9 de dez de 2012

sérgio milliet? que coisa...

alguns anos atrás, gabriel perissé havia comentado em sua coluna na revista língua portuguesa as semelhanças que detetara entre as traduções de "paulo m. oliveira" e de sérgio milliet para os pensamentos de pascal.

"paulo m. oliveira" foi o pseudônimo usado por aristides lobo em suas traduções, geralmente feitas nos períodos que passou no cárcere nos anos 1930 - ver aqui. a tradução dos pensamentos de pascal foi publicada pela athena editora em 1936, com algumas reedições nos anos 40. infelizmente não localizei imagem de capa.

em 1957, a difel inaugura sua coleção "clássicos garnier" com os pensamentos pascalinos, em tradução que se dizia de sérgio milliet.

hoje, cá estou eu relendo alguns artigos de paulo rónai apanhados em escola de tradutores e lá encontro à p. 92 (minha edição é de 1987):
Teria gostado de compará-lo com os trabalhos de seus vários predecessores, mas só tive à mão, no momento, uma única versão em português, a de Paulo M. Oliveira, da Atena Editora (São Paulo, s.d.). O confronto dessa versão com a de Sérgio Milliet mostra que este, embora tenha aproveitado trechos inteiros do trabalho de seu antecessor, soube divergir dele quando a interpretação carecia de exatidão, clareza ou elegância. [destaque meu, db]
bom, conheço esse trabalho de alterar um texto para melhorar a precisão, a clareza e o torneio de frase pelo nome de "revisão" ou "copidesque". quanto a "aproveitar trechos inteiros do trabalho de seu antecessor" sem dar a fonte nem os créditos correspondentes, em minha terra isso se chama "plágio".

diplomático, paulo rónai não usa o termo, mas não deixa margens de dúvidas em sua incisiva descrição do procedimento adotado: como diz ele, sérgio milliet aproveitou trechos inteiros do trabalho de paulo m. oliveira.


a partir de 1966, essa "tradução" de milliet passa a ser publicada pela tecnoprint, em sua coleção de "clássicos de bolso":



















que fique então aqui registrada a constatação de mestre tão abalizado, já desde a época do lançamento da obra pela difel.


4 comentários:

  1. Querida Denise, minha proposta para trabalho de fim de curso de especialização em tradução na USP, em 1989, foi o fichamento das soluções de tradução de Sérgio Milliet na obra de Sartre "Com a morte na alma". Minha impressão era de que eu faria fichamentos de soluções geniais. Ledo engano. Fiz fichamentos de erros, lapsos e confusões. Na verdade, essa tradução foi feita por uma equipe e assinada por ele. Não importa: quem assina algo é responsável. Aqui no Brasil, em todos os setores, os grandes nomes se impõem por si. Quem dita cânones é a imprensa, que vai emitindo opiniões em sistema de eco. Outras obras traduzidas por ele, que tive oportunidade de examinar, foram a mesma decepção. Prefiro não enumerar. Mas na imprensa jamais aparecerá uma só linha de crítica às traduções de Milliet. Porque a intelligentsia brasileira só decora nomes.

    E já que se tocou em Rónai, digo que a tão decantada tradução de Balzac coordenada por ele está cheia de problemas. Mas está assinada por Rónai, e só isso importa.

    Ivone C Benedetti

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  2. olá, ivone: que coisa mais espantosa, não? você tem toda razão: quantas coisas de qualidade medíocre passam por boas por causa do nome!

    quanto ao balzac, as traduções da comédia humana ficaram a cargo de diversos tradutores, todos devidamente creditados, e é notório que o nível é bastante irregular por causa disso. no caso, rónai foi responsável pela coordenação, notas, alguns textos de introdução, e quase ficou doido com a trabalheira que deu :-)
    parece que esse novo lançamento da globo fez um trabalho muito meticuloso na preparação - mas claro, traz as marcas do tempo e traz as marcas de um trabalho a muitas mãos.

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  3. Eu já suspeitava do Sérgio Milliet, mas não imaginava que plagiasse na cara dura assim não. Mesmo que as traduções do Balzac coordenadas por Paulo Rónai tenham seus problemas, Ivone, o feito de juntarem tudo já é louvável no Brasil. Não? Quando que hoje fazem alguma coisa do tipo? O melhor sempre será ler o original ou pelo menos comparar, e o Balzac todo está na internet. Aliás, Denise, recebeu meu e-mail sobre a Emily Brontë e Rachel de Queiroz? Abraço

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  4. rsrsrs a cada dia vou percebendo que só há, no fim da conta, uma tradução brasileira dos Pensamentos de Pascal. É isso ? rsrsr

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