28 de jun de 2012

entrevistas de ivo barroso

IVO BARROSO: A VOZ BRASILEIRA DE EDGAR ALLAN POE
Entrevista por Pedro Paulo Rosa

Ivo Barroso, um dos maiores tradutores brasileiros, nos dá o prazer...



aqui, uma entrevista ao vivo:

25 de jun de 2012

o bom livro




hoje comecei um novo livro e seu respectivo blog de tradução: o bom livro, aqui.

21 de jun de 2012

literatura alemã traduzida no brasil

para literatura, poesia e teatro em língua alemã traduzidos no brasil, a referência indispensável é o levantamento de karin volobuef, aqui.

Traduções de obras da Literatura Alemã para o português:


para literatura de língua alemã traduzida no brasil entre 1990 e 2008, o site do instituto goethe traz uma ótima compilação, aqui.

18 de jun de 2012

o amante, de marguerite duras

outro dia, pelo mais singelo acaso, reencontrei um artigo de uma das pessoas que mais respeito no mundo da crítica literária e em nosso mundo da tradução, ivo barroso. fiquei tão desvanecida e me senti tão nas nuvens - e, em certo sentido até bastante vaidoso, reconhecida - que não resisto à tentação de transcrevê-lo abaixo, ainda mais porque o livro foi relançado agora na coleção portátil da cosac. o artigo de ivo barroso está aqui.

Título do Livro


DURAS AINDA 


Meu amigo, o grande (escritor, poeta, etc. etc) W. J. Solha pede-me para “especificar” em que consiste a ‘qualidade irrepreensível’ das traduções de Denise Bottmann. Em primeiro lugar, no perfeito conhecimento das línguas, de partida e de chegada. Depois, seus dotes de escritora. Finalmente sua vasta cultura humanística, que lhe permite avaliar estilos, fases, tempos, adequações enfim. Veja-se,  por exemplo, este trecho de O Amante:
Très vite dans ma vie il a été trop tard. A dix-huit ans il était déjà trop tard. Entre dix-huit ans et vingt cinq ans mon visage est parti dans une direction imprévue. A dix-huit ans j’ai vieilli [...] Ce vieillissement a été brutal. Je l’ai vu gagner mes traits un à un, changer le rapport qu’il y avait entre eux, faire les yeux plus grands, le regard plus triste, la bouche plus définitive, marquer le front de cassures profondes. Au contraire d’en être éffrayée j’ai vu opérer ce vieillissement de mon visage avec l’intérêt que j’aurais pris par exemple au déroulement d’une lecture. Je savais aussi que je ne me trompais pas, qu’un jour il se ralentirait et qu’il prendrait son cours normal. Les gens qui m’avaient connu à dix-sept ans lors de mon voyage en France ont été impressionnés quand ils m’ont revue, deux ans après, à dix-neuf ans. Ce visage-là, nouveau, je l’ai gardé. Il a été mon visage. Il a vieilli encore bien sûr, mais relativement moins qu’il n’aurait dû. J’ai un visage lacéré de rides sèches et profondes, à la peau cassée. Il ne s’est pas affaissé comme certains visages à traits fins, il a gardé les mêmes contours mais sa matière est détruite. J’ai un visage détruit. 
Muito cedo foi tarde demais em minha vida. Aos dezoito anos já era tarde demais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos, meu rosto tomou um rumo imprevisto. Aos dezoito anos envelheci. [...] Esse envelhecimento foi brutal. Eu o vi ganhar meus traços, um a um, mudar a relação que existia entre eles, aumentar os olhos, entristecer o olhar, marcar mais a boca, imprimir profundas gretas na testa. Ao invés de me assustar, acompanhei a evolução desse envelhecimento de meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, um dia ele diminuiria o ritmo e retomaria seu curso normal. As pessoas que haviam me conhecido aos dezessete anos, quando estive na França, ficaram impressionadas ao me rever dois anos depois, aos dezenove. Eu conservei aquele novo rosto. Foi o meu rosto. Claro, ele continuou a envelhecer, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, a pele sulcada. Ele não decaiu como certos rostos de traços finos; manteve os mesmos contornos, mas sua matéria se destruiu. Tenho um rosto destruído. (pp. 9-10)
A perícia com que a frase francesa é vertida para o português, mantendo-lhe o mesmo timbre, a mesma inflexão, o mesmo contorno, o mesmo sentido, a mesma validade emocional – mas sendo sem dúvida uma frase NOVA – é o que distingue a excelência da tradução. Além disso, é necessário um envolvimento com o que se traduz – seja para amá-lo, criticá-lo ou odiá-lo – mastigando-o, ruminando-o sem deixar qualquer dúvida quanto ao significado explícito ou meramente intencional. Conheço, no presente caso (tradução de O Amante) algumas reações da tradutora durante a confecção do trabalho. Permito-me quebrar a confidencialidade dos e-mails para transcrever este trecho:
como vc vai ver, é um ritmo basicamente recitado, para ser lido em voz alta – como uma história que a gente vai lembrando e contando para alguém, em que as repetições não são tanto para dar ênfase, mas como quando a gente repete alguma palavra para continuar o fio da narrativa, tentando lembrar direito o que aconteceu. 
o léxico é absolutamente simples (como kafka – com 3 meses de alemão a gente já consegue ler o kafka porque é o vocabulário mais simples que há). isso reforça muito a sensação de que é uma história contada em voz alta para algum amigo. 
a sintaxe é muito interessante, como se fosse um francês reformado, tirado da caixa tradicional (vc deve saber que a língua mais formalizada, mais petrificada do mundo é o francês…) e reposto numa ordem mais simples também, mais direta, mais enxuta, embora repetitiva – muito, muito desbastado, com algumas poucas liberdades. 
tentei manter a simplicidade e o ritmo (li várias vezes em voz alta, em surdina, só mentalmente – acho que deu pra passar um pouco esse ritmo de cantilena). quanto a essa “purificação” sintática que ela faz, é mais difícil sentir em português, mas faz com que desapareça aquele ar meio emproado que as traduções do francês costumam ter.
E eis o que o editor Maurício Ayer disse a propósito do texto e da tradutora (não se trata de uma nota editorial para “chamar” leitores, mas de impressões de leitura):
A tradução ora editada impressiona de início pela fidelidade à “fala” durasiana. Quem está habituado à melodia de seus textos vai logo reconhecer a voz de Marguerite, essa fala que ao longo dos anos foi sendo maturada pela escritura. A impressão é mesmo a de ouvir a autora, como se o livro fosse o registro de uma entrevista sua – algo que ela fará em Escrever (1993), que é o registro de uma entrevista filmada. No entanto, nada ali é dispensável, não há a banalidade do discurso cotidiano. Trata-se, isto sim, de uma fala que seleciona com cuidado o seu vocabulário, simples e cortante, e que parece plenamente consciente do modo com que o pronuncia. A tradução conseguiu captar essa voz e fazê-la soar em português. A pontuação escassa e essa espécie de fluxo, entrecortado por repetições, retornos aos mesmos eventos, também foram preservadas com grande precisão. A tradutora Denise Bottmann comenta que sua atenção se deteve naquilo que chama de “untuosidade” da fala da personagem. “Pareceu-me um tipo de texto eminentemente oral – quando lido em voz alta, você sente uma espécie de onda, não fluida, não líquida, não avassaladora nem, ao contrário, ‘embaladora’. É uma fala untuosa, diria eu – não chega a envolver nem arrastar, mas como que impele leve e inexoravelmente o leitor, como se seus pés estivessem mergulhados (não presos) em um ou dois palmos de lama.”
São cuidados e envolvimentos dessa natureza que levam a uma tradução irrepreensível.

17 de jun de 2012

como funciona a ficção

a cosac está lançando sua coleção portátil. entre os seis primeiros títulos está como funciona a ficção, de james wood. quero deixar registrado que a maioria das incongruências que apontei na edição inicial foram corrigidas.

Cosac Naify


sobre minhas divergências anteriores, ver como engripa a ficção, aqui.

14 de jun de 2012

os últimos meses

está muito comovente o final da biografia de van gogh. tantos fios cuidadosamente apresentados ao longo de quase seiscentas páginas vieram se unindo nas trezentas páginas finais, e sua figura adquire um porte impressionante.


acompanhe as postagens com meus comentários sobre essa biografia fabulosa, que estou terminando de traduzir e que a companhia das letras lançará ainda este ano.
estão no blog a biografia do van gogh.

13 de jun de 2012

"bagrinhos"


existia (não sei se ainda existe) uma prática meio sórdida no meio tradutório que consistia em aceitar uma encomenda para fazer uma tradução e repassar o serviço adiante, reservando para si um certo percentual e mantendo os créditos de tradução em seu nome. esses tradutores "subempreitados" eram chamados de "bagrinhos".






eis uma história divertida dos anais dos "bagrinhos", aqui numa quarta (!) subempreita, com ninguém menos que olavo bilac:
José do Patrocínio, diretor e proprietário do jornal A Cidade do Rio, para ajudar ao pintor e escritor francês Emílio Rouède, que morava no Brasil, encomendou-lhe a tradução de um romance-folhetim. Ofereceu um tostão (cem réis) por linha. Rouède fez a tradução durante alguns dias, mas se cansou e passou a encomenda a Guimarães Passos, dando-lhe 80 réis e ficando com 20. Este também ficou com preguiça e repassou a tradução a Coelho Neto, a 60 réis por linha, embolsando 20. O romancista, naquele tempo pouco dado ao trabalho, acertou a tradução com Olavo Bilac – pagava 40 réis por linha e guardava seu vintém.
Quando Bilac soube desses acertos, decidiu vingar-se. Não dos três que se aproveitavam de seu trabalho, mas do velho barão de Paranapiacaba, poeta bissexto, antigo conselheiro do Império, sua bête noire e alvo de suas brincadeiras, a quem chamava “o barão de Nunca-mais-se-acaba” e que era amigo de Patrocínio, o dono do jornal. Numa cena do romance-folhetim que estava traduzindo, um homem entra pela janela do quarto de uma mocinha “para fazer-lhe mal”. De repente, um raio de luz mostra o rosto do sedutor – e Bilac acrescentou no texto: “Era o barão de Paranapiacaba!” 
o artigo completo está aqui.
imagem: scribbler


a h. garnier e seu "k. d'avellar"

I.
a garnier, em suas várias encarnações, teve uma história e tanto no brasil.* mas aqui nos interessa basicamente o período em que se chamou h. garnier (1895-1911), sob o comando francês de hyppolite garnier, em especial a década inicial do século XX. a antiga garnier, sob o comando de baptiste-louis garnier, irmão deste outro que o sucedeu, o hyppolite, tinha fama de contratar traduções de vez em quando (e não apenas se limitar à importação das edições portuguesas) e até de remunerar bem seus tradutores. isso lá pelos meados do século XIX.

mas depois, e por inúmeras razões - a comoção social e a crise econômica nos primeiros anos da república, o novo decreto regendo os direitos autorais (1898), o perfil mais conservador da nova gestão na editora, o declínio mais acentuado da empresa que já se iniciara ainda no final do império -, parece se firmar uma prática na h. garnier: a falsificação de traduções.


II.
já apontei o caso de edgar allan poe: o primeiro livro de contos que aparece entre nós, justamente pela h. garnier, em 1903, traz estampado na página de rosto: "traducção brasileira", sem especificar nomes. em verdade, a tal "traducção brasileira" não passava de simples reprodução das traduções portuguesas de mécia mouzinho de albuquerque e christina amélia assis de carvalho (1889-1891).










o curioso é que, a partir de certo momento, um tal "k. d'avellar" parece se tornar o tradutor de plantão para as obras de tradução publicadas pela h. garnier. em algumas edições, dá-se como "traducção portugueza", donde se suporia que fora licenciada de alguma edição portuguesa anterior, traduzida por k. d'avellar.

é o que consta, por exemplo, na página de rosto de os desposados, de walter scott:



ou nas catalogações da gulbenkian em the art library:


AVENTURAS DO SR. PICKWICK / CHARLES DICKENS ; VERSÃO PORTUGUEZA DE K. D'AVELLAR
AUTHOR(S): 
Dickens, Charles, 1812-1870
Avelar, K. de
PUBLICATION: 
Rio de Janeiro ; Paris : H. Garnier, [s.d.]
PHYS.DESCRIP.: 
[4], 572 p. ; 20 cm
SERIES: 
(Autores celebres da literatura extrangeira)
NOTES: 
. - Obra incompleta. Trata-se do segundo volume
PROVENANCE: 
Colecção Bordalo Botto
UDC: 
821.111-31"18"
CALL NUMBER(S): 
BB 30022

e do boletim bibliográfico da biblioteca nacional:

Página 248

e na digitalização do google books:



e ainda segundo levantamento de sandra guardini vasconcelos, aquiA Prisão d'Edimburgo , por Walter Scott. Versão portuguesa de K. d'Avellar. Rio de Janeiro, H. Garnier [2 v., 1906].

no entanto, não há traços de k. d'avellar nas editoras de portugal, e mesmo nas bibliotecas lusitanas o único d'avellar que se encontra é o próprio das "traducções portuguezas" da garnier franco-brasileira. por isso tanto mais interessante é o levantamento de guardini vasconcelos, que citei acima, porque ele traz o registro das traduções portuguesas legítimas anteriores, com seus respectivos créditos, e que estavam disponíveis no catálogo da antiga livraria garnier! se alguém se interessar em rastrear essas  obras em nome de k. d'avellar, tenho certeza de que encontrará em seu artigo, se não o caminho das pedras, ao menos indicações realmente preciosas.

III.
outra forma de apresentação dos créditos de tradução era mais simples, mera "traducção de":





catalogada na biblioteca nacional de portugal como A musa do departamento / Honoré de Balzac ; trad. K. d'Avellar. Rio de Janeiro Paris : H. Garnier, 1910.

bem como, na mesma bnp:
Atala; Renato; Derradeiro Abencerrage / François Auguste de Chateaubriand ; trad. K. d'Avellar. Rio de Janeiro Paris : Garnier, 1906.
e
Historia de Manon Lescaut e do cavalleiro Des Grieux / Abbé Prévost ; trad. K. d'Avellar. Rio de Janeiro Paris : Garnier, 1906.

para concluir, mais algumas traduções do mesmo naipe d'avellariano:





e
Anna de Geierstein ou A donzela do nevoeiro / W. Scott ; trad. de K. d'Avellar 2 v.

IV.
cabe ainda registrar algumas outras edições posteriores, lançadas pela agora renomeada livraria garnier, com breves referências na rede, a saber:

1. com tradução de "R. Avellar", s/d:

História Dos Treze - Honoré De Balzac - Garnier

2. no acervo de nossa biblioteca nacional:

Autor:Balzac, Honoré de, 1799-1850.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Um conchêgo de solteirão;
Imprenta:Rio de Janeiro, Livr. Garnier. 
Descrição física:385 p.
Notas:Registro Pré-MARC
Entradas secundárias:Avellar, K.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 
Classificação Dewey:
Edição:
843
Indicação do Catálogo:843/B198ra7



creio que valeria a pena dar uma conferida nessa tradução, comparando-a com a de beldemónio (pseudônimo do lusitano eduardo de barros lobo), de 1887.

3. BALZAC, Honoré de. Illusões perdidasTradK. D'Avellar. Rio de Janeiro/ Paris: Livr. Garnier.  



creio que valeria a pena dar uma conferida nessa tradução, comparando-a com a feita também por beldemónio, de 1888-9.

cabe notar que as illusões perdidas da livraria garnier já tinham saído pela h. garnier, com o mesmo fantasmático d'avellar, sem data (calculo por volta de 1908):


Autor:Balzac, Honoré de, 1799-1850.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Ilusões perdidas.
Imprenta:Rio de Janeiro, H. Garnier. 
Descrição física:2 v.
Notas:Registro Pré-MARC
Entradas secundárias:Avellar, K. d'.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 

V.
já fazia alguns dias que eu andava vendo essas coisas, e ontem, por mero acaso, luis henrique pellanda comentava no twitter (@lhpellanda) o engraçadíssimo poema da rã nas aventuras do sr. pickwick. era a edição da globo, traduzida por octavio mendes cajado, mas que, para os poemetos, utilizou a tradução em nome de k. d'avellar (dando os devidos créditos em nota de rodapé). foi muito fácil localizar a tradução legítima: era a de henrique lopes de mendonça, de 1897, disponível numa péssima digitalização aqui.

como são as coisas! a globo (ou octavio mendes cajado), na maior boa fé, em sua admirável tradução de 1951 - aliás, a única tradução integral brasileira que existe, com uma boa quantidade de reedições também pela abril cultural, e felizmente em circulação até hoje -, caiu como patinho no conto do vigário da h. garnier e seu k. d'avellar! são uns pérfidos mesmo, esses ishpertos!



* para quem se interessar por um perfil da garnier no brasil, desde 1844 até seu fechamento como editora em 1934 e a extinção final da livraria, passando pela briguiet, pela difel e pela itatiaia, em 1973, vale a pena dar uma olhada em o livro no brasil (sua história), o sempre excelente estudo de laurence hallewell.

11 de jun de 2012

o morro do vento uivante

nilton resende informa que o título o morro do vento uivante vem do poema de tasso da silveira, de 1928, e gentilmente transcreve o poema, que reproduzo abaixo:
Balada de Emily Brontë
No morro do Vento Uivante
o vento passa uivando, uivando... 
No Morro do Vento uivante
há um casarão sombrio
cheio de salas vazias
e corredores vazios...
A noite toda uma porta
geme agoniadamente.
Pelas vidraças partidas
silvam longos assovios,
no ar de abandono e de medo
passam bruscos arrepios...
No Morro do Vento Uivante
o vento passa ...
Emily Brontë
não pares a história... Conta!
conta, conta, conta, conta!
Dá-me outra vez aquele medo
que encheu minha infância morta
de sonhos e de arrepios...
No Morro do Vento uivante...
Depois que os anos passaram
como ficaram meus dias
vazios... vazios...
aliás, vejo no site da traça, aqui, que essa edição da josé olympio traz o prefácio da primeira edição mais o poema de tasso - o que, aliás, me parece mais uma prova da integridade tradutória de rachel de queiroz (à diferença de oscar mendes, por exemplo, que tinha adotado em 1938 um título quase idêntico, apenas usando o plural, mas sem dar a fonte):



emily brontë no brasil

File:The Climb to Top Withens. - geograph.org.uk - 393405.jpg
top withens, tido como fonte de inspiração para a localização da casa dos earnshaw

emily brontë (1818-1848) é notoriamente autora de um romance só: wuthering heights, lançado em 1847. mas já tinha publicado em 1846 um lote de poemas numa coletânea junto com as irmãs. como tantas outras obras, demorou quase um século até chegarem ao brasil.

comecemos pelos poemas, que, salvo engano, tiveram no brasil apenas uma tradução filha única de mãe viúva,* como se dizia antigamente. eles aparecem entre nós em 1944, em tradução de lúcio cardoso, enfeixados como o vento da noite, na coleção rubaiyat da josé olympio:



* atualização em 11/06: everton marcos grison gentilmente informa na caixa de comentários que a edição da landy traz seis poemas de brontë, na seguinte sequência: "Eu não tenho a alma covarde", "Solidariedade", "A Esperança", "Torna-se a noite obscurecida", "Últimas Palavras", "O Velho Estoico".

em compensação, wuthering heights tem uma profusão de traduções e adaptações. vou me restringir às traduções. já o título apresenta uma dificuldade bastante peculiar - pois, como o próprio narrador explica no começo, wuthering é um regionalismo bastante expressivo (aliás, fico meio espantada que algumas traduções falem em "significativo provincianismo" ou "significativo adjetivo provinciano" para significant provincial adjective, mas que seja), específico de yorkshire. de qualquer forma, o título no brasil acabou se consagrando como o morro do(s) vento(s) uivante(s), e está bem como está.

I.
a jornada começa pela globo em 1938, na tradução de oscar mendes, com semi-infindáveis reedições na abril cultural a partir de 1971 (e na martin claret a partir de 2004):



II.
depois aparece a tradução de rachel de queiroz, em 1948, pela josé olympio. chamava-se o morro do vento uivante. manteve o singular pelo menos até a quarta edição, em 1967. também teve reedições incontáveis pela nova cultural (1995 e 1996), record, clássicos abril e bestbolso.



III.
também em 1948, aparece uma tradução em nome de josé maria machado, na coleção excelsior da edigraf,  em dois volumes. trata-se, porém, de uma tradução portuguesa. indefectivelmente, sua "tradução especial" sai também pelo clube do livro, no mesmo ano:




IV.
em 1958, sai a tradução de octavio mendes cajado, o morro dos ventos uivantes. a obra é lançada em dois volumes, pela saraiva:

Clique para ampliar a capa

V.
tenho notícia de uma edição pela expressão e cultura em 1967 (com o vento no singular), mas não consegui  encontrar nenhuma referência mais concreta sobre ela.

VI.
também em 1967, sai a tradução de celestino da silva, pela vecchi:



VII.
em 1971, temos a tradução de vera pedroso, morro dos ventos uivantes (sem o artigo), pela bruguera, licenciada para o círculo do livro e para a art em 1985:

O Morro dos Ventos Uivantes

VIII.
em c.1983, sai a tradução de david jardim jr. pela ediouro, reeditada na coleção folha em 1998:

O Morro Dos Ventos Uivantes - Emily Brontë - Ed. Ediouro

IX.
em 2002 e 2003, a infeliz coleção "obras-primas" da nova cultural publica uma patética fraude em nome de silvana laplace. veja aqui.



X.
em 2003, sai a tradução a quatro mãos de renata cordeiro e elaine alambert, pela landy:*



* atualização em 11/06: ver abaixo, na caixa de comentários, a descrição do aparato desta edição, gentilmente fornecida por everton marcos grison.

XI.
em 2007, há um caso meio escabroso na landmark, que aparentemente limitou-se a utilizar uma versão copidescada da tradução de vera pedroso, atribuindo sua autoria, porém, à revisora de texto. ver aqui.

Clique para ampliar a capa

XII.
em 2009, sai a tradução de ana maria chaves pela lua de papel:


XIII.
em 2011, a landmark lança uma nova tradução, agora de doris goettems:



XIV.
ainda em 2011, sai a tradução de guilherme braga pela l&pm:



vale a pena dar uma olhada na dissertação de solange pinheiro carvalho sobre as dificuldades impostas à tradução, pelo uso do dialeto de yorkshire na boca dos personagens locais, em forte contraste com o inglês padrão do narrador: "a tradução do socioleto literário: um estudo de wuthering heights", disponível aqui. até onde sei, apenas guilherme braga tentou fazer frente ao desafio.

veja aqui a origem do título em português.

10 de jun de 2012

cervantes e blake no brasil

imagem: h. daumier
belas contribuições à história da tradução entre nós: 

  • o levantamento de sílvia cobelo, "os tradutores do quixote no brasil", disponível aqui;
  • o levantamento de juliana steil, "traduções e reescritas de blake em português no contexto do sistema literário brasileiro", disponível aqui.

7 de jun de 2012


assim, por exemplo, temos:


(especificando no verso da página de rosto: "revisão das traduções: t. booker washington")


(idem)


(idem)


(idem)


(idem)


(idem)



(idem)














outros responsáveis mais esporádicos pela seleção de outras maravilhas sem créditos de tradução são  mariano torres nos contos humorísticos, araújo nabuco nos contos bíblicos e wilma pupo na ficção científica..






* as seis exceções que localizei foram maravilhas do conto de natal, com introdução de edgard cavalheiro, seleção e tradução de flávio andré (não encontrei outras referências a este tradutor), e o último volume, maravilhas do conto universal, com introdução de edgard cavalheiro, seleção de um misterioso "e. fecchio" e uma miríade de tradutores: Afonso Schmidt, Alice Ogando, Ana Maria Martins, Sônia Salles Gomes, Antonieta Dias de Moraes, Antônio D'Elia, Dulce Ortiz Patto, Edgard Cavalheiro, Eduardo Carvalho, Epaminondas Martins, Fernando Correia da Silva, Francisco Patti, Jamil Almansur Haddad, José Geraldo Vieira, Juvenal Jacinto, K. Wakisaka, Lígia Junqueira Caiuby, Luiz Drummond Navarro, Nair Lacerda, Ondina Ferreira, Paulo Rónai, Sérgio Milliet e Tatiana Belinky. maravilhas do conto feminino, idem, idem, idem: Afonso Schmidt, Erico Verissimo, Edda Campani, Elza Cortim Bastos, Ester Pinherio, Fernando Correia da Silva, Grazia Maria Saviotti, Hermilo Borba Filho, Helena Silveira, Ilse Losa, João Távora, Lígia Junqueira Caiuby, Ligia Fagundes Telles, Luís Drummond Navarro; Lupe Cotrim, Marilda Toledo, Marina de Castro Silva, Magdalena Garcia, Maria Helena de Carvalho, Manuela Porto, Pepita Leão. jamil almansur haddad e josé paulo paes nos contos árabes, nair lacerda nos contos mitológicos e contos populares












Maravilhas do Conto Feminino

em duas ocasiões, conversei longamente com o sr. ricardo riedel, filho de diaulas riedel e atual responsável pela cultrix (que se uniu à pensamento), e com o sr. adilson silva, historiador e atual editor da casa. só posso agradecer a grande receptividade e gentileza que me dispensaram. o que eu queria entender melhor é o seguinte: 

uma de minhas perguntas era: o que determinou essa mudança, esse salto de qualidade editorial na cultrix em 1959 - ou, a rigor, em 1958, no último volume da coleção maravilhas do conto universal? as reclamações de outras editoras, talvez se sentindo lesadas? a morte do diretor editorial, edgard cavalheiro, em 1958? uma nova estratégia editorial adotada pela direção? segundo o sr. adilson, a "formatação" da coleção havia sido feita em 1956, ano de fundação da empresa, por um grupo de intelectuais que incluía edgard cavalheiro e josé paulo paes, trabalhando como consultores externos da casa. ainda segundo ele, "t. booker washington" era o pseudônimo de um espiritualista ligado à pensamento, autor de vários artigos para a revista do pensamento, mas não soube identificá-lo. quanto à guinada editorial, não soube dizer as razões específicas, mas ponderou que caberia à alçada da direção.