6 de dez de 2012

os miseráveis no brasil



fiquei surpresa ao ler no artigo de júnia barreto, aqui, que les misérables de victor hugo teria recebido cerca de vinte traduções no Brasil! não pretendo de maneira nenhuma pôr em dúvida a afirmação da pesquisadora, mas, em sendo fundada como certamente o é, sem dúvida há de se tratar de mais um daqueles casos de sumiço completo das traduções mais antigas, inclusive de quaisquer referências rastreáveis sobre elas. vejamos, pois.

I.
os miseráveis é um interessantíssimo caso em que a tradução brasileira saiu antes mesmo do lançamento da obra original. já comentei esse episódio aqui. no entanto, a tradução serializada a partir de março de 1862 no jornal do commercio - anônima, mas de provável autoria de justiniano josé da rocha e antônio josé fernandes dos reis - não foi a que saiu publicada no lançamento internacional simultâneo da obra em abril do mesmo ano. no rio de janeiro, uma das oito cidades escolhidas para esse lançamento, a edição saiu pela filial brasileira da livraria civilização/editor eduardo da costa santos, do porto, em tradução lusitana de antónio rodrigues de sousa e silva, em cinco volumes.


assim temos essa coisa curiosa: a tradução brasileira em folhetim sai na frente, até se antecipando ao lançamento do próprio original, mas a tradução lançada em livro no brasil é portuguesa.

(já em portugal, entre as décadas de 1860 e 1880, são lançadas mais duas traduções, além da de antónio rodrigues de sousa e silva: a de francisco ferreira da silva vieira e a de joão de mattos)

portanto, e aproveitando para fazer a indispensável distinção entre edição e tradução: no século XIX até tivemos edições brasileiras d'os miseráveis, mas traduções brasileiras de les misérables em livro, não, nenhuma, mesmo tendo sido o rio de janeiro uma das praças escolhidas para o lançamento internacional da obra.

II.
é a partir do século XX que vamos ter algumas traduções brasileiras d'os miseráveis em livro. e aí também começam os problemas. algumas edições trazem traduções anônimas, outras são reedições de traduções portuguesas, outras apresentam alguns elementos um pouco ambíguos.

eis o que obtive em meu levantamento - que não surpreenda muito a disparidade na quantidade de volumes; alguns têm apenas 200 páginas, outros 500 ou mesmo mais de 600; alguns são em formato maior, outros em formato menor; alguns têm ilustrações, outros não, e assim por diante:
  • 1925, companhia graphico-editora monteiro lobato, em dois volumes
  • 1944, editora moderna, em dois volumes
  • 1945, cia brasil editora, em dois volumes
  • 1956, editora progresso, em cinco volumes, tradução portuguesa de sousa e silva, aquela de 1862
  • 1956, editora das américas (edameris), em sete volumes, tradução de frederico ozanam pessoa de barros
  • 1959, edigraf, em três volumes
  • 1968, edições de ouro, em dois volumes. a edições de ouro era da tecnoprint, que a partir de 1985 passa a se chamar ediouro. e aqui surge algo curioso:
Autor:Hugo, Victor, 1802-1885.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Os miseráveis.
Imprenta:Rio de Janeiro, [Tecnoprint, 1968] 
Descrição física:2 v. il.
Notas:Registro Pré-MARC

Autor:Hugo, Victor,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1802-1885.
Título original:Les miserables.Portugues
Título / Barra de autoria:Os miseraveis / Victor Hugo ; introducao, Carlos Heitor Cony ; traducao, Casimiro L. M. Fernandes. -
Imprenta:Rio de Janeiro : Tecnoprint, [1988?] 
Descrição física:714p. : il. ; 21cm. -
Série:(Colecao Universidade de bolso)
Notas:Ediouro.
Traducao de: Les miserables.
BNB 88/01 

Autor:Hugo, Victor,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1802-1885.
Título original:Les miserables.Portugues
Título / Barra de autoria:Os miseraveis / Victor Hugo ; introducao, Carlos Heitor Cony ; traducao, Casimiro L. M. Fernandes. -
Imprenta:Rio de Janeiro : Ediouro, [1993]. 
Descrição física:714p. : il. ; 21cm. -
Série:(Classicos de bolso)
Notas:Traducao de: Les miserables.
BNB 94/01 

duas das fichas desses três exemplares em nosso acervo na biblioteca nacional apresentam um dado que me surpreendeu um pouco: os créditos de tradução a casimiro ou, melhor dizendo, casemiro l. m. fernandes.

casemiro fernandes era um conhecido tradutor da globo de porto alegre, nos anos 30 e 40. a tecnoprint/ ediouro, por sua vez, tinha o costume de incorporar catálogos inteiros ou obras avulsas de editoras extintas. foi o que aconteceu, por exemplo, com a tradução de casemiro fernandes (com souza jr.) de o vermelho e o negro de stendhal, que após o fechamento da globo gaúcha passou a ser publicada pela ediouro. ora, ocorre que não localizei absolutamente, em lugar algum e em tempo algum, qualquer edição anterior dessa tradução que a tecnoprint/ ediouro atribui a casemiro fernandes. talvez fosse inédita, talvez fosse a anônima da edigraf, talvez tenha se perdido no sorvedouro dos tempos, talvez, talvez... mas, salvo melhor juízo, não me sinto muito convencida da fidedignidade desses créditos.

continuando:
  • 1980, otto pierre, em dois volumes, não consta crédito de tradução. de todo modo, a otto pierre era um braço editorial português que publicava apenas traduções lusitanas
  • 1981, círculo do livro, em três volumes, na tradução portuguesa de carlos dos santos, que saíra em 1976 pelo círculo de leitores (lisboa)
  • por fim, em 2007 a martin claret publicou os miseráveis em tradução de regina célia de oliveira, em dois volumes. já comentei aqui que júnia barreto, se bem entendi, sugere em seu mesmo artigo que essa tradução de regina célia de oliveira "preserva parte" da tradução de ozanam de barros. a alegação é séria e teria de ser comprovada antes de se poder asseverar qualquer coisa.
III.
assim como é importante não confundir edição e tradução, igualmente importante é não confundir tradução e adaptação. sobre isso, ver aqui.

no caso d'os miseráveis, existem várias adaptações infantojuvenis, como as de miécio tati, luiz antonio aguiar, walcyr carrasco, rosana rios, júlio emílio braz, josé angeli, mas são - precisamente - adaptações, muito condensadas, desde trinta e poucas páginas até a faixa de 120/150 páginas.

há uma adaptação mais extensa, pelo clube do livro (1958), em dois volumes, totalizando cerca de 500 páginas, reeditada em 1976 pela hemus em volume único. na hemus apresenta-se como "texto integral", e nas duas editoras credita-se a suposta tradução a josé maria machado, o indefectível "pietro nassetti" do clube do livro. além de se tratar de um texto condensado, não dou um figo seco pela validade de tal atribuição.

IV.
fico um pouco desconcertada com a discrepância entre a informação fornecida pela pesquisadora júnia barreto e os dados que consegui levantar. a menos que se somem as casas que editaram uma mesma tradução ou se incluam adaptações infantojuvenis e paradidáticas, nem de longe consegui me aproximar da vintena de traduções brasileiras de que tive noticia em seu artigo, sob outros aspectos tão meticulosamente documentado. em meu levantamento, ainda que provisório e certamente incompleto, e mesmo concedendo o benefício da dúvida às traduções anônimas e supondo que não sejam meras reedições de outras anteriores, o resultado que obtive foi de, no máximo, sete traduções brasileiras em livro de les misérables.

assim, deixo mais uma sugestão de pesquisa historiográfica, esta, talvez, para uma dissertação de mestrado: um levantamento efetivo, bem detalhado e documentado das traduções brasileiras d'os miseráveis, que possa inclusive apurar eventuais "partes preservadas" de uma tradução para outra.

anônima, ed. moderna*

?, ed. brasil

anônima, edigraf*

ozanam de barros, edameris, 1956
ozanam de barros, edameris, v. 3, 1967
ozanam de barros, cosac naify, v. 1, 2002

* atualização: quanto à edição da edigraf, recebi a confirmação de que não há qualquer menção ao tradutor em nenhum de seus volumes. idem em relação à edição da moderna. isso parece sugerir aproveitamento de traduções anteriores. para corroborar essa hipótese, seria necessário um cotejo, sem dúvida; mas, a meu ver, isso reforça a hipótese que vem se desenhando para mim, qual seja: se tivermos duas ou três traduções brasileiras dessa obra de victor hugo publicadas em livro, já é muito.  

19 comentários:

  1. Oi Denise

    Tenho aqui uma edição em cinco volumes, capa dura, tamanho bolso, da Lelo e Irmão. Não consta nome do tradutor, apenas vem escrito "Traducção cuidada" :)

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    1. Compulsei uma assim, num sebo, mas não descobri de que ano é. Não consta

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    2. Eu também tenho essa edição e não consigo descobrir de qual ano é, porém concluí que foi publicado por volta dos anos 1920, quando estavam sendo lançados os livros da Coleção Lusitana, da qual a edição faz parte.

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    3. Caro Roberto, também tenho esta edição em 5 volumes capa dura (azul) e gostaria muito de saber o ano da publicação. Se alguém souber, favor, comente! Outra curiosidade agora foi como tu escreveu "Traducção cuidada" pois no meu esta "Tradução cuidada"!

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  2. ah, que simpatia! a lello é portuguesa. "traducção cuidada" é divertido :-)

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  3. olha, amyr, recomendação acho uma coisa meio complicada, que não me sinto muito à vontade para fazer, e nem é o objetivo desses meus levantamentos. acho que pode ser interessante dar uma espiada na edição da ediouro, p.ex.; nada tenho contra a edição da claret, pois não chequei a alegação da profa. júnia barreto; as portuguesas publicadas no brasil podem ser muito meritórias, e assim por diante. o que digo é que, do ponto de vista da historiografia tradutória, falta comprovação suficiente da autenticidade de algumas edições lançadas entre nós.

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  4. e sobretudo no caso dessa postagem específica, o tema principal é a diferença de resultados entre o levantamento da profa. júnia e o meu, indicando algum desencontro de informações ou extravio de referências sobre traduções mais antigas.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. olá, amyr: ah, sim, a do ozanam de barros é cem por cento autêntica!

    obrigada pela gentileza!
    abraço

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  7. A edição da editora círculo do livro é boa, ou não vale à pena?

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  8. Denise,parabéns pela matéria. :)
    Vc recomendaria a edição de 2014 da Martin Claret?
    Bjo...

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  9. olá, roberta: obrigada. não conheço. a dra. júnia fez alguns comentários a respeito, que citei aqui: http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/11/tentando-entender.html

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  10. Excelente postagem. Merece ser usada em aula para que os alunos compreendam muitos dos desvãos das reedições e adaptações. Abraço e bjos do fã.

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  11. Olá, eu sei que este post e meio antigo, mas estou com muito, muito medo de comprar esta edição, desta editora pelas reclamações desta editora, saberia me informar se a tradução é realmente boa? Eu sei que você já respondeu isso antes, mas agora eu acho que você já acabou o livro e pode dar mais certeza. Eu estou de olho nesta edição por ser capa dura, volume único e pela arte do livro,. Mas estou com medo. Obrigado

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  12. Sandro Costa9.11.16

    Olá amigos! Achei muito boa a tradução de Regina Célia de Oliveira (Martin Claret). Não chega a superar a de Ozanam de Barros, mas é uma ótima opção.

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  13. Boa noite!
    Existe, sim, uma edição brasileira de "os miseráveis", publicada em São Luís do Maranhão, no ano de 1862 – mesmo ano de publicação da obra em Paris. Tenho foto da folha de rosto do primeiro volume – a edição maranhense saiu em 10 volumes. Para confirmar, os jornais maranhenses, em 1862, anunciaram a venda da obra.

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  14. denise bottmann16.11.16

    olá, roberto, que notícia mais interessante!
    de fato vi alguns anúncios de um editor "b. de mattos" na imprensa maranhense, em junho de 62, anunciando para o mês seguinte o lançamento da obra em volumes quinzenais, de 120 páginas cada. é a essa que você se refere? seria a tradução de justiniano josé da rocha e antônio josé fernandes dos reis publicada pelo jornal do commercio? obrigada!

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  15. Posso enviar a folha de rosto para vc pôr no blog. Quanto à tradução, não posso afirmar quem fez. Não encontrei assinatura.

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  16. maravilha, agradeceria muitíssimo!

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