ou a escassez de estudos sobre ele deixaram de ser obstáculos à sua difusão. (p. 7)

em nome de paulo césar castanheira (boitempo, 2002)
Nos dias de hoje, nenhum pensador marxista posterior ao período clássico é tão universalmente respeitado no Ocidente como Antonio Gramsci. Nem há algum conceito tão livre ou diversamente invocado entre as forças de esquerda do que [sic] o de hegemonia, que ele tornou de uso corrente. A reputação de Gramsci, localizada e marginal fora de sua Itália de origem no início dos anos 1960, transformou-o, uma década após, numa celebridade mundial. A homenagem ao seu trabalho realizado na prisão - trinta anos após a primeira publicação de seus Quaderni del carcere - está sendo, afinal, intensamente prestada. A ignorância sobre o seu pensamento ou a escassez de estudos sobre ele deixaram de ser obstáculos à sua difusão. (p. 15)

mesmo um erro palmar como "conceito tão livre ... do que" (em vez de "tão livre... quanto") foi mantido nas duas edições, além de alguns errinhos em relação ao original, como "a reputação de gramsci ... transformou-o numa celebridade mundial", em vez de "transformou-se em fama mundial", ou o uso de "intensamente" para fully, além de detalhes como o mesmo torneio de frase no final do trecho citado. segue o trechinho correspondente no original:
Today, no Marxist thinker after the classical epoch is so universally respected in the West as Antonio Gramsci. Nor is any term so freely or diversely invoked on the Left as that of hegemony, to which he gave currency. Gramsci’s reputation, still local and marginal outside his native Italy in the early sixties, has a decade later become a world-wide fame. The homage due to his enterprise in prison is now— thirty years after the first publication of his notebooks—finally and fully being paid. Lack of knowledge, or paucity of discussion, have ceased to be obstacles to the diffusion of his thought. 
chamo a atenção para esses detalhes, pois parecem indicar que a tradução de guimarães e sanchez não chegou a passar por uma revisão mais detida, à diferença de outros casos anteriormente apontados.

em nome de juarez guimarães e felix sanchez (joruês, 1986)
O próprio Gramsci estava, na verdade, bastante consciente da necessidade de uma cuidadosa distinção das formas históricas sucessivas do "consentimento" pelos explorados à sua exploração e de uma diferenciação analítica de seus componentes a cada momento. Ele criticou justamente a Croce por afirmar em sua História da liberdade que todas as ideologias antecedentes ao liberalismo eram da "mesma indistinta e árida cor, isentas de desenvolvimento ou conflito" - e sublinhava a especialidade do refúgio da religião sobre as massas a Nápoles dos Bourbons, o poderoso apelo ao sentimento nacional que a sucedeu na Itália e, ao mesmo tempo, a possibilidade de combinações populares das duas. (p. 30)

em nome de paulo césar castanheira (boitempo, 2002)
O próprio Gramsci estava, na verdade, bastante consciente da necessidade de uma cuidadosa distinção das formas históricas sucessivas do "consentimento" pelos explorados à sua exploração e de uma diferenciação analítica de seus componentes a cada momento. Ele criticou justamente a Croce por afirmar em sua História da liberdade que todas as ideologias antecedentes ao liberalismo eram da "mesma indistinta e árida cor, isentas de desenvolvimento ou conflito" - e sublinhava a especialidade do refúgio da religião sobre as massas a Nápoles dos Bourbons, o poderoso apelo ao sentimento nacional que a sucedeu na Itália e, ao mesmo tempo, a possibilidade de combinações populares das duas. (p. 44)

neste trecho, além da pura identidade, destaca-se a manutenção de um surpreendente "a especialidade do refúgio da religião sobre as massas" para o original "the specificity of the hold of religion on the masses" ["a especificidade do domínio da religião sobre as massas"].

em nome de juarez guimarães e felix sanchez (joruês, 1986)
Pois o debate no seio da social-democracia alemã teve uma sequela reveladora na social-democracia russa. Poucas semanas depois, Martov escreveu um artigo na Die Neue Zeit sobre O debate prussiano e a experiência russa. Aprovando calorosamente o conjunto das teses de Kautsky, Martov argumentou que a Rússia realmente estava longe de escapar às lições que elas [sic] podiam ser extraídas. Não deveria ser permitida a Rosa Luxemburgo utilizar a revolução de 1905 como um trunfo contra a política oficial do SPD na Alemanha. Sua análise da revolução não deveria ser admitida pelos socialistas ocidentais, em nome do privilegium odiosum que fazia da Rússia um caso excepcional. A experiência russa era agora no fundamental semelhante, em todos os sentidos, à experiência europeia em seu conjunto. Onde ela se desviou do padrão, em 1905, terminou em desastre. A mistura de greves econômicas e políticas exaltadas por Rosa Luxemburgo era mais uma fraqueza do que uma força do proletariado russo. O levantamento [sic] de Moscou foi o resultado calamitoso de um movimento lançado "artificialmente" para um "enfrentamento decisivo" com o Estado. (p. 63)

em nome de paulo césar castanheira (boitempo, 2002)
Pois o debate no seio da socialdemocracia alemã teve uma sequela reveladora na socialdemocracia russa. Poucas semanas depois, Martov escreveu um artigo no Die Neue Zeit sobre "O debate prussiano e a experiência russa". Aprovando calorosamente o conjunto das teses de Kautsky, Martov argumentou que a Rússia realmente estava longe de escapar às lições que elas [sic] podiam ser extraídas. Não deveria ser permitido a Rosa Luxemburgo utilizar a revolução de 1905 como um trunfo contra a política oficial do SPD na Alemanha. Sua análise da revolução não deveria ser admitida pelos socialistas ocidentais, em nome do privilegium odiosum que fazia da Rússia um caso excepcional. A experiência russa era agora no fundamental semelhante, em todos os sentidos, à experiência europeia em seu conjunto. Onde ela se desviou do padrão, em 1905, terminou em desastre. A mistura de greves econômicas e políticas exaltadas por Rosa Luxemburgo era mais uma fraqueza do que uma força do proletariado russo. O levantamento [sic] de Moscou foi o resultado calamitoso de um movimento lançado "artificialmente" para um "enfrentamento decisivo" com o Estado. (p. 85)

em nome de juarez guimarães e felix sanchez (joruês, 1986)
Os debates clássicos, por isso, ainda continuam a ser, em vários aspectos, o mais avançado limite de referência que possuímos hoje. Não é assim um mero arcaísmo relembrar as controvérsias estratégicas que ocorreram quatro ou cinco décadas antes. Reapropriá-las [sic] é, pelo contrário, um passo na direção de uma discussão marxista na esperança - necessariamente modesta - [sic] que ela tome uma "forma inicial" de teoria correta para hoje. Regis Debray falou, em um parágrafo famoso, da dificuldade permanente de ser contemporâneo como [sic] o nosso presente. Na Europa, ao menos, temos ainda de ser contemporâneos com o nosso passado. (p. 74)

em nome de paulo césar castanheira (boitempo, 2002)
Os debates clássicos, por isso, ainda continuam a ser, em vários aspectos, o mais avançado limite de referência que possuímos hoje. Não é assim um mero arcaísmo relembrar as controvérsias estratégicas que ocorreram quatro ou cinco décadas antes. Reapropriá-las [sic] é, pelo contrário, um passo na direção de uma discussão marxista na esperança - necessariamente modesta - [sic] que ela tome uma "forma inicial" de teoria correta para hoje. Regis Debray falou, em um parágrafo famoso, da dificuldade permanente de ser contemporâneo como [sic] o nosso presente. Na Europa, ao menos, temos ainda de ser contemporâneos com o nosso passado. (p. 100)

em nota recente, a editora boitempo comunicou que dava por encerrado o processo de auditoria interna a fim de eliminar qualquer vestígio de irregularidade em seu catálogo (ver aqui). no entanto, o ensaio "as antinomias de gramsci" parece ter escapado a seu crivo, pois não é mencionado na referida nota. em vista do empenho que a editora tem dedicado a apurar alguns problemas apontados em suas publicações, quero crer que se disporá também a avaliar o caso acima exposto. 

sobre os outros problemas apontados em seu catálogo, ver aqui.

adendo: paulo césar castanheira, até onde consigo entender, é um tradutor sério e respeitado, com boas referências, por exemplo, na editora revan. tem diversas traduções publicadas por diversas editoras, e não conheço nada que o desabone como pessoa e como profissional.

se seu nome aparece atribuído a algumas pretensas traduções publicadas pela boitempo editorial, eu jamais suporia nem jamais me permitiria supor que tenha sido ele o responsável por tais irregularidades. ademais, suas relações profissionais com a editora não me dizem respeito e sou da opinião de que elas não vêm ao caso. o que vem ao caso é a fidedignidade dos créditos, a veracidade das informações sobre a autoria dos textos traduzidos, a integridade intelectual da obra ofertada ao público leitor: todos esses quesitos são sempre e inapelavelmente de responsabilidade da casa editorial que a publica. em vista disso, acrescentei nas especificações dos nomes nos trechos exemplificativos a expressão "em nome de", e passarei a adotar este procedimento em todos os cotejos que eventualmente eu vier a apresentar neste blog.